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quinta-feira, agosto 25, 2011

Ainda o Ron Wyatt

Recebi o e-mail abaixo de um leitor e creio que a resposta dada a ele possa ser útil para outros interessados:

“Caro irmão em Cristo Michelson, li sua matéria de 13 de março de 2009 (“Boataria internética”). Tenho me interessado muito sobre as descobertas de Ron Wyatt e acredito que ele era um adventista sincero. O lugar apresentado pelo Wyatt mostra ser um lugar muito apropriado para a travessia do povo Hebreu e condiz com o relato bíblico de que não havia por onde escapar da perseguição dos egípcios. Um local cercado por montanhas e um único caminho através dessas montanhas. Se lermos com mais cuidado os relatos da descoberta vamos ver que a única coisa que sobrou da roda foi o ouro e a madeira que estava internamente; a cobertura do aro desapareceu, mas o ouro não se corrói com o tempo e tinha o formato das rodas de antigos carros egípcios. Os ossos petrificados ali também seriam uma falsa evidência? Não querendo me alongar, gostaria de saber mais a respeito de todas as contestações sobre as descobertas de Wyatt, sobre o verdadeiro local do Monte Sinai, a localização da arca de Noé, o local de Sodoma e Gomorra e sobre a Arca da Aliança. Teria mais informações a respeito? Desde já agradeço sua atenção.” – J.

Prezado J., infelizmente, Ron Wyatt não era um “adventista sincero”, a menos que pessoas que mentem possam ser consideradas “sinceras”. Ele mentiu que tinha visões de Jesus lhe indicando a época em que revelaria a arca da aliança ao mundo e morreu antes disso. Richard Rives, o sucessor de Wyatt, foi ao local da arca e escavou novamente lá com um arqueólogo e tudo o que encontraram somente desmentiu o suposto lugar da arca.

O tal sangue de Cristo que Wyatt encontrou era uma substância encontrada em caracóis e caramujos, não tinha nada de sangue. Rives tentou defender Wyatt dizendo que ele nunca havia afirmado que era sangue. Mentiras novamente. Wyatt não só afirmou como mostrou documentos de laboratórios dizendo que era um sangue que tinha cromossomos apenas maternos e não paternos!

Não sei por que há pessoas tão ávidas por ficar acreditando nele quando ele só mentiu. Nem Wyatt falou nada de ossos petrificados no Mar Vermelho... Seriam ossos fossilizados? Se sim, o que tem a ver fóssil com a travessia do Mar Vermelho? Isso é evidência do dilúvio, não do Êxodo.

A tal roda de ouro não foi vista por ninguém e realmente o ouro como metal nobre dificilmente se corrói (a não ser com água régia ou se ele estiver misturado com metais inferiores). Mas, curiosamente, o próprio Wyatt disse que não tirou a roda de ouro do fundo do mar, senão ela desmancharia... “Hoje não tenho o menor receio de afirmar: Ron Wyatt foi um falso profeta. Estive em todos os lugares por onde Wyatt passou (com exceção do Ararate), e pude perceber que nenhuma de suas afirmações se confirmou verdadeira”, disse-me o Dr. Rodrigo Silva.

sexta-feira, março 13, 2009

Boataria internética

Já perdi a conta de quantos e-mails recebi e recebo com boatos e "lendas urbanas" (hoaxes) que sempre encontram alguém crédulo o bastante para acreditar nelas e as espalhar aos quatro ventos. São mensagens como aquela segundo a qual os computadores da Nasa teriam descoberto o "dia longo" relatado no livro bíblico de Josué. Ou, então, uma das mais "novas": teriam sido descobertas as rodas das carruagens do faraó que perseguiu os hebreus quando da fuga do Egito em sua passagem pelo Mar Vermelho. Essa e outras "descobertas" são atribuídas a um enfermeiro anestesista e arqueólogo amador chamado Ron Wyatt, falecido em 1999. Infelizmente, falsas evidências acabam por lançar descrédito sobre a Bíblia em lugar de autenticá-la. Evidências arqueológicas seguras há aos montões, por isso, aqueles que creem no Livro Sagrado não precisam (e não devem) se valer de boatos infundados para tentar atrair a atenção das pessoas.

