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sexta-feira, setembro 11, 2020

Quando vão derrubar as estátuas de Darwin?

Nos protestos por igualdade racial que se espalham através da América e do mundo, uma cena é recorrente: caem as estátuas em homenagem a figuras históricas cuja biografia é controversa. Em seu lugar, pedestais vazios ostentam pichações de censura a seus feitos, celebrados no passado mas inaceitáveis no presente. Sob a representação de Cristóvão Colombo, em Providence, Estados Unidos, lê-se: “pare de celebrar genocídio”. 
 
Além de ter encontrado o continente americano em 1492, Cristóvão Colombo também foi governador e vice-rei das “Índias” (hoje, o país caribenho da República Dominicana). Segundo historiadores, em resposta à agitação e revolta dos nativos, Colombo ordenou uma repressão brutal na qual muitos foram mortos. Em uma tentativa de impedir mais rebeliões, Colombo ordenou que seus corpos desmembrados fossem exibidos pelas ruas.
 
No rastro das manifestações que seguiram a morte de George Floyd, a agitação de grupos minoritários tem como um de seus alvos os personagens históricos reconhecidamente racistas. O escritor e jornalista italiano Indro Montanelli – que quando servia o exército fascista durante a invasão italiana na Abissínia (hoje Etiópia) chegou a comprar uma africana de apenas doze anos como escrava – teve sua imagem em Milão depredada. Sob ela escreveram “racista estuprador”. 
 
(Jornal Opção)
 
Nota: Se é para levar esse revisionismo até às últimas consequências, sugiro que se derrubem também as estátuas do naturalista inglês Charles Darwin, pelas ideias racistas que expôs em seu livro menos conhecido A Descendência do Homem. Mas acho que minha proposta não dará em nada... [MB]
 
Leia também: Racismo e evolucionismo em pauta, Criacionismo é racista?! Ok, vamos falar de racismo, Charles Darwin: pai da eugenia?, Racismo darwinista e Darwin e as "raças inferiores": racismo?
 


segunda-feira, fevereiro 17, 2020

Evolucionistas são nazistas e creem que viemos do macaco?


Você sabia que Adolf Hitler era “fã” de Charles Darwin, e que usou a ideia de seleção natural para levar avante seus planos eugenistas? Quem afirma isso é a secretária pessoal do führer, Traudl Junge, no livro Até o Fim (Ediouro). A obra foi escrita com base nos diários de Traudl, cujo objetivo foi alertar as pessoas para o fato de que jamais pode ser subestimado o poder sedutor de líderes fanáticos. Na página 140, a autora registrou a filosofia de vida do ditador e o que ele pensava sobre religião: “[Hitler] não tinha qualquer ligação religiosa; achava que as religiões cristãs eram mecanismos hipócritas e ardilosos para apanhar incautos. Sua religião eram as leis da natureza. Conseguia subordinar seu violento dogma mais facilmente a elas do que aos ensinamentos cristãos de amor ao próximo e ao inimigo. ‘A ciência ainda não chegou a uma conclusão sobre a raiz que determina a espécie humana. Somos provavelmente o estágio mais desenvolvido de algum mamífero, que se desenvolveu do réptil a mamífero, talvez do macaco ao homem. Somos um membro da criação e filhos da natureza, e para nós valem as mesmas leis que para todos os seres vivos. Na natureza a lei da guerra vale desde o começo. Todo aquele que não consegue viver, e que é fraco, é exterminado. Só o ser humano e, principalmente, a igreja têm por objetivo manter vivos artificialmente o fraco, o que não tem condições de viver e aquele que não tem valor.”

Assim, fica claro que o conceito de luta e de sobrevivência do mais apto moldou o pensamento do genocida, servindo de justificativa “moral” para suas decisões e ações. Hitler se julgava apto a decidir quem tinha valor e quem não tinha. Ele quis dar uma “mãozinha” para a seleção natural eliminando logo aqueles que ele considerava inferiores, como os judeus, os negros e os homossexuais.

Segundo o ditador, “somos provavelmente o estágio mais desenvolvido de algum mamífero, que se desenvolveu do réptil a mamífero, talvez do macaco ao homem”. Portanto, podemos concluir que, assim como Hitler, os evolucionistas creem que o homem veio do macaco e, pior: creem que o nazismo está correto, que a religião não presta e que devemos exterminar os fracos.

Antes que você proteste veementemente (e com razão), deixe-me dizer-lhe que obviamente eu não concordo com a conclusão acima. Obviamente entendo que não se pode julgar o todo pela parte, e que não se podem tirar conclusões gerais com base no que um ou outro pense a respeito do assunto – mesmo que esse um ou outro seja uma figura histórica famosa.

Não, evolucionistas não são nazistas, e afirmar isso com base no que um evolucionista pensa seria leviandade e mesmo maldade da minha parte. Nem todos os evolucionistas abominam a religião, e evolucionistas bem informados jamais diriam que o homem veio do macaco. O que eles dizem é que seres humanos e macacos tiveram um ancestral comum (desconhecido, é verdade).

Então por que resolvi escrever este texto? Porque tem gente fazendo com os criacionistas exatamente o que eu poderia ter feito com os evolucionistas, se eu fosse um canalha (para dizer o pior) ou simplesmente mal informado (para dizer o mínimo).

Recentemente, o criacionismo vem ocupando espaço nos noticiários e tendo suas premissas totalmente distorcidas. Há repórteres levianamente associando o criacionismo com a ideia absurda da Terra plana e a defesa assassina da não vacinação. Existem criacionistas mal informados que defendem essas bandeiras? Sim, existem; assim como há evolucionistas que fazem o mesmo (aliás, o fundador da Flat Earth Society é evolucionista). Mas vamos julgar todos os criacionistas por causa daqueles? Se o fizéssemos, estaríamos cometendo o mesmo erro de chamar os evolucionistas de nazistas.

A Sociedade Criacionista Brasileira (SCB) já se manifestou a respeito do terraplanismo por meio de uma nota de repúdio (veja aqui). Por que repórteres e formadores de opinião não mencionam isso? Desconhecem o fato? Preferem convenientemente ignorá-lo? A SCB está há quase 50 anos atuando no Brasil. Tem site e CNPJ. É fácil chegar até ela. Em meus blogs e em minhas redes sociais tenho denunciado a irresponsabilidade dos antivacinas. Não conheço uma entidade criacionista ou divulgador sério do criacionismo que defenda essa insanidade criminosa. Então por que a associação? Para denegrir os criacionistas e blindar Darwin? Para embarcar na onda e “lacrar”?

Uma das charges mais infelizes sobre esse assunto foi publicada no jornal gaúcho Zero Hora:



De um lado da ilustração há a tal associação de conceitos superficial e tendenciosa por meio de personagens caricatos; do outro está um senhor de jaleco branco (representante da ciência) acompanhado de uma moça e da frase “a burrice é ousada”. Sim, é mesmo ousada, e às vezes injusta.

Evolucionistas não são nazistas, tanto quanto criacionistas não são terraplanistas nem fixistas inimigos do bom conhecimento. Os pioneiros da ciência, como Isaac Newton, Galileu Galilei, Blaise Pascal e outros, criam na literalidade de Gênesis, mas nem por isso deixaram de legar à humanidade um patrimônio científico gigantesco. 

O assunto é mais sério e profundo do que a maioria pensa, e vem sendo tratado de maneira superficial, enviesada e politizada por pessoas que não têm compromisso com a verdade. Por causa disso, estamos assistindo à criação de novos campos de concentração ideológicos para os ditos fundamentalistas retrógrados, e a uma nova matança – de carreiras e reputações.

