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quinta-feira, setembro 12, 2024

Elo perdido?

No dia 3 de setembro deste ano, foi publicada uma notícia no site “Olhar Digital” (Di Lorenzo), que diz o seguinte: “‘Elo perdido’ que explicaria a origem da vida na Terra foi encontrado por cientistas”. Naturalmente, os títulos de reportagens, notícias e outros tipos de conteúdos divulgados nas mídias populares tendem a ser sensacionalistas no sentido de que precisam ser chamativos e atrair a atenção do público, mas, muitas vezes, não expressam a realidade do assunto divulgado.


Que os pesquisadores têm esperança de que a bactéria pesquisada por eles, Candidatus Uabimicrobium helgolandensis, possa ser um “elo” entre organismos procariontes e a formação de organismos eucariontes, é verdade (Wurzbacher et al.). No entanto, afirmar que isso foi demonstrado pelas pesquisas e que explica a origem da vida na Terra já é esticar a verdade além de seus limites. É esperado que as mídias façam isso, apenas é bom que tenhamos consciência de que é assim.


Antes de prosseguir, só para relembrar, procariontes são organismos formados por uma única célula, como as bactérias e as arqueas, que não possuem um núcleo envolvido por membrana, nem organelas, apenas cromossomos e ribossomas, além de plasmídeos (DNA circular). Eucariontes são os organismos em que as células contêm núcleo e organelas envoltos por membrana.


A questão da evolução de organismos eucariontes a partir de procariontes é uma que pesquisadores da evolução dos seres vivos procuram desvendar, mas é uma questão bem distante da origem da vida, já que uma bactéria, mesmo a mais simples, já é um mundo em comparação com as moléculas orgânicas que formam os seres vivos. O surgimento das moléculas orgânicas complexas que formam os seres vivos é o desafio com o qual os pesquisadores da origem da vida têm se defrontado por cem anos. Esse problema não está nem perto de ter sido resolvido.


O principal problema das pesquisas sobre a origem da vida e os desafios monumentais que elas têm enfrentado tem a ver com a premissa errada de que a vida é definida pela junção de seus componentes básicos e que, se em algum laboratório forem simuladas as condições primitivas da Terra e moléculas orgânicas essenciais aos serem vivos, tais como ácidos nucléicos, proteínas e fosfolipídios, forem formados, isso representaria o começo da vida na Terra. Uma analogia para esse tipo de premissa seria a suposição de que a formação dos componentes básicos de um computador e a montagem dele, por algum conjunto de situações ideais ocorridas ao acaso, levaria a um computador funcionando perfeitamente e realizando tarefas.


E antes de prosseguir com a explicação dessa analogia, quero esclarecer que a palavra “acaso” para ela não provém de má informação da minha parte. Porque as leis físicas e as consequentes leis da química que dirigem quaisquer experimentos sobre origem da vida não têm preferência por originar moléculas e reações químicas que sejam as específicas e compatíveis com a vida. Por causa disso, porque o que está dirigindo esses experimentos é o acaso, geralmente são formados todos os tipos de moléculas, as que interessam à vida e seus isômeros, entre outros problemas. E também as reações químicas que acontecem são as que interessam para a vida e outras que atrapalham e dificultam essas reações.


Voltando à minha analogia com a construção de um computador, digamos que o computador tenha sido montado corretamente ao acaso, o que aconteceria quando ele fosse conectado a uma fonte de energia e ligado? O computador não faria nada. Por quê? Porque faltaria uma coisa essencial para que ele funcionasse: um sistema operacional, um programa que possibilita que ele realize as tarefas de um computador. Da mesma forma, a vida não está na organização e estruturação dos componentes orgânicos dos seres vivos, mas na “programação” que faz com que suas partes ajam inteligentemente, ou seja, a vida é processamento de informação!


Quanto ao caso das bactérias que estão sendo cogitadas como um elo entre seres procariontes e eucariontes, a ideia por trás dessa proposta é que, pelo fato de elas poderem fazer algo parecido com fagocitar (englobar e digerir) outras bactérias, isso poderia ser um primeiro passo para a formação de organelas com membrana dentro de uma bactéria primitiva. Porque há muito tempo têm sido ensinado em disciplinas de evolução que a mitocôndria (organela celular que produz energia) teria se originado de uma bactéria primitiva que foi englobada por outra célula primitiva e acabou se tornando parte da célula como uma organela. Esse teria sido o caso de cloroplastos e outros plastídeos também. Mas o fato é que se duvidava que uma célula procarionte pudesse ter energia suficiente para fazer algo assim, já que não possuía mitocôndrias que permitissem uma produção de energia bem mais eficiente.


A conclusão de que a bactéria que faz “fagocitose” seria um “elo perdido” entre procariontes e eucariontes se apoia no fato de que existem bactérias que vivem no interior de outros organismos e são conhecidas como endossimbiontes. Outra notícia que teria reforçado a hipótese da origem endossimbiótica de mitocôndrias e cloroplastos foi sobre uma suposta bactéria endossimbionte de uma alga marinha que evoluiu para uma organela (Coale et al. 217-222). Na verdade, os pesquisadores supunham que ela fosse uma bactéria endossimbionte, mas, ao examiná-la mais detidamente, concluíram que ela parece ser uma organela


O cenário imaginado para a teoria endossimbiótica é o de que algumas organelas celulares teriam sido formadas por endossimbiose bacteriana dentro de células que já eram eucariontes. Outra hipótese é de que a célula eucarionte teria se originado através de uma série de endossimbioses por diferentes bactérias (Bodył and Mackiewicz 484-492).


Encontrei um artigo em que foi feito mais do que ver como as pistas na natureza sobre este assunto podem apontar para uma conclusão e concluir que foi de fato assim (Libby et al.). O problema disso é que quando se encontra uma resposta possível para algo é preciso que se verifique se essa é a única resposta possível. Concluir que a primeira opção encontrada é a verdadeira porque é nossa resposta preferida para o problema não é a atitude de um verdadeiro investigador. Os autores do artigo que encontrei fazem estimativas quantitativas da viabilidade de organismos procariontes prosperarem numa associação endossimbiótica, já que, como eles disseram, “a endossimbiose é extremamente rara em bactérias e arqueas”.