A Revista Adventista deste mês traz um artigo do especialista em Arqueologia Bíblica Dr. Rodrigo Silva. No texto, intitulado "O êxodo que não existiu", ele analisa as tais evidências falsas de Wyatt. Eis aqui alguns trechos da matéria:

"Por mais de uma vez tive [diz Rodrigo] a oportunidade de visitar, com a equipe arqueológica da Universidade Andrews, os locais a que Wyatt faz referência. Coletamos dados, fizemos análises, entrevistas, etc. e, depois de tudo isso, posso afirmar, sem temor de erro, que essas descobertas são completamente falsas."

Segundo o Dr. Rodrigo, Wyatt também dizia saber o local onde fora escondida a Arca da Aliança. Depois de sua morte, seu substituto e principal aliado, Richard Rives, conseguiu autorização especial para escavar no local onde Wyatt disse ter visto e até fotografado a Arca. Porém, nada foi encontrado.

"[Wyatt] sustentava que o Golfo de Áqaba, perto de Nuweiba, seria o local da travessia dos hebreus. Ali, num trabalho arqueológico submarino, Wyatt disse ter encontrado ossos humanos e rodas das carruagens de faraó cobertas de corais..." Numa foto publicada na internet e disseminada num PowerPoint via e-mail, aparece uma roda de "ouro" (como ele foi preservado depois de 3.400 anos submerso em água salgada, Wyatt não explica) com quatro raios (aro quádruplo), mostrando semelhança com algumas rodas de carruagens antigas expostas em museus. "O que Wyatt não contou", diz Rodrigo, "é que os egípcios tinham dois tipos de carruagem: uma para a guerra, com aro sêxtuplo (...) e uma para passeios ocasionais, a quádrupla, que ele disse ter encontrado. Se a dita roda fotografada por Wyatt fosse mesmo autêntica, teríamos de perguntar por que faraó teria usado carruagens de passeio para perseguir o povo hebreu e deixado em casa as carruagens de guerra?"

As peças fotografadas por Wyatt provavelmente provieram de navios cargueiros que afundaram na região entre 1869 e 1981. A cidade de Hurghada, no norte do Mar Morto, chega a abrigar um sítio turístico para mergulhadores que desejam ver destroços de navios naufragados ali.

E Rodrigo conclui: "Não acreditemos apressadamente em tudo o que se diz na internet, nem propaguemos o boato através de e-mails do tipo FWD. A descoberta de uma fraude pode colocar em descrétido a verdadeira mensagem que devemos anunciar."

quarta-feira, agosto 19, 2009

Especulações arqueológicas

Recebi dia desses e-mail de um amigo com o sugestivo título “Cientistas descobrem Sodoma e Gomorra. Pior é que a informação vinha de um conhecido jornal lá do Sul. O “especialista” da vez é Michael Sanders, um sensacionalista que mentiu dizendo ser especialista em Arqueologia, Egiptologia e Assiriologia. Um repórter do Los Angeles Times apertou Sanders e ele confessou que não tem titulação alguma. Outro repórter disse que Sanders é um pesquisador free-lance da Duke University e sua linha de pesquisa é a... parapsicologia! Deve ter feito escavações mentais (desculpe, não resisti...).

Sanders se baseia em fotos de satélite para dizer que encontrou o jardim do Éden, Sodoma e Gomorra e também a Arca da Aliança. O tal e-mail diz que os pesquisadores desenterraram uma coleção de vasilhas ricamente decoradas com motivos obscenos, e mais: “Todos esses objetos provenientes das legendárias cidades do pecado foram mandados para o museu de Israel, em Jerusalém. Mas é muito provável que o público não tenha a menor possibilidade de vê-los, devido ao grau indescritível de pornografia.” O que seria um “grau indescritível de pornografia” neste mundo corrompido de hoje? Acho que o público não verá as peças porque elas não estão lá...

Recentemente, em 2006, apareceu outro “especialista” chamado Bob Cornuke – ex-membro da Swat – que se tornou “pesquisador” em arqueologia bíblica e fundou uma associação chamada Bible Archaeology Search and Exploration para buscar, sobretudo, a arca de Noé.

Todos esses parecem seguir os passos do falecido Ron Wyatt. O Dr. Rodrigo Silva, esse sim, especialista em Arqueologia pela Universidade Hebraica de Jerusalém e autor do livro Escavando a Verdade, me disse que, para ele, essa boataria internética é um desserviço à verdade. “Esse tipo de coisa traz descrédito à Bíblia e se constitui numa das maiores barreiras que a Arqueologia Bíblica enfrenta em instituições universitárias”, diz ele.

