segunda-feira, setembro 26, 2022

O James Webb provou que o Big Bang nunca aconteceu?

Nas últimas semanas, testemunhamos uma avalanche de fake news inspiradas em observações do James Webb Space Telescope (JWST)

Uma dessas linhas de boatos ganhou maior destaque por entrar em ressonância com fake news mais antigas e bastante apreciadas, tanto por defensores da doutrina do Universo jovem jovem quanto por defensores da hipótese do Universo eterno. Tal ressonância acrescentou um aspecto interessante de ironia ao assunto. 

A ironia 

Um ateu chamado Eric Lerner tem combatido o modelo do Big Bang por entender que esse modelo aponta para uma Divindade criadora do Universo. Com isso em mente, Lerner adotou como missão combater esse modelo e tem escrito sobre o assunto há algumas décadas, apesar de demonstrar importantes limitações em seu conhecimento técnico não apenas sobre esse assunto, mas também em outras áreas da Física. Até aí, nada de anormal. A ironia está em que um grupo de criacionistas do Universo jovem engajou-se em festejar, promover e ampliar fake news divulgadas por Eric Lerner. 

Para entender o grau de ironia que isso representa, o que Eric Lerner tenta apresentar são evidências de que o Universo é eterno, de que ele nunca teria sido criado. De alguma forma, alguns criacionistas pensaram que as supostas evidências divulgadas por Lerner favorecem a posição deles, de que o Universo foi criado por Deus há poucos milhares de anos. 

Parece absurdo? Na verdade, é, mas existe um caminho tortuoso de desinformação que obscurece o entendimento a ponto de fazer parecer que essas ideias diametralmente opostas sejam compatíveis entre si. Como o Universo eterno e sem Deus de Eric Lerner estaria em harmonia com o Universo criado recentemente por Deus defendido por uma ala de criacionistas? A resposta é que essas duas crenças diametralmente opostas possuem um inimigo comum: o Big Bang. Como diz o provérbio, “o inimigo de meu inimigo é meu amigo”. 

Faz sentido que Eric Lerner combata o Big Bang, mas de que maneira o Big Bang se opõe à crença no Universo jovem? Na verdade, ele não se opõe, mas há fake news muito queridas por alguns, as quais dizem que sim, que Big Bang e criacionismo seriam opostos. 

Na superfície, há quem diga que Big Bang é uma alternativa ateísta ao relato bíblico de Gênesis, o que não é verdade por várias razões. Porém, a base do antagonismo contra o Big Bang é outra, e é nela que devemos nos concentrar em primeiro lugar. 

A ideia básica fundamenta-se nas seguintes premissas (hipóteses), nem todas verdadeiras:  

a. o assunto de Gênesis 1 seria a criação do Universo inteiro;

b. de acordo com a cronologia bíblica, a semana da criação ocorreu há poucos milhares de anos;

c. a crença de que o Universo tem bilhões de anos de idade origina-se na “teoria do Big Bang” e, se essa teoria for derrubada, então as pessoas podem voltar a crer que o Universo é jovem. 

É bastante evidente que a premissa (c) é incompatível com as premissas (a) e (b) combinadas. Entretanto, a premissa (a) não pode ser provada biblicamente (as supostas “provas bíblicas” nessa área sempre envolvem erros de exegese e desconsideração de um ou mais aspectos da hermenêutica), e a premissa (c) também é falsa. 

A discussão sobre exegese nesse ponto é bastante longa e envolve aspectos do hebraico que fogem ao escopo deste artigo, mas a premissa (c) está mais diretamente ligada ao assunto em pauta. É verdade que a ideia de que o Universo é antigo baseia-se na “teoria do Big Bang”? Absolutamente não. Pelo contrário. 

O que nos diz que o Universo é antigo é a velocidade finita da luz combinada com as distâncias enormes nas quais podemos observar objetos. O que o modelo do Big Bang fez foi mostrar que o próprio tempo teve um início e, portanto, o Universo (espaço-tempo) não pode ser eterno. Além disso, ele nos permite fazer uma estimativa da idade do Universo a partir de parâmetros que podemos medir. Mas de maneira nenhuma precisamos do Big Bang para perceber que o Universo não pode ter apenas uns poucos milhares de anos de idade. 

Até o início do século 20, predominava no ambiente acadêmico a crença de que o Universo (o tempo e o espaço combinados) seria eterno. Após Hilbert e Einstein descobrirem independentemente a equação fundamental da Relatividade Geral, que expressa uma lei que vincula curvaturas no espaço-tempo com distribuições de energia (e momentum e tensões), vários pesquisadores experimentaram aplicar essa equação ao Universo como um todo e descobriram consequências perturbadoras: ou o Universo terá um fim, ou teve um início ou ambos. Essa equação já traz embutida a primeira lei da Termodinâmica. Georges Lemaître utilizou também a segunda lei da Termodinâmica como filtro para o espectro de soluções encontrado pelos demais pesquisadores. Com isso, descobriu que o tempo teve um início, isto é, que o Universo foi criado em algum momento do passado. 

Duas décadas mais tarde, Fred Hoyle, que era ateu na época e por isso preferia crer que o Universo é eterno, tentou ridicularizar o modelo de Lemaître chamando-o de “Big Bang” (Grande Explosão). Infelizmente, esse nome enganoso tornou-se popular e hoje precisamos lidar com ele e com um séquito de ideias fisicamente absurdas sobre o modelo, mas que são populares entre leigos que gostam de combatê-lo, seja por não acreditarem em Deus, seja por pensar que se trata de um modelo que defende o ateísmo. Ou seja, o modelo é combatido por alguns ateus por apontar para Deus, e por alguns criacionistas por não apontar para Ele. 

Uma curiosidade: mais tarde, Fred Hoyle descobriu o ajuste fino do Universo, passou a crer em Deus e deixou de ter motivos para combater o Big Bang, ou seja, defender o Universo eterno. 

É importante esclarecer que as alternativas que temos são: 

1. o Universo foi criado, isto é, alguma versão de Big Bang é válida;

2. o Universo é eterno, nunca foi criado. 

Quem combate o Big Bang opta pela segunda alternativa ao fazer isso, mesmo que creia na doutrina do Universo jovem. Nesse último caso, trata-se de uma posição autocontraditória. 

O que faz parecer com que “criacionismo anti-big bang” não seja uma crença autocontraditória é o desconhecimento quase que universal do modelo em si. É comum vermos pessoas falando em evolução de galáxias e referindo-se a isso como a “teoria do Big Bang”, ou, pior ainda, confundindo Big Bang com a explosão de um material que esteve em algum momento concentrado em um ponto do espaço e veio a explodir, lançando partículas em todas as direções. Nada mais longe da verdade. 

No modelo original de Lemaître (o de hoje faz uso de menos hipóteses e por isso abrange mais possibilidades), o Universo seria a superfície tridimensional de uma esfera quadridimensional. A direção radial dessa esfera quadridimensional é uma dimensão de tempo. O centro da esfera corresponde ao momento da criação do Universo, não a uma localização no espaço. 

Essa superfície tridimensional na qual vivemos e que chamamos de Universo está em expansão de nosso ponto de vista, enquanto o raio do Universo cresce ao nos afastarmos do momento da criação. Ela possui uma distribuição de material que apresenta certa homogeneidade em larga escala e já nasceu mais ou menos homogênea, com todo o espaço preenchido desde o início. Em nenhum momento a matéria estaria concentrada em um ponto do espaço, nem viria a explodir e ir preenchendo o restante do espaço ao longo do tempo. Essa ideia seria incompatível com a Relatividade Geral e só é defendida por quem não tem suficiente conhecimento técnico do assunto e dispõe apenas de boatos como fontes de informações sobre Cosmologia. 

No modelo original de Lemaître, o Universo teria uma curvatura global positiva. No modelo atual, generalizado, o de Lemaître é apenas um caso particular de possibilidades. A nova versão também lida bem com curvatura negativa e curvatura nula. Em qualquer caso, em todo o domínio de validade do modelo, o espaço já está todo preenchido desde o início. 

Atualmente, também sabemos que a curvatura global do Universo é nula ou muito próxima disso. A hipótese adicional de Lemaître, de que o Universo possui globalmente uma curvatura positiva, é irrelevante para os resultados relevantes do modelo. 

Poderíamos utilizar o modelo do Big Bang em si em um cenário em que o Universo foi criado por Deus há seis mil anos, como, aliás, o Dr. Humphreys tenta fazer em seu livro Luz Estelar e Tempo. Ele se propõe a apresentar uma alternativa ao Big Bang baseada na Relatividade Geral, mas o que obtém é um universo hospedeiro preexistente no qual Deus planta um buraco branco (um Universo em expansão, ou seja, um big bang). O universo hospedeiro também precisa seguir a equação da Relatividade Geral, bem como a restrição da segunda lei da Termodinâmica, o que implica em outra instância de big bang. Em suma, Humphreys substitui um big bang por dois, mas seu modelo é um exemplo de aplicação da mesma ideia de big bang a um universo recente (o interno, neste caso). 

