segunda-feira, março 28, 2016

“Microevolução” é realmente um termo necessário?

Diversificação de baixo nível
Nos últimos anos, no meio criacionista, a utilização de um termo tem chamado a atenção, e particularmente tem me deixado incomodado. Trata-se da palavra “microevolução”. A análise e o uso dessa palavra, o significado do termo, podem nos levar ao contraditório, como veremos a seguir.

“Micro” (milésima parte do milímetro, segundo o Dicionário Aurélio) provém da palavra grega mikros e significa pequeno; “evolução” (transformação gradual e progressiva, aperfeiçoamento, crescimento, segundo o Aurélio) conjunto de modificações em direção a um determinado sentido, que remete a um desenvolvimento gradual e progressivo. Literalmente micro + evolução = evolução em pequena escala. Mas realmente é isso que os criacionistas querem dizer?

Os principais problemas do uso desse termo:

1. Pouco utilizado no meio evolucionista brasileiro. Participo de alguns eventos ligados ao debate criacionismo x evolucionismo, além de acompanhar alguns sites que debatem o assunto com diferentes perfis ideológicos. O termo microevolução basicamente é utilizado em materiais criacionistas (o próprio Michelson explica por que o termo é de baixo uso entre os evolucionistas: confira).    

2. O significado do termo não é de tão fácil explicação. Microevolução é a ocorrência de mudanças evolutivas em pequena escala, como as mudanças de frequências gênicas dentro de uma população, ao longo de um número reduzido de gerações. E essas alterações acontecem ao nível ou abaixo do nível taxonômico da espécie. Os processos microevolutivos se devem a quatro diferentes processos: mutação, seleção natural, deriva genética e fluxo gênico (migração). Ou seja, para realmente compreender e explicar o termo de maneira clara e objetiva, o indivíduo deve possuir um conhecimento básico sobre genética, populações e taxonomia.

3. A mutação e a seleção natural levam a uma evolução? Existem diversas instituições e organizações (sociedades criacionistas, etc.) que debatem esse assunto, com maior propriedade e profundidade. Algumas considerações apenas: como engenheiro agrônomo, utilizo o melhoramento genético (não considerarei a transgenia), as leis de Mendel, na busca de variedades mais produtivas. Quando em uma determina espécie (milho, por exemplo) ocorre o cruzamento dos indivíduos para a criação de uma nova variedade, procuram-se indivíduos que expressem características de interesse agronômico, como tamanho de espiga, peso de grãos, resistência hídrica, resistência a doenças. Normalmente, esses indivíduos perdem outras características. Exemplo: uma variedade altamente produtiva pode ser mais sensível a determinadas pragas e doenças, ou ser mais sensível ao déficit hídrico, ou não possuir a melhor morfologia para a atividade agrícola. O melhoramento genético não está evoluindo essa espécie, apenas adaptando os indivíduos a um determinando ambiente altamente competitivo e para um fim especifico (a produção). Esse raciocínio vale tanto para a produção vegetal quanto animal. No ecossistema, também ocorre a seleção dos indivíduos mais aptos a sobreviver nos diferentes ambientes. Logo, não ocorre evolução, mas, sim, adaptação.  

4. Ipsis litteris. O significado (ou, segundo o Aurélio, o “sentido”, ou “aquilo que uma coisa quer dizer”) do termo. Como citado anteriormente, microevolução = evolução em pequena escala. Os criacionistas acreditam que está ocorrendo essa evolução? Acredito que não! No ambiente de debate que permeia os assuntos sobre criacionismo e evolucionismo, que muitas vezes beira ao passional, os termos utilizados devem ser claros, e preferencialmente objetivos, para não dificultar a relação e o entendimento de indivíduos que creem em visões opostas de mundo/filosofia. 

