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quinta-feira, abril 14, 2022

Deslumbrante Deus

Certa vez, ouvi a história de um homem que, à beira da morte, aconselhou um amigo a não perder o deslumbramento pelas coisas da vida. Achei esse conselho inusitado. Não entendi direito o que significava, mas guardei na memória. Vez ou outra, esse conselho voltava à minha mente, como algo que eu deveria considerar importante, mas, tal qual chegava a mim, ele voava de volta ao esquecimento.

Tempos depois, eu me tornei mãe de duas crianças. Na primeira filha, eu não soube muito aproveitar a maternidade. Ficava tão preocupada com tudo, com marcos de desenvolvimento, com métodos de fazer dormir, com fraldas, pomadas e alimentação adequada, que simplesmente não curti a simplicidade de cada conquista, de cada dia, de tanto afeto.

Então veio o segundo filho, meio que no susto. E que susto bom! Agora eu já sabia que tudo ia dar certo, que o bebê ia engatinhar no tempo certo (o dele), que ia andar na hora certa (a dele), que ia aprender a comer, a dormir. Então eu relaxei e pude observar uma das coisas mais lindas que uma criança pode ensinar: o deslumbramento. Imagine para um serzinho tão pequeno como tudo é absolutamente deslumbrante e novo. Uma formiga andando perto do pé, carregando uma folha faz ele frear qualquer caminhada e se agachar para observar pelo tempo que for preciso. Um passarinho que, de repente, surge entre as folhas de uma árvore e se lança ao céu faz seus olhos brilharem. Deve se perguntar: “Como ele faz isso? Quem ensinou? E a árvore, tão grande, com folhas penduradas. Como ela pode crescer tanto? Quem faz ela ser assim?”

Outra coisa deslumbrante, que motivou uma de suas primeiras palavras: a luz, que se acende e se apaga – como isso é possível? É absolutamente impressionante. Dá para ficar horas acendendo e apagando sem deixar de se impressionar. E a água – que coisa deslumbrante é a água – escorrendo entre os dedos? Que frescor inquietante, que substância maravilhosa. E ainda dá para beber e jogar para cima e para todo lado e molhar o corpo todo. Aliás, o corpo também é fascinante. Os olhos (como ele tenta por os dedos nos meus olhos, como que querendo segurar nas mãos essas bolinhas que se fecham tão rápido), os cabelos (que legal puxar os cabelos da mamãe também!), as pernas, o umbigo (uau, um buraco no meio da barriga!) e os dedos – que coisa fantástica são os dedos das mãos e dos pés. Como podem se mover assim, de forma tão ágil?

Mas o deslumbre não tem limite. O fogo! Gente, o fogo brilha, é colorido, dança ao vento. Que coisa linda é o fogo! Que vontade de pegar! E o céu? Existe coisa mais deslumbrante que o céu? Tanto azul, nuvens brancas, nuvens negras... Opa, parem tudo! Que barulho é esse no céu? Um helicóptero! Todo mundo precisa ver isto, um helicóptero. Isso é legal demais! Esse barulho é incrível! E o bebê corre para a janela, implorando com grunhidos para ser erguido para ver esse “bicho” tão fantástico e curioso.

Ah, mas ainda falta a coisa mais deslumbrante de todas para o meu bebê: a Lua! Ele não fala da Lua, ele não mostra a Lua, ele grita sem parar; aponta com os braços, com as pernas. Ele se inclina todo e se projeta porque é tão importante que todos vejam a coisa mais maravilhosa do mundo. E, se a gente não vê, ele grita mais. Se estiver na rua, melhor ainda, porque ele quer que as outras pessoas também parem e vejam e se deslumbrem com algo que lhe causa tanto fascínio.

Meu bebê só tem um ano. Acabou de fazer. E, no meio da sua lalação, ele grita: “Olha! Ah lá, a lula, a luna, a lala!” Faz tanto esforço porque está absolutamente deslumbrado! E por algo que a gente vê todas as noites (e dias também) e não dá a menor importância.

É possível aprender tanto com as crianças, com os filhos. Eles nos obrigam a parar e olhar as coisas pequenas (será?) da vida e redescobrir como são deslumbrantes. A criação de Deus é algo tão imenso, tão extraordinário, tão impressionante, mas nós nos acostumamos com ela e a vemos como comum, ordinária. É como o quadro da Monalisa. Já vimos tanto que não enxergamos nenhuma beleza mais naquilo, nada que instigue qualquer sentimento. Podemos até ter o original na nossa frente que não fará diferença. Até imagino um bocejo ao ver a imagem. Só que Deus criou um mundo fantástico para provocar em nós esse deslumbramento. Isso revira a alma, traz felicidade, nos tira da acomodação, da mesmice, da rotina sem sentido. Precisamos parar e ver. Ver esse presente maravilhoso.

Era isso que o homem da história que eu li queria dizer em seu leito de morte. O conselho era para não deixar de se surpreender com os presentes de Deus, porque Deus é surpreendente, é fascinante, é deslumbrante. Se perdermos isso, a vida vai passar, assim como a maternidade, e vamos estar tão ocupados com coisas que nos dizem ser importantes que vamos perder a simplicidade de cada conquista, de cada dia, o afeto, a beleza – coisas que realmente nos enchem de vida.

A Bíblia nos convida a ser como crianças. “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos céus” (Mt 18:33). Além da simplicidade, da humildade, da dependência, hoje eu acrescento às características das crianças a capacidade de deslumbramento. E tenho pedido a Deus para reviver isso em mim. Ele pode fazer renascer. Quero me espantar com os milagres da Bíblia, quero sentir horror e amor pelo Calvário toda vez que ler o relato da morte de Cristo. Quero que não seja algo rotineiro, comum, ordinário. Quero que o amor de Cristo verdadeiramente me cause constrangimento.

Sei que meu filho vai crescer e vai deixar de se deslumbrar, como todos nós. Mas eu peço a Deus que tudo que diz respeito ao Céu, ao divino, à criação, ao transcendente, mesmo depois de ele crescido, ainda cause espanto nele, e em mim também.

Que sejamos essa criança boba vendo o que Deus fez e faz por nós, sem vergonha de parar tudo para observar ou de gritar para todo mundo saber que o nosso Deus é deslumbrante.

(Danivia Mattozo Wolff é Revisora de Textos | Assembleia Legislativa de Minas Gerais)

segunda-feira, agosto 28, 2017

Beleza que engana

“Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu” (Gênesis 3:6).

Talvez o que mais irrite os consumidores sejam as propagandas enganosas. Você vê o produto na ilustração da caixa ou dentro da embalagem, no comercial da TV ou no anúncio na internet, e se deslumbra. Mas a decepção fica na mesma altura que o estímulo proporcionado pela imagem chamativa. Aposto que não estou sozinho e que você já teve uma experiência chata como essa. Estou errado?
           