Um dos objetivos principais do livro de Humphreys é o de tentar resolver o problema da luz estelar distante, que é o verdadeiro motivo pelo qual sabemos que o Universo é antigo. Na concepção dele, seis mil anos teriam se passado na Terra enquanto bilhões de anos teriam se passado no resto do Universo. É uma ideia interessante, exceto por alguns problemas graves:

1. o argumento de Humphreys depende da hipótese falsa usada implicitamente de que a direção radial de um buraco branco é uma dimensão de espaço, sendo que ela é uma dimensão de tempo; o fato de ele não perceber isso é um dos itens que demonstram a pouca familiaridade dele com a Relatividade Geral;

2. a proposta dele implica em azulamento de objetos distantes, exatamente o contrário do que se observa;

3. depende implicitamente de antigravidade, que ainda não foi observada.

Além disso, a descrição verbal do processo de criação que ele faz no livro entra em conflito com as expressões matemáticas que ele apresenta. 

Como saber se o Universo é antigo ou jovem? 

Como mencionamos sem explicar, sabemos que o Universo é antigo por causa da velocidade finita da luz e das enormes distâncias de objetos visíveis no Universo. É importante entender essa questão, de maneira que vamos esclarecê-la um pouco mais. 

Ao olharmos para o céu, não podemos ver o presente, apenas o passado. Isso acontece porque a luz demora algum tempo para chegar até nossos olhos ou instrumentos, trazendo as imagens do que aconteceu no momento em que ela partiu de sua origem. 

Podemos descobrir quão antigas são as imagens que recebemos? Sim, e isso é relativamente simples: mede-se a distância D até o objeto observado. Sabe-se que a velocidade da luz é uma constante c e, com isso, é muito fácil calcular o tempo que a luz demorou para chegar até nós, o que nos diz quando foi que as imagens partiram de sua origem: 

c = D/t => t = D/c. 

Se adotarmos unidades de distância como segundo-luz (distância que a luz percorre em um segundo), minuto-luz, ano-luz, e assim por diante, e adotarmos a unidade de tempo correspondente (exemplo, usamos ano como unidade de tempo quando usamos ano-luz para medir distâncias), então o valor numérico de c é 1 e a distância nos permite saber imediatamente o tempo que a luz demorou para chegar até nós. 

Vejamos alguns exemplos:

1. A estrela Betelgeuse está a cerca de 650 anos-luz de distância. Isso significa que os eventos que observamos hoje aconteceram lá há cerca de 650 anos. Se ela explodiu há 300 anos, por exemplo, só poderemos ver isso daqui a 350 anos.

2. O buraco negro no centro da Via Láctea está a aproximadamente 26 mil anos-luz de distância. Isso significa que as imagens de estrelas que vemos orbitar esse objeto mostram não o que acontece hoje, mas o que acontecia há cerca de 26 mil anos.

3. A galáxia de Andrômeda está a cerca de 2,5 milhões de anos-luz de distância. Ela pode ser vista no céu a olho nu por ser nossa vizinha. Isso significa que os fenômenos que hoje observamos nela ocorreram 2,5 milhões de anos atrás.

4. Quase tudo o que se observa no espaço seria invisível para nós se o Universo tivesse poucos milhares de anos. Nem mesmo teríamos noção do que é uma galáxia se assim fosse. Veríamos o Universo como uma esfera contendo estrelas somente até uns seis a oito mil anos-luz de distância. Qualquer coisa além disso estaria além de nosso horizonte observacional. 

A incompatibilidade entre as observações astronômicas e a doutrina do Universo jovem é que tem sido chamado de “problema da luz estelar distante”. 

Várias tentativas têm sido feitas para resolver esse “problema” (luz criada em trânsito, Universo jovem com aparência de antigo, decaimento da velocidade da luz, modelo de Humphreys, sistema de coordenadas de Lisle, geometrias mirabolantes, outras variantes dessas ideias), mas cada tentativa esbarra em conflitos com a Bíblia, conflitos com as observações ou ambos. 

O caso JWST versus Big Bang 

Após nosso passeio por fake news antigas e fatos associados à Cosmologia, já temos uma noção mais clara sobre as motivações por trás das recentes fake news que envolvem um suposto atrito entre as observações do James Webb Space Telescope e o modelo do Big Bang. Também estamos munidos de informações que nos permitem identificar várias das fake news mais populares sobre o Big Bang. Mas vamos às novidades. 

A fagulha inicial desta vez parece ter sido uma ação de “trolls”. Vamos explicar esse neologismo. Muitas pessoas leem títulos chamativos, imediatamente tiram suas conclusões e passam a argumentar sem conhecimento de causa. Essas pessoas passaram a ser chamadas de “trolls” na era da Internet. 

Esse comportamento é antigo e é o mesmo que leva pessoas a utilizar descrições incorretas e até ridículas do modelo do Big Bang, as quais se originam essencialmente no nome enganoso dado por brincadeira por Fred Hoyle. 

Desta vez, o fenômeno não é diferente: uma parte do título espirituoso de um artigo foi o suficiente para iniciar a avalanche de fake news que testemunhamos nas últimas semanas. 

O título é: “Panic! At the disks: first rest-frame optical observations of galaxy structure at z>3 with JWST in the SMACS 0723 field”. A primeira parte desse título é uma brincadeira com o projeto musical “Panic! At the disco”, do músico americano Brandon Urie. Os autores do artigo ficaram bastante indignados com a má fé dos que geraram essa onda de fake news a partir do título bem-humorado do artigo. 

Alguns divulgadores sérios e tecnicamente competentes, como Anton Petrov e o Dr. Becky, também reagiram a esse fenômeno infeliz. Por outro lado, diversos blogs e canais sensacionalistas do YouTube, incluindo alguns que pretendem defender o criacionismo, uniram-se a Eric Lerner na divulgação de informações falsas. 

A título de exemplo, comentaremos um dos artigos que participou dessa ode ao Universo eterno (leia aqui). 

Quando alguém diz que vai falar sobre o Big Bang e fala sobre formação de galáxias, é como alguém que diz que vai falar sobre mecânica de veículos e então passa a falar sobre gado, pois o gado às vezes é transportado em caminhões. Gado e mecânica de veículos são assuntos muito diferentes, assim como Big Bang e evolução de galáxias são assuntos completamente distintos. O modelo do Big Bang não lida com a existência e muito menos com a formação e evolução de estruturas astronômicas como estrelas e galáxias. Nenhuma das equações do modelo trata disso. 

Vejamos alguns dos erros que aparecem já no início do artigo, a começar por um bastante leve a até desculpável, mas também erros graves na continuação: 

1. Chama o modelo do Big Bang de “teoria”. É um desvio menor, uma vez que muitos físicos aceitam essa expressão, até por não pensar muito em definições rigorosas para tais termos. Trata-se apenas de um modelo científico. Um modelo científico é a aplicação de uma ou mais teorias científicas a um caso particular. No caso do modelo do Big Bang, ele é uma aplicação da Termodinâmica e da Relatividade Geral ao espaço-tempo (Universo) como um todo. 

2. Diz que o Big Bang trata da criação do Universo sem Deus. Nada disso. As soluções das equações do modelo mostram que o tempo macroscópico teve uma origem e que o espaço se expande desde então (e estava todo preenchido desde o início). O modelo não tem alcance para dizer quem criou ou não o Universo (espaço-tempo), apenas diz que ele foi criado. De forma alguma ele coloca alguma alternativa para Deus. Pelo contrário, indicou a criação do Universo em uma época em que era comum acreditar-se que o tempo (Universo) era eterno. 

3. Diz que o Big Bang se refere a uma explosão de partículas. Essa ideia mostra total ignorância do assunto. Não existe explosão no modelo do Big Bang, exceto no sentido de que a criação do espaço-tempo foi rápida e físicos frequentemente referem-se a processos rápidos como processos explosivos. Um exemplo de processo explosivo foi a criação de vida na Terra, de acordo com o relato do Gênesis. Uma semana em termos cósmicos é um instante. Outro exemplo de explosão é a multiplicação de bactérias em um meio de cultura: trata-se de uma explosão populacional. Mas nenhuma dessas coisas é uma explosão no sentido popular, com estilhaços arremessados em todas as direções. 

4. O modelo do Big Bang é um conjunto de equações que, dada uma distribuição de energia-momentum-tensão ao longo do espaço, consegue descrever o comportamento global do espaço-tempo. Ele não toma conhecimento da existência de estrelas, aglomerados, galáxias, grupos de galáxias ou qualquer outro tipo de objeto astronômico. Essas coisas simplesmente estão fora do escopo do modelo. Nenhuma de suas equações trata desse tipo de informação. Formação de estrelas e galáxias está completamente fora do escopo. Por outro lado, existe um quadro maior em que os físicos trabalham, e esse, sim, além do Big Bang, inclui hipóteses sobre como as primeiras estrelas e galáxias poderiam ter sido formadas. 

5. Dado que o modelo do Big Bang fala sobre a expansão do espaço que iniciou com a criação do espaço-tempo, têm sido propostas hipóteses na tentativa de entender como poderia ter ocorrido a formação de estrelas e galáxias nas primeiras centenas de milhões de anos de vida do Universo. Essas hipóteses têm muito caminho a percorrer até chegarem a um ponto razoavelmente confiável. 

6. As galáxias (que alguns chamam de “maduras”) que podemos ver na infância do universo são minúsculas, uma fração do tamanho das galáxias anãs de hoje em dia. O que elas têm de semelhante a muitas galáxias atuais é que elas giram, como seria de se esperar de qualquer aglomerado de objetos em torno de algo muito massivo, como um buraco negro primordial (dos que se formaram juntamente com o espaço-tempo). 

