quinta-feira, outubro 04, 2018

Vencedores do Nobel de química provaram a evolução?


O Prêmio Nobel de Química deste ano ficou com três cientistas: a norte-americana Frances Arnold, o norte-americano George Smith e o britânico Gregory Winter. Jornais por aí dizem que os premiados assumiram o controle da evolução e usaram a mudança genética e a seleção para desenvolver proteínas que resolvem os problemas químicos da humanidade. “Os métodos que os premiados desenvolveram servem para promover uma indústria química mais verde, amiga do ambiente, produzir novos materiais, fabricar biocombustíveis sustentáveis, tratar doenças e, assim, salvar vidas”, disse o comitê do Nobel.

Entre as mais ufanistas está a reportagem da BBC. Ali é dito que “a evolução foi premiada pelo prêmio Nobel de Química de 2018”. Mas, afinal, o que os premiados fizeram? Eles finalmente provaram que a teoria da evolução é um fato?

Obviamente, o que foi realizado por Frances, Smith e Winter não foi pouca coisa. E isso não está em questão. O que quero discutir é o oportunismo dos evolucionistas em promover sua ideologia macroevolutiva com base em fatos que, na realidade, não a provam.

terça-feira, outubro 02, 2018

Darwin presidente: o evolucionismo na base (de toda) política (parte 1)

Com a corrida eleitoral 2018 no Brasil, incendiaram-se os debates entre os candidatos (e entre a população). No entanto, poucas pessoas sabem que as ideologias de esquerda, direita e terceira posição (extrema-direita) têm algo em comum: adotam na sua base os princípios evolucionistas, não importa se incluem ou não Deus no discurso. E isso traz consequências para você. Esta é a primeira de uma série de três posts nos quais discorreremos sobre como o evolucionismo influencia todas as visões políticas que fundamentam os partidos não apenas do Brasil mas também do mundo.

Quais são as principais correntes ideológicas políticas da atualidade

Antes de partir para a questão do evolucionismo na política e sociologia, precisamos rapidamente entender os pressupostos das grandes correntes políticas que governam o mundo no século 21:

1. Marxismo. O movimento político mais bem delimitado não só no Brasil como no mundo é o Marxismo, origem dos partidos da assim chamada "esquerda". É mais bem delimitado porque, mais do que nos outros movimentos, é fácil identificar os partidos e seus integrantes, não apenas pelo vermelho que seus defensores usam, mas, principalmente, pelas pautas que eles apresentam, que seguem fielmente a cartilha dos pensadores alemães Karl Marx e Friedrich Engels em tópicos sobre capital e distribuição de renda, estrutura da família, papel do Estado, direitos das minorias, dos trabalhadores e do "proletariado", frequentemente reivindicados dos "burgueses". O Marxismo prega a distribuição da renda entre todos, a eliminação das classes sociais, a relativização do conceito de propriedade privada, a liberdade total da sexualidade humana e se opõe ao modelo familiar definido na Bíblia como sendo de criação divina, modelo esse que constitui o fundamento das sociedades ocidentais capitalistas. O marxismo influenciou fortemente a política mundial ao longo do século 20, tendo expoentes nomes como os dos ditadores Joseph Stalin, na Rússia, e Mao-Tsé Tung, na China. Houve diversos países que tentaram implantar as premissas marxistas no movimento Socialista, como Rússia, China, Vietnã, Coreia do Norte, a antiga Alemanha Oriental e outros. Na América Latina encontra forte amparo nos movimentos revolucionários que surgiram em países como Cuba e Venezuela, tendo passagens menores mas significativas em vários outros países sul-americanos.

2. Capitalismo liberal. Porém, o Marxismo surge como reação a uma configuração social mais antiga, a do capitalismo que era praticado como derivação da burguesia comercial da Europa no fim da Idade Média. Essa burguesia, por sua vez, tinha se originado da distribuição de recursos e poder nos feudos dos antigos reinos europeus, e substituiu a relação de senhorio e vassalagem que era ubíqua no Velho Continente até então. O Capitalismo não segue uma cartilha tão estreita como a do Marxismo, mas se baseia fortemente na visão  do Estado mínimo, do livre comércio, do direto à propriedade e da garantia dos contratos. Ou seja, o Capitalismo se interessa em condições favoráveis à prosperidade econômica. Ainda apregoa que a oferta e a demanda equilibram a distribuição de riquezas a preços justos, que seriam definidos por um mercado em que todos os agentes tivessem plena liberdade para estabelecer o valor de seus produtos. Estes pressupostos são obtidos na visão da "Mão Invisível" de Adam Smith e outros, e desde então vêm avançando com força até atingir o estado do chamado neoliberalismo, que bebeu fundo no poço do Tatcherismo inglês dos anos 1980. A maioria das sociedades ocidentais segue o modelo capitalista em maior ou menor grau, com destaque aos Estados Unidos que são, notadamente, a maior economia do mundo e considerados os grandes campeões dessa visão. Por ser uma espécie de rebelião contra o Capitalismo, denunciando as explorações e injustiças deste, o Marxismo é considerado "esquerda". Por inferência, então, o capitalismo passou a ser considerado "direita".

3. Terceira posição. Mas não é tão simples. Chamar de direita o que não é esquerda causa um problema de super-simplificação. Existem outras visões que não se alinham totalmente com o capitalismo liberal econômico que vimos acima. Dentre essas visões não marxistas, vamos destacar aquela que causou maior impacto no cenário geopolítico no século 20: a "extrema-direita" ou fascismo. A titulação de fascismo vem do movimento fascista italiano que surge com o general Benito Mussolini no início do século 20, seguido logo após pelo seu espelho alemão, o Nazismo, cujo expoente principal foi o ditador alemão Adolf Hitler. A história do fascismo se confunde com a das duas grandes guerras, e não dá tanta importância às questões econômicas quanto o liberalismo. A extrema direita geralmente arrebanha adeptos em torno da causa da luta contra a ameaça externa à nação, que é reverenciada como valor supremo (nacionalismo). Os Estados, na visão fascista, estariam constantemente em guerra, declarada ou não, e apenas um governo forte, mantido geralmente por um líder visionário, seria capaz de mobilizar a população, os recursos econômicos e a tecnologia para dar combate aos inimigos nacionais. Controle rígido da ordem, poder total do Estado (totalitarismo) e legitimação do uso da violência  são práticas onipresentes nos movimentos fascistas. Geralmente remetem à superioridade do povo (raça, etnia) e  ao culto às armas. Por ter pouca coisa em comum com o capitalismo liberal que vimos no tópico 2, alguns autores chamam esse movimento de "terceira posição", ou seja, o mesmo não se enquadraria totalmente nem nas premissas do capitalismo liberal, nem nas do marxismo, embora as práticas fascistas tenham muito em comum com o encontrado nas ditaduras de esquerda do século 20 e seus idealizadores tenham se posicionado como pertencendo à direita.