Eles desenvolveram uma abordagem quantitativa para estimar a influência da compatibilidade metabólica entre os organismos procariontes vivendo em endossimbiose. Essa compatibilidade metabólica estimada significa “a capacidade do hospedeiro e do endossimbionte crescerem com os mesmos recursos”.  


Explicando seus métodos e resultados, os autores dizem o seguinte:

“Aqui, apresentamos uma estrutura quantitativa usando redes metabólicas em escala genômica que avalia o papel da compatibilidade metabólica nos diferentes estágios da evolução da endossimbiose procariótica: viabilidade, persistência e capacidade de evolução. Descobrimos que mais da metade dos pares aleatórios de metabolismos podem formar endossimbioses viáveis; no entanto, as endossimbioses resultantes frequentemente enfrentam custos de aptidão em termos de crescimento que dificilmente serão superados através de mutações. …No entanto, a robustez metabólica reduzida, as taxas de crescimento e a capacidade de evolução que estas endossimbioses provavelmente enfrentam limitam severamente a sua persistência e potencial para irradiar espetacularmente. As altas taxas de extinção e as baixas taxas de especiação resultantes dessas considerações metabólicas sustentariam apenas uma diversidade relativamente baixa de endossimbioses procarióticas existentes, confinadas a ambientes nos quais são menos propensas a serem superadas por hospedeiros ancestrais ou linhagens de endossimbiontes, tais como ambientes pobres em nutrientes.”


Ou seja, é pouco provável que bactérias endossimbiontes em células procariontes prosperariam para formar células eucariontes futuramente. Esses resultados acima mencionados me trazem à memória a história das pesquisas sobre a origem da vida que tenho acompanhado ao longo dos anos.


Em um artigo que foi publicado em 2020, por ocasião de um encontro em que pesquisadores em início de carreira se reuniram para considerar as perspectivas do futuro da pesquisa sobre a origem da vida, são citadas as palavras que  Oparin escreveu em seu livro em 1924:


“Todo um exército de biólogos está estudando a estrutura e organização da matéria viva, enquanto um número não menor de físicos e químicos  está diariamente nos revelando novas propriedades de coisas mortas. Como dois grupos de trabalhadores perfurando as duas extremidades opostas de um túnel, eles trabalham para o mesmo objetivo. O trabalho já percorreu um longo caminho e muito, muito em breve as últimas barreiras entre os vivos e os mortos desmoronarão sob o ataque do paciente e poderoso pensamento científico.”


Os autores desse artigo concluem: “O ‘muito, muito em breve’ não aconteceu até hoje”.

Oparin escreveu o primeiro livro sobre origem da vida que descreve o cenário de uma evolução química das moléculas e células primitivas que foram passando gradativamente, de forma espontânea, do estado não vivo para o de vivo (Oparin).

Freeman Dyson, em seu livro Origins of Life, declarou que a teoria de Oparin foi popular entre os cientistas por cerca de meio século “não porque houvesse qualquer evidência para apoiá-la, mas, antes, porque ela parecia ser a única alternativa para o criacionismo bíblico.” (Dyson)

Mais tarde, em 1953, Miller realizou seu famoso experimento que produziu aminoácidos. Mas o fato é que esse experimento não foi um sucesso. Encontraram-se evidências físicas e geológicas de que a atmosfera não era como seu experimento simulava, os aminoácidos produzidos não permaneciam muito tempo no ambiente em que eram formados senão seriam todos destruídos e descobriu-se que até os vidros dos tubos e balões onde ocorriam as reações reagiam com as moléculas da mistura.

Então, na década de 1980, Thomas R. Cech e Sidney Altman, trabalhando independentemente, descobriram que moléculas de RNA (moléculas muito parecidas com DNA) podem se dobrar de formas complexas e catalisar (acelerar) reações bioquímicas como fazem as proteínas enzimáticas (“The Nobel Prize in Chemistry 1989 - Press release”). 

Leslie Orgel, químico que ficou conhecido como o pai da teoria do mundo de RNA, e Gerald Joyce, bioquímico, idealizaram o que ficou conhecido como “o sonho do biólogo molecular”, mas que acabou se tornando “o pesadelo do químico prebiótico”. A molécula de RNA teria sido a primeira molécula importante para a vida porque conteria os genes codificadores de seres vivos e ao mesmo tempo poderia catalisar as reações de sua própria formação devido a sua função enzimática. Mas o que parecia uma resposta perfeita para o início da vida na teoria, se demonstrou um fracasso nas tentativas experimentais de produzir moléculas de RNA em um cenário prebiótico (de antes da vida começar).

A alternativa ao mundo de RNA consistia em um modelo de origem da vida através de um metabolismo primitivo, mas em 2010, um estudo (Vasas et al. 1470) dos cenários de origem da vida através de metabolismo, utilizando um modelo baseado em simulações computacionais para avaliar quantitativamente a viabilidade deles, concluiu o seguinte:

“A replicação da informação de compostos é tão imprecisa que os mais ajustados genomas de compostos não se mantêm pela seleção e, portanto, falta-lhes capacidade de evolução… Concluímos que esta limitação fundamental de conjuntos de replicadores adverte contra teorias de origem da vida de metabolismo primeiro.”

Um autor, em 2018, examinando a plausibilidade dos vários cenários para a origem da vida propostos (Tessera), cenários em que os compostos orgânicos que surgissem deveriam evoluir para originar seres vivos antes de haver uma evolução darwiniana (que atua sobre seres vivos), concluiu o seguinte:

“A partir desta revisão crítica infere-se que o conceito de ‘evolução pré-darwiniana’ parece questionável, em particular porque é improvável, se não impossível, que qualquer evolução em complexidade ao longo do tempo possa funcionar sem multiplicação e herdabilidade permitindo o surgimento de linhagens genética e ecologicamente distintas nas quais a seleção natural possa operar.”

Em outras palavras, sem multiplicação e herança, não poderia haver uma evolução química das moléculas até surgirem seres vivos.