7. A surpresa mencionada no artigo que deu origem aos boatos foi a de que existe uma grande proporção de galáxias em forma de disco já poucas centenas de milhões de anos após o nascimento do Universo. Como raramente se levam em conta buracos negros primordiais com grande massa, os astrofísicos tinham um viés de imaginar que as primeiras galáxias fossem menos regulares. Daí a surpresa e o título bem-humorado do artigo “Panic! At the disks”. Esse resultado está em perfeita harmonia com o modelo do Big Bang e também com o fato de que precisamos levar em conta os buracos negros primordiais, que induziriam uma formação de estrelas e galáxias muito mais rapidamente do que se pensava, e muito frequentemente em forma de disco. 

8. A alegação de que o JWST mostrou que o diâmetro aparente das galáxias contradiz o modelo do Big Bang também está errada, apesar de, pelo menos desta vez, tratar de um assunto realmente ligado ao Big Bang. O ponto é que existe uma distância a partir da qual o diâmetro aparente das galáxias (ângulo que os objetos formam em nosso campo de visão) inverte sua taxa de variação em relação à distância por causa da expansão do Universo prevista pelo modelo do Big Bang. O Hubble Space Telescope (HST) já tinha alcance suficiente para observar e confirmar esse fenômeno, de maneira que as imagens mais nítidas do JWST apenas confirmaram o que já se sabia e esperava nessa área. 

9. É verdade que foram encontradas galáxias (e muitas mais devem ser descobertas) a distâncias maiores do que se esperava, o que significa que as primeiras galáxias se formaram antes do que se imaginava, mas ainda dentro do esperado, se levarmos em conta buracos negros primordiais. Isso não entra em conflito algum com o modelo do Big Bang, apenas nos alerta de que mais coisas precisam ser levadas em conta nos modelos de surgimento das primeiras galáxias e estrelas.

10. Alguns têm alardeado que a metalicidade das galáxias mais distantes é a mesma das galáxias atuais. Esse tipo de afirmação é falsa. O que se observa na prática está dentro do razoável: muitas galáxias primordiais com predomínio de gigantes azuis, que possuem um ciclo de vida curtíssimo e que espalham os produtos de suas reações nucleares ao explodirem no fim da “vida”. É daí que vem a metalicidade delas. Mesmo assim, o máximo que se observa é uma metalicidade da ordem de um terço da do Sol, o que está na faixa esperada. Existem também galáxias mais pobres em estrelas com ciclo de vida tão curto; essas apresentam baixa metalicidade, como seria de se esperar. Em suma, apesar de algumas hipóteses sobre formação das primeiras galáxias precisarem ser revisadas, o que se tem atualmente ainda descreve razoavelmente bem o que se observa. Por outro lado, são justamente as pequenas surpresas das observações que mais motivam os pesquisadores e justificam seus rendimentos; por essas razões, devemos esperar títulos chamativos por um lado, e evitar agir como “trolls” por outro lado. 

Hebreus 1:2 e 11:3 mencionam a criação do tempo (no original grego). É essencialmente o mesmo fenômeno indicado pelo modelo do Big Bang. Não tem coisa alguma a ver com a terraformação descrita em Gênesis, mas tudo a ver com a criação do Universo por Deus mencionada no livro de Hebreus. 

Há quem divulgue fake news em boa fé, até pensando estar fazendo um trabalho para Deus. Infelizmente, existem também pessoas que tiveram a oportunidade de saber mais e se recusaram, talvez por receio de precisar retratar-se publicamente. 

Quanto a nós, pretendemos continuar o trabalho de alertar para absurdos que se alastram rapidamente entre leigos, especialmente quando o assunto transcende o cotidiano imediato, como é o caso da Cosmologia. 

(Eduardo Lütz é físico, mestre em Astrofísica e engenheiro de software)

sexta-feira, junho 24, 2022

A Cultura Casarabe

Em 25/5/2022, foi relatada pela revista Nature[1] a descoberta feita pelos arqueólogos Iriarte, Prümers, Betancourt e colegas, utilizando o sistema LiDAR (um radar que usa laser infravermelho), dos restos arqueológicos de cidades da Cultura Casarabe, que existiu entre cerca de 500 d.C. até 1.400 d.C., anteriores, portanto, à chegada dos colonizadores europeus nas américas: “Lidar reveals pre-Hispanic low-density urbanism in the Bolivian Amazon” (Lidar revela urbanismo pré-hispânico de baixa densidade na Amazônia Boliviana – tradução minha).

Essa cultura, que construiu cidades no meio da floresta amazônica antes dos europeus chegarem por aqui, e se localizava nos Llanos de Mojos, Bolívia, no sudoeste da Amazônia, em dois locais muito grandes, um com 147 ha (chamado de Cotoca) e outro com 315 ha (chamado de Landívar). A área total da cultura Casarabe atinge cerca de 3.400 km2, com o maior dos assentamentos com aproximadamente 500 km2.

Segundo os autores do estudo, arqueólogos e o professor José Iriarte, da Universidade de Exeter, e seus colegas, “a arquitetura cívico-cerimonial desses grandes locais de assentamento inclui plataformas escalonadas, além das quais estão estruturas em forma de U, montes de plataforma retangulares e pirâmides cônicas (que têm até 22 metros de altura). Os grandes locais de assentamento são cercados por bancos poligonais concêntricos ranqueados e representam nós centrais que estão conectados a locais de baixo escalão por estradas retas e elevadas que se estendem por vários quilômetros. A enorme infraestrutura de gestão da água, composta por canais e reservatórios, completa o sistema de assentamento em uma paisagem antropogenicamente modificada. Nossos resultados indicam que o padrão de assentamento da Cultura Casarabe representa um tipo de urbanismo tropical de baixa densidade que não foi descrito anteriormente na Amazônia.[2] (Tradução minha)

A agricultura era intensiva associada à aguacultura, com diversidade na organização sociopolítica, sistemas de controle de água, que abrangiam cerca de 120 mil km2, área aproximadamente equivalente à da Inglaterra.

A “domesticação” da Amazônia por essa cultura atingiu áreas enormes, em que o sensoriamento remoto moderno mostrou a presença de 189 grandes sítios monumentais, conhecidos como lomas, 273 locais menores e 957 km de canais e calçadas, em que a arqueologia mostrou que eram habitados o ano todo. Eram habitados por agricultores que plantavam milho, mandioca, arroz,[5] caçavam e pescavam.

Os achados incluem terraços de cinco metros de altura cobrindo 22 hectares – o equivalente a 30 campos de futebol – e pirâmides cônicas de 22 metros de altura. Os pesquisadores descrevem também uma infraestrutura maciça de gestão de água, composta por canais e reservatórios.[2]

A tecnologia do LiDAR permitiu aos cientistas Iriarte, Prümers, Betancourt e colegas mapear 24 sítios arqueológicos do povo Casarabe, inclusive o Cotoca e o Landívar, que são do tamanho de cidades.[3]

O professor Iriarte destaca: “Nosso sistema lidar revelou terraços construídos, calçadas retas, recintos com postos de controle e reservatórios de água. Existem estruturas monumentais [cada uma] a apenas uma milha de distância, conectadas por 600 milhas de canais – longas calçadas elevadas conectando locais, reservatórios e lagos.[5]

A figura 1 e a Figura 2, a seguir, mostram os grandes “assentamentos” Cotoca e Landívar:[1]

Figura 1: O sítio Cotoca. a, Ocupação da área de Cotoca lidar. b, Sítios e principais características arqueológicas reveladas pelo lidar na área de Cotoca. c, Imagem lidar do grande local de assentamento Cotoca com seções transversais A-B e C-D. m.a.s.l., em metros acima do nível do mar. (Tradução minha.) Figura 2 (à direita): a, Localização do transecto lidar para a área de Landívar. b, plano geral do site em que a seção mostrada em c está marcada. c, Imagem lidar com cortes de perfil. Recursos numerados: 1-5 montes de plataforma; 6-11, calçadas; 12, estrutura de função desconhecida. d, Profile corta A-B e C-D. (Tradução minha.)



A imprensa nacional repercutiu a descoberta nos meios eletrônicos, aqui[2], aqui[3], aqui[4], aqui [5] e aqui[6].

Essas grandes cidades antigas abandonadas não foram as únicas descobertas no meio das florestas pelo mundo. Outras cidades arqueologicamente comprovadas de urbanismo agrário de baixa densidade, como se referem os autores do estudo, foram relatadas sob as florestas tropicais do Sudeste Asiático, Sri Lanka e América Central.[1]

Relatei em meu livro sobre o Dilúvio,[7] a descoberta feita em 2018 na Guatemala, pelos arqueólogos, da cidade Maia de Péten, com cerca de 60 mil edifícios, entre tumbas, palácios e pirâmides (uma com 30 metros de altura), no Departamento de Petén, sob a selva amazônica, invisível de cima, pois está coberta pela floresta. Foi utilizada a mesma tecnologia a laser, chamada de LiDar, para fazer sensoriamento 3D do que existia abaixo da floresta e do relevo do solo.

A Figura 3 a seguir mostra parte dessa grande descoberta, ainda inexplorada pelas dificuldades de acesso e pela enorme cobertura da floresta sobre o local.

Figura 3: Cidade Maia de Péten, escondida sob a floresta amazônica no Departamento de Péten, na Guatemala.


Créditos: FUNDACIÓN PATRIMONIO CULTURAL Y NATURAL MAYA. EFE. El Pais. (2018)

Essa descoberta fez com que os historiadores e arqueólogos recalculassem a população Maia, que deveria chegar a pelo menos 10 milhões de pessoas, muito mais do que as estimativas anteriores.[8] Estima-se que a cidade de Péten foi fundada em torno de 1000 a.C. e desapareceu[9] em torno de 900 d.C.