A Evolução e o Marxismo

A filosofia marxista é, admitidamente, um racional ateísta no qual a religião não passaria de um estratagema finamente concebido para manter as classes oprimidas (trabalhadores, pobres) debaixo do poder das classes dominantes (capitalistas, os burgueses) através do medo de um inferno e da cobiça de uma vida melhor no pós-morte. Marx chamou então a religião de "ópio do povo".[1] Na verdade, a teoria da Origem das Espécies através da Seleção Natural, do naturalista inglês Charles Darwin, foi fundamental para o desenvolvimento da teoria de Marx.[2] Marx teria enviado um exemplar da segunda edição alemã da obra O Capital ao próprio Darwin com uma nota de agradecimento e reconhecimento da valiosa contribuição da obra do naturalista britânico para a sua teoria. Engels, amigo de Marx, chegou a afirmar que Darwin "descobriu" a Evolução na biologia [sic] e que Marx havia descoberto a evolução na história social [sic].[2]

Seria, de fato, inconcebível que a filosofia marxista fosse, de alguma forma, tolerante a qualquer ideia que pudesse admitir a existência e soberania do Deus cristão, haja vista seus pressupostos. Marx rejeitava qualquer interpretação espiritual da realidade, afirmando que o presente estado de coisas nada mais é do que uma luta de agentes humanos regidos por leis físicas em busca do controle dos recursos da natureza, dando força à visão materialista da existência.[5]

Juntamente com a exclusão de Deus do racional marxista vem o alijamento das estruturas sociais judaico-cristãs tidas como sagradas no cânon bíblico. A família, na visão de Marx, era nada mais do que uma construção social que havia sido artificialmente implantada por grupos dominantes e que servia ao sistema opressor do capitalismo europeu. Marx afirmou que:
"A família moderna contém em germe não apenas a escravidão (servitus), mas também a servidão, [e] desde o princípio esta está relacionada aos serviços agrícolas. Esta contém, em miniatura, todas as contradições que mais tarde se estendem através de toda a sociedade e o seu Estado."[6, tradução livre]
Engels, possivelmente o segundo maior nome no desenvolvimento da filosofia socialista, via a família como um arranjo evolucionário ditado pelas circunstâncias dos grupos primitivos humanos que lutavam pela sobrevivência nas eras remotas. Para Engels, as famílias ocidentais se originaram e se mantêm graças à dominação masculina, que se dá através do exercício do poder econômico. Com a extinção da supremacia masculina, para o filósofo, viria paralelamente a ruína do modelo monogâmico, através da proliferação dos casos de divórcio e da prática de formas mais "livres" de "amor".[7]

A teoria da evolução, no entanto, não deixaria de produzir seus efeitos mais explícitos e funestos no pensamento marxista. Se o ateísmo, que se apropriou indevidamente de uma parte do método científico para tentar "provar" seus pressupostos materialistas e existencialistas, obteve alguns trunfos racionalistas para se estabelecer como uma verdade plausível, também abriu as portas para a miséria da não existência de um código moral universal e atemporal. Esse código seria encontrado apenas no conceito da Divindade monoteísta que tanto foi atacada por esse movimento. Também deu passagem para a consideração da moralidade (ou, ao menos, da racionalidade) do domínio do mais forte sobre o mais fraco, e também para a ideia de que existam diferenças qualitativas entre humanos e suas raças em termos evolutivos.

Curiosamente, Marx se mostrou um racista notável (ou detestável). Em 1862, sua aversão aos judeus e desprezo às raças negras levou-o a declarar a respeito de um de seus inimigos políticos:
"É agora perfeitamente claro para mim, como a forma de sua cabeça e o crescimento dos seus cabelos indicam, que ele é um descendente de negros que se uniram à fuga de Moisés do Egito (a menos que sua mãe ou avó no lado do pai tenha cruzado com um negro). Essa união de judeu e alemão em uma base negra foi de forma a produzir um híbrido extraordinário."[4, tradução livre]
Marx era adepto da frenologia, uma filosofia surgida no século 19 e que examinava a forma do crânio das pessoas para tentar definir características de personalidade e inteligência.[4] Sua declaração esboça um pensamento que dificilmente seria aceito por um indivíduo socialista do século 21.

O marxismo alegadamente defende as minorias e as classes mais baixas da sociedade, razão pela qual encontra tantos adeptos desses grupos. Mas o que não produz é a percepção de que a igualdade inerente dos homens foi destruída ao eliminar a figura do Criador como o originador da vida e das raças humanas. Esse é o aspecto normativo da igualdade do homem: respeitamos (amamos) o próximo porque ele é nosso igual, e porque isto é moral, ou seja, correto à vista do Criador.

Pode-se alegar, no entanto, que a teoria da evolução social de Marx leva não ao racismo e à intolerância, à exploração do mais fraco pelo mais forte, pelo fato de que todos os indivíduos de uma sociedade são importantes para o grupo, e podem executar uma função em prol da coletividade. No entanto, mesmo que desconsideremos que essa seja uma interpretação restrita e forçada dos pressupostos da evolução, essa visão define uma moralidade utilitarista, em um aspecto instrumental ou pragmático. Isso significa dizer que, de acordo com a sociologia evolucionista, um indivíduo só terá valor na medida em que for útil para o grupo. Na melhor das hipóteses, a sociedade humana seria um enxame de abelhas, ou talvez um pouco menos do que isso.

No próximo post da série discutiremos sobre o evolucionismo no capitalismo liberal. Não perca!

Alexsander Silva

Referências:

creation.com
The Doctrine of Fascism by Benito Mussolini (1932) (in English
Authorized translation of Mussolini's "The Political and Social Doctrine of Fascism" (1933)
Readings on Fascism and National Socialism by Various – Project Gutenberg
"Eternal Fascism: Fourteen Ways of Looking at a Blackshirt"Umberto E
(1) MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Marxists Internet Archive
(2) Engels, F., Selected Works, 3 vols., International Publishers, New York, p. 153, 1950.
(3) Kirschke, S., Darwin Today, Geissler, E. and Scheler, W. (Eds.), Akademie-Verlag, Berlin, p. 55, 1983.
(4) Marx and Engels, 41, p. 388-390, in: The making of modern economics: The lives and ideas of the great thinkers, p. 146. 
(5) Kelly, J.M., A Short History of Western Legal Theory, Oxford University Press, Oxford, p. 309, 2007.
(6) Marx, K. in: Engels, F.  Origins of the family. Marxists Internet archive.
(7) Engels, F.  Origins of the family. Marxists Internet archive.