5. O fator teológico. Os criacionistas que creem no relato literal da criação bíblica em sete dias (ex.: adventistas) acreditam que Deus criou tanto o mundo quanto o ser humano perfeitos, e o pecado degenerou (e ainda está degenerando) o homem e a criação. O ser humano e o planeta Terra só serão restaurados após o retorno de Jesus Cristo. Então, como pode haver evolução (mesmo em pequena escala, ou evolução horizontal e não vertical), se ocorre a degeneração pelo pecado?

Outro ponto a ser considerado é em relação aos membros leigos – um individuo que não tem o conhecimento acadêmico adequado pode acreditar que determinada denominação religiosa que anteriormente tinha o criacionismo como uma de suas crenças agora aceita a teoria evolucionista.

A ciência se desenvolve, mudam-se as nomenclaturas, as definições, etc., mas realmente o termo microevolução tem levantado mais dúvidas e dificuldades do que os termos utilizados anteriormente para o mesmo fim.

Devido aos problemas citados acima, defendo que se faça a substituição desse termo por outras expressões técnicas, como, por exemplo, ADAPTAÇÃO, VARIAÇÕES BIOLÓGICAS ou DIVERSIFICAÇÃO DE BAIXO NÍVEL, expressões que já são utilizadas na literatura acadêmica e que são de fácil compreensão, e são aceitas pela comunidade científica.     

(Jetro Salvador é doutor em Produção Vegetal e mestre em Ciência do Solo. Gerência de Apoio Técnico, Agência de Defesa Agropecuária do Paraná – ADAPAR)

O enigma da informação

sexta-feira, março 25, 2016

Ovos de chocolate ou uma tumba vazia

Papa superpop pede a conversão dos fundamentalistas

A Terra se maravilha cada vez mais
Clique aqui para assistir à reportagem sobre a aprovação mundial (inclusive entre judeus e ateus) do papa Francisco como líder incontestável. Num mundo que carece de liderança moral, tão imerso em corrupção e injustiças, a figura do chefe da Igreja Católica só ganha força. Na quarta-feira, o pontífice apelou: “Que o Senhor converta o coração das pessoas cegas pelo fundamentalismo cruel.” Conforme noticiado pela Rádio Vaticanareferindo-se aos atentados em Bruxelas, Francisco dirigiu um apelo a todas as pessoas de boa vontade para se unirem numa unânime condenação desses “cruéis abomínios, que estão causando somente morte, terror e horror”.

De fato, as ações terroristas devem ser condenadas e abominadas, mas é bom lembrar que, para o papa, fundamentalistas não são apenas os terroristas islâmicos (leia atentamente isto aqui), e que, quando esteve na ONU, no ano passado, Francisco apelou aos líderes mundiais para que combatessem os fundamentalismos, assim, no plural. Quem lê entenda... [MB]

quinta-feira, março 24, 2016

Existe mesmo loira burra?

Burros são os estereótipos
O estereótipo da “loira burra” está simplesmente errado, garantem cientistas. Uma pesquisa entre 10.878 norte-americanos revelou que as mulheres brancas que disseram que a cor natural do seu cabelo era loira apresentaram um QI médio que varia apenas três pontos do QI médio das morenas e das mulheres de pele clara com cabelo vermelho ou preto. Embora as piadas sobre loiras possam parecer inofensivas para alguns, na verdade elas podem ter implicações no mundo real. “Pesquisas mostram que os estereótipos frequentemente têm um impacto sobre a contratação para um emprego, promoções e outras experiências sociais”, afirma Jay Zagorsky, autor do estudo e pesquisador da Universidade do Estado de Ohio (EUA). “Este estudo fornece evidências convincentes de que não deve haver qualquer discriminação contra as loiras com base em sua inteligência”, adicionou.

O estudo mostrou que o QI médio das loiras foi na verdade ligeiramente maior do que o QI das mulheres com outras cores de cabelo, mas o dado não é estatisticamente significativo, disse Zagorsky. “Eu não acho que você possa dizer com certeza que loiras são mais inteligentes do que as outras, mas você definitivamente não pode dizer que elas sejam mais burras”, comparou.