Todavia, é pior quando a beleza e a atratividade podem ser fatais. É o caso de uma flor nativa dos Estados Unidos, conhecida na linguagem popular como Louro-da-Montanha (Kalmia latifolia) que produz delicadas flores brancas e rosadas no fim da primavera, as quais possuem inúmeras manchas que parecem formar padrões geométricos definidos. É uma planta belíssima, mas por baixo daquele exterior simpático bate o coração de um assassino.
           
A Kalmia latifolia está na lista das plantas mais perigosas aos seres humanos e outros animais. Sua estrutura delicada reserva duas toxinas letais: a andromedotoxina e o alburtin; porém a primeira é a mais tóxica. Na ingestão de pequenas doses da flor, o quadro clínico pode apresentar respiração irregular, salivação abundante, perda da coordenação motora, vômitos, diarreia, fraqueza muscular e convulsões. Já se for em grandes quantias, pode provocar um ataque cardíaco e levar à morte em até seis horas após a ingestão.
           
Não suficiente, você nem precisa encontrar um Louro-da-Montanha para ter um encontro fatal com esse coquetel de toxinas, pois o mel produzido pelas abelhas que visitaram a K. latifolia contém todas as propriedades tóxicas da própria flor. Os gregos já sabiam desse produto muito antes de Jesus vir à Terra e o chamavam de “mel furioso”; inclusive foi isso que eles usaram para derrotar Xenofonte de Atenas, por volta de 400 a.C.
           
A beleza dessa espécie de flor engana muito bem. No passado, Satanás propagandeou ao ser humano poderes inescrutáveis com seus discursos empolgantes e omitiu a verdade acerca das coisas. Aliás, ele vive mentindo desde o princípio (João 8:44), tanto que nenhum dos atrativos oferecidos pelo diabo de fato aconteceu. Contrário a isso a raça humana ficou numa situação muito pior do que quando fazia a vontade do Criador dos céus e da Terra.
           
Depois de atender à voz da serpente e comer do fruto proibido, o ser humano trouxe para si consequências irreversíveis, dentre as quais a pior é a morte. O custo da desobediência a Deus foi letal, pois o pecado, antes prazeroso, trouxe consigo o dano da morte (Romanos 6:23).
           
Hoje, Satanás tem utilizado as mesmas estratégias do passado para vender um produto podre numa embalagem cativante. O pecado pode até parecer atrativo, mas não se esqueça: ele é igualmente mortal! Jesus pagou o preço da falha humana na cruz e hoje está intercedendo por aqueles que são vítimas da tentação (Hebreus 2:18). Somente Ele pode lhe ajudar a vencer o diabo. Peça apoio lá do Alto para resistir aos apelos do Inimigo e inibir para sempre o domínio da morte em sua vida.

(Weliton Augusto Gomes é biólogo e diretor de ensino e pesquisa do Núcleo Curitibano da Sociedade Criacionista Brasileira [NC-SCB])

segunda-feira, agosto 14, 2017

E se não existisse o pecado?

Vamos dar asas à imaginação? Que tal sonhar um pouco? Convido você a vir comigo numa viagem imaginária, por um pequeno mundo que enfrentou o mal, mas o repudiou.

Planeta Terra recém-criado. Transportados até o Jardim do Éden, somos envolvidos em esplendor que arrebata os sentidos. Tudo é perfeito e sem vestígios de decadência. Nossa atenção se volta para o casal Adão e Eva. A beleza de ambos é inexcedível, pois cada detalhe físico é a expressão máxima da estética que a mente divina poderia produzir em seres humanos. No cenário paradisíaco, ambos se encontram no pleno usufruto de sua inocência. Moral e espiritualmente, mulher e homem refletem a luz de um caráter perfeito, isentos de medo, culpa ou traumas. Adão parece dialogar com os animais, os quais, dóceis, aproximam-se dele sem nenhum temor. Eva, cheia de graciosidade, sorri para o companheiro e, suavemente, segura sua mão. Com cânticos de louvor admirável, os pais da raça humana enaltecem a santa e gloriosa Trindade.

Sem que esperassem, um ser angelical atravessa o espaço, surgindo na velocidade do relâmpago. Seu rosto denuncia apreensão pelo santo par. Chama-os à parte para contar-lhes a estranha história de alguém que vem para causar a ruína deles e do planeta. Atentamente, Adão e Eva escutam as advertências e explicações do anjo mensageiro que, logo depois, parte na mesma rapidez com a qual apareceu. Apreensivo, o casal discute o relato transmitido: “Que coisa é essa chamada mal?” – refletem.

Passam-se dias e vemos outro quadro: Eva passeando sozinha até se defrontar com uma serpente alada. “Ela fala, voa e é linda!” – exclama a mulher diante de um ser tão singular. Com linguagem persuasiva e argumentações “lógicas”, a exótica criatura tenta convencê-la a experimentar o fruto proibido por Deus. Apesar da aparente docilidade do animal, a mulher, desconfiada, mantém certa distância. Repentinamente, Adão aparece assustado e se interpõe no diálogo: “Eva, não se aproxime da serpente sagaz nem se encante com suas palavras! Ela é, na verdade, o adversário disfarçado que veio nos tentar e sobre o qual fomos advertidos.” Eva corre para o esposo e ambos deixam os domínios do anjo caído, bem longe da árvore proibida. Vencem a prova.

Que viagem! Que sonho! A “versão” de Gênesis contada acima, entretanto, é só imaginativa. Quão bom seria se o terceiro capítulo desse livro nos trouxesse uma narrativa de vitória em vez de fracasso: o pecado não teria existido para nós e a Terra seria povoada com uma raça de seres puros, perfeitos e imortais, todos descendentes do primeiro casal humano. De alguma forma, Deus eliminaria Satanás da existência sem acarretar a dúvida do Universo sobre Seu amor.

O pecado modificou tragicamente a realidade. Sem esse intruso indesejável, como seriam a cultura, o governo, as produções artísticas, a ciência e tantas outras instâncias da Terra caída? Dá para imaginar a diferença entre o estado atual e o ideal? Muitas coisas presentes agora não fariam parte do nosso triste quotidiano como dúvida, incredulidade, ódio, funerais, guerras, divórcio, traições, saudade, cansaço, frustração, acidentes ecológicos, tragédias naturais, instrumentos bélicos, e a pior de todas as consequências do pecado: a morte. Por outro lado, nada saberíamos sobre fé, redenção e graça.