O fato de estes resultados de pesquisas sobre a origem da vida me virem à mente quando li o artigo sobre a análise quantitativa da viabilidade de endossimbiose é porque estas duas situações demonstram justamente o que acontece quando as pessoas utilizam um conceito fraco de ciência que se originou com os filósofos iluministas e não com os pioneiros da ciência. Vejamos a diferença entre estes últimos e os primeiros.

Declarações de Roger Bacon em Opus Majus (Bacon)

“Passo agora à Matemática, o fundamento e a chave para todas as outras ciências, estudada desde as primeiras eras do mundo, mas que tem sido negligenciada ultimamente. Tratarei a seguir de sua aplicação ao conhecimento humano, ao conhecimento divino e ao governo da igreja... Temos a confirmação da experiência daqueles que conseguiram as maiores distinções em ciência. Eles devem seus resultados ao fundamento matemático de seus estudos... Passando dos métodos aos objetos de estudo, descobrimos ser impossível fazer progresso sem Matemática... Vimos a potência da Matemática quando aplicada a coisas seculares. Passamos agora a sua aplicação a coisas divinas. Filosofia é impossível sem Matemática, Teologia sem Filosofia. Todo o conhecimento está contido, direta ou indiretamente, nas Escrituras. Assim, para o correto entendimento da Escritura, conhecimento da natureza é necessário. Nas Escrituras, há um duplo significado, literal e espiritual. O primeiro é necessário para o segundo: e, como temos mostrado, conhecimento matemático é necessário para isso. Certamente os patriarcas estudaram Ciência Matemática e a transmitiram aos caldeus e egípcios, de onde ela chegou aos gregos. Isso é provado por Josefo e confirmado por Jerônimo e outros doutores, assim como por filósofos como Albumazar. Além disso, os próprios pais louvaram o valor da Ciência Matemática, como pode ser verificado em passagens de Cassiodoro, Agostinho, Bede e outros… O preconceito contra Matemática ganhou força pela luta do paganismo contra o cristianismo, em que a magia era usada pelo primeiro e em que os milagres cristãos eram considerados como magia.”

Declarações de Leonardo da Vinci (Da Vinci)

“Que nenhum homem que não seja um matemático leia os elementos de meu trabalho... Oh! estupidez humana, não percebes que, embora tenhas convivido contigo mesma toda tua vida, ainda não estás ciente da coisa que mais possuis, que é tua tolice? e então, com a multidão de sofistas, enganai-vos a vós mesmos e a outros, desprezando as ciências matemáticas, nas quais a verdade habita e o conhecimento das coisas nelas está... Ciência é a capitã e a prática são os soldados... Aqueles que se apaixonam pela prática sem a ciência são como aqueles que entram em um navio sem leme ou bússola e que nunca podem ter certeza de para onde estão indo... Nenhuma investigação pode ser chamada de ciência real se não puder ser demonstrada matematicamente... Portanto, ó estudantes, estudem Matemática e não construam sem fundamentos... Aqueles que condenam a suprema certeza da Matemática alimentam-se de confusão e nunca podem silenciar as contradições das ciências sofistas que levam ao eterno charlatanismo.”

Declarações de Galileu Galilei (Galilei)

“Em Sarsi pareço discernir a firme crença de que, ao filosofar, devemos apoiar-nos na opinião de algum autor célebre, como se nossas mentes devessem permanecer completamente estéreis e infrutíferas exceto quando casadas com o raciocínio de outra pessoa. Possivelmente, ele pensa que filosofia é um livro de ficção de algum escritor, como Ilíada ou Orlando Furioso, produções nas quais a coisa menos importante é se o que foi escrito é verdadeiro. Bem, Sarsi, não é assim que as coisas funcionam. A filosofia está escrita nesse grandioso livro, o universo, que permanece continuamente aberto a nossa vista. Mas esse livro não pode ser entendido a menos que primeiro se aprenda a entender a língua e a ler as letras com as quais é composto. Ele está escrito na língua da matemática, e seus caracteres são triângulos, círculos, e outras figuras geométricas sem as quais é humanamente impossível entender uma simples palavra dele; sem eles, fica-se a vagar em um labirinto escuro... Colocando de lado as dicas e falando abertamente e lidando com a ciência como um método de demonstração e raciocínio acessível ao uso humano, sustento que quanto mais isto participa da perfeição, menos proposições prometerá ensinar, e menos ainda provará conclusivamente. Consequentemente, quanto mais perfeita ela é, menos atrativa será e menor será seu número de seguidores. Por outro lado, títulos magníficos e muitas promessas grandiosas atraem a curiosidade natural dos homens e os mantém para sempre envolvidos em falácias e quimeras, sem nunca oferecer-lhes uma amostra sequer da nitidez da verdadeira prova pela qual o gosto pode ser despertado para saber o quão insípida é a ração diária da filosofia. Tais coisas manterão uma infinidade de homens ocupados, e será realmente afortunado o homem que, guiado por alguma luz interior fora do comum, puder sair dos confusos labirintos nos quais ele poderia ter permanecido perpetuamente errante com a multidão e tornando-se cada vez mais enredado.”


Agora vejamos as considerações sobre filósofos como Francis Bacon e Denis Diderot

“O Iluminismo, como a época em que a ciência natural experimental amadurece e se destaca, admira Bacon como ‘o pai da filosofia experimental’. A revolução de Bacon (promulgada, entre outras obras, em The New Organon, 1620) envolve conceber a nova ciência como (1) fundada na observação e experimentação empírica; (2) obtida através do método de indução; e (3) como objetivo final e confirmada por capacidades práticas melhoradas (daí o lema baconiano, ‘conhecimento é poder’). (Bristow)” 

“Denis Diderot foi um escritor e filósofo cujo corpus de trabalho contribuiu para as ideias da Revolução Francesa. Ele foi editor das seções de arte e ciência da enciclopédia. Ele foi um ‘teórico científico’ original do Iluminismo, que conectou a mais nova tendência científica a ideias filosóficas radicais como o materialismo. Ele foi especialmente interessado nas ciências da vida e seu impacto em nossas ideias tradicionais sobre o que é uma pessoa ou humanidade. (Kumar 59)”

A diferença entre os primeiros e os últimos é que os primeiros nos legaram uma ciência que se baseia em métodos matemáticos. Esta foi a ciência que inspirou Newton a descobrir o Cálculo que levou à “investigação do calor, luz, eletricidade, magnetismo e química atômica” (Williams). Newton “foi a figura culminante da Revolução Científica do século XVII” (Westfall). O tipo de ciência de Newton, baseado em métodos matemáticos levou ao desenvolvimento da física e da química, que levaram ao desenvolvimento da biologia, da medicina, da engenharia e da tecnologia.