Outro artigo, mais antigo, de 2008, relata a descoberta,[10] na região do Alto Xingu da Amazônia brasileira, no estado do Mato Grosso, de 28 áreas residenciais pré-históricas, que poderiam se estender por áreas de cerca de 17.500 km2 a até 50.000 km2.

Prümers, Betancourt e colegas destacaram em seu artigo[1] que assentamentos com mais de 100 ha excedem a maioria dos outros assentamentos da mesma cultura, e que são um fenômeno muito recente na história e são observados no mundo todo.

O esforço humano para fazer essas construções, terraços artificiais e edifícios de plataformas foi enorme, sendo a terra retirada de áreas próximas ao centro do assentamento. Em Cotoca a terra removida (uma faixa de 50 a 80 metros de largura) se transformou em lagos que se enchem nas chuvas.[1]

Para a área de Landívar foram movidos e assentados aproximadamente 276.000 m3, ao passo que em Cotoca foram 570.690 m3. Eles destacam que para Cotoca a terra movida é dez vezes a quantidade para a construção do Akapana (53.546 m3), a maior estrutura de Tiwanaku, nas terras altas bolivianas, que existia simultaneamente à cultura Casarabe.[1]

Cotoca tinha papel central dado o “impressionante sistema de canais e calçadas que irradiam da plataforma base em todas as direções cardeais, conectando-se com locais de nível inferior, o rio Ibare ao sul, e lagos a leste. Um canal de 7 km trouxe água da Laguna San José para Cotoca, indicando a escala de gestão paisagística e mobilização do trabalho”.[1] (Tradução minha.)

Cosmovisão criacionista bíblica

Não posso deixar de apresentar, como criacionista bíblico, a cosmovisão que temos sobre o desenvolvimento da história humana no planeta, que difere profundamente da visão tradicional ensinada nos bancos escolares de todos os níveis de nossa educação formal, em que a teoria da evolução é a base da História, e sua inferência é de que evoluímos de seres brutos e ignorantes que moravam em cavernas, caçavam e colhiam o que podiam comer.

Dessa cosmovisão surgiram teorias de que os humanos tiveram ajuda tecnológica extraterrestre para fazer tais construções, pois não se concebe que os humanos tenham sido plenamente capazes de construí-las, e faziam isso porque podiam.

A Bíblia relata que Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança, inteligente, com linguagem para comunicação e apto a desenvolver tecnologias que o humano moderno poderia desenvolver.

O evento do Dilúvio relatado nela, que trato em meu livro,[7] coloca a origem da humanidade atual como descendente dos três filhos de Noé e suas esposas, e temos evidência genética desse fato, com a análise mitocondrial[16] (não temos informações se Noé teve outros filhos ou filhas após o Dilúvio), e seus descendentes relatariam não só tal evento como, eventualmente, a própria história da origem da humanidade de acordo com a Bíblia, com a perda de informação nas histórias relatadas ao longo dos séculos e milênios posteriores.

Isso é observado nos mais de 270 relatos de dilúvio em povos antigos sem contato com os hebreus ou cristãos modernos e a Bíblia.

Sir James George Frazer (1854-1941), influente antropólogo nos primeiros estágios dos estudos modernos de mitologia e religião comparada, reuniu em três volumes, Folk-Lore in the Old Testament ("O folclore no Antigo Testamento", 1918), totalizando 1808 páginas, tais relatos do Dilúvio, entre outros, do mundo todo, comprovando o hiperdifusionismo cultural, o que, além da própria história do dilúvio, também encontrou histórias da criação, muitas similares ao conteúdo do Gênesis bíblico. Obviamente, tal hiperdifusionismo cultural não é aceito pela Academia, que utiliza a narrativa da teoria da evolução humana como pressuposto de seus estudos e pesquisas.

Você pode acessar os volumes do trabalho de Sir James George Frazer (1854-1941) aqui[13], aqui[14] e aqui[15].

O hiperdifusionismo humano e cultural é uma comprovação do texto bíblico, que diz: “Essas são as famílias dos filhos de Noé, segundo as suas gerações, em suas nações; e delas foram disseminadas as nações da Terra depois do Dilúvio” (Gênesis 10:32).

O evento da Torre de Babel, que relata a confusão das línguas, também fez com que a humanidade de então migrasse por todo o planeta, levando o conhecimento de construção de cidades e suas respectivas tecnologias para os novos locais onde se assentariam. É o que se observa pelo mundo todo, conforme relatei em meu livro[7] em diversos exemplos.

Artigos interessantes sobre a migração para as américas podem ser lidos aqui[11] e aqui[12].

Os povos originados de Babel levaram o conhecimento e a tecnologia de construção, megaconstruções de cidades, que envolviam liderança vigorosa, administração e mobilização de recursos materiais e humanos, planejamento minucioso, para geração de alimentos (agricultura intensiva), transporte, utilizando os recursos naturais disponíveis localmente, e tirando deles o máximo proveito.

Destaco que os povos antigos não construíam vilas ou aldeias onde pretendiam morar definitivamente, mas construíam cidades e isso já acontecia antes do Dilúvio (Gênesis 4:17).

É o que vemos nas descobertas arqueológicas.

Tire suas próprias conclusões.

(Celio João Pires é pesquisador e autor de livros criacionistas)

Referências:

[1]Prümers, H., Betancourt, C.J., Iriarte, J. et al. Lidar reveals pre-Hispanic low-density urbanism in the Bolivian Amazon. Nature (2022). <https://doi.org/10.1038/s41586-022-04780-4>. Disponível em: <https://www.nature.com/articles/s41586-022-04780-4#Bib1>. Acesso em: 25.05.2022.

[2] Oliveira, Ingrid. Civilização pré-colonial na Amazônia boliviana construiu “cidades” na floresta, revela estudo.  CNN. São Paulo, SP. 26.05.2022. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/civilizacao-pre-colonial-na-amazonia-boliviana-construiu-cidades-na-floresta-revela-estudo/>.

Acesso em: 27.05.2022.

[3] Lopes, José Reinaldo. Estudo confirma que Amazônia tinha pirâmides de terra batida. Folha de São Paulo. São Carlos, SP. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2022/05/estudo-confirma-que-amazonia-tinha-piramides-de-terra-batida.shtml>. Acesso em: 25.05.2022.

[4] Lopes, José Reinaldo. Estudo confirma que Amazônia tinha pirâmides de terra batida. Folha de São Paulo. São Carlos, SP. Disponível em: <https://www.msn.com/pt-br/noticias/newsscienceandtechnology/estudo-confirma-que-amazônia-tinha-pirâmides-de-terra-batida/ar-AAXIRFx?li=AAggNbi>. Acesso em: 25.05.2022

[5] Da Redação. Isto é Dinheiro. Varredura a laser da Amazônia revela rede oculta de pirâmides. 27.05.22. Disponível em:

<https://www.msn.com/pt-br/noticias/ciencia-e-tecnologia/varredura-a-laser-da-amaz%c3%b4nia-revela-rede-oculta-de-pir%c3%a2mides/ar-AAXM9oA>. Acesso em: 27.05.2022.

[6] G1. Pesquisa descobre 'cidades' da era pré-colonial na Amazônia com pirâmides de até 22 metros de altura. 26.05.2022. Disponível em:

<https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2022/05/26/pesquisa-descobre-cidades-da-era-pre-colonial-na-amazonia-com-piramides-de-ate-22-metros-de-altura.ghtml>. Acesso em 27.05.2022.

[7] Pires, Celio João. O Dilúvio: Impactos de asteroides, as extinções em massa, as glaciações, a formação do Atlântico e a Arca de Noé. 1ª ed. Curitiba, PR. Ed. Do autor, 2019. Pg. 605. Disponível em: <https://www.deusexisteumdesafio.com/capitulo/o-diluvio-impactos-de-asteroides-extincoes-em-massa-as-glaciacoes-a-formacao-do-atlantico-e-a-arca-de-noe>. Acesso em: 03.06.2018.

[8] LA CIUDAD MAYA DESCUBIERTA EN GUATEMALA, EN IMÁGENES. El País. 13.02.2018. Disponível em: < https://elpais.com/elpais/2018/02/12/album/151842

9337_635840.html#foto_gal_1>. Acesso em: 03.03.2018.

[9] DESCUBRIERON UNA GIGANTESCA CIUDAD MAYA EN LA SELVA DE GUATEMALA. Diário de Cultura. 06.02.2018. Ed. 3032. Disponível em: <www.diariodecultura.com.ar/museos-y-artes-plasticas/descubrieron-una-gigantesca-ciudad-maya-en-la-selva-de-guatemala/>. Acesso em: 04.03.2018.

[10] Heckenberger, Michael J., et al. “Pre-Columbian Urbanism, Anthropogenic Landscapes, and the Future of the Amazon.” Science, vol. 321, p. 1214. no. 5893, 29.08.2008, pp. 1214–17. JSTOR, <http://www.jstor.org/stable/20144705>. DOI: 10.1126/science.1159769. Acesso em: 03.06.2022.

[11] Alves, Everton. A Atlântida e a migração para as Américas após o período do gelo. Criacionismo. 21.02.2018. Disponível em:

 <http://www.criacionismo.com.br/2018/02/a-atlantida-e-migracao-para-as-americas.html>.Acesso em: 03.06.2022.