Os resultados para os homens brancos loiros foram semelhantes - eles também têm QIs mais ou menos iguais aos homens com outras cores de cabelo.

O estudo foi publicado na revista Bulletin Economics.


Nota: A verdade é que burro é todo tipo de estereótipo. Certa vez, tomei um táxi em Santiago, capital do Chile. Assim que soube que sou brasileiro, o taxista perguntou: “Cómo van las chicas.” Ingenuamente, me perguntei: “Como ele sabe que sou casado e tenho filhas?” Vendo minha expressão de dúvida, ele prosseguiu: “As mulheres, aquelas que sambam.” Aí fiquei indignado! Expliquei para ele que nem todos gostam de samba no Brasil. Disse-lhe que nosso país é muito grande e que aqui há culturas e preferências variadas. Mesmo assim ele insistiu e disse que queria conhecer o carnaval do Rio de Janeiro e, claro, as “chicas”. E eu o convidei a conhecer, além do Rio, outras partes do Brasil, e disse que, na verdade, a grande maioria dos brasileiros nem gosta de carnaval.

Existem, sim, aquelas que gostam de expor o corpo para as câmeras dos ávidos fotógrafos em busca do melhor ângulo, da melhor foto, contribuindo assim para a manutenção do triste estereótipo da “mulher brasileira”; mas também existem aquelas que preferem o recado e a discrição.

Há também os estereótipos de natureza religiosa, do tipo “todo crente é burro”. Embora haja mesmo religiosos que façam por merecer, é preciso reconhecer que muitos crentes amam o conhecimento e têm dado grande contribuição em suas áreas de atuação.

Portanto, esqueça coisas do tipo “sulistas são muito fechados” e “nordestinos são preguiçosos”, além, é claro, do mito da “loira burra”. Afinal, pior que o estereótipo é o preconceito.

O apóstolo Pedro disse certa vez: “Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas” (Atos 10:34). E se Deus não faz, quem somos nós para fazer? Não somos todos filhos de um mesmo Pai, iguais por natureza?

E pra concluir, quero dizer que sou casado com uma loira e tenho uma filha também loira. E elas são muito inteligentes! [MB]

Consumo de carne vermelha ligado à menstruação precoce

Menstruação precoce leva a doenças
Meninas que comem carne vermelha começam a menstruar, em média, cinco meses mais cedo do que aquelas que não comem esse tipo de carne. Por outro lado, as garotas que consomem peixes com alto teor de gordura, como atum e sardinha, mais de uma vez por semana, têm seu primeiro ciclo menstrual significativamente mais tarde do que aquelas que comem os mesmos peixes apenas uma vez por mês ou menos [pena que não foi feita pesquisa com garotas vegetarianas]. Os dados foram coletados entre meninas de 5 a 12 anos de idade da Colômbia por pesquisadores da Universidade de Michigan (EUA). Elas foram monitoradas por cerca de seis anos. A carne vermelha consumida pelas meninas variou entre menos de quatro vezes por semana a duas vezes por dia. As meninas que comiam mais carne vermelha começaram seus períodos em uma idade mediana de 12 anos e 3 meses. Aquelas que comiam com menos frequência menstruaram com 12 anos e 8 meses. Aquelas que comiam peixe gordo mais frequentemente começaram aos 12 anos 6 meses.

“Não sabemos quais componentes específicos da carne vermelha podem provocar a menstruação precoce. Poderia ser a proteína ou alguns micronutrientes naturalmente presentes na carne vermelha, subprodutos que são criados durante a fabricação, a embalagem das carnes curadas, durante o cozimento, ou substâncias que estão nos alimentos do gado”, disse o professor Eduardo Villamor.

Cinco meses podem não parecer muito, mas é um número significativo quando se fala de um estudo populacional, disseram os pesquisadores. “É uma diferença importante porque está associada ao risco de doenças mais tarde na vida. Esse resultado pode também contribuir para explicar por que o consumo de carne vermelha no início da vida está relacionado ao aumento do risco de câncer de mama mais tarde na vida”, disse Erica Jansen, a principal autora do estudo.