A relação “oxigênio e gigantismo” antes do dilúvio

Os paleontólogos sempre se perguntaram por que os animais e vegetais gigantes se limitam ao registro fóssil. Como os níveis de oxigênio no tempo influenciaram a evolução dos seres vivos? Essa é outra questão evolutiva recorrente. Enquanto evolucionistas, a partir de uma cosmovisão naturalista, fazem pesquisas nessa área para interpretar a evolução das espécies ao longo da história do planeta – que supostamente teria passado por concentrações diferentes de oxigênio em sua atmosfera durante o fenerozóico1 – os criacionistas, a partir da cosmovisão bíblica, também entendem a importância e o papel que o oxigênio, em maiores concentrações, teve durante o período pré-diluviano e o impacto causado, agora sob menor concentração, após o dilúvio. Há certo consenso de que no passado a atmosfera do planeta tinha cerca de 50% mais oxigênio do que hoje (35% de O2 no passado comparados aos 21% atuais).2-4 A única diferença entre evolucionistas e criacionistas é em termos de interpretação da época em que isso ocorreu.Por outro lado, um parêntese deve ser feito. Existem algumas poucas evidências que contestam essa ideia.5

Controvérsias à parte, a National Geographic descreveu o cenário evolucionista da seguinte forma:

"Para os insetos gigantes que vagavam pela Terra há 300 milhões de anos [sic], havia algo especial no ar. Uma concentração maior de oxigênio na atmosfera permitia que as libélulas crescessem ao tamanho de gaviões e alguns insetos semelhantes a milípedes alcançassem cerca de 1,80 m (dois metros) de comprimento [...]. Durante o período carbonífero tardio (354 a 290 milhões de anos atrás [sic]), os níveis de oxigênio eram muito mais elevados do que são agora, em parte porque os pântanos de carvão que liberavam o gás no ar eram muito comuns. ‘Naquela época, havia entre 31 e 35% de oxigênio no ar’, disse Kaiser, principal autor do estudo. ‘Agora, temos cerca de 21%. Isso significava que os insetos precisavam de quantidades menores de ar para suprir suas demandas de oxigênio, permitindo que as criaturas crescessem muito mais.’"6



Figura 1: representação de um milípede que viveu no passado, com cerca de 2 metros.



Figura 2: representação de uma libélula que viveu no passado, com mais de 70 cm de diâmetro.

Em 2010, uma pesquisa criou insetos em câmaras hiperbáricas que simulavam as condições de oxigênio da suposta atmosfera da Terra há 300 milhões de anos (durante a Era Paleozóica).8 Sob variadas concentrações de oxigênio os autores do estudo analisaram as mudanças no crescimento corporal e no tamanho da traqueia. Assim como nem todos os insetos eram grandes no passado alguns deles também não crescem muito hoje, mesmo coma presença de maior concentração de oxigênio.

O motivo de essas mudanças acontecerem pode estar nos tubos traqueais ocos dos insetos. As baratas não cresceram mais do que o normal sob diferentes condições de oxigênio, mas as libélulas crescem 20% quando são criadas com um aumento de 10% no oxigênio. A pesquisa oferece mais apoio à ideia de que grandes animais antigos e altas concentrações de oxigênio não eram meras coincidências.

Figura 3: Megaloprepus caerulatus, a maior espécie de libélula existente (esquerda) e Macropanesthia rhinoceros, a maior espécie de barata existente (direita).



Outro estudo feito com as larvas da mosca-pedra sugeriu que o motivo para os insetos do passado crescerem tanto na presença de mais oxigênio possa estar relacionado ao fato de os insetos na forma larval precisarem crescer mais para evitar o envenenamento por oxigênio.9 "Achamos que não é só porque o oxigênio afeta os adultos, mas porque o oxigênio tem um efeito maior sobre as larvas", disse o co-autor Wilco Verberk, da Universidade de Plymouth, no Reino Unido.

No entanto, muitos podem pensar: mas o oxigênio não é letal em condições hiperóxidas? Um estudo foi conduzido em 2007 com Drosophilas (moscas-das-frutas) submetendo-as, em laboratório, a uma atmosfera com 90% de O2.10 Esses níveis deveriam ser letais em moscas que não foram submetidas à seleção, pois tais condições hiperóxidas levam a níveis muito altos de estresse oxidativo. 

Porém, essas moscas sobreviveram e se tornaram 20% mais pesadas com corpos e envergaduras maiores em relação às moscas normais. Os pesquisadores descobriram mudanças na expressão de alguns de seus genes, por exemplo, regulando positivamente dois genes que produzem um peptídeo antibacteriano e diminuindo a expressão de alguns genes envolvidos em vias metabólicas. Ademais, estudos foram feitos com diferentes espécies de besouros e a associação entre oxigênio e gigantismo também foi confirmada.11

Aves
Outro estudo descobriu que os efeitos físicos da densidade variável de gases que compõem a atmosfera – isto é, mais concentração de O2 e pressão atmosférica – também podem influenciar adaptações morfológicas e fisiológicas de aves durante o voo.12 Para os autores, “a variação global na composição atmosférica durante o Paleozóico tardio também pode ter influenciado a evolução inicial e a subsequente diversificação dos pterigotos ancestrais”.

Mamíferos
Quando partimos para a investigação do mundo celular também encontramos associação com o crescimento de células na presença de mais O2, principalmente células de mamíferos (macacos e ratos).13 O conhecimento popular em relação ao oxigênio é o de que, embora essencial para o crescimento de células de mamíferos in vitro e in vivo, é considerado tóxico em concentrações iguais ou acima da concentração de oxigênio em meio de cultura (cerca de 200 microM). 

No entanto, como afirmam os pesquisadores, “ficamos surpresos ao notar que uma linha de células B humanas diplóides (TK6) foi capaz de proliferar normalmente enquanto exposta a 380 microM de oxigênio [ou seja, o dobro da concentração de O2]. Nenhum efeito adverso do oxigênio na sobrevivência das células foi observado para concentrações variando de 60 microM a 410 microM”.

Outro estudo analisou camundongos machos com cinco semanas de idade estimulados a beber livremente água de um bebedouro contendo nanobolhas de oxigênio ou de água normal por 12 semanas.14 As nanobolhas de oxigênio aumentaram significativamente a concentração de oxigênio dissolvido na água. A da água oxigenada promoveu significativamente o aumento do peso e o comprimento de camundongos, comparado ao da água normal.

Outro estudo publicado em 2005 na Science encontrou evidências de que desde o suposto limite Triássico-Jurássico até o presente momento houve variações – de 10% para 23% – no nível de oxigênio atmosférico.15 Numa perspectiva evolucionista, os primeiros mamíferos que surgiram há cerca de 190 milhões de anos atrás eram minúsculos. O estudo sugere que a abundância de oxigênio, que veio logo após a extinção dos dinossauros, poderia ter contribuído para a radiação adaptativa de mamíferos placentários gigantes, como a preguiça de 3 metros.