Repetidas vezes se faz a pergunta: Por que foi permitido o pecado? O aparecimento do mal na criação não era condição necessária para se manifestar o lado até então desconhecido e misterioso do amor de Deus. De quanto sofrimento tanto nós quanto o próprio Criador seríamos poupados se o pecado jamais tivesse se erguido! Porém, já que o mal despontou e nos infectou, resta a esperançosa expectativa: ele aguarda sua condenação eterna. Assim será cumprida a promessa: “Não se levantará por duas vezes a angústia” (Naum 1:9).

Infelizmente, Adão e Eva sofreram a derrota. Contudo, Jesus venceu, recuperando o Éden perdido para devolvê-lo à humanidade redimida. Em Cristo, aguardamos o momento da nova criação, quando todo o Universo finalmente expressará com eterna alegria: “Desde o minúsculo átomo até ao maior dos mundos, todas as coisas, animadas e inanimadas, em sua serena beleza e perfeito gozo, declaram que Deus é amor.” 

(Frank de Souza Mangabeira, membro da Igreja Adventista do Bairro Siqueira Campos, Aracaju, SE; servidor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Sergipe)

quarta-feira, julho 26, 2017

A redenção do cosmos

Segundo os cosmólogos, o diâmetro do universo observável, sempre em expansão, é de 93 bilhões de anos-luz, aproximadamente. Espantoso! Significa que, se fôssemos capazes de viajar na incrível velocidade da luz (300.000 km/s, aproximadamente), seriam necessários apenas 93 bilhões de anos para percorrer todo esse espaço descomunal. O que haverá fora desses limites? Pensar sobre a grandeza cósmica nos impressiona e evidencia nossa pequenez; porém, mais admirável e maior que a dimensão conhecida do Universo é o Ser que criou tal imensidão e morreu para garantir a felicidade de todos os seres criados – os habitantes da Terra, do Céu e dos distantes mundos livres da queda no mal. Verdadeiramente, a morte expiatória do Deus Filho ultrapassou as fronteiras da compreensão de qualquer criatura, expandiu-se e alcançou os rincões do cosmos.

Por que costumamos dizer que Jesus Cristo realizou um sacrifício infinito ao encarnar-Se, morrendo inocentemente pela humanidade pecadora? Podemos achar que Jesus depôs Sua vida apenas pela Terra e seus moradores. Mas não! Em certo sentido, Cristo redimiu o Universo inteiro. Certamente, anjos e seres não caídos também foram alvo da eficácia de Seu sangue. O apóstolo Paulo evidencia: “Havendo por Ele feito a paz pelo sangue da Sua cruz, por meio dEle reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na Terra como as que estão nos Céus” (Colossenses 1:20). O plano da salvação envolvia, pelo menos, três propósitos grandiosos e interligados entre si: (1) livrar a raça humana do poder e dos efeitos do pecado; (2) confirmar os seres santos, guardando-os da apostasia; (3) justificar o caráter de Deus, acusado de injusto perante o Universo. Consideremos a seguinte afirmação de Ellen White: “Os anjos atribuem honra e glória a Cristo, pois nem mesmo eles se encontram seguros, exceto ao contemplarem os sofrimentos do Filho de Deus. É através da eficácia da cruz que os anjos do Céu são protegidos contra a apostasia. Sem a cruz eles não se encontrariam em maior segurança contra o mal, do que os anjos estavam antes da queda de Satanás. A perfeição angélica fracassou no Céu. A perfeição humana fracassou no Éden. O plano de salvação, tornando manifesta a justiça e o amor de Deus, provê eterna salvaguarda contra a rebelião dos mundos não caídos. A morte de Cristo sobre a cruz do Calvário é a nossa única esperança neste mundo, e será nosso tema no mundo por vir.” 

Que tema! O estupendo sacrifício de Cristo salva os pecadores que O aceitam, religando-os a Deus, e sustenta o restante dos seres inteligentes para não enveredarem pelo mesmo caminho do homem. Dessa forma, a morte do Criador protegeu o mundo mais distante do Universo (até mesmo os situados para além dos 93 bilhões de anos-luz) contra a influência do pecado, e a eficiência da cruz guardará a raça redimida de uma segunda queda. Não é uma proteção mágica ou um campo de força arbitrário, mas o argumento encontrado pelo amor para convencer e persuadir, sem coação, a mente inteligente dirigida pela liberdade de escolha quanto ao caminho a seguir: se o estabelecido por Deus ou outro contrário ao governo e aos direitos divinos sobre as criaturas.

Diante do grande sacrifício expiatório, o cosmos foi vacinado contra o mal e Deus está justificado perante Sua criação. Assim, o mal não tem mais argumentos; tampouco o direito de continuar a existir.  

(Frank de Souza Mangabeira, membro da Igreja Adventista do Bairro Siqueira Campos, Aracaju, SE; servidor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Sergipe)

quarta-feira, fevereiro 08, 2017

O Espírito Santo, o caos e a natureza humana

Quando o caráter se revela
Enquanto viajava fora do país, mal pude acreditar nas imagens e nas notícias que me chegavam pelo celular. Será que tudo aquilo estava mesmo acontecendo no Brasil? As ruas da Grande Vitória, no Espírito Santo, foram tomadas por assaltantes, houve tiroteios, arrastões, pancadaria, saques e quase cem mortes violentas. Mais de 90 milhões de reais em prejuízos materiais. Com a polícia paralisada, os malfeitores fizeram a festa. Isso, em si, já é terrível e um grave problema de segurança pública, mas o pior foi ver gente bem vestida e com carrão destruindo a porta de lojas e roubando descaradamente os produtos em exposição, principalmente eletrônicos. Não há justificativa para o roubo nem para a violência, mas, quando gente que não precisa de dinheiro ou que se supõe que tenha tido mais privilégios que outros e não está roubando para saciar a fome se entrega a essas ações criminosas, pode-se constatar que, definitivamente, há algo de podre no DNA humano.

Quer dizer que é só a polícia sair de cena, afrouxarem-se as regras que o caos se instala? As pessoas “andam na linha” apenas quando alguém as está vigiando ou quando têm medo da punição? Pior é que alguns ainda podem pensar: “Se roubam milhões lá em Brasília, por que não posso roubar um aparelho de TV?”, e dão de ombros para o pai de família que depende da loja para colocar comida sobre a mesa e manter os filhos na escola. Estão se lixando para a comerciante que “ralou” para montar sua lojinha e viver do pequeno lucro que o negócio lhe dava. Com essa situação, perde o cidadão, perde o governo que não pagou bem seus policiais e agora terá que desembolsar muito mais com a recuperação do patrimônio público e com indenizações; e perde o país, com a sensação de que nosso povo não tem caráter. Que direito têm esses criminosos de reclamar dos bandidos de colarinho branco? Não são feitos da mesma matéria?