Além do câncer de mama, o início precoce da puberdade tem sido associado com doenças cardíacas, como a obesidade e o diabetes tipo II.


Nota: Eu já havia divulgado esse tipo de informação aqui. Agora adicione ao consumo de carne vermelha a explosão de erotismo em nossa sociedade e os constantes estímulos ao sexo cada vez mais precoce, e você terá uma ideia mais clara do porquê do encurtamento da infância e da erotização cada vez mais cedo das meninas. [MB] 

quarta-feira, março 23, 2016

Stephen Jay Gould: o evolucionista provocador

O negócio secreto da paleontologia
Stephen Jay Gould[1] (1941-2002) foi um paleontólogo e biólogo evolucionista norte-americano. Foi também um autor importante no que diz respeito à história da ciência. É reconhecido como o mais lido e conhecido divulgador científico da sua geração: “A extrema raridade de formas transicionais no registro fóssil persiste como o negócio secreto da paleontologia. As árvores genealógicas que adornam nossos livros-texto têm dados somente nas extremidades e nódulos de seus galhos; o resto é inferência, por mais que razoável, não é a evidência dos fósseis [...] O argumento de Darwin ainda persiste como a fuga favorita da maioria dos paleontólogos do constrangimento de um registro que parece mostrar tão pouco da evolução diretamente [...] Eu somente quero destacar que isso [o gradualismo da evolução] nunca foi visto nas rochas.”[2, p. 181]

Na opinião de Gould, era o gradualismo que deveria ser rejeitado, mas ele continuou firme com o darwinismo,[2, p. 182] mesmo com todas as suas problemáticas cada vez mais expostas, e umas até por ele mesmo, como devidamente exposto na citação acima.

O mestre em História da Ciência Enézio E. de Almeida Filho, criador do blog Desafiando a Nomenklatura Científica, referiu-se a Gould da seguinte maneira: “Stephen Jay Gould foi um darwinista honesto, e muito bom em reconhecer o fenômeno da ‘viseira epistemológica’ nos seus colegas ultradarwinistas [certa vez Gould os chamou de ‘fundamentalistas’].”[3] No link da referência podem ser vistas mais de 15 outras referências de frases e pensamentos de Stephen J. Gould.

(Gabriel Stevenson)

Referências:
[1] ALMEIDA FILHO, Enézio E. de. Desafiando a Nomenklatura Científica. “Explicando Stephen Jay Gould, o evolucionista ‘provocateur’.” 2010. <http://goo.gl/PfOA2Y>
[2] GOULD, S. Jay. The Panda’s Thumb. Nova York: W. W. Norton, 1980. <http://goo.gl/H6ldr5>
[3] ALMEIDA FILHO, Enézio E. de. Desafiando a Nomenklatura Científica. “Stephen Jay Gould e a ‘viseira epistemológica’ dos ultradarwinistas.” 2006. <http://goo.gl/w3u30J>

Nota: Lembro-me de que, em 1998 (se não me falha a memória), a Folha de S. Paulo dedicou duas páginas de sua edição dominical para contrapor as ideias de Gould às de Richard Dawkins. Na época, alguns setores da imprensa ainda tinham coragem de admitir e destacar as contradições entre evolucionistas de peso como esses dois. Com a morte de Gould, em 2002, vitimado pelo câncer, Dawkins despontou como o maior defensor do darwinismo, só que, como uma verdadeiro capelão de Darwin, sem um pingo do senso crítico de Gould. Dawkins é um ultradarwinista fundamentalista. Gould era provocador e realista. Como ele tem feito falta... [MB]

Evidências de literalidade no relato da criação

[O artigo a seguir, escrito por Agatha Lemos, André Lóia, Cleber Marchini, Flávio Oak e Isaque Siqueira, é outro dos bons trabalhos produzidos para minha matéria de Criacionismo Bíblico, na pós-graduação em Estudos Adventistas e Teologia. Leia também o outro, que publiquei na semana passada. O destaque aqui vai para o ótimo infográfico criado pelo designer Flávio e escrito pela jornalista Agatha. Clique nele para vê-lo ampliado]