Os dados vêm de núcleos de sedimentos de águas profundas, datados de 205 milhões de anos atrás, que contêm minerais inorgânicos ricos em carbono, assim como os restos orgânicos do fitoplâncton marinho unicelular. De acordo com a perspectiva evolutiva, esses organismos teriam gerado oxigênio através da fotossíntese e, no processo, deixaram uma assinatura química alterando a proporção dos dois isótopos estáveis ​​de carbono - carbono 13 e carbono 12 - nos sedimentos. Ao comparar a quantidade de carbono 13 nas partículas inorgânicas com a ausência de carbono 13 na matéria orgânica, os cientistas podem estimar quanto oxigênio estava presente na atmosfera naquele momento.

Lagosta
Um estudo analisou a lagosta (Jasus lalandii) sob efeito da exposição em longo prazo a vários níveis de oxigênio em condições de laboratório durante um período de 11 meses. A tendência geral foi uma diminuição no crescimento com níveis decrescentes de saturação de oxigênio.16

Peixes
Um estudo utilizou nanobolhas de ar ou gás oxigênio a fim de investigar o crescimento de peixes.14 O peso total do peixe de água doce aumentou de 3,0 para 6,4 kg em água normal, enquanto aumentou de 3,0 para 10,2 kg em água com nanobolhas de oxigênio. Além disso, o peso total do peixe aumentou de 50 para 129,5 kg em água normal, enquanto aumentou de 50 para 148,0 kg em água com nanobolhas de oxigênio. 

Vegetais
Em, 1997, foi feita uma pesquisa com tomates na qual as plantas de tomateiro foram cultivadas sob alta concentração de O2.17 O resultado foi um aumento acentuado no crescimento das plantas, medido pelo peso da parte aérea e da raiz. Os cientistas perceberam que as plantas altamente oxigenadas permaneceram saudáveis ​​durante todo o experimento e mostraram uma diminuição significativa na colonização da raiz por patógenos em relação aos grupos de plantas submetidas a diferentes condições.

Em 2010 foi feita uma aplicação de oxigênio puro de alta pressão (95% O2) em cultivos da alface.18 O crescimento das plantas de alface tratadas pelo oxigênio altamente concentrado (23 mg/l) foi 2,1 vezes maior que o tratado pela aeração do ar ambiente. Assim, constatou-se que o fornecimento de maior concentração de O2 foi efetivo para melhorar o crescimento das plantas de alface.

Por que o mundo pré-diluviano continha mais oxigênio? E de onde vinha essa concentração maior de oxigênio? Bem, pode ser porque o mundo pré-diluviano apresentava muito mais vegetação produtora de oxigênio, possivelmente, devido a maior área de terra e 'florestas flutuantes', muitas das quais foram enterradas durante o dilúvio.19


 Figura 4: representação diagramática de uma floresta flutuante.

Fato é que, embora o mecanismo que faz com que os insetos cresça na presença de mais O2 ainda esteja sendo investigado, as evidências de associação positiva entre maior concentração de O2 (além de pressão atmosférica) e gigantismos apresentam implicações bíblicas e são mais bem explicadas pelo modelo criacionista de um mundo pré-diluviano mais próximo da perfeição e mais degenerado após o episódio do dilúvio global que teria influenciado os fatores relacionados à atmosfera terrestre. Cada vez mais as peças vão sendo encaixadas nesse enorme quebra-cabeça da real história das nossas origens.

Entretanto, esse tema exige mais pesquisas aprofundadas e a sugestão para os próximos pesquisadores é a de que desvendem uma importante questão que, até onde sei, não foi investigada pela comunidade criacionista: a combustão. A partir de uma perspectiva evolutiva, o Dr. Ian J Glasspool do The Field Museum explicou que "a concentração atmosférica de oxigênio está fortemente relacionada à inflamabilidade. Em níveis abaixo de 15%, os incêndios florestais não poderiam ter se espalhado. Entretanto, em níveis acima de 25%, plantas úmidas poderiam ter queimado cerca de 30 a 35%, como foi proposto para o Paleozóico tardio, e os incêndios florestais teriam sido freqüentes e catastróficos".20 Como resolver essa questão para um cenário antediluviano? Qual seria o mecanismo de regulação que o planeta, com sua atmosfera diferenciada, apresentaria para evitar essa possível combustão?

(Fernando Alves)

Referências:
1. Berner RA, et al. Phanerozoic atmospheric oxygen. Annual Review of Earth and Planetary Sciences 2003;31:105-134.2. Berner RA, Landis GP. Gas bubbles in fossil amber as possible indicators of the major gas composition of ancient air. Science. 1988; 239(4846):1406-9.
3. Bellis D, Wolberg DL. Analysis of gaseous inclusions in fossil resin from a late cretaceous stratigraphic sequence. Global and Planetary Change 1991; 5(1-2):69-82.
4.  Berner RA, Petsch ST. The Sulfur Cycle and Atmospheric Oxygen. Science. 2000; 282(5393):1426-7.
5.  Tappert R, et al. Stable carbon isotopes of C3 plant resins and ambers record changes in atmospheric oxygen since the Triassic. Geochimica et Cosmochimica Acta 2013; 121:240-262.
6. Hamashige H. Giant Bugs a Thing of the Past, Study Suggests. National Geographic (30/07/2007).
7.  Graham JB, et al. Implications of the later Palaeozoic oxygen pulse for physiology and evolution. Nature. 1995; 375:117-120.
8. Harrison JF, Kaiser A, VandenBrooks JM. Atmospheric oxygen level and the evolution of insect body size. Proc Biol Sci. 2010 Jul 7;277(1690):1937-46.
9. Verberk WCEP, Bilton DT. Can Oxygen Set Thermal Limits in an Insect and Drive Gigantism? PLoS ONE. 2011;6(7):e22610.
10.  Zhou D, et al. Experimental Selection for Drosophila Survival in Extremely Low O2 Environment. PLoS ONE. 2007;2(5):e490.
11.  Kaiser A, et al. Increase in tracheal investment with beetle size supports hypothesis of oxygen limitation on insect gigantism. Proc. Natl. Acad. Sci. USA. 2007; 104:13198-13203.
12.  Dudley R, Chai P. Animal flight mechanics in physically variable gas mixtures. Journal of Experimental Biology 1996; 199:1881-1885.
13.  Oller AR, et al. Growth of mammalian cells at high oxygen concentrations. J Cell Sci. 1989 Sep;94 ( Pt 1):43-9.
14.  Ebina K, et al. Oxygen and Air Nanobubble Water Solution Promote the Growth of Plants, Fishes, and Mice. PLoS One. 2013 Jun 5;8(6):e65339.
15. Falkowski PG, et al. The Rise of Oxygen over the Past 205 Million Years and the Evolution of Large Placental Mammals. Science. 2005 Sep 30;309(5744):2202-4.
16. Beyers CJB, Wilke CG, Goosen PC. The effects of oxygen deficiency on growth, intermoult period, mortality andingestion rates of aquarium-held juvenile rock lobster Jasus lalandii. South African Journal of Marine Science 1994; 14(1):79-87.
17.  Chérif M, Tirilly Y, Bélanger RR. Effect of oxygen concentration on plant growth, lipid peroxidation, and receptivity of tomato roots to Pythium F under hydroponic conditions. European Journal of Plant Pathology 1997; 103(3):255-264.
18.  Suyantohadi A, et al. Effect of high consentrated dissolved oxygen on the plant growth in a deep hydroponic culture under a low temperature. IFAC Proceedings Volumes 2010; 43(26):251-255.
19.  Scheven J. The Carboniferous floating forest an extinct pre-Flood ecosystem, Journal of Creation 1996; 10(1):70-81.
20. Glasspool IJ, Scott AC. Phanerozoic concentrations of atmospheric oxygen reconstructed from sedimentary charcoal. Nature Geoscience 2010; 3:627630.