Em contrapartida, as idéias dos filósofos iluministas, baseadas numa ciência que se apoia na razão humana, no raciocínio indutivo, em métodos de tentativa e erro, produziram resultados como a Revolução Francesa e o naturalismo metodológico.

A diferença entre estas duas ciências é que a primeira nos legou um método capaz de ajudar a humanidade a transcender as falhas do raciocínio humano quando ele tenta lidar com coisas que ultrapassam a experiência do cotidiano e que não são possíveis de serem imaginadas para serem observadas e se levantarem hipóteses a respeito. Ela provê insights sobre a realidade que provêm dos métodos matemáticos utilizados. Enquanto que a segunda, limita-se ao que o ser humano consegue imaginar para poder testar, baseia-se em coisas que parecem perfeitamente lógicas para o raciocínio filosófico, mas que na prática, levam a becos sem saída como as pesquisas sobre a origem da vida e o surgimento das primeiras células eucariontes.

(Graça Lütz é bióloga e bioquímica)

Obras citadas:

Bacon, Roger. Opus Majus. Oxford, Clarendon press, 1897.

Bodył, A., and P. Mackiewicz. Brenner’s Encyclopedia of Genetics. 2nd ed., vol. 2, Wrocław, Elsevier Inc., https://open.icm.edu.pl/server/api/core/bitstreams/2e5ba617-0224-403c-8f09-ac1acaacd762/content.

Bristow, William. Enlightenment. Edward N. Zalta & Uri Nodelman, 2023, https://plato.stanford.edu/archives/fall2023/entries/enlightenment/.

Coale, Tyler H., et al. “Nitrogen-fixing organelle in a marine alga.” Science, vol. 384, no. 6692, 2024, pp. 217-222. Science, https://www.science.org/doi/10.1126/science.adk1075. Accessed 10 09 2024.

Da Vinci, Leonardo. The notebooks of Leonardo da Vinci. 1955. Internet Archive, Braziller, https://archive.org/details/noteboo00leon/page/n6/mode/1up. Accessed 11 09 2024.

Di Lorenzo, Alessandro. “'Elo perdido' que explicaria a origem da vida na Terra foi encontrado por cientistas.” Olhar Digital, 03 09 2024, https://olhardigital.com.br/2024/09/03/ciencia-e-espaco/elo-perdido-que-explicaria-a-origem-da-vida-na-terra-foi-encontrado-por-cientistas/. Accessed 10 09 2024.

Dyson, Freeman. Origins of life. Cambridge, Cambridge University Press, 1999/2000.

Galilei, Galileu. Il Saggiatore. Roma, Rome Giacomo Mascardi, 1623.

Kumar, Sanjeev. “Impact of intellectuals and philosophers in French revolution 1789.” International Journal of History, vol. 2, no. 1, 2020, pp. 56-59.

Libby, Eric, et al. “Metabolic compatibility and the rarity of prokaryote endosymbioses.” PNAS, 2023. PubMed Central, https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC10151612/. Accessed 10 09 2024.

“The Nobel Prize in Chemistry 1989 - Press release.” The Noble Prize, https://www.nobelprize.org/prizes/chemistry/1989/press-release/. Accessed 11 09 2024.

Oparin, A. I. The Origin of Life. 2nd ed., New York, Dover Publications, Inc., 1953.

Tessera, Marc. “Is pre-Darwinian evolution plausible?” Biology Direct, vol. 13, no. 18, 2018. BMC, https://biologydirect.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13062-018-0216-7. Accessed 11 09 2024.

Vasas, Vera, et al. “Lack of evolvability in self-sustaining autocatalytic networks constraints metabolism-first scenarios for the origin of life.” PNAS, vol. 107, no. 4, 2010, pp. 1470-1475.

Westfall, Richard S. Isaac Newton. Encyclopedia Britannica, https://www.britannica.com/biography/Isaac-Newton. Accessed 10 2020.

Williams, L. Pearce. History of Science. Encyclopedia Britannica, https://www.britannica.com/science/history-of-science. Accessed 11 2022.

Wurzbacher, Carmen E., et al. “'Candidatus Uabimicrobium helgolandensis'—a planctomycetal bacterium with phagocytosis-like prey cell engulfment, surface-dependent motility, and cell division.” mBio, 2024. ASM Journals, https://journals.asm.org/doi/10.1128/mbio.02044-24. Accessed 10 09 2024.

segunda-feira, abril 24, 2023

O elo perdido, segundo Frei Betto

[Meus comentários seguem entre colchetes. – MB] Há tempos a ci­ência in­ves­tiga o elo per­dido entre o ma­caco e o homem. Já há con­senso de que Darwin tinha razão [sic]. Até o papa João Paulo II, que não era de dar o braço a torcer, ad­mitiu a per­ti­nência do darwi­nismo [sim os últimos papas deixaram clara sua visão evoteísta, que tenta misturar Bíblia com darwinismo]. O que obrigou os bispos da Ar­gen­tina, adeptos fun­da­men­ta­listas [sic] do cri­a­ci­o­nismo, a sus­pender, nas es­colas ca­tó­licas, o en­sino de que entre Deus e nós não houve outros in­ter­me­diários senão Adão e Eva.