As evidências da semana da criação como evento literal podem ser encontradas na Bíblia, sendo aceitas pela fé, mas também podem ser observadas em fatos histórico-científicos que deixam margem para a compreensão literal do relato bíblico. Se, por um lado, não há indícios que apontem com mais concretude há quanto tempo o universo foi criado; por outro, o livro de Gênesis oferece informações relevantes a respeito da literalidade da criação da vida na terra em seis dias.

Para a grande maioria pertencente à comunidade científica, a criação dos seres se deu a partir de milhões de anos, com macromutações que levaram os seres menos complexos a evoluírem, tornando-se mais complexos com o passar de longas épocas.

Chama a atenção também o fato de que não é apenas o campo científico que vê com descrédito a criação descrita na Bíblia, mas até mesmo teólogos cristãos interpretam a história de Gênesis como um conto de fundo moral sobre a obediência. Outros creem na criação divina, contudo, em uma criação que ocorre por meio de eras evolutivas.

São muitas as correntes de pensamento quando o assunto é a origem da vida e das espécies. Até mesmo para os que entendem haver um projetista por trás de tamanha variedade de seres, pode não haver consenso sobre a criação em seis dias literais.

Para os que creem na fidedignidade do livro de Gênesis, é possível, com estudo acurado, fundamentar sua crença por meio de elementos-chave. A estrutura narrativa, por exemplo, reúne muitos deles.

Uma leitura apressada não permite a observação de diferenciais textuais que compõem o corpo de evidências da literalidade do relato do primeiro livro da Bíblia. Estudiosos como Richard Davidson afirmam que o gênero literário de Gênesis 1 e 2 não fornece elementos para que a narrativa seja tomada como simbólica, metafórica ou mesmo meta-histórica. Ao contrário, o autor do primeiro livro da Bíblia apresenta intencionalidade ao escolher determinadas palavras, as quais também já foram usadas em outros trechos bíblicos com a função de ratificar a literalidade do evento.

A estrutura literária de Gênesis como um todo indica a natureza literal das narrativas da criação como sendo intencional. É amplamente reconhecido que todo o livro está estruturado segundo a palavra hebraica toledot (gerações, história), em ligação com cada seção do livro (13 vezes). Essa palavra, em outro lugar das Escrituras, é usada no registro das genealogias com relação à contagem precisa de tempo e história” (DAVIDSON, 2011, p. 5).

Outras evidências também apresentadas por Davidson (2011) têm que ver com a expressão que aparece ao final de cada descrição criativa: tarde e manhã”, que define claramente a natureza dos diascomo períodos literais de 24 horas(IBIDEM).

Além disso, ao citar a palavra dia” (no hebraico yôm) em cada um dos seis dias da criação, o autor de Gênesis trabalha com a ideia de número ordinal. Ele trata a sequência da criação como primeiro dia, segundo dia, e assim por diante até o sexto dia.

No entanto, autores como John C. L. Gibson argumentam que “se entendermos dia” como equivalente a “época” ou era”, poderemos pôr a sequência da criação, apresentada no capítulo 1, em conexão com os relatos da moderna teoria da evolução, e assim caminhar um pouco no sentido da recuperação da reputação da Bíblia em nossa era científica ... Tanto quanto este argumento inicie uma tentativa de ultrapassar o sentido literal, atribuindo à semana da criação o sentido de uma parábola, com uma duração muito mais extensa, isso será digno de elogios” (GIBSON, 1981, p. 56).

o alemão Hansjörg Bräumer (1983) afirmou que o dia da criação não poderia ser a mesma unidade de tempo que medimos, hoje, pelo relógio. A isso ele atribui a falta do Sol, que apareceria somente no quarto dia. Bräumer (Idem) se apega ao fato também de que para Deus o tempo é relativo, isto é, um dia divino pode corresponder a mil anos. Dessa forma, o teólogo acredita que é possível entender o relato da criação dentro da cosmovisão evolucionista, num ritmo de milhões de anos.