O Brasil vive não apenas uma crise política e institucional. Vivemos uma crise de valores e de bons exemplos. Em quem as pessoas podem se inspirar? Mal dá para contar nos dedos de uma mão os políticos que representam mais ou menos bem aqueles que votaram neles. Homens de terno e gravata que não saqueiam lojas, mas que metem a mão no bolso dos contribuintes que suam para pagar seus impostos; homens e mulheres que não se importam se uma escola não terá merenda ou se não haverá medicamentos em um posto de saúde – desde que sejam salvaguardados seus “direitos” de ter uma conta recheada na suíça e um apartamento em Miami.

O clima de revolta se instala. Ninguém mais quer saber de pensar no bem do próximo. Cada um quer tirar sua “lasquinha”. E em Vitória e arredores os bandidos estão nas ruas e os cidadãos, presos em casa, vendo a comida acabar sem ter coragem de sair para comprar alguma coisa (isso se ainda tiverem dinheiro, pois os bancos estão fechados).

Esse é o tipo de situação que revela o barril de pólvora sobre o qual estamos sentados. A paz frequentemente é muito relativa – tão pacífica quanto um canhão carregado, como disse alguém. Onde está o verdadeiro problema? Na impunidade? Nos baixos salários dos policiais? Na falta de segurança nas ruas? Não, necessariamente. O problema é muito mais grave que isso. O problema humano se chama pecado, e ele não está circunscrito às cidades capixabas. Não é exclusividade do Espírito Santo. Como caráter pode ser definido como aquilo que somos quando ninguém está olhando, o caráter de muita gente está sendo revelado por lá.

Agora deixe-me lhe falar sobre outro Espírito Santo, o ser divino chamado na Bíblia de “Consolador”. É Ele quem pode fazer frutificar em nós o amor, a paz, a bondade... É Ele quem pode mudar nosso caráter, a fim de que sejamos a mesma pessoa em qualquer circunstância. É Ele quem pode implantar em nosso coração o desejo de justiça, o amor ao semelhante e a retidão moral. Se o Espírito Santo não nos controlar, não sabemos do que seremos capazes. Sem o Espírito de Deus em nossa vida, todo lugar poderá ser um Espírito Santo imerso no caos.

Michelson Borges

sexta-feira, dezembro 23, 2016

O primeiro Natal da minha nova vida

Ele veio para nos salvar
Antes de terminarem as aulas, falei para meus alunos sobre o verdadeiro sentido do Natal e de como devemos ser gratos a Jesus por ter escolhido nascer aqui neste mundo e ser o nosso Salvador. Eles ficaram comovidos e, com a pureza e sinceridade das crianças, prometeram que nunca iriam esquecer disso e que iriam entregar o coraçãozinho a Jesus para sempre. Fiquei ainda mais emocionada ao lembrar que foi em um Natal que eu também abri meu coração para Jesus pela primeira vez. Desde então, Ele entrou em minha vida e me fez trilhar um novo caminho. Por isso eu pude falar do nascimento do Filho de Deus para aqueles pequenos aprendizes, anos atrás.

Aquele poderia ter sido mais um Natal que teria passado praticamente despercebido, envolvido pelo clima de consumismo. Mas meus sentimentos foram impressionantemente arrebatados para pensar no Deus que Se fez homem; no Deus que Se tornou bebê! Eu havia completado 15 anos no dia 23 de dezembro e, como era tradição de adolescente naquela época, fui escrever em um diário que tinha recebido de presente. Como a data inspirou o assunto, me vi completamente absorta tentando compreender por que Jesus viveu neste mundo. Por que Ele morreu daquela maneira? 

Lágrimas corriam pelo meu rosto ao imaginar as cenas do sacrifício de Jesus. Mas eu não entendia como Ele havia nos salvado, Se o mundo continuava (e continua) o mesmo – cheio de dor e maldade. Fiquei com dó, achando que a “tentativa” de Deus não tinha dado certo... Eu realmente não conhecia o plano de salvação. E como poderia conhecer?

Nos meses seguintes, Deus providenciou para que várias circunstâncias me levassem a ler a Bíblia pela primeira vez. Depois Ele enviou dois mensageiros para responder as infindáveis perguntas que haviam se formado em minha mente. Não foi um processo fácil, porque nós mesmos dificultamos as coisas e relutamos em aceitar e confiar que o caminho que Deus nos propõe é o melhor. Depois de tanto me debater e sofrer, finalmente me entreguei a Jesus e experimentei a paz. Pude constatar que Suas promessas nunca falham.

O plano da salvação, o nascimento de Jesus, Sua morte, tudo aconteceu exatamente como tinha que ser. Mas o plano ainda não terminou. Realmente, tudo o que Ele fez seria em vão se Ele não fosse voltar para buscar Seus filhos (João 14:1-3). Ainda estamos cumprindo partes desse plano em nossa vida, e logo veremos o desfecho dos propósitos de Deus, quando estaremos com Ele para sempre, sem a sombra da dor e da maldade.

Faz 25 anos que ouvi a voz do Espírito Santo me convidando a pensar no verdadeiro sentido do Natal. A voz dEle se tornou muito familiar ao longo desses anos e neste Natal só tenho que agradecer por Sua presença, por Seu tão grande amor que me faz conhecer meu Deus, meu Salvador, que decidiu nascer aqui e dar a vida por mim.

(Débora Borges é pedagoga e pós-graduada em Aconselhamento Familiar)

sexta-feira, dezembro 09, 2016

Pequenas concessões, grandes tragédias

O que garante um voo seguro?
A ferida permanecerá aberta por muito tempo, e só Deus mesmo pode confortar devidamente as pessoas que perderam um ente querido vitimado pela tragédia aérea que levou à morte 71 pessoas em uma montanha na Colômbia, na madrugada do dia 29 de novembro de 2016. Os fideístas chegam ao ponto de dizer que “foi Deus que quis”. Será mesmo? A verdade é que a fatalidade poderia ter sido evitada se não tivesse havido uma série de pequenas concessões. A primeira concessão talvez tenha sido fruto da ganância misturada com autossuficiência. O piloto do Avro RJ-85 sabia que a autonomia de voo desse tipo de avião é de 3.000 km, e sabia também que a distância em linha reta entre os aeroportos de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, e Medelín, é de 2.975 km. Portanto, uma margem muitíssimo pequena e uma probabilidade muito alta de, em alguma eventualidade, a aeronave ficar sem combustível. Foi o que aconteceu naquela fatídica madrugada.