Os cri­a­ci­o­nistas não podem ir além da ideia de um deus oleiro que, tendo brin­cado com ar­gila e so­prado o barro, deu vida às maquetes hu­manas [lamentável ver um frei usar linguagem irônica ao se referir ao relato histórico e factual da criação conforme registrado por Moisés em Gênesis]. Se dessem um passo a mais na ge­ne­a­logia do pri­meiro casal fi­ca­riam en­ca­la­crados. Se Adão e Eva ti­veram apenas fi­lhos machos, Caim, Abel e Seth, como se ex­plica essa vasta des­cen­dência da qual fa­zemos parte? Se­ríamos todos fi­lhos e filhas de um pa­ra­di­síaco in­cesto? [“Aos 130 anos, Adão gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem; e deu-lhe o nome de Sete.
Depois que gerou Sete, Adão viveu 800 anos e gerou outros filhos e filhas” (Gênesis 5:3, 4). Que falta faz ler a Bíblia levando-a a sério.]

Como os an­tigos he­breus não frequen­taram a uni­ver­si­dade e, por­tanto, es­tavam isentos da lin­guagem aca­dê­mica, abs­trata, em toda a Bí­blia não há uma só aula de dou­trina ou te­o­logia [quanta prepotência!]. Sua lin­guagem é a do mi­neiro, à base de “causos”. Vê-se o que se lê. A lin­guagem figurativa, própria dos povos semitas, trans­forma con­ceitos em ima­gens. O vo­cá­bulo he­braico “terra” deu origem a Adão [sim, pois ele foi formado dos mesmos constituintes químicos do solo], e “vida” a Eva [claro, pois é da mulher que provém a vida], numa configuração plástica da noção de que Deus criou o mundo e a humanidade. O curioso é que o autor bíblico sugere que a vida veio da terra, o que só foi constatado pela ciência no século 19, quando foram descobertas as leis da evolução do Universo.

A Bí­blia quer en­sinar apenas que Deus é o cri­ador do Uni­verso, in­cluídos os hu­manos que, em­bora obra di­vina, pa­decem de duas li­mi­tações in­trans­po­ní­veis: têm prazo de va­li­dade e de­feito de fa­bri­cação [se levasse a Bíblia a sério, entenderei o que explica o capítulo 3 de Gênesis: que a morte e os “defeitos” não fazem parte da criação original de Deus, mas são resultado temporário da entrada do pecado no mundo]. O que a dou­trina cristã chama de pe­cado ori­ginal [se não há doutrinas na Bíblia, como escreveu Betto, então elas foram todas inventadas pelos cristãos?].

Isto é óbvio: todos morrem um dia, mal­grado as aca­de­mias de le­tras re­pletas de imor­tais, e não são poucos os que de­mons­tram grandes de­feitos de fa­bri­cação – ao longo da vida tornam-se cor­ruptos, men­ti­rosos, criminosos, opor­tu­nistas, se­gre­ga­dores, ma­chistas, homofóbicos, cí­nicos. Em suma, ho­mens sem qua­li­dade, diria Musil. E muitos com uma cu­riosa ten­dência para a po­lí­tica [adepto da teologia da libertação há muitos anos, o frei não perderia a oportunidade de politizar o assunto...].

Quando teria se dado o salto do símio ao hu­mano? No dia em que um ma­caco uti­lizou um pe­daço de pau como ex­tensão das mãos, como mostra Stanley Ku­brick, no filme “2001, uma odis­seia no es­paço”? [curiosamente, o relato bíblico da criação é mitológico, alegórico, mas no filme é “mostrada” e evolução humana... Cada um escolhe as fontes nas quais acreditar.] Ou no dia em que o oran­go­tango de­cidiu, ao con­trário de toda a fa­mília zo­o­ló­gica, deixar de comer quando tem fome e marcar hora para as re­fei­ções? Teria sido na­quela tarde de sá­bado em que o ma­caco tem­perou a caça com pi­menta e assou na brasa que res­tara de uma quei­mada pro­du­zida pelo re­lâm­pago, sem saber que in­ven­tava o chur­rasco? [Isso não é história pra macaco dormir; o texto bíblico, esse sim, é!]

Um ver­da­deiro hu­mano seria uma pessoa do­tada de cri­a­ti­vi­dade. Quem já viu uma casa de joão-de-barro com uma va­ran­dinha ou um pu­xa­dinho para abrigar o filho recém-casado? [Pois é. Quais foram as mutações aleatórias filtradas pela seleção natural lenta e gradual que “ensinaram” o joão-de-barro e tantos outros animais a serem tão engenhosos, dependentes de instintos que deveriam funcionar bem desde o princípio?] Ocorre que a cri­a­ti­vi­dade é também um atri­buto dos ban­didos. Talvez seja me­lhor ca­rac­te­rizar o hu­mano por suas vir­tudes: uma pessoa ge­ne­rosa, al­truísta, ética, so­li­dária, amo­rosa, capaz de par­ti­lhar seus bens e dons. Isso existe? [E se existe, quando foi que a evolução nos dotou de tais atributos antievolutivos, que contrariam a “sobrevivência do mais forte”?]

Se es­ti­vermos de acordo que isso ainda é um pro­jeto, uma pers­pec­tiva, um sonho, então há que aceitar: o elo per­dido entre o ma­caco e o homem somos nós, essa ca­deia de ma­mí­feros que co­meça com a cu­ri­o­si­dade de Adão e Eva, que foram meter o nariz onde não eram cha­mados, à ge­ração atual con­tem­po­rânea de Biden e Putin! Aliás, dois bons exem­plos da es­pécie pré-hu­mana que tem o rabo preso; onde mete os pés cria uma bana­nosa e vive in­va­dindo o es­paço alheio. [Aí tenho que concordar com Betto: Biden e Putin (e Xi Jinping, também) são “bons” exemplos da decadência da humanidade, em sua sanha conquistadora, repressora, destrutiva, capitalista, gramcista, secularista, deturpadora de valores bíblicos, etc., etc.]