Para o criacionista progressista Stuart Briscoe (1987), é razoável interpretar a palavra dia” (yôm) como um período de eras e não como um único dia literal.

“O naturalista fala convincentemente em termos de milhões de anos e eras evolutivas, enquanto o crente na Bíblia olha para os seis dias e fica perplexo, sem saber o que fazer ... Não é absolutamente irrazoável crer que dia” (em hebraico yôm), que pode ser traduzido literalmente como período”, refira-se não a dias literais, mas a eras e épocas em que a obra criadora de Deus estava sendo realizada” (Briscoe, 1987, p. 37).

Davidson (2011), todavia, rebate tais posicionamentos alegando que a palavra dia” (yôm) aparece 359 vezes na Bíblia, demonstrando intertextualidade de termos temporais específicos. Em todas as ocorrências, faz-se referência a dias literais. O próprio Jesus, aponta Davidson, e todos os escritores do Novo Testamento recorreram ao Gênesis, atribuindo-lhe sentido literal. O quarto mandamento, das tábuas da Lei (Êxodo 20:8-11), também é escrito em forma comparativa e equivalente à semana da criação, ou seja, só sentido guardar o sétimo dia da semana – o sábado se a semana foi criada literalmente em seis dias de 24 horas.

Stambaugh (1991) e outros estudiosos bíblicos, como Hasel e Fretheim, concluem que Gênesis 1 expressa a ideia de dia literal de maneira irrefutável. Deus criou uma série de seis dias consecutivos, de [aproximadamente] vinte e quatro horas.

Muitos outros pressupostos poderiam ser mencionados, como as características extremamente peculiares do relato de Gênesis. Contrariando as crenças da época e da região do autor, ele abre o livro dizendo que houve um princípio, ou seja, o mundo não era cíclico, como se cria há mais de quatro mil anos. O reconhecimento de um só Deus Deus esse independente e criador da própria natureza, Deus sujeito e supremo capaz de criar a partir do nada difere completamente da mitologia prevalecente dos povos do Oriente Próximo (politeísta) a respeito da origem da vida.

Ademais, a sequência lógica que Deus estabeleceu para o mundo natural, em que os elementos iam sendo criados segundo a demanda da próxima criação, aponta para a literalidade dos fatos. Deus primeiro separou a água da porção seca, por exemplo, para depois povoá-los com animais, pois o contrário não seria possível.

A importância da literalidade do relato da criação para a teologia bíblica e para os adventistas

Se o relato da criação não é literal, mas metafórico, que segurança a teologia bíblica teria de que todo o restante é confiável? Se os capítulos um e dois de Gênesis são apenas simbólicos, como saber se o capítulo três também não se trata de mera ilustração?

Se Deus usou processos evolutivos para dar origem à existência das espécies, seja do mundo vegetal, como do animal, a morte já faria parte desse processo? Se a morte foi estabelecida pelo próprio Deus, em um sistema de seleção natural, em que sobrevive o mais apto, então a morte deixa de ser consequência pelo pecado?

Se a morte não é consequência do pecado, por que Deus Se faria homem (Jesus) e morreria pela humanidade caída”? Se Jesus não morreu pelos pecados da humanidade, Ele seria realmente Deus? Ele ressuscitaria? Ele voltaria, segundo Sua promessa?

Observa-se com tais questões que todo o esquema bíblico-teológico desmorona quando a criação de Gênesis 1 e 2 deixa de ser encarada como um fato literal. Sendo assim, Jesus perde a centralidade e funcionalidade que a Bíblia Lhe confere do primeiro ao último livro.