Alguns anos atrás, enquanto escrevia o livro Por Que Creio, entrevistei o arqueólogo brasileiro Paulo F. Bork. Doutor pela California Graduate School of Theology, em 1971, Bork fez cursos em várias universidades, como a Pacific School of Religion, da Califórnia, a Universidade Hebraica de Jerusalém e a Universidade de Londres, Inglaterra. Participou de diversas pesquisas e expedições ao redor do mundo e
lecionou História e Arqueologia Hebraica na Faculdade de Teologia do Pacific Union College, até 1989. Sobre Sodoma e Gomorra, o Dr. Bork me disse:

“Escavamos aquela região por vários anos e descobrimos coisas muito interessantes, que respaldam o relato bíblico. Existiam cinco cidades na parte leste do Mar Morto. Quando as escavamos, encontramos grande quantidade de cinzas. Em alguns lugares havia uma camada de um metro de cinzas. Não há outra maneira de explicar tamanha destruição e tanta cinza em um só local, a não ser pelo trágico relato de Gênesis.

“Anos antes, em 1924, o famoso arqueólogo William F. Albright, juntamente com M. Kyle, já haviam feito investigações profundas na região do Mar Morto, concluindo que seria ali a localização das duas cidades destruídas por Deus. Só que na época lhes faltavam equipamentos sofisticados dos quais dispomos hoje. Em 1960, Ralph Barney explorou o fundo do Mar Morto com um sonar e encontrou várias árvores a certa profundidade. Isso demonstra que a água do Mar Morto submergiu uma vasta área fértil. Mas ele não encontrou vestígios de civilização ali. Se aquele era o vale que encantou o sobrinho de Abraão, onde estariam as cidades? No lado oeste do Mar Morto há restos de uma cidade que chama bastante a atenção. Esse sítio arqueológico foi batizado com o nome árabe de Bab eh dra. A cidade que ali existiu data de mais ou menos 2200 a.C., e ali também há grande quantidade de cinzas.

“Em outras palavras, Bab eh dra foi destruída pelo fogo. Nem seu cemitério escapou das chamas, pois parte das tumbas também contêm vestígios de fogo. Mas o que causou esse grande incêndio? É importante frisar que não há na região presença de atividades vulcânicas. Além disso, quando os exércitos inimigos destruíam as cidades com fogo, geralmente poupavam seus cemitérios. Logo, há uma razoável possibilidade de que essa região contenha de fato os restos do que um dia foi uma região visitada pelo juízo de Deus.”

Finalmente, fica aqui o aviso: cuidado com e-mails e sites sensacionalistas! Verifique as fontes e desconfie das coisas antes de crer nelas.[MB]

terça-feira, novembro 03, 2015

Revista Superinteressante ataca fé cristã (de novo)

Embora a revista Veja seja considerada por muitos um dos bastiões da imprensa contra o comunismo e a favor dos conservadores, sua editora, a Abril, também é responsável pela Superinteressante. Desde seu surgimento [leia aqui], na era da comunicação pré-internet, a publicação foi responsável por trazer uma série de informações que dificilmente eram encontradas fora de livros especializados. O foco da Superinteressante sempre foi abordar assuntos mais complexos em linguagem fácil e acessível. Contudo, nos últimos anos, a revista tem feito uma série de reportagens que visam a “desmistificar” a Bíblia e atacar as crenças do cristianismo. Neste ano, duas capas geraram contrariedade no meio evangélico. Em setembro, o foco foi o chamado “Extremismo evangélico”. A capa exibia uma Bíblia coberta de sangue e a chamada dizia: “Veja como os fundamentalistas ameaçam as liberdades individuais – e o próprio futuro das igrejas.” No miolo, reportagens tentando dizer que todos os que defendem os preceitos da Bíblia são extremistas e têm sede de sangue, assim como os que corromperam os ensinamentos e se tornaram “inclusivos” em relação aos gays são os únicos que refletem o “amor”.

A edição que chega às bancas na próxima semana também promete uma série de distorções. Possivelmente por causa do sucesso da novela “Os Dez Mandamentos”, da Rede Record, os editores da Superinteressante dedicam a matéria de capa ao tema. Mas os primeiros anúncios mostram o tom do texto: “Como um rei megalomaníaco, muita geopolítica e uma farsa de proporções bíblicas criaram a saga de Moisés – o herói que foi sem nunca ter sido”, é a chamada divulgada nas redes sociais.