Nós somos o elo que an­dava per­dido. No en­tanto, ele sempre es­teve na nossa frente. Basta-nos mirar no es­pelho. O ver­da­dei­ra­mente hu­mano é ainda um projeto de fu­turo. Caso con­trário, o pró­prio elo ha­verá de se romper e o pro­jeto hu­mano que­dará como uma utopia. Talvez re­a­li­zável em algum outro planeta onde haja abun­dância disto que tanto falta por aqui: vida in­te­li­gente. [Esta é a visão típica dos religiosos marxistas da teologia da libertação: não há esperança real para a humanidade; tudo se trata de utopia irrealizável; os cristão bíblicos criacionistas creem que Deus resolverá o problema; creem que Jesus voltará e um dia recriará a Terra, devolvendo-a à sua condição edênica. Mas como crer nisso, quando se pensa que o “pecado original” não existiu de fato (pelo menos não como relata a Bíblia em Gênesis 3), e que, portanto, Jesus não veio para saldar a dívida humana e redimir a humanidade, mas veio para morrer como um mero mártir revolucionário? Como crer nisso, se a segunda vinda de Cristo sequer é tida como uma doutrina e uma promessa Bíblica?]

Ou quem sabe o Cri­ador de­cida passar a limpo sua cri­ação pela se­gunda vez. Du­vido que vá des­truí-la com um novo di­lúvio. A água é, hoje, um bem es­casso. Deus é ge­ne­roso, não per­du­lário. Talvez o aque­ci­mento global seja o pri­meiro in­dício de que tudo ha­verá de virar cinza. Ou, quem sabe, nós mesmos apressaremos o apocalipse desencadeando uma guerra nuclear. Então um novo Gê­nesis terá início. [Como? De que forma? Destruiremos o mundo para que possa haver uma nova suposta evolução? Deus deixará as coisas chegarem a esse ponto, assistindo a tudo de braços cruzados?]

Des­confio que, no sexto dia, Deus criará ani­mais inaptos a de­sen­volver uma ca­deia evo­lu­tiva. E, no sé­timo, se re­cos­tará em sua rede no Jardim do Éden, porque nin­guém é de ferro, e con­tem­plará a be­leza do Uni­verso – agora livre da ameaça de um pe­ri­goso pre­dador descendente dos ma­cacos, o elo entre o que já não é e o que nunca foi. [Lamento muito que um frei, um religioso mantenha esse tipo de ponto de vista melancólico e o ensine por aí; mas chego a entendê-lo, pois, antes de me tornar criacionista, sustentei visão semelhante e desprovida de esperança. Mas os iluminados são eles e os “fundamentalistas” de mente estreita somos nós. Sim, uma pena.]

(Instituto Humanitas Unisinos)





sexta-feira, setembro 20, 2019

A Pré-História em filmes: "O Bom Dinossauro"

Em diversas áreas do conhecimento existe uma espécie de círculo viciante que nos empurra a pré-definir algumas coisas. Quando eu falo de dinossauros, a agressividade e a violência desses animais já me vêm a mente. E, assim, o cinema deu aquele "empurrãozinho" para nos viciar em certas ideias que muitas vezes são visões opostas do que de fato ocorreu. No exemplo dos dinossauros, os animais selvagens atualmente não se comportam da forma que vemos nos filmes. Grande parte deles nem carnívora era. Desconstruir a ideia de "dinossauros são do mal" dá muito trabalho. Existem vários conceitos pré-formados que insistem em estampar a capa dos livros. A "evolução do homem" é um dos grandes exemplos. A tentativa constante de "macaquizar" o homem e humanizar os macacos está sempre na mídia.

Decidimos comentar alguns filmes que retratam a Pré-História e falar sobre alguns pontos desses círculos viciantes. Segundo Kindersley:[1]

"A Pré-História corresponde ao período da História que antecede a invenção da escrita, desde o começo dos tempos históricos registrados até aproximadamente 3500 a.C. É estudada pela antropologia, arqueologia e paleontologia."

Assim, podemos entender que a Pré-História se deu em momentos diferentes nos continentes. Quando os portugueses chegaram a nossas praias, encontraram o continente vivendo uma pré-história. Porém, na Europa e Ásia a pré-história já tinha ficado para trás dezenas de séculos antes.

Nas palestras do Onze de Gênesis, fizemos uma sequência de seis semanas, comentando filmes da Pré-História sob a ótica criacionista. Os detalhes que separei flertam com a cosmovisão criacionista e por isso achei interessante colocar essas cartas sobre a mesa para debate. Separei os seguintes filmes:

A Era do Gelo (2002) 
Apocalypto (2006) 
10.000 a.C. (2008) 
Os Croods (2013) 
O Bom Dinossauro (2015) 
Alfa (2018)

Claro que existem muitos outros bons, como o "Ao: The Last Hunter", ou a série "Elo Perdido", mas focamos em filmes mais populares. O primeiro dessa série é o filme "O Bom Dinossauro".

Numa linha do tempo alternativa, os dinossauros escaparam da extinção quando o asteroide passou diretamente pela Terra, sem atingi-la. Milhões de anos mais tarde, numa fazenda, um casal de Apatossauros agricultores, Henry e Ida, tem três filhos de 11 anos: Buck, Libby, e o último a chocar, Arlo. As crianças têm que deixar sua marca no silo da fazenda por algo grande que fizeram.

1. Extinção dos dinossauros

Cena do filme que mostra o meteoro que extinguiu os dinossauros errando a rota de colisão com a Terra

Na narrativa do filme, a extinção dos dinossauros dada por um impacto de asteroide não acontece. O comentário que quero destacar aqui neste trecho é o fato de a maioria dos paleontólogos concordar que houve uma extinção em massa no fim do período Cretáceo.  A teoria que é mais aceita pela comunidade científica é a de que um asteroide com aproximadamente 10 km de diâmetro tenha atingido a superfície da Terra, gerando uma explosão semelhante a 100 trilhões de toneladas de TNT.[2] Outra teoria é a de que certos movimentos sofridos pelos continentes provocaram mudanças nas correntes marítimas e também no clima do planeta. Isso fez a temperatura baixar, o que causou invernos mais rigorosos, consequentemente levando ao desaparecimento dos seres vivos que habitavam a Terra.[3]

Sob o ponto de vista criacionista, dinossauros existiram, foram criados por Deus e desapareceram da face da Terra. Um dos motivos do desaparecimento dos dinossauros pode ter sido o dilúvio bíblico, como é defendido por alguns criacionistas. O dilúvio bíblico e o grande asteroide que atingiu a Terra no fim do Cretáceo parecem ser eventos diferentes, mas podemos traçar uma convergência de dados. O evento pode ter sido o mesmo, narrado sob óticas diferentes.