Num plano de voo adequado, é preciso que haja combustível suficiente para, se não for possível pousar no aeroporto de destino, voar até o aeroporto mais próximo dali e ainda ter combustível para mais cerca de 40 minutos de voo. Resumindo: é preciso ter combustível de sobra. O plano de voo tinha pelo menos cinco advertências, mas os responsáveis pela LaMia garantiram que não havia problema, que eles tinham experiência nesse tipo de voo. E foram autorizados. O plano previa a necessidade de reabastecimento em Bogotá, mas o piloto ignorou isso.

Concessão 1: plano de voo com falhas.
Concessão 2: autorização das autoridades bolivianas.
Concessão 3: não reabasteceram em Bogotá.
Concessão 4: demora em admitir a gravidade do problema.
Resultado: queda do avião e morte de 71 pessoas.

Isso faz lembrar do texto bíblico de Cantares 2:15: “Apanhem para nós as raposas, as raposinhas que estragam as vinhas, pois as nossas vinhas estão floridas.” Pense em algumas “raposinhas”, pequenas concessões que vão “corroendo” a vida e que podem levar a uma tragédia. Sugiro quatro áreas básicas da vida que frequentemente são afetadas negativamente por “pequenas concessões”:

Trabalho

E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens” (Colossenses 3:23).

“Devemos ser fiéis nas coisas pequeninas. Aquilo que merece ser feito, merece ser bem-feito. Seja qual for a sua obra, executem-na fielmente. Falem a verdade a respeito dos mais insignificantes assuntos” (Ellen G. White, Mensagens aos Jovens, p. 145).

1. Devemos ser fiéis no pouco.
2. Fazer bem feito o que tem que ser feito.
3. Falar sempre a verdade e agir com correção.

Toda e qualquer mentira traz em si algo suficientemente nocivo para atrapalhar a saúde mental de quem a pratica. Se partirmos do pressuposto de que a verdade liberta, a mentira é exatamente o que aprisiona. É uma prisão silenciosa, marcada no tempo, na memória, no hábito e, portanto, no caráter.

Ela pode iludir facilmente vendendo a ideia de caminhos mais curtos e fáceis, mas ela cobra os juros mais altos possíveis: os juros emocionais silenciosos de uma mente incoerente alimentada com mentiras cotidianas.

Quanto menos verdade alguém vive, menos coerência nas atitudes a pessoa cultiva e menos saúde mental ela pode colher. Saúde mental pressupõe honestidade consigo mesmo e com o outro, diálogo verdadeiro e interessado, comunicação franca e aberta, interesse legítimo, intenção autêntica, palavras inteiras, pessoas em busca de um convívio completo.

A verdade em qualquer nível promove saúde mental. Santificação é a autorização cotidiana que Deus recebe de mim para que todo tipo e tamanho de mentira seja varrido da minha vida. À medida que alguém cultiva a verdade, colhe coerência e, por consequência natural, saúde mental. 

Mesmo que venhamos a sofrer por isso, devemos sempre ser verazes e corretos. Nada de minimizar o que é errado, como, por exemplo, “roubar” a internet ou a TV por assinatura do vizinho; levar materiais do escritório; contar “mentirinhas” para se beneficiar; viver sob o lema do “jeitinho brasileiro”.

Lembre-se de que “a maior necessidade do mundo é a de homens – homens que se não comprem nem se vendam; homens que no íntimo da alma sejam verdadeiros e honestos; homens que não temam chamar o pecado pelo seu nome exato; homens cuja consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao polo; homens que permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que caiam os céus” (Ellen G. White, Educação, p. 57).

Saúde

Cuidar da saúde é um dever religioso (3 João 2): “A transgressão da lei física é transgressão da lei de Deus. Nosso Criador é Jesus Cristo. Ele é o autor de nosso ser. Criou a estrutura humana. É o autor das leis físicas, assim como da lei moral. E o ser humano que se descuida, que descura dos hábitos e práticas atinentes à sua saúde e vida física, peca contra Deus” (Ellen G White, Conselhos Sobre o Regime Alimentar, p. 43).

“Raposinhas”: água, luz solar, respiração, alimentação saudável, exercício físico, repouso, temperança, verdadeira religião. O descuido no uso de qualquer um desses “remédios” pode trazer problemas ao organismo, que é templo do Espírito Santo (1 Coríntios 6:19).

Família

É na família que as “raposinhas” e as concessões causam os maiores estragos. Primeiro, porque o lar nos deixa mais à vontade para ser quem realmente somos; segundo, porque Satanás tem grande interesse em destruir as famílias. A força de uma família começa com uma relação conjugal forte, cheia de amor, madura e abençoada.

Dez mandamentos do casamento feliz:

1. Protejam seu dia livre a todo custo e passem-no juntos como casal e como família. Nada é mais importante que o tempo que passam juntos.

2. Jantem juntos. Mesmo que tenham uma comida simples, transformem isso em uma ocasião especial. A conversa durante o jantar é para compartilhar e evocar recordações. Os assuntos de rotina podem ser comentados outra hora.

3. Deitem-se ao mesmo tempo. Nada debilita a intimidade com maior rapidez do que se deitar em horários diferentes. Esse é também um momento para compartilhar e pôr-se em contato.

4. Não guardem rancor. Se insistirem em guardar as ofensas do passado, envelhecerão prematuramente e destruirão qualquer oportunidade de desfrutar o presente. A única esperança para o casamento está na capacidade de perdoar e esquecer.

5. Não tirem férias separados. As experiências compartilhadas unem firmemente, enquanto as experiências separadas distanciam um do outro. O tempo é um dos recursos mais valiosos no casamento. Não o gastem de forma insensata.

6. Não permitam que nada prive seu casamento da satisfação sexual que Deus criou. O sexo é um dom de Deus que deve ser desfrutado dentro dos vínculos sagrados do casamento. Foi dado como um meio de expressar amor e de proporcionar prazer, bem como com a finalidade de procriação.

7. Orem juntos. Nada é mais íntimo que a relação de uma pessoa com Deus. Ao convidar a esposa ou o esposo a compartilhar dessa experiência, você lhe está abrindo a parte mais profunda de seu ser.

8. Brinquem juntos. K. C. Cole escreveu em Psychology Today: “Apelidos secretos, humor compartilhado, simulação de lutas, isso tudo pode parecer uma série de atividades sem graça, no entanto, podem facilitar ou suavizar transações mais complexas e importantes, mas, potencialmente, dolorosas e até destrutivas.”

9. As pequenas coisas significam muito. Podem estabelecer a diferença entre um casamento medíocre e um casamento realmente bom. Uma mensagem de amor num bilhete ou um lindo cartão com pensamentos românticos. Uma expressão bondosa, ajudar no cuidado das crianças, escutar com atenção dão a sensação de que ele ou ela se preocupa com o outro.