Um dos autores do material é o jornalista Reinaldo José Lopes, que mantém o blog “Darwin e Deus”, onde procura constantemente mostrar como questões de fé podem ser explicadas pela ciência. A Veja também já publicou material que atacava diretamente os ensinos de Jesus, além de questionar Sua existência. Mas as matérias da Superinteressante são bem mais incisivas.

Curiosamente, quando a Super dedicou capas para falar do islamismo, o tom foi bem menos crítico. “Os fundamentalistas são ínfima minoria no Islã, mas, com ações de grande repercussão, acertam em cheio os corações de milhares de muçulmanos com baixa autoestima – a causa antiocidental resgata a tão machucada identidade islâmica. Mas há também fundamentalistas islâmicos pacifistas e eles são a maioria”, dizia o texto do primeiro número dedicado ao assunto.

Em fevereiro de 2015, a matéria de capa abordava a vida de Maomé, o fundador do Islamismo. O texto é quase todo só de louvores ao Islã: “Uma religião humanitária, que, ao propor uma sociedade menos desigual e mais aberta ao diálogo, encarnou muito do que a humanidade tem de melhor. Que meia dúzia de psicopatas não acabem com esse legado.”

Com quase 40 marcas, que atingem 23 milhões de assinantes semanalmente (sem contar as edições digitais), o que faz com que a maior editora de revistas do Brasil ataque os relatos bíblicos e defenda os do Alcorão?

(Gospel Prime)

Nota do arqueólogo Luiz Gustavo Assis: “Nocautear a superficial compreensão bíblica da maioria dos evangélicos é fácil. E isso se torna verdade quando a maioria desse público conhece a minissérie ‘Os Dez Mandamentos’, da Rede Record, melhor do que a história bíblica. Se esse era o público que os autores da matéria de capa da última edição da Superinteressante queriam nocautear, eles conseguiram. Porém, o páreo seria diferente se eles desafiassem a visão de outro grupo de cristãos, especialistas em Antigo Testamento e em línguas e culturas do Antigo Oriente Médio.

“O primeiro é meu ex-professor James K. Hoffmeier, egiptólogo formado pela Universidade de Toronto, no Canadá. Dois dos seus livros lidam diretamente com o assunto: Israel in Egypt (1996) e Ancient Israel in Sinai (2005), ambos publicados pela Oxford University Press. Sua mais recente publicação é sobre o faraó Akhenten e as origens do monoteísmo, também publicada pela Oxford. Além de professor de Antigo Testamento, Hoffmeier leciona Egípcio Antigo há mais de 30 anos, o que lhe permite falar naturalmente sobre condições políticas, econômicas e militares do período do Reino Novo do Egito (Dinastias 18-20), a época em que a Bíblia situa o Êxodo. Aliás, a consulta de um egiptólogo para o preparo da matéria teria sido bem-vinda. Os articulistas afirmam que o nome ‘Moisés’ está relacionado com a palavra egípcia msézs, ‘filhos de’. Desconheço qualquer transliteração do hieróglifo ms como msézs. A convenção tradicional entre egiptólogos é inserir um ‘e’ entre a maioria das consoantes. Não só isso, mas é muito provável que Moshe (a versão hebraica do seu nome) não seja um nome de origem egípcia. O egípcio s se torna samekh (s) em Hebraico, não sh, e o samekh (s) hebraico se torna o egípcio tj. O nome dado por sua mãe muito provavelmente era vocalizado Mashu (‘aquele que é tirado’, cf. Êx 2:10) e veio a se tornar Moshe (‘aquele que tira’ [seu povo da escravidão]). No 14º/13º séculos a.C., Mashu era pronunciado Masu no Egito. Não se trata de etimologia, mas, sim, da forma como um nome é pronunciado em outra língua.  

O egiptólogo James K. Hoffmeier

“Outro acadêmico que é autoridade no assunto é Kenneth Kitchen, respeitado egiptólogo aposentado da Universidade de Liverpool, na Inglaterra. Seu domínio em mais de 15 línguas do Antigo Oriente lhe permite falar como poucos sobre o dia a dia das cortes, dos templos e fortes militares durante a Idade do Bronze e do Ferro. Ele, inclusive, aprendeu português com a única finalidade de publicar o texto dos monumentos (estelas) de Ramsés II que estão no Museu do Rio de Janeiro, já que ele é uma respeitada autoridade no período Ramessida (e no complexo Terceiro Período Intermediário do Egito). Kitchen escreveu muito sobre Moisés, Êxodo, conquista de Canaã e o contexto geopolítico do Antigo Oriente no 2º milênio a.C. Sua contribuição ajudaria em muito na matéria.   