Michelson Borges 

quarta-feira, agosto 14, 2019

Professor de Yale abandona o darwinismo e diz por quê


Para o professor da Universidade de Yale, David Gelernter, a teoria da evolução de Charles Darwin é “uma bela ideia que foi efetivamente refutada”. A declaração foi feita por ele durante sua renúncia pública do darwinismo. Gelernter, que é conhecido por prever a World Wide Web e desenvolver muitas ferramentas complexas de computação ao longo dos anos, é hoje professor de ciência da computação em Yale, cientista-chefe da Mirror Worlds Technologies, membro do Conselho Nacional de Artes e autor prolífico. Em uma coluna para o Claremont Review of Books, Gelernter explicou como suas leituras e discussões sobre a evolução darwiniana e suas teorias concorrentes, como o design inteligente, o convenceram de que Darwin estava errado. Ele cita, por exemplo, o livro de Stephen Meyer, Darwin’s Doubt, de 2013, e The Deniable Darwin, de David Berlinski, para basear suas novas crenças a respeito da vida na Terra.

Há algumas semanas, ele voltou a falar sobre esse assunto em uma entrevista com a Hoover Institution da Universidade de Stanford, na qual ele diz não abraçar totalmente o design inteligente. “Meu argumento é com pessoas que rejeitam o design inteligente sem considerar, parece-me – é amplamente descartado no meu mundo acadêmico como um tipo de trabalho teológico – é um argumento científico absolutamente sério”, disse Gelernter.

Segundo o The College Fix, o professor afirmou que declarações como a sua o colocariam na mira de outros cientistas, mas que com ele não foi assim. “Eu não fui destruído, não sou biólogo, e não pretendo ser uma autoridade sobre esse assunto. [...] Estou atacando a religião deles e não os culpo por estarem todos de cabeça erguida, é um grande problema para eles. Não há razão para duvidar de que Darwin tenha explicado com sucesso os pequenos ajustes pelos quais um organismo se adapta às circunstâncias locais: mudanças na densidade da pele ou no estilo da asa ou na forma do bico”, escreveu o professor. “No entanto, há muitas razões para duvidar se ele pode responder às perguntas difíceis e explicar o quadro geral – não o ajuste fino das espécies existentes, mas o surgimento de novas espécies. A origem das espécies é exatamente o que Darwin não consegue explicar”, completa.

Para ele, a ideia de que o acaso e as mutações são a força motriz por trás da vasta complexidade da vida – mesmo com bilhões de anos – não é apenas cientificamente improvável, é uma impossibilidade, argumenta o acadêmico em seu artigo. “Darwin teria facilmente entendido que pequenas mutações são comuns, mas não podem criar mudanças evolutivas significativas; mutações importantes são raras e fatais”, escreveu Gelernter. “Não pode ser surpreendente que a revolução no conhecimento biológico ao longo do último meio século deva exigir uma nova compreensão da origem das espécies”.

quarta-feira, outubro 17, 2018

Darwin presidente: o fascismo evolucionista (parte 2)

Quais são as origens e as bases dos pensamentos que levaram ao surgimento do fascismo – uma das filosofias de resultados mais funestos já vistos na história da humanidade? Descubra na continuação da nossa série de posts sobre os fundamentos filosóficos das principais correntes políticas e sociais do mundo atual. Hitler era cristão? Judeu? Cético ateísta? Uma das mentes mais perversas e misteriosas da história humana tinha ligações mesmo com o misticismo.[1] Mas, na base de todos os seus sofismas, o fascismo era fundamentado na teoria da evolução.

Na última postagem, foi produzida uma breve descrição das principais correntes políticas e sociais que estão influenciando a política mundial na atualidade. Falou-se sobre a influência do evolucionismo no marxismo social e político do fim do século 19, e como Marx foi admirador de Darwin e promotor do que Engels chamou de “evolucionismo sociológico”. Neste post, você verá como a teoria da evolução embasou o fascismo italiano e o nazismo, e como se percebe essa influência na política atual.

O evolucionismo como fundamento do sofisma da superioridade racial

Derivada da ideia da seleção natural de Darwin, Herbert Spencer desenvolveu a ideia do Darwinismo Social.[3] De acordo com esse pensador, assim como teria acontecido com os organismos na biologia [sic], as sociedades também teriam evoluído por meio da luta que produziria a seleção natural. O próprio termo “sobrevivência do mais apto” (survival of the fittest) foi cunhado por Spencer e não por Darwin.[3] De acordo com o site History Hits, o darwinismo social teve seu trágico ápice com o desenvolvimento da política genocida nazista nos anos 1930 e 40. Na visão do movimento nazista, a raça ariana seria um subgrupo da raça caucasiana, de origem indoeuropeia, sendo que os arianos (povos alemães) representariam o que haveria de mais puro (e evoluído) dentre os povos caucasianos e, por conseguinte, do mundo todo.[4]

Os teóricos raciais Arthur de Gobineau e Houston Stewart Chamberlain foram alguns dos principais proponentes das teorias arianas de supremacia racial vastamente utilizadas pelos nazistas[5] para justificar o massacre de povos não arianos, em especial os judeus (semitas, mas classificados por Hans Günther e outros como Armenóides) e os negróides. Além desses dois teóricos racistas, Hans Günther teria identificado a emergência de cinco subtipos raciais na Europa: nórdicos, mediterrâneos, dináricos, aplinos e leste-bálticos. Não surpreendentemente, Günther identificou os nórdicos como ranqueados na mais alta posição da cadeia evolutiva.[6]

Hitler teria lido a obra de Günther, Rassenkunde des Deutchen Volkes, o que acabaria por influenciar o ditador na sua relação com os povos circunvizinhos e daria ao teórico racial um lugar assegurado no departamento de antropologia da Universidade de Jena, em 1932, onde Hitler teria assistido à aula inaugural do professor Günther.[7] Günther havia usado diversas fotografias para classificar diferentes variações dos povos europeus, e suas classificações foram embasadas em medidas corporais e habilidades mentais e traços de personalidade, incluindo a religiosidade. Os judeus foram vistos por Günther como possuindo habilidades comerciais e, segundo ele, com fortes habilidades de manipulação psicológica que os auxiliavam no comércio. De acordo com esse teórico, os habitantes do Oriente Médio teriam habilidades natas não para a conquista da natureza, mas para a conquista e exploração das pessoas.[8]

Hitler considerava perigosas as influências dos povos semitas mesmo em outras etnias caucasianas, fato é que o Führer alemão classificou mesmo os eslavos como “subumanos” (untermenschen), por entender que sofreram, em maior ou menor grau, influência dos povos armenóides ao longo da sua história.[4] Os eslavos, de acordo com Hitler, eram uma raça nascida inerentemente escrava e carente de um mestre.[9] Surpreendentemente, como o ditador considerou esse povo “subumano”, entendeu que a convenção de Genebra não se aplicava a eles.[10] Essa ideia logo se espalhou para outras etnias consideradas subumanas, e as ordens do ditador e de seus oficiais eram de aniquilar, remover ou escravizar os conquistados que não fossem considerados arianos. Joseph Goebblels, ministro da propaganda de Hitler, comparou os povos eslavos a uma família de coelhos, no sentido de serem preguiçosos e desorganizados, e referiu-se a eles, em um certo pronunciamento na mídia alemã, como uma raça primitiva de animas advindos da tundra siberinana, que pareciam “uma onda negra de imundície”.[11]

O fascismo italiano, apesar de ter surgido antes do fascismo alemão (nazismo), é explorado nesse ponto pelo fato de que incorpora, essencialmente, os mesmos preceitos do nazismo, mas com diferenças que podem ser mais bem explanadas depois de compreendidas as premissas que se tornaram notoriamente manifestas no nazismo. Distinções se destacam pelo fato de que o fascismo italiano incorporava à raça ariana a etnia mediterrânea, como não poderia deixar de ser.[14] Mas, talvez, a mais destacada dessemelhança entre o fascismo italiano e o nazismo seja a de que Mussolini considerava como elemento racial superior os aspectos culturais e espirituais associados à etnia em questão. É reportado que Mussolini rejeitou a ideia de superioridade genética per se, embora o fator biológico não tenha sido eliminado por completo do racismo fascista.[15] Mussolini via o nordicismo – aspecto fascista alemão que apregoava o arianismo como manifesto sobretudo em cabelos loiros e olhos azuis – como um complexo de inferioridade que havia sido imposto aos povos mediterrâneos, inerentemente alijados dessas características, e desejava que esse sentimento de baixa autoestima não retornasse aos corações italianos.[14] No entanto, parece que beber do próprio veneno não impediu que Mussolini participasse, em grande medida, das ideias racistas que ceifariam a vida de milhões de vidas inocentes durante as campanhas do eixo na segunda guerra mundial.