10. Prometam-se mutuamente, não só fidelidade física, mas, também, fidelidade emocional. As necessidades emocionais dos cônjuges devem ser satisfeitas somente no casamento. Não permitam que os amigos, a família ou a carreira satisfaçam essas “necessidades pessoais”. Elas devem ser providas mutuamente e são a fortaleza da relação interpessoal.

O melhor presente e o maior legado que os pais podem dar aos filhos é seu exemplo de amor e de conduta orientados e alimentados por Deus. Os filhos tenderão a reproduzir em seus futuros lares o ambiente em que viveram.

Fatores que ajudam muito na criação e na manutenção de um ambiente feliz e abençoado são o diálogo amigo, as refeições compartilhadas e o culto familiar. Negligenciar essas coisas é como querer fazer um voo seguro sem combustível.

“Vida espiritual”

Coloquei entre aspas o “vida espiritual” porque, na verdade, para o cristão, tudo o que ele faz e cada aspecto de sua vida tem relação com o que é espiritual. Ele coloca Deus em tudo o que faz e vive em comunhão constante com o Criador.

Os três pilares para uma vida espiritual sadia são a oração, o estudo devocional da Bíblia e o testemunho. “Satanás bem sabe que todos quantos ele puder levar a negligenciar a oração e o exame das Escrituras, serão vencidos por seus ataques” (Ellen G. White, O Grande Conflito, p. 519). Assim, se quisermos voar em segurança para a pátria celestial, precisamos estar com o tanque da fé bem cheio e reabastecê-lo constantemente. Do contrário, as pequenas concessões levarão à maior de todas as tragédias: a morte eterna.

Combustível de sobra

Quando o assunto é “vida espiritual”, não podemos nos contentar com pouco. Precisamos ter combustível mais que suficiente no tanque. Uma parábola de Jesus que ilustra bem isso está registrada em Mateus 25:1-13. Leia em sua Bíblia, medite nessa história, tire suas conclusões e tome uma decisão.

(Michelson Borges, com colaboração de Bárbara Berti, Nelson Wasiuk, Hélio Martins Furtado de Oliveira e Fernando Dias)

terça-feira, novembro 29, 2016

Chapecoense: quando a tragédia entra em campo

O momento é para solidariedade
Eles certamente viajavam felizes e com a mente cheia de expectativas. O time estava em uma boa fase e voava a bordo de um avião com destino a Medellín, na Colômbia, onde disputaria a primeira partida da final da Copa Sul-Americana, contra o Atlético Nacional, na quarta-feira, dia 30. Só Deus e talvez alguns familiares conheçam os sonhos que cada um alimentava, os planos, os projetos, as ambições. Talvez alguns tenham prometido gols para a namorada, a esposa ou os filhos. Possivelmente, outros sonhassem com o título inédito a fim de alegrar ainda mais o Natal e o Ano Novo. Sonhos, esperanças e projetos que ficaram definitivamente no passado. O avião que transportava 81 passageiros, entre os quais a equipe do time catarinense da Chapecoense, caiu nesta madrugada, quando se aproximava da capital colombiana. Pelo menos 76 pessoas morreram. A notícia chocou o Brasil na manhã desta terça-feira.

Toda vez que um evento dessa natureza acontece revive a sensação de que habitamos um mundo inseguro e injusto. E isso é fato. Tragédias não escolhem lugar nem data para acontecer. Elas simplesmente estão como que à espreita, aguardando o momento de “entrar em campo” e ceifar vidas, destruir sonhos. No campeonato da vida, somente vencerá aquele que jogar segundo as regras do Céu. Podem acontecer reveses pelo caminho e até a morte surpreender um ou outro “jogador”, mas, para aqueles que seguram firmemente a mão do Criador, a vitória já está garantida. O último inimigo a ser derrotado é a morte; e que venha logo esse dia!

É claro que Deus não deixou de proteger os passageiros e os tripulantes do voo que ia para a Colômbia, enquanto estaria livrando de todos os males Seus “queridinhos”. O assunto é muito mais complexo do que isso. Deus tem em vista o bem eterno de todas as Suas criaturas, e mesmo nas tragédias é possível ver a mão dEle atuando – ainda que os afetados pela perda e pela dor não consigam compreender o que se passa no momento. Tragédias, mortes e sofrimento são a especialidade de Satanás, o inimigo de Deus, o originador do mal no Universo. E sua jogada de mestre consiste em causar destruição e levar as pessoas a atribuir essas coisas a Deus. O mal não existe porque o Criador quer. Muito pelo contrário: o que Ele mais quer é destruir o mal de forma definitiva. E fará isso em breve. Por hora, o que Ele faz em nosso favor é usar o bem e até o mal que Ele não causa – se puder, com isso, nos lembrar de nossa finitude e de nosso desamparo; que temos um Céu a ganhar e uma morte eterna a evitar. Como escreveu C. S. Lewis, as tragédias, muitas vezes, são o megafone de Deus.

O que aproveito de tudo isso é a reflexão suscitada pelos fatos que me fazem pensar que a vida é frágil, a tragédia é uma realidade sempre presente, este não é o lar que Deus planejou para nós e que nossa existência é feita de decisões. E se seu avião caísse hoje, como estaria sua vida? Que legado você deixaria para sua família e seus amigos? Que esperança de futuro o acompanharia até a sepultura?

Não adianta dourar a pílula. A tragédia e a tristeza estão em campo e permanecerão aqui até a volta de Jesus. O que nos resta fazer é nos preparar para esse grande evento, correr agora mesmo para os braços do Pai e orar pelos que estão com o coração apertado pela dor da perda e da saudade.

Vem logo, Senhor Jesus!

Michelson Borges 

Leia também: Adventistas se solidarizam com familiares de vítimas da Chapecoense




Uma das reflexões mais bonitas que li sobre o acidente é de Felipe Sandrin:

“Quando um avião cai a gente cai junto. Um avião transporta mais do que vidas, transporta sonhos. É o pai que está indo reencontrar os filhos, é a mãe que está indo buscar o sustento de sua família, são pilotos que planejam estar em casa ao jantar e a aeromoça que leva na bagagem o perfume favorito do namorado.

“Quando cai um avião a gente cai junto, pois quantos de nós viram os sonhos começar dentro de um avião. A viagem tão esperada, a assinatura de um contrato, o encontro com alguém com que tanto sonhamos estar junto.

“Aviões partem rumo a sonhos, e era isso que cabia também nesse trágico voo que quase chegou a seu destino. Jogadores que representavam o sonho do menino que quer ser jogador, jogadores que representavam seus familiares, seus torcedores.