segunda-feira, setembro 24, 2018

Um convite especial para você

Tenho um convite especial para você que mora na região de São Paulo. Anote aí na sua agenda: no próximo domingo, dia 30, às 10 horas da manhã, estarei no auditório Elis Regina, no Anhembi, e vou apresentar uma palestra durante o Encontro Literário IDE, evento que faz parte da ExpoCristã. Serão vários os palestrantes renomados do mundo gospel que ocuparão o palco entre os dias 27 e 30, e eu fui o único adventista convidado a falar ali. O tema? “Razões para Crer: jornalista ex-evolucionista investiga os argumentos sobre a existência de Deus”. Em uma época de tanta incredulidade, de tanto relativismo e de uma fé superficial, os desafios ao cristianismo são cada vez mais fortes e frequentes. Você saberia argumentar em favor da existência de Deus apresentando razões filosóficas e científicas? Conseguiria manter um diálogo respeitoso com um ateu com base em fatos concretos? Acredito que minha palestra poderá muni-lo de ideias e informações úteis para o desenvolvimento de uma boa apologética cristã. Afinal, eu sempre acreditei, como Newton, Galileu e outros pioneiros da ciência, que fé e razão podem e devem andar de mãos dadas.

Você conhece os argumentos cosmológico, teleológico, ontológico, arqueológico e profético? Não? Então, se fosse você, eu não perderia essa palestra!

Faça sua inscrição agora mesmo aqui e garanta sua vaga. A entrada é gratuita. O auditório tem 800 lugares e eu gostaria que todos eles estivessem ocupados por pessoas interessadas em crescer na fé e no verdadeiro conhecimento. Logo após a palestra estarei no estande best-sellers apresentando meus livros e conversando com leitores e interessados no assunto.

Vejo você lá!  

Michelson Borges

Em face da morte: no abismo do nada ou nos braços de Deus?

Conta-se que “no início de setembro de 1869, Leon Tolstoi escreveu uma carta à esposa Sonya, que começava assim: ‘Uma coisa extraordinária me aconteceu em Arzamas. Eram duas e meia da manhã [...]. De repente, fui tomado de um desespero, um medo, um terror tal que nunca tinha conhecido antes. Depois lhe contarei os detalhes.’” O filósofo Kerry Walters, comentando esse estranho episódio, relata: “Quando passou sua noite terrível em Arzamas, Tolstoi tinha quarenta e poucos anos, excelente forma física e era marido e pai feliz. Era rico e aclamado em toda a Europa, como um dos maiores escritores de seu tempo. Além disso, acabara de dar os últimos retoques em sua obra-prima, Guerra e Paz. Estava no auge da vida. Tolstoi decidiu dar-se umas férias, viajando centenas de quilômetros até uma propriedade que estava interessado em comprar. A caminho, no meio da estepe russa, parou para passar a noite em uma tosca estalagem no vilarejo isolado de Arzamas. Jantou e se retirou para o quarto, completamente em paz consigo mesmo e com o mundo. Mas, nas horas escuras antes do amanhecer, Tolstoi acordou em pânico, com a certeza de que havia uma presença sinistra no quarto com ele. Tentando se acalmar, murmurou: ‘Isto é ridículo [...]. Do que estou com medo?’ Então ouviu uma resposta: ‘De mim’, respondeu a Morte. ‘Estou aqui.’”

O próprio Tolstoi narrou posteriormente que “um tremor frio percorreu-me a espinha. Sim, a Morte. Ela virá, já está aqui, embora nada tenha a ver comigo agora [...]. Todo o meu ser padecia com a necessidade de viver, o direito de viver e, no mesmo instante, senti a morte em ação. E foi horrível ser partido por dentro. Tentei afastar meu terror. Achei um toco de vela em um cadelabro de bronze e o acendi. A chama avermelhada, a vela mais curta que o castiçal, tudo me dizia a mesma coisa: não há nada na vida, não existe nada a não ser a morte e a morte não deveria existir!” Sobre a experiência esquisita e apavorante do escritor russo, Kerry Walters conclui: “Tolstoi iniciou a viagem de volta para casa completamente mudado. Essa horrível noite de pânico da morte no fim do verão de 1869 marcou-o para o resto da vida. O conto de Tolstoi ‘A morte de Ivan Ilych’, um dos retratos ficcionais mais absorventes e autênticos do processo de morrer, surgiu dessa experiência”.

Certa vez me perguntaram se eu tinha medo de morrer. Respondi que não gostaria de morrer; por isso, há dentro de mim o receio da morte. Tal como Tolstoi, eu só poderia encará-la com amedrontamento. No entanto, em maior ou menor grau, embora o medo da morte seja um sentimento universalmente experimentado, existiria a possibilidade de a “indesejada das gentes” ser enfrentada com certa coragem e até mesmo com esperança? Ou seria muita pretensão só cabível na ficção poética de Manuel Bandeira?

“Quando a Indesejada das gentes chegar / (Não sei se dura ou caroável), / Talvez eu tenha medo. Talvez sorria, ou diga: / — Alô, iniludível! / O meu dia foi bom, pode a noite descer. / (A noite com seus sortilégios.) / Encontrará lavrado o campo, a casa limpa, / A mesa posta, / Com cada coisa em seu lugar.”

Quem não se lembra daquele ente amado pelo qual são derramadas lágrimas de saudade? Eu mesmo já perdi para a morte – recentemente até – algumas pessoas preciosas. A consciência da perda (saber que meus queridos passaram para a inexistência antes de mim) aumentou ainda mais minhas reflexões acerca do processo de morrer, o qual já começa com o nascimento. Pois, diferentemente dos animais, o homem morre e sabe que morre. Esse conhecimento instiga seu temor e curiosidade a ponto de questionar: “O que acontecerá comigo quando eu me for? Desaparecerei para sempre ou haverá alguma forma de sobrevivência do meu eu?”

Constitui a vida uma trajetória para o nada, a completa dissolução a ponto de virarmos “poeira das estrelas”? Ou morrer significa a “passagem” para um suposto mundo pós-morte, de acordo com algumas crenças religiosas? Morrendo, entramos de fato na extinção total ou passamos para outro estado de “vida”? São ideias antagônicas apresentadas à humanidade, as quais nos desafiam a investigar a natureza da morte e a buscar um meio de escapar dela.