[12] Alves, Everton. A grande aventura americana: rotas migratórias. Criacionismo. 08.04.2018. <http://www.criacionismo.com.br/2018/04/a-grande-aventura-americana-rotas-de.html>. Acesso em: 03.06.2022.

[13] Sir James George Frazer (1854-1941); Frye, Northrop. Folk-Lore in the Old Testament: studies in comparative religion, legend and law, vol.1. 1919. London: Macmillan. 608 páginas. Disponível em: <https://archive.org/details/folkloreintheol01frazuoft/page/n8/mode/2up>. Acesso em: 04.06.2022.

[14] Sir James George Frazer (1854-1941); Frye, Northrop. Folk-Lore in the Old Testament: studies in comparative religion, legend and law, vol.1. 1919. London: Macmillan. 604 páginas. Disponível em: <https://archive.org/details/folkloreinoldtes02frazuoft/page/n6/mode/2up>. Acesso em: 04.06.2022.

[15] Sir James George Frazer (1854-1941); Frye, Northrop. Folk-Lore in the Old Testament: studies in comparative religion, legend and law, vol.1. 1919. London: Macmillan. 596 páginas. Disponível em: <https://archive.org/details/folkloreinoldtes03frazuoft/page/n6/mode/2up>. Acesso em: 04.06.2022.

[16] JEANSON, Nathaniel T. On the Origin of Human Mitochondrial DNA Differences, New Generation Time Data Both Suggest a Unified Young-Earth Creation Model and Challenge the Evolutionary Out-of-Africa Model. Answers in Genesis. 27.04.2016. Disponível em: <https://

answersingenesis.org/genetics/mitochondrial-dna/origin-human-mitochondrial-dna-differences-

new-generation-time-data-both-suggest-unified-young-earth/>. Acesso em: 24.03.2018.




 





quinta-feira, abril 14, 2022

Deslumbrante Deus

Certa vez, ouvi a história de um homem que, à beira da morte, aconselhou um amigo a não perder o deslumbramento pelas coisas da vida. Achei esse conselho inusitado. Não entendi direito o que significava, mas guardei na memória. Vez ou outra, esse conselho voltava à minha mente, como algo que eu deveria considerar importante, mas, tal qual chegava a mim, ele voava de volta ao esquecimento.

Tempos depois, eu me tornei mãe de duas crianças. Na primeira filha, eu não soube muito aproveitar a maternidade. Ficava tão preocupada com tudo, com marcos de desenvolvimento, com métodos de fazer dormir, com fraldas, pomadas e alimentação adequada, que simplesmente não curti a simplicidade de cada conquista, de cada dia, de tanto afeto.

Então veio o segundo filho, meio que no susto. E que susto bom! Agora eu já sabia que tudo ia dar certo, que o bebê ia engatinhar no tempo certo (o dele), que ia andar na hora certa (a dele), que ia aprender a comer, a dormir. Então eu relaxei e pude observar uma das coisas mais lindas que uma criança pode ensinar: o deslumbramento. Imagine para um serzinho tão pequeno como tudo é absolutamente deslumbrante e novo. Uma formiga andando perto do pé, carregando uma folha faz ele frear qualquer caminhada e se agachar para observar pelo tempo que for preciso. Um passarinho que, de repente, surge entre as folhas de uma árvore e se lança ao céu faz seus olhos brilharem. Deve se perguntar: “Como ele faz isso? Quem ensinou? E a árvore, tão grande, com folhas penduradas. Como ela pode crescer tanto? Quem faz ela ser assim?”

Outra coisa deslumbrante, que motivou uma de suas primeiras palavras: a luz, que se acende e se apaga – como isso é possível? É absolutamente impressionante. Dá para ficar horas acendendo e apagando sem deixar de se impressionar. E a água – que coisa deslumbrante é a água – escorrendo entre os dedos? Que frescor inquietante, que substância maravilhosa. E ainda dá para beber e jogar para cima e para todo lado e molhar o corpo todo. Aliás, o corpo também é fascinante. Os olhos (como ele tenta por os dedos nos meus olhos, como que querendo segurar nas mãos essas bolinhas que se fecham tão rápido), os cabelos (que legal puxar os cabelos da mamãe também!), as pernas, o umbigo (uau, um buraco no meio da barriga!) e os dedos – que coisa fantástica são os dedos das mãos e dos pés. Como podem se mover assim, de forma tão ágil?

Mas o deslumbre não tem limite. O fogo! Gente, o fogo brilha, é colorido, dança ao vento. Que coisa linda é o fogo! Que vontade de pegar! E o céu? Existe coisa mais deslumbrante que o céu? Tanto azul, nuvens brancas, nuvens negras... Opa, parem tudo! Que barulho é esse no céu? Um helicóptero! Todo mundo precisa ver isto, um helicóptero. Isso é legal demais! Esse barulho é incrível! E o bebê corre para a janela, implorando com grunhidos para ser erguido para ver esse “bicho” tão fantástico e curioso.

Ah, mas ainda falta a coisa mais deslumbrante de todas para o meu bebê: a Lua! Ele não fala da Lua, ele não mostra a Lua, ele grita sem parar; aponta com os braços, com as pernas. Ele se inclina todo e se projeta porque é tão importante que todos vejam a coisa mais maravilhosa do mundo. E, se a gente não vê, ele grita mais. Se estiver na rua, melhor ainda, porque ele quer que as outras pessoas também parem e vejam e se deslumbrem com algo que lhe causa tanto fascínio.

Meu bebê só tem um ano. Acabou de fazer. E, no meio da sua lalação, ele grita: “Olha! Ah lá, a lula, a luna, a lala!” Faz tanto esforço porque está absolutamente deslumbrado! E por algo que a gente vê todas as noites (e dias também) e não dá a menor importância.

É possível aprender tanto com as crianças, com os filhos. Eles nos obrigam a parar e olhar as coisas pequenas (será?) da vida e redescobrir como são deslumbrantes. A criação de Deus é algo tão imenso, tão extraordinário, tão impressionante, mas nós nos acostumamos com ela e a vemos como comum, ordinária. É como o quadro da Monalisa. Já vimos tanto que não enxergamos nenhuma beleza mais naquilo, nada que instigue qualquer sentimento. Podemos até ter o original na nossa frente que não fará diferença. Até imagino um bocejo ao ver a imagem. Só que Deus criou um mundo fantástico para provocar em nós esse deslumbramento. Isso revira a alma, traz felicidade, nos tira da acomodação, da mesmice, da rotina sem sentido. Precisamos parar e ver. Ver esse presente maravilhoso.

Era isso que o homem da história que eu li queria dizer em seu leito de morte. O conselho era para não deixar de se surpreender com os presentes de Deus, porque Deus é surpreendente, é fascinante, é deslumbrante. Se perdermos isso, a vida vai passar, assim como a maternidade, e vamos estar tão ocupados com coisas que nos dizem ser importantes que vamos perder a simplicidade de cada conquista, de cada dia, o afeto, a beleza – coisas que realmente nos enchem de vida.

A Bíblia nos convida a ser como crianças. “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos céus” (Mt 18:33). Além da simplicidade, da humildade, da dependência, hoje eu acrescento às características das crianças a capacidade de deslumbramento. E tenho pedido a Deus para reviver isso em mim. Ele pode fazer renascer. Quero me espantar com os milagres da Bíblia, quero sentir horror e amor pelo Calvário toda vez que ler o relato da morte de Cristo. Quero que não seja algo rotineiro, comum, ordinário. Quero que o amor de Cristo verdadeiramente me cause constrangimento.

Sei que meu filho vai crescer e vai deixar de se deslumbrar, como todos nós. Mas eu peço a Deus que tudo que diz respeito ao Céu, ao divino, à criação, ao transcendente, mesmo depois de ele crescido, ainda cause espanto nele, e em mim também.

Que sejamos essa criança boba vendo o que Deus fez e faz por nós, sem vergonha de parar tudo para observar ou de gritar para todo mundo saber que o nosso Deus é deslumbrante.

(Danivia Mattozo Wolff é Revisora de Textos | Assembleia Legislativa de Minas Gerais)

quinta-feira, março 31, 2022

Criacionismo: respostas para o passado, sentido no presente, esperança para o futuro

Abandonei a ideia da macroevolução e o naturalismo filosófico quando estudava no curso técnico de química, nos anos 1990. Sempre fui amante da ciência. Era leitor voraz de autores como Carl Sagan, Stephen Hawking, Isaac Asimov e outros. Por isso mesmo, sempre fui naturalmente cético. Quando soube que o darwinismo tinha graves insuficiências epistêmicas, fiquei surpreso e passei a estudar o assunto mais a fundo. Resolvi colocar em prática meu ceticismo até as últimas consequências.

Deparei-me com o argumento da complexidade irredutível, de Michael Behe, e com a tremenda dificuldade que o darwinismo tem em explicar a origem da informação complexa e específica. De onde surgiu a informação genética necessária para fazer funcionar a primeira célula? De onde proveio o acréscimo de informação necessária para dar origem a novos planos corporais e às melhorias biológicas? O passo seguinte foi buscar um modelo que me fornecesse respostas ao enigma do código sem o codificador, do design sem o designer, da informação sem a fonte de informações.

Fiquei aturdido com a complexidade física do Universo e com a complexidade integrada da vida, ao constatar uma vez mais que, para existir, a realidade depende de leis e constantes finamente ajustadas. Nessas pesquisas, descobri que o criacionismo é a cosmovisão que associa coerentemente conhecimento científico e conhecimento bíblico.