“Quando um avião cai todos nós caímos juntos. Morrem sonhos, morrem encontros que não vão mais ocorrer, morrem saudades que não vão ser vencidas e que dali por diante vão apenas crescer e se tornar um buraco junto a quem nunca chegou.

“Quando um avião cai a dor é compartilhada, pois todos nós somos torcedores, torcemos para quem amamos, torcemos para logo poder dar o abraço, torcemos, pois ninguém sonha sozinho.

“Hoje esse humilde time de Santa Catarina tem a maior torcida do mundo, pois quando sonhos despencam do céu a solidariedade é a única camisa que todos vestem, pois essa é a única camisa que nesse momento nos conforta.

“Fica meu abraço e sincera dor a familiares e torcedores desse triste voo. O Resto é silêncio.”

sexta-feira, setembro 23, 2016

Compromisso com a primavera

“Que proveito tem o trabalhador naquilo com que se fadiga?” Eclesiastes 3:9

Em uma radiosa manhã primaveril, o filósofo George Santayana interrompeu sua palestra no meio de uma frase. “Acho que essa frase jamais será terminada”, disse ele. “Tenho um compromisso com a Primavera.” Ele juntou seus papéis, saiu do auditório e foi para uma região rural. Santayana era um indivíduo excêntrico em muitos aspectos, e não seria aconselhável seguir seu exemplo em tudo. Mas ele nos deixou uma lição sobre o equilíbrio que deve haver entre trabalho e lazer. Muitos de nós somos escravos do trabalho, e nos afadigamos durante todas as horas úteis do dia. Não temos tempo para relaxar e observar as coisas belas e simples da vida. Deus certamente levou em conta essa tendência humana ao nos criar, e por isso nos deixou um exemplo a ser seguido: “Havendo Deus terminado no dia sétimo a Sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a Sua obra que tinha feito. E abençoou Deus o sétimo dia e o santificou, porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera” (Gn 2:2, 3).

Trabalhar arduamente é bom, pois nos dá um senso de realização e utilidade e nos livra do tédio. Mas também pode nos manter ocupados demais para perceber que talvez estejamos correndo atrás do vento. Nosso compromisso com a primavera pode não ser igual ao do filósofo Santayana, entre árvores, grama e flores. Mas, seja onde for, é melhor não adiar esse compromisso até que seja tarde demais.

Guilherme vivia com a esposa Elisa no sopé de uma montanha. De sua casa se descortinava um panorama esplendoroso, com um lago no meio do vale, lá embaixo. Um dia Guilherme morreu em seu escritório, onde estava trabalhando até tarde, como era seu costume. A viúva Elisa se conteve durante o funeral e mesmo durante a venda de suas muitas posses. Mas perdeu totalmente o controle quando o leiloeiro anunciou o leilão de um par de cadeiras de balanço. “Uma delas é novinha em folha”, disse ele com entusiasmo.

Guilherme havia comprado as cadeiras para ele e Elisa, no verão em que havia aumentado o alpendre da casa com sua bela vista para o vale. Mas não tirou tempo para usar a sua. Ele perdeu seu compromisso com a primavera.

P.S.: A primavera começou ontem.

(Rubem Scheffel, Meditações Matinais 2010, Com a Eternidade no Coração, 22 de Setembro)

segunda-feira, agosto 22, 2016

Não espere até chegar à beira da morte

A vida é breve e alguns a abreviam
Ele era forte e sempre que passava em frente à minha casa eu o cumprimentava com um balançar de cabeça. Mora na mesma rua que eu, mas não é muito dado a conversa. Certa vez lhe entreguei um livro de conteúdo religioso, mas ele não deu muita importância. Nem sei se se deu ao trabalho de ler. Os meses se passaram. Seis, para ser exato. E nunca mais o vi. Até que nossa vizinha, também adventista, ligou para minha esposa e pediu que eu fosse até a casa de um senhor ali da rua, que está à beira da morte, acometido de um câncer agressivo no fígado. Semana passada fui à casa dele e simplesmente não o reconheci. Aquele homem forte, com cara de poucos amigos e olhar altivo estava deitado na cama, magérrimo, com a pele colada aos ossos, braços finos e o olhar cansado. Sim, o mesmo homem que seis meses antes caminhava pela rua com passos vigorosos.

Acompanhavam-me na visita o pastor da igreja que frequento e o obreiro bíblico (missionário). Conversamos com o doente. Fizemos perguntas sobre a relação dele com Deus e se ele cria em milagres. Disse-lhe que o maior milagre é entregar a vida a Jesus e permitir que Ele nos transforme. Disse-lhe, também, que Deus tem poder para curar qualquer enfermidade, mas que, neste mundo triste e sombrio, mais cedo ou mais tarde, a sepultura é o destino de todos nós. Por isso, a melhor coisa a fazer é deixar Deus ser Deus.

Li para ele textos bíblicos que descrevem a vida eterna e o quanto os seguidores de Jesus a almejaram, não amando esta vida; lembrando-se sempre de que esta vida é o pesadelo do qual ainda vamos acordar, e que na nova Terra a vida será de verdade. Falamos sobre o amor de Deus e apelamos para que ele entregasse a vida a Jesus. E ele aceitou. Fiz uma oração pedindo a Deus que cuide dele e da família; que dê força à esposa e aos filhos; e disse que estamos à disposição para ajudar no que for possível. Depois ligamos a TV dele no canal da TV Novo Tempo e dissemos para ele assistir todos os dias. O “canal da esperança”.

Conversamos um pouco mais com ele e, depois, com a esposa. Já na garagem, ela nos disse que ele frequentemente ficava bêbado e ela tinha que praticamente carregá-lo de volta para casa. O homem tem 43 anos, um a menos que eu. Mas parece ter 60! A menos que Deus opere um milagre, a vida dele terá fim. Tão novo. Quanto desperdício...

Voltei para casa pensativo. Lembrei-me, mais uma vez, do quanto a vida é curta e frágil, e de como as pessoas contribuem para abreviá-la e torná-la ainda mais difícil. Do quanto as pessoas procuram ignorar sua finitude. Por que esperar para aceitar Jesus somente à beira da morte? Por que deixar para mudar de vida quando a vida já não pode ser mudada? Por que dar as costas para Deus para perceber, mais tarde (às vezes tarde demais), que a vida só faz sentido com Ele?

Deus nos ajude a fazer a vida valer a pena. Que nossa vida breve seja suficiente para tomar a maior decisão de todas: aceitar Jesus e Seu plano de redenção. Não deixe para amanhã o que pode e deve ser feito hoje. Não deixe de lado sua família, sua saúde e sua comunhão com Deus. E, principalmente, não deixe sua salvação para amanhã. Quando o assunto é vida eterna, viva com se não houvesse amanhã. Para o meu vizinho, a realidade já é essa.