Sobre o modelo da extinção dos dinossauros, Everton Alves escreveu:[4]
O modelo criacionista prevê que apenas um meteorito provavelmente não seria capaz disso nem responderia pela existência de tantos fósseis no mundo inteiro. Mas pense numa enxurrada de meteoritos caindo em terra e mar há bem menos tempo do que supõe a esticada cronologia evolutiva. Os que caíram na terra acabaram rachando a crosta, dando origem aos deslocamentos de placas tectônicas, aos terremotos e aos derrames de lavas. Os que caíram em mar poderiam gerar tsunamis de centenas de metros de altura, varrendo os continentes e destruindo tudo pela frente, sepultando quantidades incríveis de rochas, plantas e animais.
Então, tanto criacionistas quanto evolucionistas podem estar narrando o mesmo evento no caso da extinção dos dinossauros.

2. Montanhas e gelo

Cena do filme que mostra altas montanhas com gelo

O filme retrata a Terra antes do dilúvio, e no modelo criacionista a geologia do planeta é bem diferente dessa cena. Não há altas montanhas e existe um clima ameno. A Terra era uma grande estufa, havia um só continente com pequenas elevações. As grandes montanhas e formações com gelo são previstas apenas após o dilúvio.

Cena do filme que mostra altas montanhas com gelo

O dilúvio realizou um grande trabalho geológico. Corroer sedimentos aqui, reposicioná-los ali, elevar continentes, elevar planaltos, desnudar terrenos, etc., para que a Terra hoje fosse bem diferente de antes. Hoje, mesmo as cadeias de montanhas se elevam acima do mar.[5] A Bíblia relata que todas as montanhas foram cobertas; montanhas que existiam no momento do dilúvio, pois as montanhas atuais não existiam. Na geologia atual, algumas montanhas perderam altitude nos últimos anos e outras ganham a cada ano. Então, comparando a cena do filme com o cenário criacionista, vale a pena entender que de fato isso não ocorreu nesse período.

3. Dieta vegetariana

Cena do filme que mostra o humano caçando insetos para alimentar o dinossauro.


Cena do filme que mostra o humano caçando animais para alimentar o dinossauro

Cena do filme que mostra o dinossauro aceitando a dieta vegetariana

No filme, o personagem principal é um apatossauro. O apatossauro (do grego "lagarto enganoso") viveu na América do Norte durante o período Jurássico, e esse dinossauro saurópode chegava, em média, a mais de 23 metros de comprimento e 30 toneladas. O apatossauro se alimentava de plantas como samambaias, cavalinhas e gimnospermas, e devia comer em torno de 400 kg de vegetação por dia, engolindo junto pequenas pedras para ajudar a moer o alimento (gastrólitos).

Logicamente que o personagem do filme não comeria nada diferente da sua dieta. Mas o curioso é que, quando vemos os filmes de dinossauros, os ditos carnívoros é que chamam mais atenção. Eles são indômitos e saem devorando tudo o que está na frente deles. Será mesmo que os animais na natureza expressam esse comportamento?

Grande parte dos dinossauros era herbívora. Até alguns terópodes (família dos tiranossauros) eram herbívoros. Um estudo de paleontólogos americanos do Museu Field, em Chicago, indica que a maior parte dos dinossauros terópodes, exceto pelo Tiranossauro Rex e pelo Velociraptor, era herbívora e não carnívora, como se acreditava.[6]

Lindsay Zanno e Peter Makovicky concluíram com base em análises estatísticas que o regime alimentar de 90 espécies de dinossauros terópodes era constituído por plantas. Esses resultados contradizem a visão comum entre os paleontólogos de que quase todos os dinossauros terópodes caçavam para se alimentar, especialmente os antepassados mais próximos das aves.

"Grande parte dos terópodes estava claramente adaptada a uma vida de predador mas, em certo momento da evolução até as aves, esses dinossauros se tornaram herbívoros", explicou Lindsay Zanno. Os dois pesquisadores encontraram cerca de meia-dúzia de traços anatômicos que, estatisticamente, ligam a maior parte dos terópodes ao comportamento herbívoro, incluindo um bico desprovido de dentes.

Aplicando essa análise, os pesquisadores determinaram que 44% dos terópodes, distribuídos em seis grandes linhagens, eram herbívoros. Já que o número de terópodes herbívoros era tão importante, super-carnívoros como o Tiranossauro rex e o Velociraptor deveriam ser vistos "mais como uma exceção do que como uma regra", concluem os pesquisadores.

4. Serpente com patas

Cena do filme que mostra a serpente com patas



Logo nos vem a mente a narrativa bíblica, onde a punição da serpente foi de rastejar sobre o próprio ventre. Em Gênesis 3:14, 15 lemos:
“Porque fizeste isso, serás maldita entre todos os animais e feras dos campos; andarás de rastos sobre o teu ventre e comerás o pó todos os dias de tua vida. Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu ferirás o calcanhar.”
A maioria dos cristãos tenta imaginar o que era esse animal chamado de serpente. Alguns tentam especular o fato de as serpentes terem pernas e as perdido após a punição de Deus.

O fato é que temos evidências de serpentes com patas no registro fóssil. O fóssil, encontrado na Formação Crato, na Bacia do Araripe, interior do Ceará, está circundado por fezes de peixes igualmente fossilizadas, o que sugere que o animal morreu soterrado por água e lama. Segundo os pesquisadores, essa cobra de quatro patas vivia no supercontinente Gondwana, integrante da parte sul da Pangea. Leia mais sobre isso aqui.

No entanto, algo mais real pode estar por trás disso. A serpente do Éden poderia ter patas ou poderia ter asas. Praticamente todas as culturas do mundo referenciaram monstros sobrenaturais em seus contos folclóricos - e alguns desses monstros assumem a forma de répteis escamosos, alados e que cospem fogo. "Dragões", como são conhecidos no oeste, geralmente são retratados como enormes, perigosos e ferozmente antissociais, e quase sempre acabam sendo mortos pelo proverbial "cavaleiro de armadura brilhante" ao fim de um ataque violento. 