“No fluxo canônico geral das Escrituras, por causa da ligação inseparável entre a origem (Gn 1-3) e o fim dos tempos (Ap 20-22), sem um começo literal, não há um fim literal. Além disso, pode-se argumentar que as doutrinas da humanidade, pecado, salvação, juízo, sábado, e assim por diante, já apresentadas nos capítulos de abertura de Gênesis, todas dependem da interpretação literal das origens” (Klingbeil, 2015, p. 19).

No que diz respeito aos adventistas do sétimo dia, isso tem ainda mais implicações. Sem a crença da criação em seis dias literais, toda a doutrina professada seria desconstruída. O povo do adventoestaria esperando pelo advento de quem? E que sentido haveria de ter o sétimo dia como dia separado? Por que guardar os mandamentos, se eles são apenas figurativos, bem como toda a Bíblia?

Além disso, os relatos da criação, conforme estão descritos em Gênesis 1-3, enfatizam o caráter de Deus sob três importantes aspectos: Seu amor (por criar), Sua justiça (por permitir que as consequências das escolhas de Adão e Eva recaíssem sobre eles) e Sua misericórdia (ao providenciar redenção por meio do unigênito Jesus).

A partir do momento em que a Bíblia deixa de ser autoridade máxima, a graça recebida pelos méritos substitutivos de Jesus perde todo seu valor. Reconhecer o relato de Gênesis 1-3 como literal está intimamente ligado ao senso de adoração Àquele que fez, que faz e que fará.

A relação entre a literalidade do relato bíblico da criação e as três mensagens angélicas de Apocalipse 14
           
As três mensagens angélicas de Apocalipse 14:6-9 têm uma função bem definida do ponto de vista escatológico. Contudo, elas apresentam outros elos que remetem à literalidade do relato da criação.
 
E vi outro anjo voar pelo meio do céu, e tinha o evangelho eterno...” Que evangelho é esse? O evangelho significa as boas-novas da salvação. A salvação só é ofertada por Deus porque o homem peca, segundo Gênesis 3, portanto, a justificação pela fé depende da crença na criação literal. Jesus, nosso substituto pela fé, veio salvar o homem que cometeu pecado no Éden de Gênesis.

Temei a Deus, e dai-lhe glória; porque vinda é a hora do seu juízo. E adorai aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas.” Temer, dar glória e adorar ao Criador de toda a existência, dos seres animados e inanimados. A exortação de Apocalipse 14 só é possível se o relato de Gênesis 1-3 for literal, pois é nas primeiras páginas da Bíblia em que Deus é denominado Criador. A relação entre o juízo e a criação também se tornam evidente porque quem criou pode julgar, bem como redimir.

Caiu, caiu Babilônia, aquela grande cidade, que a todas as nações deu a beber do vinho da ira da sua prostituição.” A profecia aponta que ruirão a mentira e o engano acalentados por denominações religiosas. Quando mesmo as igrejas cristãs substituem a autoridade bíblica, trocando-a pela tradição, isso significa que a literalidade da Palavra é preterida e, nesse caso, a criação também deixa de ser um evento real para ser apenas uma figura de linguagem com fins instrutivos.

E seguiu-os o terceiro anjo, dizendo com grande voz: Se alguém adorar a besta, e a sua imagem, e receber na sua testa, ou na sua mão...A adoração é a grande questão desde o Gênesis. Apocalipse retoma o tema, trazendo à tona a marca da besta (falso sábado) e fazendo uma advertência a quem aderir a ela. O descanso celebrado no falso sábado (domingo), por exemplo, pretende tirar a validade do relato da criação, quando Deus usa seis dias para criar e descansa, separa e abençoa o sétimo dia como memorial das Suas obras. A maneira mais eficaz de descaracterizar a criação literal em seis dias é pisar sobre o sétimo dia da semana, o verdadeiro sábado. É por isso que a marca da besta reflete a essência do grande conflito, isto é, a quem se deve adorar.