Hitler judeu?

Muita discussão foi realizada em torno dos critérios para a classificação de povos e indivíduos como arianos mas, de maneira geral, bastava que um cidadão tivesse apenas um dos avós identificado como judeu para perder sua classificação “ariana”. Curiosamente, Hitler nunca teria conseguido provar a “arianidade” de todos os seus avós, dos quais acredita-se que o avô paterno possa ter tido origem judaica, embora esse fato venha a ser contestado por outros historiadores.[12] Todavia, em 2010 um artigo do jornal britânico The Daily Telegraph publicou um estudo no qual foram coletadas amostras de saliva de 39 parentes de Hitler e não chegou à conclusão definitiva sobre a questão da ancestralidade judaica do ditador alemão. Um cromossomo, chamado Haplogroup E1b1b1, encontrado nas amostras de Hitler, é considerado raro nos povos da Europa ocidental, mas é comumente encontrado nos povos bérberos do Marrocos, Algéria, Tunísia e nos judeus Asquenazi e Sefárdicos. Esse cromossomo está presente em cerca de 20% dos cromossomos Y dos judeus Asquenazi e até 30% dos cromossomos Y dos judeus Sefárdicos. No entanto, a conclusão geral é a de que não se pode dizer se Hitler era judeu, embora não seja possível descartar completamente a hipótese de alguma influência na ancestralidade.[13]

Os evolucionistas contra-atacam

Muito embora vários defensores do evolucionismo tenham iniciado uma espécie de guerra santa para tentar desvincular o darwinismo dos fundamentos do nazismo, é notável que o pressuposto da superioridade racial, que fundamentou atrocidades vistas durante a tentativa de construção do Terceiro Reich na Alemanha hitlerista, se constrói sobre um pressuposto evolucionista. Richard Weikart, no seu livro Hitler’s Religion: The twisted beliefs that drove the Third Reich,[2] afirma que uma suposta perseguição do evolucionismo darwinista pelos nazistas foi, na verdade, limitada e bastante pontual, e, na realidade, não poderia ser chamada de perseguição. Livros darwinistas teriam sido queimados em fogueiras alemãs, mas isso ocorreu com centenas de outros títulos, de teor inclusive oposto ao evolucionismo. O autor diz que altos oficiais da SS (organização paramilitar nazista, responsável por grandes crimes de guerra), professores, políticos e filósofos empregados pelo partido eram darwinistas declarados e proeminentes. A evolução humana e biológica era tema do currículo escolar e universitário na Alemanha de Hitler. Na verdade, segundo Weikart, a real motivação para a afirmação de que o darwinismo fora banido da Alemanha nazista foi um artigo de um jornal para bibliotecários de 1935 que orientava as bibliotecas alemãs a banirem o darwinismo ultrapassado, citando Haeckel e Ostwald, mas não Darwin. De fato, tratou-se de uma orientação menor, realizada por um oficial de baixo escalão, para eliminar algumas obras de um evolucionismo muito embrionário e que jamais teve efeitos de coibir ou desincentivar o ensino do evolucionismo na Alemanha nazista.[2]

Conclusão

É possível, e mesmo provável, que o fascismo tivesse surgido mesmo sem a construção da teoria da evolução por Darwin ou por qualquer outro autor. Hitler não era um ser cético e desprovido de espiritualidade,[1] razão pela qual se pode supor que não foi, evidentemente, a razão que moveu não apenas Hitler, mas também Mussolini e outros a produzirem tal estado de coisas que culminaram com uma das maiores matanças da raça humana em vários séculos.

O fascismo não dependeria vitalmente do darwinismo para existir, mas pode-se concluir, com bastante segurança, que o darwinismo proveu uma justificativa, ainda que, na melhor das hipóteses, distorcida para que tais opositores do bem pudessem fazer prosperar seus desejos mais sórdidos de conquista e poder total. Opositores do cristianismo e diversos defensores do evolucionismo têm se reunido para dizer que Hitler era cristão e perseguiu o evolucionismo, o que dificilmente se faria em uma análise mais aprofundada e honesta.[2] Hitler e seus comparsas buscaram no misticismo qualquer centelha de esperança de obter vantagem no projeto de dominação global pelas vias mais obscuras que pudessem conceber.[1] Nem a mais abjeta interpretação das Escrituras permitiria tais comportamentos sob a alcunha de “cristianismo”.

Surpreendentemente, porém, levado em seus extremos, o pensamento evolucionista apregoa justamente isto: a sobrevivência do mais apto. Mais apto significa ser mais astuto e sagaz? Significa ser o mais fortemente armado? O mais inteligente e forte no objetivo de destruir os competidores pelos recursos escassos da natureza? Pode-se racionalizar que, assim como nos enxames de animais que vivem em coletividade, que a sobrevivência do companheiro de espécie é estratégica. No entanto, essa justificativa não é suficiente, não apenas para explicar o verdadeiro altruísmo, mas também para eliminar a possibilidade da destruição gerada pela competição pelo alimento escasso e pela reprodução dos melhores espécimes.

Em oposição à morte, à destruição e frustração que são resultado certo das filosofias humanas alijadas de Deus, Cristo certa vez disse: “Eu vim para que tenham vida, e vida em abundância” (João 10:10). A Bíblia não somente oferece uma resposta adequada para os conflitos humanos, mas também a melhor resposta e a única saída completamente e mais do que satisfatória para a angústia humana.

Alexsander Silva

Referências:
[1] Knowles, C. (2008). Nossos deuses são super-heróis. Ed. Cultrix.
[2] Weikart, R. (2016). Hitler's Religion: the twisted beliefs that drove the Third Reich. Regnery History.
[3] Browne, A. (2018, august 7). Social darwinism in nazy Germany. Disponível em: https://www.historyhit.com/social-darwinism-in-nazi-germany/
[4] Longerich (2010). Holocaust: The Nazi Persecution and Murder of the Jews. Oxford; New York: Oxford University Press. 
[5] Yenne, Bill (2010). Hitler's Master of the Dark Arts: Himmler's Black Knights and the Occult Origins of the SS. Minneapolis: Zenith.
[6] Bruce David Baum. The Rise and Fall of the Caucasian Race: A Political History of Racial [7] Identity. New York, New York, USA; London, England, UK: New York University Press, 2006. P. 156.
ohn Cornwell. Hitler's Scientists: Science, War, and the Devil's Pact. Penguin, Sep 28, 2004. [1], p. 68 
[8] Alan E Steinweis. Studying the Jew: Scholarly Antisemitism in Nazi Germany. Harvard University Press, 2008. P. 28. 
[9] Marvin Perry. Western Civilization: A Brief History. Cengage Learning, 2012. P. 468. 
[10] Anne Nelson. Red Orchestra: The Story of the Berlin Underground and the Circle of Friends Who Resisted Hitler. Random House Digital, Inc., 2009. P. 212. 
[11] Richard C. Frucht (31 December 2004). Eastern Europe: An Introduction to the People, Lands, and Culture. ABC-CLIO. pp. 259 
[12] Toland, John (1992) [1976]. Adolf Hitler. New York: Anchor Books. 
(Algumas referências foram retiradas da Wikipedia) 
[13] Adolf Hitler: Was Hitler jewish? Disponível em: https://www.jewishvirtuallibrary.org/was-hitler-jewish. 
[14] Aaron Gillette. Racial Theories in Fascist Italy. London, England, UK; New York, New York, USA: Routledge, 2001. Pp. 39. 
[15] Glenda Sluga. The Problem of Trieste and the Italo-Yugoslav Border: Difference, Identity, and Sovereignty in Twentieth-Century. SUNY 

segunda-feira, maio 14, 2018

200 anos de Karl Marx: darwinismo & comunismo


Nascido em 5 de maio de 1818, Karl Marx “fez” 200 anos. Consideremos então a seguinte questão: O darwinismo deu suporte mais naturalmente a uma perspectiva moral-econômica capitalista ou a algum outro ponto de vista filosófico rival, digamos, marxista? O historiador econômico Niall Ferguson debateu a respeito do ponto de vista acima em um livro de 2008, A Ascensão do Dinheiro: A História Financeira do Mundo. Ao aplicar uma estrutura darwiniana para entender as forças de mercado, ele foi questionado por uma série de críticos. Na revista The New York Review of Books, o economista Robert Skidelsky repreendeu Ferguson por fornecer “falsas analogias entre evolução financeira e seleção natural darwiniana... Essas tentativas de explicar o crescimento de dinheiro em termos de processos naturais me atacam por serem inocentes tanto moral quanto filosoficamente”.