Comecemos pela proposta niilista. Livros como Nos Cumes do Desespero (1932), Breviário de Decomposição (1949), A Tentação de Existir (1956) e Do Inconveniente de Ter Nascido (1973), todos do filósofo romeno Emil Cioran, exalam um pathos nauseante como se quisessem mostrar que a vida é mero acidente, sendo a morte a regra inexorável da existência, que sempre existiu e sempre existirá. Tudo morre e morrerá. Diz Cioran: “É porque ela não repousa sobre nada, porque carece até mesmo da sombra de um argumento que perseveramos na vida. A morte é demasiado exata; todas as razões encontram-se de seu lado. Misteriosa para nossos instintos, delineia-se, ante nossa reflexão, límpida, sem prestígios e sem os falsos atrativos do desconhecido.” Por outro lado, “com efeito, se o homem vem do nada para, no fim, retornar ao nada, por que, então, não ficou no nada de vez? Seria a parábola da vida um desvio breve, inútil e absurdo? É o que exprime a inscrição de um epitáfio romano antigo: In nihil ab nihilo quam citius recidimus (‘Quão rapidamente caímos do nada para o nada’)”. Para os mortalistas modernos, “os homens não passam de futuros mortos”, ou no verso pessimista de Fernando Pessoa, “cadáveres adiados que procriam”.

Na obra O Livro do Sentido: Crise e busca de sentido hoje (volume I), o teólogo católico Clodovis Boff enuncia as raízes ontológicas da vontade de viver. Em outra perspectiva, a da esperança firmada no Transcendente, ele expõe convicção contrária ao pensamento de Emil Cioran: “Se o sentimento de finitude e, portanto, de insegurança e angústia é elementar, especialmente em relação à morte, não constitui, contudo, o stimmung primeiro e mais profundo, como querem as atuais filosofias pessimistas. [...] A disposição mais originária do ser humano é a da criaturalidade, esse sentimento positivo e maravilhoso de viver, que é o sorver a vida em sua própria fonte criadora. Ora, é aí que se encontra a origem última da ‘vontade de viver’, e de viver cada vez mais. Portanto, a disposição existencial de estar voltado para a vida é mais radical do que a de estar voltado para a morte. O apetite de viver é mais arcaico e mais poderoso do que o de morrer. A pulsão de morte tem raízes psicológicas e mesmo existenciais, mas só a pulsão de vida tem raízes verdadeiramente ontológicas. [...] O Homo religiosus, por sentir a existência como um dom do alto, vive a experiência de finitude não só de modo conformado, mas na gratidão, na confiança e na coragem. Como finito, o homem sente-se ‘dado’, e dado por Alguém. [...] Exclama então: ‘Como é maravilhoso existir, quando se poderia não ter vindo à existência. E se existo, não precisando existir, é porque existo de graça e por graça. Gozo de uma vida que me é dada, sem tê-la em absoluto merecido.’ [...] Portanto, a experiência exultante da criaturalidade, a experiência de ser criado, propicia afirmar-se diante de um mundo precário e perigoso a partir da vinculação ontológica com a fonte de tudo.” 

Por mais desalentador que seja, eu tenho de concordar com o pensamento niilista num único aspecto: ao morrer, o homem adentra o reino do esquecimento e da inexistência completa. Morte é morte mesmo, em que tudo se desfaz e nada sobrevive. Contudo, discordo do espírito absoluto do niilismo, porque acredito no triunfo da vida mediante a esperança escatológica. O que isso significa? Partindo do pressuposto bíblico, assim como a vida surgiu por intervenção sobrenatural, quando, no princípio, a Terra “sem forma e vazia” (em estado caótico e morta, por assim dizer) foi organizada e embelezada por Deus, semelhantemente esse mesmo Ser intervirá na situação trágica atual do planeta para trazer de volta aquela condição de existência original da qual a morte não fazia parte. Essa fé no ato divino de recriação, que o ateu niilista considera utopia e consolo enganoso, para o crente é sólida certeza baseada na promessa da ressurreição e restauração total de todas as coisas, consoante a revelação cristã (1 Coríntios 15).

Voltemo-nos agora para outra compreensão radical acerca da morte, defendida pelas correntes religiosas que tomam os termos “espírito” e “alma” como entidades conscientes que sobrevivem ao desfazimento do corpo. Alicerçado sobre a crença equivocada de que o homem é inerentemente imortal, o espiritualismo, em todas as suas vertentes, apregoa o seguinte: “Morrer não é morrer”, mas entrar num plano alternativo de “existência”.  À primeira vista, tal fé parece manter certo ponto de contato com a máxima do químico francês Lavoisier: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” Logo, a morte seria apenas um tipo de transição, e o corpo físico mero invólucro da alma que nunca perece. Essa ideia persuasiva, que vem desde a antiguidade, herdada da mentalidade grega e incorporada a crenças cristãs contemporâneas, tornou-se a “esperança” de grande parte da humanidade não conformada com o aniquilamento do ser. Entretanto, a concepção espiritualista é totalmente estranha e antagônica ao pensamento judaico-cristão pautado nas Escrituras, uma vez que na antropologia bíblica o homem, ser vivente, não tem uma alma, ele é uma alma que morre. Portanto, a dicotomia separatista espírito/corpo encontra no testemunho bíblico seu mais forte oponente. Nesse aspecto, o espiritualismo constitui um engano religioso de primeira linha, sustentado na grande mentira dita à mulher no Éden: “Certamente não morrereis” (Gênesis 3:4).

Confrontados com o ensinamento bíblico, tanto o niilismo, que nos empurra para o nada absoluto, quanto o dogma espiritualista, que não reconhece a natureza essencialmente mortal do ser humano, apresentam-se como propostas poderosas e cativantes, mas são profundas distorções da verdade no plano filosófico e religioso. O primeiro, com seu olhar extremamente pessimista, contempla a precariedade humana e as tragédias do mundo e deduz que a vida, imersa no escuro, será desfeita no nada total; já o segundo – sendo uma forma elaborada de negação da morte – assume feição enganosa ao aproveitar-se do nosso desejo de imortalidade e da intuição elementar e legítima de que não fomos criados para cair definitivamente no esquecimento, já que “Deus pôs no coração do homem o anseio pela eternidade” (Eclesiastes 3:11). Nesse caso, o espiritualismo coloca uma máscara na face da morte, escondendo a fealdade dela por meio da contrafação. A “solução” advinda desse sistema religioso, embora atraente para muitos, é fábula na forma de doutrina que, no fim, acabará decepcionando quem nela acredita.