Então passei a estudar mais detidamente a Bíblia Sagrada, que me diziam ser a Palavra de Deus. Fiquei igualmente surpreso ao constatar que a arqueologia comprova a veracidade histórica desse livro milenar, e que as profecias detalhadamente cumpridas são outra evidência de sua origem singular. Só que essa leitura, esse estudo fez mais por mim do que apenas fornecer informações. À medida que eu estudava o Livro Sagrado, alguma coisa estava mudando em mim, em meu coração, em minha mente...

Nesse estudo, nessa busca, me descobri em boa companhia ao saber que grandes cientistas como Galileu, Copérnico, Newton, Pascal, Pasteur e outros não viam contradição entre a verdadeira ciência e a teologia bíblica. Usei meu ceticismo, fui atrás das evidências – levassem aonde levassem – e me surpreendi com uma interpretação simples e não anticientífica para as origens. Resultado? Tornei-me criacionista.

Minha busca não terminou ali. A fonte de conhecimento que se abriu diante de meus olhos é eterna como eterno é meu Criador. Encontrá-Lo foi a maior descoberta da minha vida! Às vezes, é preciso duvidar para crer. Mas vale a pena. 

Evidências

Como o evolucionismo, o criacionismo é um modelo que procura entender e explicar a origem e o desenvolvimento da vida em nosso planeta. Evolucionistas apresentam as evidências deles, criacionistas fazem o mesmo. Cabe às pessoas analisar tudo à luz da verdadeira ciência. Veja algumas evidências e pressuposições relacionadas ao modelo criacionista:

1. O argumento criacionista é coerente com o que se observa nos fósseis encontrados na coluna geológica e diz que a criação deu origem a tipos básicos (“espécies”) de seres vivos e que eles “evoluíram” de forma mais ou menos limitada (diversificação de baixo nível ou “microevolução”). Os criacionistas não creem, no entanto, que todos os seres vivos descendem de um mesmo ancestral unicelular comum, pois é algo que, por experimentação e observação, não é possível ser demonstrado.

2. O criacionismo apresenta três evidências básicas da existência de um Criador: (1) o ajuste fino do Universo (teleologia), (2) a existência de estruturas irredutivelmente complexas nos seres vivos, que tinham de funcionar perfeitamente desde que foram criadas, ou não chegariam aos nossos dias, e (3) a informação complexa especificada existente no material genético, que só a inteligência obviamente pode originar.

3. Os criacionistas entendem que, embora alguns aspectos do evolucionismo sejam fundamentados e úteis para a compreensão de muitos fenômenos naturais, há lacunas nesse modo de pensar. Como ocorre com toda hipótese, há alguns pontos no evolucionismo que não são cientificamente sustentáveis e podem ser analisados e apresentados aos estudantes.

4. Atualmente, há vários cientistas criacionistas que fazem boa ciência e apresentam argumentação lógica e importante para ser transmitida. Destacam-se dois biólogos norte-americanos: Leonard Brand e Harold Coffin. Ambos têm artigos publicados nos mais prestigiados periódicos científicos, respectivamente, sobre baleias fossilizadas da Formação Pisco (Peru) e sobre as florestas petrificadas de Yellowstone (EUA). No Brasil, destaca-se o químico e professor da Unicamp, Dr. Marcos Eberlin, criador do Laboratório Thomson de Espectrometria de Massas, membro da Academia Brasileira de Ciências e o terceiro cientista brasileiro mais citado em publicações científicas de renome.

5. O modelo da evolução apresenta lacunas e deve ser confrontado com outras formas de pensar. Por exemplo, o evolucionismo não consegue explicar a origem da vida por processos naturais a partir de matéria não viva. Também não consegue explicar a origem da informação genética de sistemas irredutivelmente complexos, nem o aumento de complexidade que teria acontecido nos organismos durante o processo evolutivo, ou seja, não consegue explicar a origem de novos órgãos, sistemas de órgãos e novos planos corporais que surgem sem formas ancestrais bem definidas.

6. Conforme escreveu Ellen White, “é a obra da verdadeira educação desenvolver essa faculdade, preparar os jovens para que sejam pensantes e não meros refletores do pensamento de outrem” (Educação, p. 17). Assim, as escolas adventistas entendem que o ensino do contraditório e o contraste de ideias promovem o pensamento crítico. Por isso, são expostos comparativamente nas aulas de ciências os modelos criacionista e evolucionista.

7. O criacionismo, embora tenha um componente religioso, pode ter suas premissas discutidas no contexto científico e ser considerado em sala de aula. Além disso, atualmente, mais do que em outra época, trata-se de um fenômeno cultural, com muitos defensores, mesmo em países cientificamente avançados como os Estados Unidos. Por isso, o criacionismo merece ser conhecido pelos alunos.

8. Os criadores do método científico, cientistas do quilate de Copérnico, Galileu e Newton, não viam contradição entre a ciência experimental e a religião bíblica. Portanto, os criacionistas de hoje se consideram em boa companhia.

Legado adventista

No livro The Creationists, Ronald Numbers afirma que o criacionismo se espalhou rapidamente durante o século 20, desde seu humilde começo “nos escritos de Ellen White”. Mark Noll também afirma que o criacionismo moderno emergiu dos esforços dos adventistas do sétimo dia. Para George Marsden, o adventista George McCready Price é o “principal precursor” da abordagem de uma Terra jovem e de um dilúvio universal.

O conhecido engenheiro batista Henry Morris, em seu livro História do Criacionismo Moderno, igualmente reconhece que “o escritor criacionista mais importante da primeira metade do século [20] foi um notável homem [...] chamado George McCready Price (1870-1963). [...] seu vasto conhecimento científico e bíblico, sua lógica cuidadosa e seu belo estilo de escritor causaram-me profunda impressão quando comecei a estudar esse interessante tema, no início da década de 1940”.

Entre 1902 e 1955, Price escreveu 25 livros sobre a geologia do dilúvio, apologética geral e até um comentário sobre o livro de Daniel. Publicou também um compêndio escolar de 510 páginas sobre ciências. Mas seu projeto mais importante foi, sem dúvida, um livro de 726 páginas publicado em 1923 com o título The New Geology.

Price publicou inúmeros artigos em revistas cristãs importantes, tais como Sunday School Times, Moody Monthly e Princeton Theology Review, além de ter alguns artigos publicados em periódicos de divulgação científica, como Panamerica Geologist e Scientific American. Sem dúvida, foi um grande divulgador do criacionismo.

“Com certeza, ele era de longe mais bem educado, no verdadeiro sentido da palavra, do que 90% dos PhDs e ThDs manipulados pela metodologia rotineira das instituições escolares”, escreveu Henry Morris.

Muitos dos alunos de Price continuaram a contribuir com a causa criacionista. Entre eles incluem-se Harold Clark, Frank Marsh, Ernest Booth e Clifford Burdick. Clark foi aluno de Price no curso de Geologia no Pacific Union College, em 1920, e escreveu dois importantes livros sobre geologia e dilúvio: The New Diluvialism, publicado em 1946, e Fossils, Flood and Fire, em 1968. Frank Lewis Marsh (1899-1992) obteve um PhD em Biologia pela Universidade de Nebraska. Ele também lecionou em diversas escolas adventistas e escreveu uma série de excelentes livros criacionistas, começando com o Fundamental Biology, publicado em 1941.

Em 1957, os líderes da Igreja Adventista do Sétimo Dia decidiram criar uma organização em que se pudessem estudar assuntos relacionados à ciência. Foi então inaugurado o Geoscience Research Institute (GRI), e Frank Marsh foi indicado para o cargo de diretor (até 1964).

Assim, a Igreja Adventista tem se destacado desde a sua origem por defender o criacionismo bíblico e a literalidade/historicidade dos primeiros capítulos da Bíblia.

Ataques ao criacionismo

O criacionismo faz parte da mensagem dos três anjos (Ap 14:6-12), que constitui o conteúdo mais importante que os adventistas devem partilhar com o mundo. Por isso mesmo o inimigo de Deus tem feito de tudo para anular o poder dessa proclamação. De início, ele tentou destruir a Bíblia por meio de perseguições e fogueiras – queimando o Livro e seus tradutores e divulgadores. Isso não deu certo. A Bíblia continua sendo o livro mais lido e difundido no mundo.

Então, Satanás mudou de tática: após o Iluminismo, valendo-se especialmente da Alta Crítica, passou a relativizar e questionar o texto inspirado. O alvo preferencial sempre foi o relato da criação em Gênesis e os capítulos subsequentes, que tratam da queda no pecado e do dilúvio universal. Colocando dúvidas sobre esses capítulos, o inimigo consegue derrubar verdades essenciais que atravessam as páginas da Bíblia: a semana literal da criação, o sábado como memorial dessa criação, o casamento heteromonogâmico, a origem e a malignidade do pecado, o plano da redenção e a factualidade do dilúvio global.

Teologias identitárias e o evolucionismo teísta fazem o mesmo, quando o assunto é a credibilidade da Palavra de Deus. Para os teólogos liberais da libertação, a Bíblia é apenas a palavra de homens que andaram com Deus. Não deve ser encarada como a Palavra inspirada e infalível. Para os defensores da evolução teísta, seria possível harmonizar Darwin e Deus – havendo a necessidade, novamente, de se alegorizarem os primeiros capítulos de Gênesis.