Ferguson descreve a “destruição criativa” que surge quando instituições financeiras não conseguem se ajustar ao mercado, então falham e desaparecem, para serem substituídas por competidores mais bem adaptados. Capitalismo darwiniano?

A não ser que suas ideias morais, políticas e filosóficas estejam completamente desatreladas da realidade, então a forma como você desenha em sua mente as regras pelas quais o mundo de fato funciona deve de alguma forma causar impacto na forma como você pensa que ele deveria funcionar. Então as várias respostas oferecidas para a questão de como a vida se desenvolveu naturalmente fornecem dados à construção de filosofias que respondem a outras questões mais práticas, incluindo como a plenitude humana é atingida na realidade econômica.

Por que não? Não faz sentido a noção de que teorias de evolução não contribuem propriamente em nada para teorias de como a riqueza é criada e dividida. Se a história da vida requereu a direção de uma fonte transcendente de inteligência, isso traz consequências ao âmbito da economia. Se a vida se desenvolveu sem direção, meramente sob o poder de um mecanismo darwiniano, isso também traz consequências, provavelmente diferentes.

O problema aparece ao se determinar quais são essas consequências. Eu não li o livro de Ferguson, mas ele parece estar oferecendo a tautologia tradicional darwiniana: As empresas mais adaptadas sobrevivem. E o que, na história econômica, define adaptabilidade? Bem, sobrevivência. Dessa forma, veja, aqueles que sobrevivem são, bem, aqueles que sobrevivem.

Ferguson remonta sua ideia de que “processos darwinianos podem estar operando na economia” à Thorstein Veblen, que “perguntou pela primeira vez ‘Por que a economia não é uma ciência evolucionária’ (insinuando que de fato era), nos idos de 1898”. Mas a verdade é que o pensamento econômico que alega ser baseado em ciência evolucionária remonta há décadas antes disso.

No prefácio de O Capital de 1864, Karl Marx anunciou suas próprias ideias ao apresentar “o desenvolvimento da formação econômica da sociedade como um processo em história natural”. Em seu discurso no funeral de Marx no Cemitério Highgate de Londres, Engels deu o complemento final: “Assim como Darwin descobriu a lei da evolução na natureza orgânica, Marx descobriu a lei da evolução na história humana.” Isso ocorreu em 17 de março de 1883.

O comunismo possui raízes darwinianas mais profundas do que muitos de nós nos damos conta. De fato, apesar de Marx ter começado a rascunhar suas ideias antes de Darwin ter publicado A Origem das Espécies – o Manifesto Comunista apareceu em 1848, A Origem em 1859 –, ele é comumente chamado de darwinista. De fato, os homens que traduziram o Marxismo em termos políticos práticos na forma do terror soviético foram pensadores evolucistas, assim como eles próprios se consideravam.

Em 1891 em Gori, Geórgia, um garoto de coral de 13 anos que sonhava em se tornar padre, Iosef Vissarionovich Dzhugashvili, foi encontrado por sua mãe ao amanhecer, tendo ficado acordado toda a noite lendo A Origem das Espécies de Darwin. “Eu amei tanto o livro, mamãe, que não pude parar de ler”, ele explicou. Mais tarde ele disse a um amigo que Deus “de fato não existe. Nós fomos enganados”. “Como você pode dizer tal coisa?”, o amigo exclamou, ao que o garoto, o futuro Joseph Stalin, respondeu dando a ele uma cópia de Darwin.

O que resultou da apreciação precoce de Stalin da teoria evolucionista? Tanto Hitler quanto Stalin procuraram criar uma nova raça de super-homens. De onde ambos tiraram essa ideia? Da teoria darwiniana, no sentido mais amplo, claro.

Para entender o motivo disso, precisamos voltar às origens da filosofia comunista. Os comunistas desde seu princípio foram atraídos pelo darwinismo porque, como Engels ressaltou em sua carta a Marx, ele eliminou a “teleologia” da história da vida. Isto é, ele evitou a necessidade por entender o desenvolvimento da vida como tendo sido dirigido por um ser pessoal transcendente de fora da natureza, e abriu caminho para entender a história como sendo dirigida por forças impessoais do tipo antevistas por Marx. Em 1861, ao ler A Origem das Espécies, Marx exultou: “O livro de Darwin é muito importante e me serve como uma base científica natural para a luta de classes na história. Tem-se, é claro, que tolerar o tosco método inglês de discurso.”

Como podemos culpar Darwin por isso quando Marx e Engels já tinham chegado ao esboço de suas filosofias em 1859, quando A Origem foi publicado? Sim, Marx viu no darwinismo uma confirmação de suas visões, e Engels também o fez de forma mais enfática. Mas o que isso prova?

Também é verdade que Lênin manteve uma estátua proeminentemente situada em seu escritório no Kremlin, que continha um macaco contemplando a caveira de um homem acima de uma única palavra de dedicatória: “DARWIN”. Isso tinha diversos significados. A estátua do macaco significava o desprezo de Lênin por seus colegas, que eram nada mais que filhos de macacos; além disso, o apego idólatra do Estado soviético à ciência [humana], já que Lênin se apoiava resolutamente na fé comunista de que o próprio marxismo era uma doutrina científica; e o mais abominável, ela aludia à luta darwiniana aplicada às classes sociais, com o proletariado ascendendo à sua posição destinada de comando, após as classes rivais de aristocratas, burgueses, padres e camponeses terem sido exterminadas. Para Lênin, assim como para Darwin, “extermínio” era uma palavra favorita.

Como sucessor de Lênin, Stalin escreveu um tratado ideológico, “Anarquismo ou Socialismo?”, especulando sobre a ciência darwiniana e declarando: “A evolução prepara a revolução e cria espaço para ela; a revolução consuma o processo de evolução e facilita sua posterior atividade.” Ainda assim, Marx, e não Darwin, publicou primeiro.

A relação entre o comunismo e o darwinismo tem sido debatida por acadêmicos há anos, deixando um amontoado lamacento e frustrante de alegações e contra-alegações. Há, no entanto, uma forma clara e satisfatória de resolver o debate. Tanto marxistas quanto darwinistas são herdeiros de uma revolta materialista contra a metafísica que começou no século 17 com Hobbes e Locke, e da revolta “naturalista” contra Igreja e Trono inaugurada por Rousseau, no século 18. Marx simplesmente emergiu daquela tradição um pouco antes que Darwin. No entanto, uma vez que em Darwin a visão de mundo atingiu seu apogeu de influência, tem-se o nome darwinismo e assim Marx é adequadamente chamado de darwinista.

Leitores cristãos irão, eu espero, perdoar a seguinte analogia grotesca. Marx estava para Darwin, muito aproximadamente, como João Batista estava para Jesus: um antecedente, um contemporâneo, e um discípulo.

A visão de mundo que carrega o nome de Darwin o faz da mesma forma que o nome cristianismo alude à personalidade de uma figura histórica, chamado Jesus Cristo, apesar de que Jesus e muitas de Suas ideias emergiram de uma tradição, o judaísmo, que o precedeu em muito e na qual Ele colocou Sua própria interpretação; apesar de as ideias de Jesus serem posteriormente desenvolvidas por Paulo, os escritores do evangelho, os patriarcas da igreja, e posteriores pensadores cristãos.