Retomando a experiência de Tolstoi, reflete Kerry Walters: “Muitos de nós tivemos nossa própria noite escura de Arzamas, na qual fomos atingidos no estômago pela percepção de que um dia a morte vai nos aniquilar completamente, que o mundo vai continuar e nós não vamos. Nesses momentos de desorientação, não adianta apelar ao antigo argumento de Epicuro, de que ‘onde a morte está eu não estou e onde eu estou a morte não está: então, por que temer a morte?’” Penso eu que só temos condição de não temê-la, escapando de sua soberania, por meio da fé bíblica – “uma afirmação triunfante da vida” –, na qual vislumbramos tanto a explicação do enigma quanto a saída final desse cativeiro. Dessa forma, só existe uma proposta – nem fatalista nem ilusória – capaz de nos trazer a solução desejada: o drama histórico da crucifixão de Cristo, cujo significado assume proporções que transcendem as fronteiras do nosso mundo para repercutir por todo o Universo.

Na experiência do “bom ladrão”, naquela tarde de sexta-feira crucial, a morte defrontou-se com a esperança última, perdendo a supremacia ontológica. Em seu momento decisivo, nem o niilismo nem o enganoso consolo espiritualista de vida pós-morte ofuscaram a confiança do homem moribundo na Pessoa divina de Jesus. Seu olhar encontrara a Verdade, o Doador da vida que também estava morrendo pelos pecados dos seres humanos, segundo as Escrituras. Por meio da fé, o pobre mortal teve a garantia de voltar a viver não naquele mesmo dia, mas na grande e futura “manhã da ressurreição”. Apostando numa existência eterna, o ladrão arrependido se lança nos braços de Deus com a súplica final: “Jesus, lembra-Te de mim, quando entrares no Teu reino.” A resposta veio imediata: “Em verdade te digo hoje: estarás comigo no paraíso” (Lucas 23:42, 43).

Diante da “ameaça do não ser”, serão lembrados por Deus os mortais deste planeta? Se a morte não deveria existir, mas entrou intrusamente em nosso mundo, governando com mão de ferro a vida, então a esperança da raça humana é estar guardada na lembrança de Deus. Seja qual for o momento – quando tudo vai bem ou quando somos assombrados pelo espectro da morte –, cada pessoa precisa suplicar a Jesus por existência eterna. Ele, que desceu à sepultura, mas, saindo dela, afirmou triunfantemente “Eu sou a ressurreição e a vida” (João 11:25), não deixará de ouvir o pedido daqueles cuja escolha em segui-Lo pode se dar mesmo nos momentos derradeiros de vida.

Todos os que desceram à sepultura, “dormindo em Jesus”, levaram consigo a promessa divina de que serão vitoriosos sobre a morte para usufruir vida sem fim ao lado do Criador. Eles partiram apossando-se das palavras ditas por Cristo ao suplicante na cruz: “Estarás comigo no paraíso.” Vivendo ou morrendo, que a oração do “bom ladrão” seja também a nossa: “Senhor, lembra-Te de mim!”

Frank de Souza Mangabeira

segunda-feira, setembro 17, 2018

Interpretação literalista e o surgimento da ciência moderna


Por muitos séculos o método mais popular empregado por intérpretes da Bíblia era o alegórico. No livro Tratado sobre os Princípios, publicado por Orígenes (185-253 d.C.), é desenvolvida uma teoria hermenêutica advogando que todo texto bíblico possui três sentidos: o literal, o moral e o alegórico, sendo que o último deveria ser o mais almejado por intérpretes cristãos. Assim, objetos, animais, lugares ou pessoas relatadas na Bíblia representam verdades espirituais além delas mesmas. O conhecimento da natureza era estimulado pela Igreja na medida em que existissem similitudes entre a Bíblia e o mundo natural. Os fenômenos naturais que não são mencionados na Bíblia recebiam pouco interesse. Por esses motivos, a ciência medieval não era empírica como nos dias de hoje. Os “cientistas” – melhor dizendo, os filósofos naturais – daquela época realizavam suas pesquisas nas bibliotecas de suas universidades. Quando se queria saber algo sobre oceanos, as espécies de plantas ou as estrelas, era para os livros de Aristóteles ou Platão que os especialistas recorriam. Ciência era entendida como uma atividade de “preservação e transmissão” do conhecimento obtido por autoridades passadas.

Com o advento do protestantismo, o método de interpretação alegórica proposto por Orígenes foi abandonado. Lutero, ao propor uma leitura literal do texto bíblico, rompeu com séculos de interpretação alegórica e passou a defender uma hermenêutica literalista da Bíblia. Para Lutero e muitos protestantes, o que importava era o sentido óbvio que brota do texto. Portanto, ao contrário da hermenêutica medieval, o sentido literal das palavras encontradas na Bíblia se tornou o alvo principal de exegetas protestantes.

À semelhança de muitas outras áreas, as ciências foram especialmente afetadas pelas mudanças hermenêuticas propostas por Lutero. Sua abordagem literalista do texto bíblico mudou a forma como cientistas interpretavam fenômenos naturais. A migração de uma exegese alegórica para uma literal permitiu que estudiosos olhassem para o texto e, consequentemente, para a natureza, não como algo simbólico, mas como entidades concretas, possuidoras de valor e significado próprio. A insistência protestante de que o sentido óbvio das coisas fosse adotado contribuiu para que a sociedade procurasse maneiras “científicas” de explicar e de encontrar utilidades práticas para os diferentes fenômenos naturais observados.

De maneira especial, a leitura literalista do livro de Gênesis mudou a forma de se relacionar com o mundo natural. Uma vez que a Bíblia foi expurgada de todo misticismo e mistério que lhes foram conferidos por intérpretes medievais, os eventos, as pessoas e os lugares relatados na Bíblia passaram a ser vistos como reais e históricos. As referências à criação, ao jardim do Éden, à queda de Adão e Eva e ao dilúvio, que em tempos medievais estavam carregados de significados alegóricos e teológicos, passaram a ser tratados como literais, atraindo esforços de curiosos para identificar a verdadeira localização desses lugares e eventos.

Como forma de redenção, os cientistas protestantes passaram a ver na empreita científica uma forma de restaurar a humanidade à sua condição original. Essa restauração do ser humano (e da criação, por consequência) deveria se dar em duas frentes. Na primeira, a mente humana restauraria todas as coisas à sua unidade original pelo conhecimento do mundo natural. Na segunda, o ser humano assumiria o controle da natureza e subjugaria todo o domínio natural, retomando sua posição como vice-regente de Deus na Terra. Ao conhecer seus mistérios, o ser humano se tornaria como Adão – mestre da criação.

Em suma, além de muitos outros fatores, a forma como o cristianismo interpretou o texto sagrado teve uma influência direta na forma como cientistas passaram a interpretar os fenômenos naturais. O protestantismo contribuiu com o surgimento das ciências modernas não somente oferecendo um ambiente favorável à realização da atividade científica, mas fornecendo as ferramentas interpretativas para estudarmos a natureza. A partir do momento em que o cristianismo começou a adotar uma leitura literalista, a ciência foi capaz de olhar para a natureza com outros olhos e buscar o sentido óbvio dos processos e objetos do mundo natural. É uma ironia pensar que, em nossos dias, o literalismo hermenêutico está sendo acusado de obstruir o avanço científico e as relações entre a ciência e a religião. Entretanto, quando estudamos a história do relacionamento entre religião e ciência, percebemos que a hermenêutica literalista foi exatamente o fator que forneceu as lentes interpretativas para a revolução científica e o surgimento das ciências modernas.