Antes de explorarmos o vínculo entre dragões e dinossauros, é importante estabelecer exatamente o que é um dragão. A palavra "dragão" vem do grego dracon, que significa "serpente" ou "cobra d'água" - e, de fato, os primeiros dragões mitológicos se parecem mais com cobras do que com dinossauros ou pterossauros (répteis voadores). Também é importante reconhecer que os dragões não são exclusivos da tradição ocidental; esses monstros aparecem fortemente na mitologia asiática, onde recebem o nome chinês de "longo".

A serpente do Éden era um dragão? Um dinossauro? Ou uma espécie de serpente extinta? Leia mais sobre isso em nosso texto sobre o dragão de Da Vinci.

5. Pterossauros

Cena do filme que mostra os pterossauros caçadores

Nessa parte do bate-papo abordamos a grande verdade que a maioria dos espectadores não sabe: pterossauros não eram dinossauros. Eram répteis voadores. E sempre trago algumas curiosidades sobre esses animais lindos. Uma delas é que a região onde eu moro (Sul do Brasil) é rica em fósseis de pterossauros.

O pterossauro Keresdrakon vilsoni, o mais recente deles, foi apresentado em um artigo publicado em agosto de 2019 na revista da Academia Brasileira de Ciências. Segundo os paleontólogos, o pterossauro viveu "em um ambiente desértico periférico, onde existiam oásis com água e certa vegetação".

Keresdrakon é a junção de "keres", que, segundo a mitologia Grega, são espíritos que personificaram a morte violenta e estão associados à fatalidade; e "drakon", palavra para dragão no grego antigo. Já vilsoni foi uma homenagem a Vilson Greinert, um voluntário que dedicou centenas de horas preparando a maioria dos espécimes do "cemitério dos pterossauros" que fazem parte do acervo do Cenpaleo.

6. Tiranossauros bonzinhos

Cena do filme que mostra os tiranossauros bonzinhos

Nesta parte do filme vemos a interação do personagem principal com os tiranossauros. E para minha surpresa, não contribuíram com a má fama dos tiranossauros. No filme, eles são bonzinhos e ajudam o apatossauro a voltar para casa. Claro que eles cuidam da "comida", que é o "gado". São carnívoros, mas não demonstram aquele comportamento voraz, destruidor a que estamos acostumados.

Temos que desconstruir a imagem da agressividade extrema desses animais. Deus criou tudo bom e perfeito, e após o pecado muitas deformidades vieram a acontecer na criação. Não conseguimos ainda determinar direito como isso ocorreu, mas, comparando com os animais selvagens atuais, é fato que o cinema ás vezes exagera.

Cena do filme que mostra o "gado" cuidado pelos tiranossauros

8. Raptores emplumados

Raptores emplumados

Nessa cena representaram os raptores com algumas plumas saindo da cauda. E, de fato,  encontramos isso no registro fóssil. Existiram dinossauros com penas.

Para a cosmovisão criacionista, existe um fator que é discutido com polêmica. O fato de se admitir que dinossauros tinham penas pode corroborar com a evolução de dinossauros para aves. No entanto, isso é uma falsa premissa. Existiam répteis emplumados, e as aves fazem parte de outra categoria. É comum os seres vivos compartilharem características. E isso não comprova a macroevolução, mas comprova o design comum.

Cena do filme que mostra aves vivendo com dinossauros

Encontramos no registro fóssil aves vivendo com os dinossauros, e até antes de alguns deles.[7] Não encontramos de forma contundente no registro fóssil essa transição de dinossauros para aves. Não temos muitos fósseis dessa época na América do Norte, e menos ainda apresentam características que nos dão uma boa ideia de como eram na vida, mas sabemos que eles definitivamente existiam de alguma forma. O oxpickers, nativos da África, são especializados em comer parasitas sugadores de sangue de animais grandes, é um exemplo de ave que se acredita habitou com os dinossauros.

Na cosmovisão criacionista, cremos que Deus criou todos os seres vivos com aporte necessário para sofrer mutações. No entanto, dentro da mesma família. Sem saltos evolutivos que mudariam a espécie/família. Então, as aves variam e continuam aves. Dinossauros variam e continuam dinossauros. Algumas estruturas (como escamas, garras e penas) são compartilhadas.

Alex Kretzschmar

Referência:

[1] Série de autores e consultores, Dorling Kindersley, History (título original), 2007, ISBN 978-989-550-607-1, pág 15 

[2] Hildebrand AR, Pilkington M, Connors M, Ortiz-Aleman C, Chavez RE. Size and structure of the Chicxulub crater revealed by horizontal gravity gradients and cenotes. Nature. 2002; 376:415-417. 

[3] Price GD, Nunn EV. Valanginianisotopevariation in glendonitesandbelemnitesfromArctic Svalbard: Transient glacial temperaturesduringtheCretaceousgreenhouse. Geology. 2010;38(3):251-254. 

[4] ALVES, Everton Fernando; BORGES, Michelson. A extinção dos dinossauros: semelhanças entre as propostas evolucionista e criacionista. In:________. Revisitando as Origens. Maringá: Editorial NumarSCB, 2018, p.79-87. 

[5] Batten, D. (Ed.), Catchpoole, D. , Sarfati, J. e Wieland, C., Capítulo 11, E a deriva continental? O Livro de Respostas da Criação , Publicadores de Livros da Criação, 2006. 

[6] Lindsay E. Zanno e Peter J. Makovicky. Ecomorfologia herbívora e padrões de especialização na evolução de dinossauros terópodes . Anais da Academia Nacional de Ciências , 2010; DOI: 10.1073 / pnas.1011924108 

[7] Xing, Lida, et al. “Reanálise de Wupus Agilis (início do Cretáceo) de Chongqing, China, como um grande traço aviário: diferenciando entre grandes faixas de aves e pequenas faixas de terópodes não aviárias.” Plos One, vol. 10, n. 5, 2015, doi: 10.1371 / journal.pone.0124039.