Referências:
ALMEIDA, J. F. blia, tradução Revista e Corrigida.
BRÄUMER, Hansjörg. Das erst Buch Mose. Wuppertaler Studienbibel, Kapitel, 1-11 (Wuppertal: R. Brockhaus Verlag, 1983), 44.
BRISCOE, D. Stuart. Genesis, The Communicator’s Commentary (Waco, TX: Word Books, 1987), 37.
DAVIDSON, Richard M. Diálogo 22 (2011) 5-8. Criação e dilúvio global: relato literal ou alegórico?
GIBSON, John C. L. Genesis, The Daily Study Bible, vol. 1 (Edinburgh: The Saint Andrews Press, 1981), 56.
HASEL, Gerhard F. “Dias literais ou períodos de tempo figurados?” Revista Criacionista nº 53. http://www.revistacriacionista.com.br/artigos/FC53_diasLiterais.asp. Acesso em 08/03/2016.
KLINGBEIL, Gerald A. He Spoke and It Was: Divine Creation in the Old Testament V1, 2015.
STAMBAUGH, James. The Days of creation: A semantic approach”, CEN Technical Journal 5, nº 1 (1991).

terça-feira, março 22, 2016

Obama e o atentado em Bruxelas: “O mundo deve se unir”

Vítimas de explosão em Bruxelas
Em visita a Cuba, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, comentou o atentado assumido pelo Estado Islâmico em Bruxelas, na Bélgica, que deixou dezenas de mortos e centenas de feridos: “Este é mais um lembrete de que o mundo deve se unir. Temos que estar juntos, independentemente da nacionalidade, da raça ou da fé, na luta contra o flagelo do terrorismo.” Recentemente, num discurso na ONU, Obama disse que os Estados Unidos não vão tolerar “cultos apocalípticos” (confira), e que farão de tudo para combater o fundamentalismo. O papa, em sua passagem pela terra do Tio Sam, em setembro do ano passado, disse que é preciso vigiar os “fundamentalismos”; sim, ele disse isso no plural... Por quê? Porque no senso que já se tornou comum e na visão do papa, de Obama e da mídia, fundamentalista é todo indivíduo ou grupo de pessoas que interpretam como literais os textos que encaram como sagrados e não abrem mão de suas crenças. 

Na verdade, há pelo menos três cenários que ajudarão a promover a união de todos em favor do “bem comum”: a proteção da família, a proteção do meio ambiente e o combate ao terrorismo. O medo é um grande fator de união. Sempre foi. E cada atentado terrorista é um lembrete para o mundo de que o extremismo, o fanatismo e o fundamentalismo religioso são um perigo para a humanidade. E, nesse caso, extrapolações e comparações indevidas acabam sendo feitas, tornando o mundo cada vez mais perigoso até mesmo para pessoas que jamais fariam mal a uma mosca, mas que serão consideradas “farinha do mesmo saco fundamentalista”.

O mundo é uma bomba prestes a explodir. É um barco que vaza água por todos os lados. Um dia a gente dorme com a falsa impressão de que tudo está em paz, só para ser surpreendido com a notícia de que um maluco se explodiu ceifando a vida de um monte de gente inocente. As pessoas não aguentam mais tanta violência (embora esse tipo de barbaridade ocorra quase todos os dias em países não tão “midiáticos”...) e cada vez mais clamam por segurança e paz. E esse objetivo será perseguido... Mas a que preço?

Conforme destaca o Dr. Vanderlei Dorneles, em seu livro O Último Império, “algumas crenças e posturas mantidas pelos adventistas do sétimo dia têm levado importantes pesquisadores a considerá-los fundamentalistas. [...] Essas crenças ou pressuposições são exatamente aquelas relacionadas à visão profética adventista em que o sábado, como selo de Deus, exerce uma função vinculadora da crença na criação do mundo em seis dias e da breve vinda de Cristo” (p. 146, 147).

Donald Trump vem aí. Ele poderá ser o próximo presidente dos Estados Unidos. E, diferentemente de Obama, o magnata adora uma boa briga...

Quem tem ouvidos que ouça. [MB]