(Glauber Araújo é editor na Casa Publicadora Brasileira, bacharel em Teologia e mestre em Ciências da Religião)

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Como era a geografia do supercontinente pré-diluviano?

Com que o mundo pré-diluviano se parecia? Onde estava o jardim do Éden? Em quais regiões do mundo os dinossauros habitavam? Essas são algumas perguntas que a Bíblia não responde, por isso, partindo da história registrada na Bíblia, e indo à natureza a fim de complementar as respostas, nós nos deparamos com uma área do conhecimento humano muito importante para entender o episódio bíblico do dilúvio: a Geologia. O problema é que por muito tempo os cientistas criacionistas se utilizaram de interpretações geológicas evolucionistas em seus estudos em relação às configurações continentais e à geografia pré-diluviana, mas graças a verbas direcionadas a boas pesquisas criacionistas, tal como as do Departamento de Geologia do Institute for Creation Research (ICR), que recentemente desenvolveu e publicou um estudo revisado por pares, publicado no periódico Answers Research Journal, de autoria do geólogo Dr. Tim Clarey e do estudante de Geologia Davis J. Werner.

Esse estudo é o primeiro a desafiar essa questão ao usar dados estratigráficos de rochas de todo o mundo, analisando as espessuras dos vários intervalos de megasequências, a fim de fazer inferências razoáveis ​​sobre a topografia relativa do mundo pré-diluviano.1,2 

Em relação ao conjunto de dados utilizados na metodologia do estudo, foram analisados mais de 1.500 colunas estratigráficas da América do Norte, África, Oriente Médio e América do Sul. Cada coluna de rocha foi compilada a partir de dados de afloramentos publicados, poços de petróleo, núcleos, secções transversais e/ou dados sísmicos ligados a furos. Os dados de tipo de rocha e megassequência foram colocados em um banco de dados, permitindo a geração de mapas de espessura para todos os seis intervalos de megassequência. 

Esses dados foram usados ​​para criar um modelo estratigráfico tridimensional em cada um dos três continentes estudados até o momento. Quando foram examinadas megassequência por megassequência, esses modelos permitiram visualizar de forma parcial o relevo geográfico pré-diluviano. Portanto, é uma pesquisa ainda em andamento. As próximas descobertas trarão mais luz sobre essa questão.

Mas o interessante é que por meio dessa pesquisa inicial os autores puderam visualizar como era o único supercontinente pré-diluviano que os autores do estudo chamam de Pangea (outros, porém, o chamam de Rodínia;3 saiba mais na entrevista realizada com o geólogo Dr. Marcos Natal).

Figura 1 - Mapa pré-diluviano mostrando a proposta Península dos Dinossauros, uma massa de terra de baixa altitude que se estende de Minnesota ao Novo México, provavelmente habitada por plantas de vegetação de várzea pré-diluvianas e animais, incluindo dinossauros

Em 2015, no início do estudo, os pesquisadores identificaram uma massa pré-diluviana em todos os Estados Unidos da América que se estendeu de Minnesota para o Novo México, a qual eles chamaram de “Península dos dinossauros” (Figura 1).4 Essa região era provavelmente habitada por vegetação de várzea (de planícies inundáveis) e animais, incluindo os dinossauros. Eles descobriram que a deposição dos primeiros sedimentos do dilúvio (as Megassequências Sauk, Tippecanoe e Kaskaskia) era mais espessa no leste e distante no oeste dos EUA, incluindo o Grand Canyon. Em contraste, os primeiros depósitos de inundação em grande parte do centro do país têm geralmente menos de algumas centenas de metros de profundidade e, em muitos lugares, não houve depósito algum. Eles concluíram:

"Parece que os dinossauros foram capazes de sobreviver através do início do dilúvio no Ocidente simplesmente porque eles foram capazes de se reunir e se arrastar para os elevados terrestres remanescentes – lugares onde os depósitos sedimentares relacionados não são tão profundos – enquanto as águas da inundação avançavam. Dessa forma, os dinossauros conseguiram escapar do enterro no início do dilúvio."

Outro ponto interessante diz respeito à existência de mares rasos. Os resultados indicaram que mares rasos existiram em grande parte do leste e sudoeste dos EUA (incluindo o Grand Canyon) e no norte da África e no Oriente Médio, onde as três primeiras megassequências foram depositadas.2 As áreas mostram uma extensa deposição de sedimentos precoces e contêm quase exclusivamente a fauna marinha rasa. Não há praticamente árvores ou animais terrestres nessas megassequências. Aparentemente, apenas quantidades limitadas de terra foram inundadas nesse estágio no dilúvio. Além disso, o estudo ainda descreve as áreas de terras baixas e as áreas de planalto (como pode ser visto na Figura 2), bem como sobre a posição do jardim do Éden nessa configuração geográfica pré-diluviana.2 Vale a pena a leitura completa do estudo!

Figura 2 - Mapa de geografia pré-diluviana para a América do Norte, África e América do Sul combinado em uma configuração semelhante ao Rodínia. É provável que as massas de terra continuaram a leste, perto da Groenlândia (Europa) e da África (Índia). Observe que a borda oeste da América do Norte não inclui a maioria dos estados da Costa Oeste, já que esses terrenos foram adicionados mais tarde durante o movimento da placa como parte do dilúvio. Além disso, grande parte da América Central não é mostrada, uma vez que foi formada a partir da atividade durante o dilúvio

Em suma, o mapa acima (Figura 2) reflete a pesquisa mais recente liderada pelo Dr. Clarey que dá um vislumbre inicial sobre o que o resto da América do Norte e do Sul, África e oriente médio podem ter parecido antes do dilúvio de Noé.


(Fernando Alves)

Referências:
1.  Clarey TL, Werner DJ. The Sedimentary Record Demonstrates Minimal Flooding of the Continents During Sauk Deposition. Answers Research Journal 2017; 10:271-283.
2.  Clarey TL. Assembling the Pre-Flood World. Acts & Facts 2018; 47(4):11-13. Disponível em: http://www.icr.org/i/pdf/af/af1804.pdf
3.  Snelling AA. Geological Issues: Charting a scheme for correlating the rock layers with the Biblical record. In: Boyd SW, Snelling AA. (Eds.). Grappling with the Chronology of the Genesis Flood. Green Forest, AR: Master Books, 2014, pp. 77-109.
4.  Clarey TL. Dinosaur Fossils in Late-Flood Rocks. Acts & Facts 2015; 44(2):16. Disponível em: http://www.icr.org/i/pdf/af/af1502.pdf