No gráfico abaixo é possível ver a total inconsistência entre a cosmovisão criacionista bíblica e as ideologias e teologias que relativizam o relato das origens.

Um chamado urgente

No livro Testemunhos Seletos, volume 3, página 288, Ellen White escreveu: “Em sentido especial foram os adventistas do sétimo dia postos no mundo como vigias e portadores de luz. A eles foi confiada a última mensagem de advertência a um mundo a perecer. Sobre eles incide maravilhosa luz da Palavra de Deus. Confiou-se-lhes uma obra da mais solene importância: a proclamação da primeira, segunda e terceira mensagens angélicas. Nenhuma obra há de tão grande importância. Não devem eles permitir que nenhuma outra coisa lhes absorva a atenção.”

O criacionismo faz parte do pacote de verdades essenciais contidas na mensagem dos três anjos, e a Igreja Adventista do Sétimo Dia precisa continuar erguendo bem alto essa bandeira, já que são pouquíssimos os que fazem isso atualmente. É preciso chamar a atenção do mundo para o fato de que existe um Criador que prometeu recriar este planeta e devolvê-lo à sua condição edênica. Mas se não cremos que Ele foi capaz de criar a vida neste planeta em seis literais de 24 horas, por que creremos que ele será capaz de repetir o feito? Se não cremos que a árvore da vida mencionada no início da Bíblia é real, o que faremos com a árvore da vida prometida no Apocalipse? Se Adão e Eva não pecaram, a morte é um elemento natural da criação de Deus? E Jesus veio fazer o que aqui? Liderar uma revolução?

A verdade é que a cosmovisão criacionista bíblica nos ajuda a compreender o passado, nos dá um sentido para o presente (não somos um acidente cósmico; temos um propósito) e nos enche de esperança quanto ao futuro.

(Michelson Borges, jornalista, mestre em Teologia e pós-graduado em Biologia Molecular)

sexta-feira, março 04, 2022

Pesquisadores encontram fósseis de 11 dinossauros na Itália

Pesquisadores descobriram fósseis de uma manada de 11 dinossauros em Villaggio del Pescatore, uma antiga pedreira de calcário próxima da cidade portuária de Trieste, na Itália.  Um deles, denominado “Bruno”, é o maior e mais completo esqueleto de dinossauro da história do país. A pesquisa foi publicada na revista Scientific Reports. Apesar de terem sido encontrados restos de dinossauros isolados na Itália desde a década de 1990, a descoberta de vários esqueletos em um único lugar é significativa.

“A Itália não é conhecida pelos dinossauros e, embora tivéssemos alguns golpes de sorte no passado, agora temos um rebanho inteiro em um sítio de dinossauros”, relatou ao The Guardian Federico Fanti, professor da Universidade de Bolonha e pesquisador-chefe do local.

Esse local ganhou a atenção dos pesquisadores de dinossauros em 1996, após a descoberta de um esqueleto que os paleontólogos chamaram de Antonio, e inicialmente acreditaram ser uma espécie de dinossauro anã. Mas as últimas descobertas contestam isso, com Antonio agora sendo considerado um jovem dinossauro que fazia parte do mesmo rebanho que morreu junto. O maior dos restos fossilizados do grupo se chama Bruno.

“Bruno é o maior e mais antigo do grupo e o mais completo esqueleto de dinossauro já encontrado na Itália”, disse Fanti. “Sabíamos que havia dinossauros no local depois da descoberta de Antonio, mas até agora ninguém verificou quantos. O que temos agora são vários ossos pertencentes ao mesmo rebanho.”

Os restos fossilizados dos 11 dinossauros pertencem à espécie Tethyshadros insularis, que viveu há 80 milhões de anos [sic] e alcançava até cinco metros de comprimento.

Os resultados da pesquisa desafiam hipóteses anteriores que sugeriam eventos de nanismo entre ornitísquios durante o Cretáceo Superior e apoiam a presença de hadrossauroides plesiomorficamente de tamanho médio no domínio Tethyan da Eurásia, e fornecem dados incomparáveis ​​para inferir tendências do tamanho do corpo em dinossauros do Mesozóico.

Restos fossilizados de pequenos crocodiliformes, um único osso de pterossauro, peixes parciais, vários crustáceos, coprólitos raros, pólen e alga também foram encontrados no local. “Isso é muito legal, pois podemos descobrir o tipo de ambiente em que os dinossauros viveram e morreram”, acrescentou Fanti. “Naquele período, a área ficava muito próxima ao litoral em um ambiente tropical, quente e úmido, capaz de alimentar rebanhos de dinossauros.”

Alguns dos fósseis encontrados até agora em Villaggio del Pescatore, uma área protegida, estão em exibição no museu cívico de história natural em Trieste, e os especialistas esperam abrir parte do local ao público.

(Liziane Nunes Conrad Costa é formada em Ciências Biológicas com ênfase em Biotecnologia [UNIPAR], especialista em Morfofisiologia Animal [UFLA] e mestre em Biociências e Saúde [UNIOESTE]. É vice-presidente do Núcleo Cascavelense da SCB [Nuvel-SCB])

Nota: Além de essa incrível descoberta ser um verdadeiro deleite para qualquer amante dos dinos, o artigo revela que no mesmo local foram encontrados sepultados dinossauros, outros répteis, peixes, crustáceos, pólen e algas. Apesar de os pesquisadores não pontuarem a causa da morte de toda essa diversidade de seres vivos, você consegue imaginar um evento catastrófico hídrico que permitiu fossilização deles em um mesmo período? Se você não sabe, eu lhe convido a ler sobre o assunto na Bíblia Sagrada, no livro de Gênesis, a partir do capítulo 7.

Ressalto que existem pesquisas não criacionistas que já admitem inundações catastróficas (confira aquiaqui e aqui).

Fontes:

The Guardian

Artigo original

CHIARENZA, Alfio Alessandro et al. An Italian dinosaur Lagerstätte reveals the tempo and mode of hadrosauriform body size evolution. Scientific reports, v. 11, n. 1, p. 1-15, 2021.

Leia mais sobre fósseis de origem marinha:

http://www.criacionismo.com.br/2021/08/pesquisadores-encontram-estromatolicos.html

http://www.criacionismo.com.br/2013/01/pesquisador-diz-que-encontrou-novas.html

http://www.criacionismo.com.br/2011/01/diluvio-universal-e-suas-implicacoes.html

terça-feira, janeiro 18, 2022

A precisão do Gênesis para o início do dilúvio

Quando lemos Gênesis capítulos 6 a 9, temos o relato de um evento de extinção em massa, em escala planetária, chamado dilúvio. Obviamente para grande número de pessoas esse relato não é histórico; trata-se de um mito, quando muito, e sem nenhuma base científica para apoiar a possível hipótese de sua ocorrência real. Discordo veementemente desse ceticismo sem base, pois escrevi um livro que me demandou quase nove anos de pesquisa e redação, com mais de 800 páginas, mais de 600 ilustrações e mais de duas mil referências: O Dilúvio: Impacto de asteroides, extinções em massa, as glaciações, a formação do Atlântico e a Arca de Noé. Listei dezenas de evidências da ocorrência desse evento planetário. E como eu, muitos outros pesquisadores/autores que escreveram sobre o evento do dilúvio trataram-no como um relato histórico, relatando as centenas de evidências que dão sustentação à afirmação inicial, de um evento de extinção em massa, em escala planetária.

Eis que há poucos dias do fim de 2021 uma notícia veio acrescentar mais uma evidência da ocorrência do dilúvio àquelas já relatadas por mim e outros pesquisadores/autores dessa temática. Um artigo científico foi publicado na prestigiosa revista Nature, em 8/12/2021, no Scientific Reports,[1] “Seasonal calibration of the end-cretaceous Chicxulub impact event” (“Calibração Sazonal do evento de impacto Chicxulub do fim do Cretáceo”, tradução minha) de Robert A. DePalma, et al., em que os autores conseguem precisar em qual estação do ano, no Hemisfério Norte, ocorreu o impacto de Chicxulub que levou ao evento de extinção em massa no fim do período Cretáceo-Paleogeno, e teria exterminado os dinossauros e cerca de 75%[2] da fauna e flora daquela suposta época geológica.

A mídia com interesse em descobertas científicas reproduziu a notícia aqui:[3] “Foi graças a ests recente estudo que foi possível determinar exatamente a estação do ano que transcorria no Hemisfério Norte quando ocorreu o impacto: no fim da primavera e início do verão. [...] Os pesquisadores analisaram a estrutura e o padrão único das linhas de crescimento nas espinhas de peixes fossilizados do sítio e determinaram que todos morreram durante a fase de crescimento primavera-verão” (negrito no original).