O que Marx e Darwin compartilharam foi brilhantemente visto por Hannah Arendt. É o que faz do hitlerismo e do stalinismo dois lados da mesma moeda.

Marx e Darwin desenvolveram teorias paralelas de lei histórica ou natural. Em um contexto religioso, a lei é percebida como estática e eterna: a lei de Deus, mais alta que qualquer homem, digna de julgar reis e tiranos por sua luz. O marxismo e o darwinismo, como filosofias materialistas, acreditam ter conseguido remover a necessidade de Deus, ou da metafísica de forma geral. Para eles não há tal coisa como uma lei moral estática, eterna.

Dessa forma, no livro A Descendência do Homem, Darwin descreve o processo pelo qual a moral evolui, assim como corpos de animais. Ele não encontra nada absoluto ou dado por Deus até mesmo em um aparente instinto moral fundamental como o que vai contra o incesto: “Devemos, assim, rejeitar a crença, recentemente reforçada por alguns escritores, de que a repulsa ao incesto é causada por uma consciência especial implantada por Deus.” O lugar de Deus é substituído por uma lei de movimento. A História é uma maré que move o desenvolvimento da natureza ou sociedade de acordo com uma lei impessoal, não guiada, e ainda cientificamente descritível. Evolução e revolução são de fato a mesma dinâmica, observadas respectivamente sob as perspectivas natural e social. No livro Origens do Totalitarismo, Arendt escreveu sobre Darwin e Marx: “Se considerarmos, não a conquista, mas as filosofias básicas de ambos os homens, o que se observa é que o movimento da história e o movimento da natureza são um e o mesmo.”

Isso ajuda a clarificar o porquê, sob os regimes de Hitler e Stalin, o que Arendt chamou de “terro total” era o resultado previsível. A única moralidade era a da lei do movimento da história, visto em termos biológicos ou econômicos. Em ambos os casos, se você se opusesse, seria um inimigo e qualificado para destruição.

A versão de Stalin da evolução derivou de uma linha daquela tradição científica e filosófica oriunda do antigo evolucionista Francês Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829). Lamarck afirmou que características adquiridas por um organismo durante sua vida poderiam ser passadas para sua descendência, tornando o ambiente de igual importância na hereditariedade. (A teoria evolucionária moderna exclui essa ideia.) Os métodos darwinianos mais estritos de Hitler, obcecado por hereditariedade, enfatizaram eugenia e assassinato para livrar a sociedade de indesejáveis genéticos, enquanto a abordagem de Stalin enfatizava a manipulação do ambiente social, isolando anormalidades, enviando adultos e crianças que possuíssem mentes “doentes” por pensamentos antissoviéticos para o Gulag para não corromperem as mentes sadias. A sutil diferença pouco importava para os milhões que foram assassinados na busca de um pesadelo evolucionário.

Inicialmente, o regime soviético era fascinado pela eugenia, estabelecendo uma sociedade eugênica russa em 1921 e imediatamente procedendo com o estudo da questão judaica. Mas o marxismo em geral possuía pensamento dúbio sobre evolução, e como mencionado acima, tendia a favorecer o lado de Lamarck da teoria. Já em 1906, Stalin havia-se declarado a favor de Lamarck. Isso não era uma rejeição do darwinismo, mas simplesmente do mecanismo evolucionário que tornou Darwin famoso, a seleção natural. Por várias razões, os comunistas preferiram pensar em termos de uma seleção ambiental como o mecanismo impessoal dirigindo a evolução. Na década de 1930, Stalin passou a defender Lamarck com mais intensidade. Após 1945, a teoria evolucionista oficial do comunismo soviético foi representada por um agrônomo e fraudulento cientista ucraniano, Trofim Lysenko. Sob o regime do lysenkismo, dissidentes da ortodoxia evolucionária eram sujeitos à destruição de carreira, ao aprisionamento e até mesmo à morte.

Ao invés de criar super-humanos por meio da genética, como Hitler fez, o evolucionismo soviético buscava fazê-lo por intensas manipulações do ambiente, incluindo exílio, aprisionamento e assassinato. No Grande Terror de 1937-38, uma das classes comuns de vítimas eram os “socialmente prejudiciais”. Essa não era meramente uma categoria política, mas evolucionista.

O Estado soviético era, então, um experimento de darwinismo aplicado. Como Malcolm Muggeridge, o jornalista britânico que se separou de seus colegas para reportar de forma honesta o terror-fome stalinista, posteriormente afirmou, “é interessante refletir que agora, à luz de tudo o que aconteceu, os prévios oponentes obscurantistas da evolução darwiniana parecem muito mais sagazes e visionários do que seus primeiros empolgados defensores”.

(Evolution News & Science Today; traduzido por Leonardo Serafim) 

terça-feira, março 13, 2018

Descobertas contestam hegemonia de Darwin e recuperam Lamarck


Características adquiridas em vida afetam genética e evolução das espécies, escreve professor escocês.

Resumo: Autor afirma que pesquisas recentes indicam que a evolução das espécies é um fenômeno mais complexo do que se imaginava e não pode ser explicado apenas pela seleção natural. Defensor de uma teoria alternativa (a síntese evolutiva estendida), ele argumenta que a ciência tem dificuldade para incorporar novas ideias. Leia o texto completo aqui e o artigo original em inglês aqui.

Nota do blogueiro e mestre em História da Ciência Enézio Eugênio de Almeida Filho: “Desde 1998 este blogger vem anunciando uma grande, eminente e iminente mudança paradigmática em biologia evolutiva. Não foi falta de notificação às editorias de ciência da grande mídia tupiniquim e seus jornalistas científicos. A maioria nem deu atenção devida ao que lhes chegava às mãos. Não interessa a quem tem uma agenda ideológica lidar com as questões de justificação teórica.

“Apenas um jornalista científico deu a atenção devida: Maurício Tuffani, então na Folha de S. Paulo, com uma reportagem especial intitulada “Visões extremas da evolução”, onde prevaleceu o paradigma neodarwinista e um pequeno destaque marginalizado da Teoria do Design Inteligente, na figura de Michael Behe, com a sua tese da complexidade irredutível (A Caixa Preta de Darwin, Rio de Janeiro: Zahar Editor, 1997) e quando trabalhou na Galileu, publicou meu pequeno artigo “O Convite de Darwin”.

“Bastante atrasada, aliás muito atrasada, a Folha de S. Paulo traz à tona o que a nomenklatura científica conversa intramuros, mas que não tem mais como não debater a falência epistemológica do darwinismo. A internet já tornou isso público no mundo inteiro. Ao debate, senhores! Com a Teoria do Design Inteligente à mesa, pois a Síntese Evolutiva Ampliada/Estendida é uma teoria científica natimorta: não lidou como deveria lidar sobre a origem da informação genética...”

quarta-feira, novembro 01, 2017

Charles Darwin: pai da eugenia?

“Num período futuro, não muito distante se formos medir em séculos, as raças humanas civilizadas irão, com quase certeza, exterminar e substituir, ao redor do mundo, as raças mais selvagens” (Charles Darwin, 1809-1882).

A citação acima nos causa estranheza, e o leitor não a encontrará na obra mais famosa de Darwin, A Origem das Espécies. Ela pertence a outra, menos conhecida, A Descendência do Homem (1871), que poderia ser considerado a continuação do tema do A Origem, só que voltado para os seres humanos, com implicações que já podemos imaginar, e que veremos adiante.

A “eugenia” era a teoria predileta dos nazistas, segundo a qual apenas os homens e as mulheres mais saudáveis, inteligentes e fortes deveriam ter filhos, de forma a criarem uma raça perfeita; os que não estivessem dentro dos padrões exigidos deveriam ser eliminados.

A Descendência... e outras obras cujas ideias trouxeram consequências nefastas para a humanidade são analisadas no ótimo 10 Livros que Estragaram o Mundo, de Benjamin Wicker, publicado no Brasil pela Vide Editorial. O capítulo 7 é todo dedicado a Darwin e ao seu A Descendência do Homem.