“Ambos, Hoffmeier e Kitchen, são cristãos, mas não usam suas publicações para converter pessoas ao cristianismo ou provar que a Bíblia é inspirada, mas, sim, para apresentar uma visão equilibrada sobre o mundo do Antigo Oriente e as páginas do relato bíblico. Ambos creem num ‘Moisés histórico’, que viveu entre os séculos 15 e 13 a.C. e que liderou um grupo de escravos para fora do Egito.  

“Se você deseja explorar mais o assunto, dê uma olhada nos artigos acadêmicos de James Hoffmeier: http://tiu.academia.edu/JamesHoffmeier Ele não é um pseudointelectual querendo usar a arqueologia para ‘provar’ a Bíblia, como alguns charlatões costumam fazer (sendo o mais famoso o falecido Ron Wyatt). Adicione nessa lista de acadêmicos do Antigo Oriente que são cristãos e muito respeitados no meio secular nomes como Richard Averbeck, K. Lawson Younger, Daniel Block, Alan Millard, Richard Hess, John Monson, Gary Rendsburg, entre outros.

“Não pretendo responder ponto por ponto da matéria, apenas fazer algumas perguntas e em cima delas fazer minhas considerações. Tópicos levantados como o monoteísmo ‘inédito’ criado por Josias mereceriam uma resposta maior, algo que estou sem condições de escrever. Basta dizer que a própria história egípcia abre um precedente para o monoteísmo ainda no 2º milênio a.C., com Akhenaten. Além disso, os autores do Antigo Testamento jamais negaram a inclinação natural dos israelitas para o politeísmo. Oséias, Amós, Elias e outros profetas denunciaram as práticas idólatras dos seus contemporâneos, práticas essas que são corroboradas por inúmeros achados arqueológicos. Quanto ao incidente do bezerro de ouro, no Sinai, ao contrário do que os articulistas dizem, existe um pano de fundo egípcio muito forte naquela narrativa (cf. Êx 32). Não há necessidade de projetar o incidente para os bezerros de ouro que o primeiro rei de Israel, Jeroboão colocou em Betel e Dã, as fronteiras do seu reino, isso no 10º século a.C. (1Rs 12:28). Diga-se de passagem, Jeroboão havia recém-voltado do seu período de asilo político no Egito (1Rs 11:40). Os israelitas sempre tiveram um coração dividido entre Yahweh e os deuses das nações vizinhas. Isso não é novidade para um leitor atento do texto bíblico.
  
“Existem três teorias para a origem de Israel em Canaã: (1) o modelo bíblico da ‘conquista’, como numa leitura equivocada e exagerada do livro de Josué; (2) tribos nômades entrando naquele território pela região da Transjordânia, a região à direita do rio Jordão; e (3) a que afirma que Israel nunca saiu da ‘Terra Prometida’, eles se originaram e se desenvolveram lá. Boa parte dos acadêmicos bíblicos na atualidade aceita essa última posição. 

“Se Israel se originou em Canaã e não de uma saída em massa do Antigo Egito (sobre a quantidade de israelitas no Êxodo, clique aqui), por que diversos elementos da religião israelita tinham um curioso reflexo da religião egípcia? O tabernáculo no deserto (Êx 25–40), que segundo os articulistas da matéria é um elemento lendário na narrativa do Êxodo, segue o mesmo modelo da tenda de Ramsés II em suas campanhas militares, especialmente contra os Hititas, em Qadesh, na Síria, e os utensílios desse tabernáculo portátil, tais como a arca da aliança, o candelabro, o altar de incenso, as cortinas, entre outros, têm uma clara influência egípcia, tanto na sua forma como no vocabulário utilizado na sua descrição. A descrição do tabernáculo israelita faz sentido quando colocada no fim do período do Bronze (13º século a.C.), não na época de Josias, na Idade do Ferro (7º século a.C.). Aliás, como seria possível para um grupo de sacerdotes levitas vivendo em Jerusalém, na metade do 7º século a.C., produzir textos que refletem íntimo conhecimento da geografia do delta do Nilo e da Península do Sinai, no 2º milênio a.C.?