O resumo que os autores apresentaram é o seguinte e mostra que o evento ocorreu na primavera/verão do Hemisfério Norte do Planeta:[1]

“O impacto de Chicxulub do fim do Cretáceo desencadeou a última extinção em massa da Terra, extinguindo ~75% da diversidade de espécies e facilitando uma mudança ecológica global para biomas dominados por mamíferos. Detalhes temporais do evento de impacto em uma escala fina (hora a dia), importante para entender a trajetória inicial de extinção em massa, têm escapado em grande parte de estudos anteriores. Esse estudo emprega análises histológicas e histo-isotópicas de peixes fósseis que eram contemporâneos com uma assembleia de morte em massa desencadeada pelo impacto da fronteira Cretáceo-Paleogene (KPg) em Dakota do Norte (EUA). Padrões de histórico de crescimento, incluindo periodicidade de ẟ18O e ẟ13C e morfologia da banda de crescimento, além de corroborar dados da ontogenia dos peixes e comportamento sazonal dos insetos, revelam que o impacto ocorreu durante a primavera/verão boreal, logo após a temporada de desova para peixes e a maioria dos táxons continentais. A gravidade e a simetria taxonômica da resposta aos perigos naturais globais são influenciadas pela estação durante a qual ocorrem, sugerindo que perturbações pós-impacto poderiam ter exercido uma força seletiva que foi exacerbada pelo tempo sazonal. Os dados desse estudo também podem fornecer uma visão retrospectiva vital dos padrões de resposta biótica existente aos perigos em escala global que são relevantes para os biomas atuais e futuros (tradução minha; negrito acrescentado).[1]

A análise detalhada que os autores fizeram você poderá ver no artigo original.

O que quero chamar à sua atenção é que os autores chegaram à estação do impacto de Chicxulub: primavera/verão no hemisfério Norte do planeta. É claro que, pela perspectiva bíblica, as estações do ano naquele tempo antes do dilúvio eram bem menos evidentes do que as atuais, mas, com certeza, a fauna possuía períodos de reprodução razoavelmente compatíveis com os observados atualmente.

Instado por amigo interessado no assunto, fui verificar se a constatação dos autores coincidia, eventualmente, com a data do início do dilúvio, citada no Gênesis. E, para meu espanto, se a conclusão dos cientistas for historicamente correta, pelas informações bíblicas era esperado que coincidissem. E coincidiram!

Vamos aguardar para ver se haverá contestação das conclusões dos cientistas.

Eis a minha análise:

Segundo o Gênesis, o dilúvio começou no ano 600 da vida de Noé, no dia 17 do segundo mês, e terminou no dia 27 do segundo mês do ano 601 de sua vida. Segundo o calendário judeu/israelita, o calendário religioso, o segundo mês é o mês de Lyar (nome do mês de origem babilônica; pronuncia-se Yar) ou Ziv ou Zive (em hebraico), que começa em 26 de maio do nosso calendário gregoriano. Assim, o dilúvio começou em 17 de Lyar ou Ziv ou Zive, que equivale ao dia 11 de junho do nosso calendário gregoriano.

Ora, o calendário judaico/israelita mostra claramente que o dilúvio começou na primavera/verão, já que o calendário religioso começa na primavera, equivalente aos meses de março/abril do nosso calendário gregoriano.

Não vou entrar aqui nos detalhes do calendário judaico/israelita, que possui dois inícios de ano, um religioso e outro civil. O calendário que usei é o religioso, pois era o que Moisés utilizava. O calendário civil começa no mês Tishri, no dia do Rosh Hashaná, que é o dia da celebração da criação do mundo, e marca o início de um novo ano civil.[3]

A precisão histórica da Bíblia no relato do dilúvio, com dia, mês e ano de seu início e fim, tinha um propósito específico, já que foi o Espírito Santo que inspirou Moisés a assim escrever.

Será que era para este momento da história? Estou seriamente inclinado a acreditar que sim.

Agradeço ao Pastor Eleazar Domini, do canal do YouTube “Fala Sério, pastor”,[4] os esclarecimentos sobre os nomes dos meses em hebraico.

(Celio João Pires é pesquisador e autor de livros criacionistas)

Referências:

1. DePalma, R.A., Oleinik, A.A., Gurche, L.P. et al. Seasonal calibration of the end-cretaceous Chicxulub impact event. Sci Rep 11, 23704 (2021). <https://doi.org/10.1038/s41598-021-03232-9>. Disponível em: <www.nature.com/articles/s41598-021-03232-9>. Acesso em: 18/12/2021.

2. Determinado momento exato do impacto do asteroide que causou extinção dos dinossauros na Terra. Sputnik Brasil. 13/12/2021. Disponível em: <https://br.sputniknews.com/20211213/determinado-momento-exato-do-impacto-do-asteroide-que-causou-extincao-dos-dinossauros-na-terra-20662241.html>. Acesso em 18/12/2021.

3. O Calendário Judaico. Portal São Francisco. Disponível em: <www.portalsaofrancisco.com.br/historia-geral/calendario-judaico>. Acesso em 18/12/2021.

4. “Fala sério, pastor.” Domini, Eleazar. Disponível em: <www.youtube.com/c/Falasériopastor>. Acesso em: 21/12/2021.

sexta-feira, novembro 19, 2021

Telescópios e lagostas

Devemos grande parte do conhecimento que temos acerca do espaço aos telescópios. Esses objetos foram criados no século 17 e aperfeiçoados por muitos cientistas ao longo dos anos, o mais famoso deles Galileu Galilei. Usando telescópios rudimentares, se compararmos ao que temos hoje, Galileu percebeu a complexidade do Universo e fez afirmações revolucionárias para seu tempo. Ele identificou as crateras na superfície da Lua, percebeu que as estrelas não eram fixas e que, ao contrário do que foi afirmado por Aristóteles, a Via Láctea era formada de estrelas e não exalações celestiais. Além disso, ele descobriu quatro “planetas”, o que atualmente chamamos de satélites, que orbitam ao redor de Júpiter.[1]

Ao longo dos séculos, o conhecimento produzido com o auxílio dos telescópios foi sendo aperfeiçoado, assim como a tecnologia com que eles são feitos. Temos uma gama de tipos e modelos, desde aqueles que podemos ter em casa, até os incrivelmente complexos, posicionados em locais estratégicos do globo terrestre. Um deles é o Telescópio de Cosmologia de Atacama, localizado no deserto do Atacama, no Chile, que tem contribuído muito nas pesquisas astronômicas. Há até mesmo aqueles telescópios como o Hubble que foram enviados pela Nasa e outras agências espaciais ao espaço e são muito importantes para nos fornecer toda sorte de informações.

Apesar de toda a tecnologia disponível, ainda assim o alcance dos telescópios é limitado, especialmente seu campo visual. Os telescópios tradicionais vasculham apenas uma parte do céu por vez, o que não é muito interessante para registrar fenômenos inesperados ou que acontecem fora da região de alcance do telescópio.

Inspiração da natureza

Para resolver esse problema, os cientistas encontraram respostas e soluções na natureza com um animal que vive no fundo do mar e possui adaptações incríveis para viver em um lugar com dificuldades de visão: a lagosta. As lagostas são animais bentônicos. Isso quer dizer que elas vivem no fundo do mar, na areia, procurando comida ou um parceiro para acasalar. Por essa razão, possuem olhos poderosos adaptados para viver entre águas turvas, e muitas vezes não há luz suficiente. Seus olhos, brilhantemente desenhados, permitem que elas possam avistar potenciais presas ou até mesmo fugir de possíveis predadores. Eles estão localizados no topo de duas hastes na cabeça e são compostos por milhares de tubos quadrados e cônicos que funcionam como espelhos. Ao contrário dos nossos olhos, que usam o fenômeno da refração da luz para projetar a imagem na retina, nas lagostas a luz é refletida de quase todas as direções, ampliando seu campo de visão para 180°.[2, 3]

Em 1977, um cientista da Universidade do Arizona chamado Roger Angel teve a ideia de aplicar o que se conhecia sobre os olhos das lagostas aos telescópios espaciais usados para o estudo do espaço profundo. Assim como nos olhos daqueles animais, esses telescópios são cobertos por pequenos cubos que refletem a radiação de raio x (radiação abundante no espaço profundo) para um único ponto onde a imagem é formada. Essa estrutura é organizada de forma curva, para que o campo de visão do telescópio seja ampliado e alcance todos os ângulos. Essa tecnologia, inclusive, deixa os telescópios mais leves, o que pode ser extremamente vantajoso, já que esses equipamentos serão enviados ao espaço. Atualmente, muitos centros de pesquisas ao redor do mundo desenvolvem telescópios com essa tecnologia.[2, 3]

Inspiração vinda da natureza não é algo novo e tem que ver com uma área da ciência chamada biomimética. A biomimética estuda os modelos e processos encontrados no ambiente natural para imitá-los ou aperfeiçoar tecnologias existentes. Um exemplo muito famoso é o de um pássaro chamado martim-pescador que inspirou engenheiros japoneses a aperfeiçoar o trem-bala.

Essa área da ciência tem se mostrado um grande argumento a favor do Design Inteligente, sendo uma forma de detecção de design. Se a tecnologia, os materiais e processos são criações de uma mente inteligente, por que a natureza, que muitas vezes é usada como fonte de inspiração para construí-los, pode ser fruto de processos naturais não guiados? Não faz sentido! A mesma complexidade existente em equipamentos desenvolvidos por mentes humanas pode estar presente até mesmo em maior grau nos animais que os inspiraram, já que as estruturas desses animais, como as lagostas, são mais eficientes do que aquelas construídas por humanos, como o telescópio.

(Maura Brandão é bióloga e doutora em Ciências)


Referências:       

[1] https://novaescola.org.br/conteudo/1150/por-que-o-telescopio-inventado-por-galileu-revolucionou-a-astronomia

[2] https://www.bbc.com/portuguese/media-59252351

[3] Lobsters and space telescopes. Podcast: 30 Animals That Made Us Smarter – BBC World Service. Disponível em https://open.spotify.com/episode/32ufG6DWJL118CMAhlTO8a?si=e9676c1e62d24195