Sem exageros, esse outro livro de Charles Darwin força até seu maior defensor a encarar um fato desagradável: se é verdade tudo o que ele disse em seu livro mais conhecido, então, por consequência, os seres humanos devem garantir que os mais aptos entre eles se reproduzam, e os inaptos sejam eliminados. As tentativas de dissociar o nome de Darwin dos movimentos eugênicos datam de um pouco depois da Segunda Guerra Mundial, quando Hitler já havia legado uma péssima reputação à teoria da seleção natural aplicada aos seres humanos. “Mas é impossível desligar Darwin da eugenia”, afirma John Wiker. “Trata-se de uma conexão direta e lógica entre ela e seus argumentos sobre a evolução.”

É senso comum que os argumentos de Darwin a respeito da seleção natural, expostos no A Origem das Espécies (1859), podem ser resumidos como “a sobrevivência do mais apto” – ainda que tal termo não apareça na primeira edição do livro; Darwin tomou-o posteriormente de Herbert Spencer, um dos primeiros e mais ferrenhos defensores do darwinismo social.

Curiosamente, Darwin não escreveu nada a respeito dos seres humanos no A Origem das Espécies. Ele esperou quase uma década e aí então o escreveu sobre isso em A Descendência do Homem. Por que ele omitira os seres humanos na discussão sobre a evolução em seu best-seller? Nele, Darwin evita a questão: “E quanto a nós, seres humanos, que também apresentamos variações e também nos reproduzimos, como os animais, isso tudo não se aplica a nós?”

Bem prudentemente (no sentido grosseiro do termo, assinala Wiker), Darwin evitou misturar os seres humanos ao seu argumento em A Origem das Espécies. Ele sabia que, se fizesse isso, sua teoria seria rejeitada; ela já era controversa o bastante. Havia 50 anos, ou mais, que a evolução vinha sendo associada a partidários políticos radicais, bradada por revolucionários franceses e ateus de sarjeta (você leu corretamente: Darwin não “descobriu” a evolução; ela já era uma opinião que corria pelos círculos mais radicais há pelo menos um século – se não dois – antes de Darwin, e pode-se traçar suas origens em Epicuro, filósofo da Grécia antiga). Mas Darwin não estava pregando para a assembleia dos radicais; ele queria que sua teoria fosse ouvida pelos baluartes conservadores da elite científica da Inglaterra.

Foi o próprio primo de Darwin, Francis Galton, quem primeiro esclareceu as óbvias conclusões do Origem para a raça humana, num artigo em duas partes na revista Macmillan’s Magazine, em 1865, e depois de modo mais completo, em seu livro Hereditary Genius (1869). Darwin o seguiu imediatamente com o seu A Descendência do Homem. A conclusão mais óbvia foi a eugenia. Galton cunha esse termo,* mas é Darwin quem estabelece seus fundamentos e tira dele suas implicações nefastas.

Sejamos claros quanto a isso. O aspecto pernicioso do A Descendência do Homem, de Darwin, a sordidez mais profunda desse livro, é a eugenia: a ideia de que a “sobrevivência do mais apto” deveria ser aplicada aos seres humanos. A eugenia é uma ciência prática, que aplica a noção de que os seres humanos deveriam ser criados como cavalos de corrida – ou, mais precisamente, animais de fazenda. Os melhores podem se reproduzir; os piores (ou “inaptos”) devem ser eliminados. Uma ideia que os nazistas aplicariam de modo particularmente efetivo. Da maneira como eles entendiam, a própria natureza favorece os mais fortes e renega os mais fracos; a sociedade não deveria proteger artificialmente os mais fracos de sua própria destruição, e sim colaborar com a seleção natural, varrendo os mais fracos da existência por meios mais eficazes ainda.

Não é uma acusação abstrata que Darwin seja o pai dessa noção maligna. Atenção para as palavras do próprio na parte 1, capítulo 5, página 168 de A Descendência, ao descrever os efeitos prejudiciais da caridade civilizada. Segundo Darwin, ao contrário de nós, civilizados, os selvagens curvam-se ao princípio da sobrevivência do mais forte – e é melhor para eles:

“Entre os selvagens, os mais fracos física ou mentalmente são logo eliminados; e aqueles que sobrevivem geralmente são portadores de um estado vigoroso de saúde [...]. Nós homens civilizados, por outro lado, fazemos o máximo que podemos para reprimir esse processo de eliminação; construímos asilos para os imbecis, os mutilados e os doentes; instituímos leis para beneficiar os pobres; e nossos médicos gastam suas habilidades mais extremas para salvar a vida de qualquer um, até o último instante. [...] E eis que os membros mais fracos de uma civilização propagaram suas crias. Ninguém que já tenha se dedicado à criação de animais domésticos pode duvidar que isso é extremamente ofensivo à raça humana. É surpreendente o quão cedo a ausência de cuidados, ou o mau direcionamento dos cuidados pode degenerar a raça de um animal doméstico; mas, exceto no caso da procriação da própria espécie, raramente um homem é tão ignorante ao ponto de permitir que seus piores animais se reproduzam.”

Darwin não poderia ter sido mais direto. “O mau direcionamento dos cuidados” é a causa da recaída evolucionária da civilização (Ibid., Parte 1, cap. 5, p. 177):

“Se [...] várias limitações [...] não forem capazes de prevenir que os desocupados, os viciados e outros membros inferiores da sociedade cresçam em maior escala e rapidez que a classe dos melhores homens, a nação irá regredir, como já ocorreu várias vezes ao longo da história do mundo. Devemos nos lembrar de que o progresso não é uma lei invariável.”

Aqui Wiker faz um leve desvio histórico e assinala que, embora os atuais livros de biologia do ensino médio deixem de fora as implicações eugênicas do darwinismo, em sua seção sobre a evolução, nem sempre foi esse o caso. Veja um texto de Biologia do ensino médio de 1917:

“O APERFEIÇOAMENTO DO HOMEM – Se o estoque de animais domésticos pode ser aperfeiçoado, não é de todo injusto que nos perguntemos se a saúde e a vitalidade do homem e da mulher das futuras gerações não poderiam ser aperfeiçoadas se eles se submetessem às leis da seleção natural.”

“EUGENIA – Quando duas pessoas se casam, há certas coisas que não só os esposos como também todos da sociedade devem exigir. A mais importante delas é a imunidade quanto a doenças embriológicas que podem ser transmitidas às futuras gerações. A tuberculose, aquela peste branca pavorosa que ainda é responsável por quase um sétimo das mortes, a epilepsia e a debilidade mental são obstáculos não só injustos como também criminosos demais para serem repassados para a posteridade. A ciência de ser bem-nascido chama-se eugenia.”

O livro continua, alertando os alunos a respeito da família Jukes, cujos notórios defeitos mentais e morais foram passados por gerações em um estado de degradação ainda mais notório. Dos 480 descendentes do par original, “33 eram sexualmente imorais, 24 foram confirmados como bêbados, três eram epilépticos e 143 eram débeis mentais”. O livro segue:

“O PARASITISMO E SEU CUSTO PARA A SOCIEDADE – Centenas de famílias como essa descrita acima existem hoje, ainda espalhando suas doenças, imoralidades e crimes por todas as partes do país. O custo dessas famílias para a sociedade é bem severo. Assim como certos animais ou plantas tornam-se parasitas de outros animais ou outras plantas, essas famílias tornaram-se parasitas da sociedade. Eles não só ameaçam a sociedade porque corrompem, roubam ou espalham doenças, mas eles são ainda protegidos e cuidados pelo estado com o dinheiro público. [...] Eles tomam muito da sociedade, mas não dão nada em troca.”

“A SOLUÇÃO – Se tais pessoas fossem animais inferiores, provavelmente poderíamos matá-los e assim prevenir que se proliferassem. A humanidade não irá permitir que isso aconteça, mas nós temos a saída de colocá-los em asilos separados por sexo, ou em outros lugares, e de várias formas podemos prevenir que se casem entre si e continuem perpetuando uma raça tão baixa e degenerada. Soluções como essas foram testadas com sucesso em países da Europa e agora estão obtendo sucesso aqui nos Estados Unidos também.”