A tenda de Ramsés II

“Se o livro de Deuteronômio foi escrito no 7º século a.C. por um grupo de sacerdotes levitas vivendo em Jerusalém, como explicar a semelhança da estrutura desse livro com tratados diplomáticos que povos do Antigo Oriente Médio estavam usando por volta de 1300 a.C.? Os tratados diplomáticos e alianças políticas dos hititas, por exemplo, era composto das seguintes partes: Título, Prólogo histórico, Estipulações, Depósito do texto e sua leitura, Testemunhas, Maldições, Bênçãos.

“O quinto livro do Pentateuco segue exatamente essa estrutura, com uma ligeira alteração na ordem das bênçãos e maldições. 

“Título (Dt 1:1-5: ‘Estas são as palavras que Moisés falou... dizendo’), Prólogo histórico (Dt 1:6-3:29: ‘Yahweh, nosso Deus, falou conosco dizendo (relato do Êxodo, do Sinai a Moabe), Estipulações (Intro: Dt 4; Básicas: Dt 5; Específicas: Dt 6-11; 12-26), Depósito e leitura do texto (Dt 31:9, 24-26; leitura que deveria ser feita a cada sete anos: 31:9-13), Testemunhas (Dt 31:19-22, 26), Bênçãos (Dt 28:1-14 - obediência), Maldições (Dt 28:15-68 - desobediência).    

“Na época do rei Josias, no 7º século a.C., o estilo de tratados diplomáticos era bem diferente do que esse mencionado acima. O tratado do rei assírio Esarhaddon, que viveu algumas décadas antes de Josias, era simplesmente composto da seguinte forma: (1) Título; (2) Testemunhas; (3) Estipulações; (4) Maldições. Com qual estrutura Deuteronômio mais se assemelha? Com a do 13º século ou com a do 7º século a.C.?

“Indo além, como explicar a semelhança da estrutura de Deuteronômio com tratados do império hitita, que nessa época era um perigo real e imediato para os egípcios? Para isso é preciso encontrar um indivíduo de fala hebraica que tenha experimentado o dia a dia da corte egípcia no Delta (em Pi-Ramesse) e tenha tido acesso a esse tipo de documentação lá. Soa familiar? Mesmo se Moisés não tivesse existido seria necessário criar um personagem idêntico a ele para explicar tais semelhanças. Não há alternativa.   

“Se Israel se originou em Canaã, por que vemos a proibição do porco na dieta israelita (Lv 11), algo facilmente verificável em restos arqueológicos em Israel, enquanto que seus vizinhos filisteus tinham carne suína (e canina) como parte fundamental de sua dieta? Porcos eram considerados impuros no Antigo Egito, e até mesmo chamados de bw, abominar, detestar, ou bwt, abominação.

“Se o livro de Josué foi escrito na época de Josias, como a última parte da matéria afirma, como é que seu autor (ou autores) conheciam importantes detalhes geográficos e políticos da terra de Canaã por volta do 13º século a.C.? Ele (ou eles) sabia, por exemplo, que Hazor era a principal cidade daquele território (cf. Js 11:10), algo totalmente diferente da realidade do 7º século a.C. Por falar em Hazor, que ficava no norte de Israel e cujas ruínas podem ser visitadas por qualquer turista hoje, ela foi severamente destruída com fogo no 13º século a.C. Essa é justamente a data em que o relato bíblico coloca a ‘conquista’ de Canaã, e Hazor foi uma das cidades incendiadas por Josué e suas milícias. Para Amnon Ben-Tor, o responsável pelas escavações em Hazor por diversas temporadas, foram os israelitas que a destruíram. 

“Ainda sobre o livro de Josué, a estrutura dos 11 primeiros capítulos dessa obra é muito parecida com a estrutura dos anais militares do faraó Thutmoses III, no 15º século a.C. O que é mais fácil de acreditar: que sacerdotes que viviam em Jerusalém no 7º século a.C. criaram aquela narrativa do nada ou que uma tradição egípcia de se registrar campanhas militares do 2º milênio a.C. influenciou escribas israelitas na composição de boa parte do livro de Josué?

“Essas e outras perguntas poderiam muito bem ter sido abordadas de forma mais equilibrada pelos autores dessa matéria da Superinteressante.” 

Clique aqui, aqui e aqui para ver mais alguns exemplos de mau jornalismo da Superinteressante.