Michelson Borges

terça-feira, maio 03, 2016

O pai que muito amava e os filhos que se destruíram

terça-feira, abril 05, 2016

O dia em que terei superpoderes

Isso nem se compara...
Quando era adolescente, um dos meus passatempos preferidos era ler histórias em quadrinhos de super-heróis. Viajava pelas páginas de revistas belamente ilustradas por artistas como John Byrne, George Perez, Alex Ross e Frank Miller (desenhista que ficou “meia-boca”, mas que escrevia como ninguém). Personagens como Batman, Thor, Homem-Aranha, Wolverine, Superman, X-Men, Quarteto Fantástico e outros povoavam minha imaginação e me faziam deixar toda a mesada na banca de revistas, todos os meses. Cheguei a ter em minha coleção 2.500 títulos que ocupavam quase metade do guarda-roupa, cada revista devidamente guardada em sacos plásticos. Sabia tudo sobre os universos DC e Marvel. Mas confesso que, depois de ler essas HQs, frequentemente eu me sentia deprimido e frustrado. Por quê? Simples: porque minha vida não se comparava à daqueles heróis dos quadrinhos. Porque eu não podia voar, não tinha garras de adamantium, não conseguia escalar paredes, não tinha sequer um carro para chamar de Batmóvel. Minha vida era monótona, comum e sem graça como a da maioria dos meus amigos. E tenho a impressão de que era exatamente assim que alguém queria que eu me sentisse. 

Só que um dia eu conheci a mensagem de esperança contida nas páginas de um livro muito mais do que especial; um livro inspirado por Deus; um compêndio infalível com credenciais divinas. Um livro que, quanto mais estudo, mais me convenço de sua santidade e confiabilidade, e mais me maravilho com seu poder de transformar a vida, mudar os pensamentos, corrigir e moldar o caráter. Foi na Bíblia Sagrada que descobri que Deus criou o ser humano perfeito, dotado de capacidades extraordinárias. Descobri também que o ser humano, livre como sempre foi, escolheu se afastar de Deus – a fonte da vida –, pecou e começou a caminhar para a morte. Essa escolha terrível fez com que a humanidade perdesse muito. Mas a mesma Bíblia fala de um Deus que decidiu assumir a culpa humana a fim de nos redimir e devolver ao paraíso perdido. Mais de 2.500 vezes os autores bíblicos afirmam que Jesus vai voltar, e que, quando Ele vier, vai transformar em imortais aqueles que aceitaram Seu oferecimento de redenção. E vai levá-los para viver com Ele para sempre num mundo em que todos serão “superpoderosos”, com as mesmas capacidades que pertenceram a Adão e Eva antes do pecado.

Aquele mesmo alguém que procurava distrair minha mente adolescente com um mundo irreal de super-heróis como eu nunca poderia ser tenta hoje distrair a humanidade de diversas formas. E uma delas saiu das páginas dos gibis para as telonas do cinema. Fico espantado com a quantidade de filmes que têm sido exibidos e com o outro tanto que está sendo produzido e que têm como personagens aqueles super-heróis que me encantaram na adolescência, antes de conhecer a vontade de Deus para minha vida. Agora imagine por quantas vezes o poder de encantamento está sendo multiplicado com o uso das tecnologias modernas voltadas para a produção cinematográfica! De repente, as histórias em papel que capturavam apenas os nerds estão alcançando as multidões. Pessoas que vibram com as aventuras dos X-Men, do Superman, do Batman e da Mulher-Maravilha, mas que torcem o nariz quando ouvem falar em volta de Jesus, nova Terra e ressurreição. Pessoas que têm considerado as promessas da Bíblia como mais um mito cinematográfico. E aquele alguém ri de tudo isso.  

No capítulo 15 de sua primeira carta aos Coríntios, o apóstolo Paulo diz que, quando Cristo vier e nos transformar, seremos imortais e incorruptíveis; teremos um corpo semelhante ao do ressuscitado Jesus. A Bíblia diz também que seremos como os anjos. Portanto, podemos imaginar que teremos a capacidade de voar como eles! Quem sabe até poderemos viajar distâncias incalculáveis pelo espaço sideral, como fazem os anjos! Adão deveria ter dominado também sobre as criaturas aquáticas, então posso imaginar que cruzaremos oceanos com um fôlego só! Teremos superpoderes de verdade!

Mas o que mais me emociona é que poderei conhecer pessoalmente o maior super-herói do Universo; o maior super-hiper-mega-herói de todos os tempos. O super-herói que tem todo o poder, pois é todo-poderoso, mas que venceu pela força do amor, mostrando que a humildade, a verdade, a fidelidade e a integridade são marcas dos fortes. Os super-heróis dos gibis e das telas vencem com os punhos fechados; Jesus venceu com os braços abertos. Ele é o meu Herói e eu quero ser como Ele! Quero viver com Ele!

Mas tem alguém que continua lutando para desviar nossos olhos do verdadeiro Herói; da verdadeira realidade; do mundo que há de vir.

No livro O Grande Conflito, página 677, Ellen G. White escreveu: “Todos os tesouros do Universo estarão abertos ao estudo dos remidos de Deus. Livres da mortalidade, alçarão voo incansável para os mundos distantes. [...] Participarão dos tesouros do saber e entendimento adquiridos durante séculos e séculos, na contemplação da obra de Deus. Com visão desanuviada olharão para a glória da criação, achando-se sóis, estrelas e sistemas planetários, todos na sua indicada ordem, a circular em redor do trono da Divindade. Em todas as coisas, desde a mínima até à maior, está escrito o nome do Criador, e em todas se manifestam as riquezas de Seu poder.”

Não troque a ceia com o Senhor por um banquete de migalhas. O Céu aguarda por todos aqueles que aceitarem os planos salvíficos de Deus. Não se distraia nem se deixe iludir por heróis de mentira; pelo panteão da geração secularizada que continua tão adoradora quanto os pagãos do passado que faziam ofertas a Zeus, a Odin e a Baal.

Wolverine imortal? Deus do trovão? Kryptoniano indestrutível que morre e ressuscita? Nada disso! Esses supers não existem. Nasceram na mente de seres humanos pecadores talvez inspirados por alguém. São meros e pretensos substitutos dAquele que reina e vive para sempre. Que, ao voltar, Ele encontre uma geração com a mente e o coração devotados à verdadeira adoração, com foco na verdade e as afeições no Herói que os criou e morreu para salvá-los.

Michelson Borges