Parece um texto escrito por um biólogo proto-nazista... mas os trechos são do livro A Civic Biology,[1] de George William Hunter (p. 261-263). Esse era o livro de biologia de ensino médio que estava em questão no famoso Julgamento de Scopes, em 1925.[2] Era o livro pró-evolucionista que as forças progressistas lideradas pelo advogado Clarence Darrow defendiam contra os “fundamentalistas” representados pelo advogado William Jennings Bryan. Seria esclarecedor ouvir esses trechos acima sendo ditos pelo ator Spencer Tracy (no papel que faz referência a Clarence Darrow, o advogado progressista) naquela megapeça de propaganda hollywoodiana, O Vento Será Tua Herança.[3] Pena que foram cortados!

O ponto aqui é que o pensamento pró-eugenia não foi algo anexado a Darwin por brutamontes alemães fardados da década de 1930; ao contrário, era e é uma implicação direta da teoria evolucionista de Darwin, que ele mesmo enfatiza em seu livro A Descendência do Homem. Na segunda metade do século 19 e na primeira metade do século 20, a eugenia era famosa não apenas na Alemanha, como também em muitas partes da Europa e da América, considerada uma implicação legítima dos estudos de Darwin, porque ele próprio fez essa dedução e, portanto, constava nos livros e materiais didáticos de biologia – inclusive na América.

Para sermos justos com Darwin, ele recuou e não sugeriu explicitamente o extermínio direto (como fez Hunter em A Civic Biology, ainda que relutantemente), mas não porque a misericórdia seja algo incondicionalmente bom. Afinal de contas, a misericórdia é nada mais que um subproduto de forças evolutivas cegas, meramente um “resultado acidental do instinto de compaixão, originalmente adquirido como parte dos instintos sociais” (The Descent of Men, parte I, cap. 5, p. 168).

Traduzindo: Darwin acreditava que a moralidade não era nem algo natural, nem dado por Deus, mas resultado da seleção natural. Quaisquer ações, atitudes ou paixões que contribuíssem para a sobrevivência de um indivíduo ou grupo eram naturalmente selecionadas. Como os que andam em bando podem facilmente sobrepujar os solitários, o “instinto social” é naturalmente selecionado. Dentro do instinto social, há um “subtraço”: a compaixão, que nos faz ficar tristes ou desconfortáveis com o sofrimento ou o extermínio alheio. Segundo Darwin, em algum lugar do mundo a compaixão contribuiu mais para a sobrevivência do que a selvageria e, conforme a lei da seleção natural, “aquelas comunidades, nas quais se via um grande número de membros dotados de compaixão, eram [portanto] as que floresciam melhor e carregavam o maior número de crias” (Ibid., parte I, cap. 3, p. 82).

Mas lembre-se de que a compaixão não é considerada algo essencialmente bom; veio de variações genéticas aleatórias e indiferentes, tão moral quanto ser ruivo, ter olhos azuis ou mandíbula proeminente. Para Darwin, aquilo que chamamos de “moral” são simples traços que, de algum modo, contribuíram para a sobrevivência dos nossos antepassados. O estranho é: Darwin chegou a dizer que não podemos “restringir nossa compaixão, se a isso formos forçados pela dura racionalização, sem que deterioremos a parte mais nobre de nossa natureza”. Estranho, porque a evolução não visava a nenhum fim nobre, mas ao uso de traços específicos em circunstâncias específicas; ainda que a compaixão tenha ajudado a unir certo grupo de pessoas, poderia se tornar um perigo para eles quando a carga de “inaptos” suportada se torna tão pesada que os prejudique seriamente num conflito com outro grupo de pessoas que não carrega esse fardo da compaixão.

Por alguma razão, Darwin não estava disposto a arcar com as consequências da própria teoria. “Portanto, devemos suportar sem reclamar”, ele escreve, com um ar melancólico, “os efeitos sem dúvida maléficos da sobrevivência e da propagação dos mais fracos.” No entanto, sugere que “os membros mais fracos e inferiores da sociedade” poderiam pelo menos se conter e não “se casarem livremente como o vento”, ou melhor ainda, poderiam “abster-se do casamento” completamente.

Como qualquer um familiarizado com a história do movimento pró-eugenia sabe, o encanto de Darwin com a compaixão foi logo abandonado, e a dura racionalização prevaleceu. Em todo caso, isso não significa que Darwin saiu de moda. Os argumentos pró-eugenia, ferrenhos o quanto fossem, continuaram bem conformados aos princípios darwinistas e eram defendidos por algumas das mentes mais celebradas da Europa e da América.[4]

A eugenia darwiniana guarda outra reviravolta interessante. Nós frequentemente ouvimos falar de sua antipatia quanto à escravidão, e portanto assumimos que ele jamais assumiria posições racistas. De fato, parecia que o racismo seria anulado pelo avanço evolutivo da compaixão. Nas inspiradoras palavras de Darwin (The Descent of Men, parte I, cap. 3, p. 103):

“Conforme o homem vem avançando gradualmente em poder intelectual, tornando-se capaz de traçar as consequências mais remotas de suas ações; conforme vem adquirindo o conhecimento suficiente para rejeitar costumes nocivos e superstições; conforme vem respeitando mais e mais não apenas o bem-estar, como também a felicidade de seus colegas de espécie; conforme vem se habituando, através de boas experiências, boa instrução e bons exemplos, a tornar sua compaixão ainda mais tenra e difundida, o bastante para abarcar todas as raças humanas, os deficientes físicos e mentais e outros membros inúteis da sociedade, até finalmente alcançar os animais inferiores – assim aumenta mais e mais o padrão de sua moralidade.”

Por mais belas que soem tais palavras, há dois poréns. Primeiro: há poucos conceitos morais tão escorregadios quanto o de compaixão. No melhor dos casos, pode substituir a bondade nas ações humanas pela mera simpatia (“mas mesmo um ladrão pode ser bem educado”, lembra Wiker). No pior dos casos, ele apaga todos os limites entre os seres humanos e todos os outros seres viventes. Ao tentar tratar todos os seres vivos como partes de um todo moral, acaba invertendo toda a ordem moral e ainda arrasta junto dela a ordem natural. O resultado é o ativista dos direitos dos animais que, transbordando de compaixão pelos chimpanzés, destrói clínicas e clínicas de pesquisa médica.

Esse aspecto escorregadio da compaixão escora-se no argumento central do livro A Descendência do Homem: o pressuposto de que os seres humanos não são senão mais uma espécie animal dentro do espectro evolutivo. Se somos apenas mais uma espécie animal e nossos traços “morais” são como qualquer outro traço evolutivo, então não somos moralmente diferentes de nenhuma outra espécie animal. E, de fato, conforme o argumento de Darwin em inúmeras passagens, os animais possuiriam algo como traços morais também, que difeririam dos nossos em grau, mas não em natureza.

Seja considerando-nos amorais ou considerando os animais como sujeitos morais, a diferença moral entre os seres humanos e o restante dos animais torna-se esfumaçada, se não completamente apagada. É o que levou os ativistas dos direitos animais à conclusão de que, se os seres humanos têm direitos, os animais também têm. A lógica é simples: a compaixão é o traço moral mais importante; ter compaixão é sentir-se mal com o sofrimento alheio; animais não só sofrem, como também dão sinais de que sentem compaixão; portanto, eles são tão morais quanto nós, e se nós temos direitos, eles também devem tê-los. Bem que alguém poderia pensar que, se nós cometemos falhas morais, então os animais também devem cometê-las; no entanto, os ativistas dos direitos animais não estendem a culpa moral ao resto do reino animal. Wiker jocosamente lamenta que nem ao menos um desses ativistas vá às fazendas para protestar contra o tratamento brutal que os galos dão às suas companheiras galinhas...

O segundo porém vem do próprio Darwin. No esquema darwiniano, a compaixão é apenas um dos variados efeitos da seleção natural. A raça é outro deles. As diferentes raças de homens são como as diferentes raças de cachorro. Elas são o resultado de desenvolvimentos evolutivos divergentes. Compreende-se de modo mais adequado as distintas raças humanas – Darwin nos informa – considerando-as como “subespécies”, ou seja, em algum lugar da transição entre raças distintas e espécies distintas (Ibid., parte I, cap. 7, p. 235).

Para Darwin, conforme o tempo passar, a diferença entre as raças humanas levará à evolução de espécies totalmente diferentes. Não que isso vá ocorrer quando os chineses tornarem-se uma nova espécie, enquanto os ingleses e os africanos se tornarão outras, mas sim quando houver a eliminação de algumas raças pelas mãos de outras, de acordo com a lei da sobrevivência do mais forte. É uma das leis da evolução a de que espécies e subespécies mais parecidas entre si são as mais propensas a entrarem em conflito, e, portanto, numa série de espécies ou subespécies parecidas que se tome de um espectro maior – composto, digamos, das espécies A, B, C, D, E, F, G e H –, as “do meio” serão espremidas para fora do combate pelas duas mais distantes e distintas (no caso, A e H), que sobreviverão como as mais aptas. Essa mesma regra aplica-se às raças humanas também, e devemos nos lembrar de que, para Darwin, as raças humanas existem dentro de um espectro evolutivo mais amplo, no qual se incluem os gorilas, os orangotangos, os chimpanzés e cia.

Aí vem a pior parte. A evolução se dá através da competição, e a competição traz a extinção. De fato, Darwin nota que “a extinção segue-se prioritariamente à competição de tribo com tribo, raça com raça [...]. Quando nações civilizadas entram em choque com bárbaros, o combate é curto, exceto quando uma condição climática favorece a raça dos nativos” (Ibid., parte I, cap. 7, p. 238). Não é uma reclamação moralista; é uma descrição científica notável, pronunciada sem o menor traço de exaltação. E é também uma profecia (Ibid., parte I, cap. 6, p. 201):

“Num período futuro, não muito distante se formos medir em séculos, as raças humanas civilizadas irão, com quase certeza, exterminar e substituir, ao redor do mundo, as raças mais selvagens. Ao mesmo tempo, os macacos antropomórficos [ou seja, os que mais se parecem com homens] [...] sem dúvida serão exterminados. O intervalo será maior, então, pois que se estenderá entre o homem num estado mais civilizado ainda – esperamos – do que o caucasiano de hoje e, no outro extremo, algum macaco inferior, como um babuíno, ao invés de, como é hoje, o negro, o aborígene australiano e o gorila.”

Entendeu? No ranking das raças humanas, encontramos no topo o caucasiano, e na extremidade inferior, pendendo no limite da humanidade, “o negro, o aborígene australiano”, que, na escala evolucionária, estão a um fio de cabelo do gorila antropomórfico. Ao puxar para cima o supercaucasiano, a evolução também extermina todas as “espécies intermediárias”, e então a seleção natural dará conta do negro, do aborígene australiano e do gorila.

“O problema com as profecias científicas, especialmente as pseudoprofecias científicas” – alerta John Wiker – “é que elas são muito frequentemente tomadas como destino inevitável.” Não é bom apoiar-se na opinião de Darwin a respeito da compaixão para tentar isentá-lo da culpa pela eugenia atroz e racista praticada pelos nazistas. Após ler A Descendência do Homem, não se pode dizer que Darwin não tinha a intenção de que a teoria biológica da evolução fosse aplicada aos seres humanos. Tampouco se pode desconsiderar suas palavras maliciosas, e dizer: “Ele foi apenas um homem de seu tempo”; foi Darwin quem moldou o seu tempo – e, como podemos ver nos capítulos seguintes do 10 Livros, moldou também o tempo daqueles que o sucederam.

(Adaptado por Roberto Felippe Santiago do capítulo 7 de 10 Livros que Estragaram o Mundo)

[1] G. W. Hunter (1873-1948), “Biologia civilizacional”, em tradução livre. Foi publicado nos EUA primeiramente em 1914 (pela American Book Company), mas foi em 1925 que o estado americano de Tennessee impôs que os professores de ensino médio de suas escolas públicas utilizassem-no em suas aulas de biologia. O livro ficou conhecido justamente pelas seções – polêmicas, para dizer o mínimo – em que tratava do evolucionismo – NT.

[2] Em 1925, meses antes de o estado americano de Tennessee impor que os professores de ensino médio da rede pública usassem o livro de G. W. Hunter, A Civic Biology, em suas aulas de biologia (v. nota anterior), o mesmo estado havia aprovado uma lei, conhecida como The Butler Act (algo como “a Lei Butler”), pela qual proibia o ensino da Teoria da Evolução em todas as universidades e escolas públicas de Tennessee que fossem total ou parcialmente bancadas pelos fundos estatais, e instituía a penalização dos infratores; em suas seções, a lei especificamente proibia o ensino de qualquer teoria que negasse o relato bíblico do Gênesis a respeito da criação do homem e, ao invés disso, ensinasse que o homem evoluiu de espécies animais inferiores – a penalização para os infratores variaria entre U$100 e U$500 (o texto integral da lei, em inglês, pode ser conferido aqui, junto de sua revogação, que veio em 1967). A União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU, em inglês), em resposta à instituição dessa lei (que, diziam, feria as liberdades dos professores), bancou o professor substituto de biologia John Scopes para que ele atentasse contra a Lei Butler e usasse o A Civic Biology em suas aulas sobre evolucionismo, o que ele fez, sendo em seguida acusado pelo estado, num processo-teste programado mesmo para ser um mega-acontecimento com transmissão nacional pelo rádio, no qual ele seria representado pela bancada progressista da ACLU, liderada pelo famoso advogado Clarence Darrow, e o estado seria representado por outro famoso advogado, três vezes candidato a Presidente da República, William Jennings Bryan. No fim, o veredicto primeiro da corte foi que John Scopes era culpado e teria de pagar U$100 pela infração; no entanto, o veredicto foi logo revisto e, por uma questão técnica menor (a de que era obrigação do júri, e não da corte, estabelecer o valor da multa), Scopes foi inocentado. O caso, porém (que ficou conhecido como “The Monkey Trial”), já tinha atingido seu objetivo de popularizar a questão criacionismo x evolucionismo em nível nacional e teve repercussões assombrosas, chegando a ser considerado como um dos maiores responsáveis pelo costume que se criou no país de se ridicularizar as argumentações religiosas contrárias à Teoria da Evolução (cf. Edward J. Larson, Summer for the Gods: The Scopes Trialand America’s Continuing Debate over Science and Religion, New York: Basic Books, 1997) – NT.

[3] O título do filme, em inglês, é Inherit the Wind (1960), que originalmente é uma peça que representa o Julgamento de Scopes. Foi escrita em 1955 e ganhou várias adaptações no cinema e na televisão. Nessa de 1960, o celebrado ator americano Spencer Tracy interpreta uma personagem chamada Henry Drummond, que é a representação do advogado Clarence Darrow. O jornalista polêmico H. L. Mencken (v. nota anterior) também está representado no filme pela personagem E. K. Hornbeck, interpretada pelo celebrado Gene Kelly (de Cantando na Chuva) – NT.

[4] Aqueles que ainda querem acreditar que a eugenia só foi cozida mais tarde por Hitler e alguns de seus comparsas simiescos da S.S. devem ler: Richard Weikart, From Darwin to Hitler: Evolutionary Ethics, Eugenics, and Racism in Germany, New York: Palgrave Macmillan, 2004; Edwin Black, War Against the Weak: Eugenics and America’s Campaign to Create a Master Race, New York: Four Walls Eight Windows, 2003; e Stefan Kühl, The Nazi Connection: Eugenics, American Racism, and German National Socialism, Oxford: Oxford University Press, 1994.

Leia também: Darwin e as mulheres, Hitler e Darwin, Darwin influenciou a grande marcha de Mao Tse-Tung e A influência do darwinismo sobre ditadores assassinos