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quarta-feira, novembro 13, 2013

Posso ser amigo de um ateu?

É possível discordar com classe 
Debater é uma arte essencial para aqueles que lidam com questões acadêmicas. Prefiro mil vezes um debate que não chegue a uma conclusão a uma conclusão que dispense um debate. Conclusões que não foram exaustivamente discutidas são como soluções vazias para um problema que nem foi sistematizado. Neste processo, é muito importante que haja espaço para boas discussões. Veja, eu disse “boas” discussões. É uma pena que certos comportamentos belicosos tenham dado à palavra discutir um novo sentido semântico que não tinha nada a ver com aquele original de quando o termo foi criado. Só para que se saiba, “discutir” vem do latim discutere (dis, separação + quatere, quebrar). O sentido original era quebrar, sacudir, abalar.  Era isso o que os médicos romanos faziam com as plantas para produzir um medicamento. Eles quebravam e sacudiam as raízes para separar a terra e verificar as que eram ou não fortes o bastante para servir de remédio. Em virtude dessa prática, discutir também adquiriu um sentido adicional de “curar”.

Originalmente, portanto, “discutir” seria pegar um assunto e agitá-lo, até ele se dividir em partes menores e se desprender daquelas que seriam periféricas. Assim, ele fica mais fácil de ser digerido, pois não podemos compreender tudo de uma só vez. É por isso que, em qualquer discussão, todos os envolvidos parecem ter sempre um pouco de razão: cada um só vê a parte que lhe interessa, a do outro é sempre a terra a ser desprendida ou o pedaço de raiz que não serve para nada. O importante, portanto, numa discussão, é superar a tendência partidarista e usar as partes “sacudidas” para se alcançar, senão o consenso, pelo menos o respeito por aquele que discorda de nossa opinião.

Seria a busca por esse respeito uma utopia? Bem, somando a ideia de que “a esperança é a última que morre” ao fato de que sou um homem de fé, ainda acredito que é possível discordar com respeito. E vou mais além: é possível ser amigo de alguém de quem você discorda profundamente? Também creio que sim.

Veja o que aconteceu comigo: perdi a chance de falar num fórum na Unicamp e isso me deixou muito chateado, muito mesmo! Não concordei com a postura assumida por alguns professores. Mas vejam o presente que ganhei de Deus (isso mesmo, “de Deus”; lembre-se de que quem escreve acredita nEle): ganhei três novos amigos, uma antropóloga canadense, um matemático e um físico – esses dois últimos se empenharam ativamente pelo cancelamento do fórum. Um deles é o físico Leandro Tessler, cujo nome está circulando como elétrons nas redes sociais. Espero não ter errado na comparação, mas antes isso que dizer “circulando como azeitona na boca de um velho” (rs).

Mas, falando sério, como pode existir amizade numa situação dessas? Podem um crente e um ateu se tornarem amigos? Ora, se o que eu acredito for verdade, eu e o Leandro somos filhos de um mesmo Deus. Se o que ele diz for verdade, também somos todos parentes por ter uma ancestralidade comum. Logo, no frigir dos ovos, independentemente do modelo adotado, somos todos irmãos. Então, por que se comportar como se fôssemos um bando de porcos-espinhos numa noite de inverno? Devemos ser mais evoluídos do que isso!

Dá, sim, meus amigos, para discordar com classe. Dizer que o professor Leandro é academicamente desonesto não ajuda na argumentação. Pelo contrário, é tão ofensivo quanto supor que eu esteja sorrateiramente entrando na Unicamp, como um lobo disfarçado de ovelha para convencer os alunos da “perigosa” doutrina do criacionismo. Noutras palavras: eu também seria desonesto!

Ambos, ele e eu, somos muito honestos com nossa linha de pesquisa, mesmo que cheguemos a conclusões diferentes sobre algumas coisas da vida. O professor Leandro foi muito cortês no almoço que tivemos e não vi motivos para duvidar da idoneidade dele. Ao contrário do que alguns supõem do caráter de um ateu, ele não pediu “criancinhas ao molho pardo” e eu também não pedi alfafas. Ele não é canibal e eu não sou burro. Somos dois pensadores tentando entender a vida e o sentido de nossa existência. Temos todas as respostas? É claro que não! Mas as estamos buscando. Cada um a seu modo. Ele me deseja um “bom culto” quando digo que vou para a igreja. E eu digo que “orarei por ele”. Não há ironias, nem desaforos, apenas respeito um pelo outro, sem desconsiderar os pontos nos quais discordamos.

Como cristão, eu tenho de entender que não sou dono da verdade e não sei tudo sobre Deus. E como dizia uma velha canção católica: “às vezes quem duvida e faz perguntas é muito mais honesto do que eu”. Deus é menos ofendido pela sinceridade de um ateu do que pela hipocrisia de um santo. É claro que meu desejo é que um dia o Leandro acredite em Deus. E se isso não ocorrer? Que me importa? Pela evolução ou pela criação ele continua sendo meu irmão e merece meu respeito. Devemos defender com paixão aquilo no qual acreditamos, mas alguns preferem defender com “raiva” e isso não é nada bom!

(Rodrigo Silva é graduado em teologia e filosofia, doutor em teologia e doutorando em arqueologia clássica pela USP)

Nota: O texto acima foi publicado simultaneamente no blog Cultura Científica, de Leandro Tessler.

sexta-feira, novembro 20, 2015

Adeus, sedentarismo!

Suar a camisa faz bem
A história de um editor que viveu de forma inativa por mais de dez anos e “acordou para a vida”, descobrindo as vantagens do exercício funcional

Não sou muito fã de esportes e definitivamente atividades físicas nunca estiveram entre minhas preferências. Trabalho com textos e meu passatempo preferido é ler bons livros. Pouco mais de 20 anos atrás, tomei a decisão de mudar minha dieta, tornando-a o mais natural possível e deixando a carne de lado. Para evitar sobrepeso, comia apenas o suficiente. Justificava-me achando que esses cuidados e essas mudanças já eram o bastante. Mesmo assim, depois de dez anos de casado, acumulei dez quilos. É verdade que uns cinco desses quilos vieram preencher o que faltava (pelo menos, segundo minha bondosa esposa); mas os outros cinco começaram a me incomodar, especialmente quando olhava para os pés e, antes deles, lá pelo meio do corpo, percebia uma “protuberância” que anteriormente não existia. Mas a vida foi passando e acabei me acostumando às mudanças e até racionalizando-as, pensando que na faixa dos 40 as coisas deviam ser mais ou menos assim mesmo. O corre-corre, as muitas atividades, a vida agitada acabavam me servindo de desculpa para evitar a verdade que eu neguei por tanto tempo (embora falasse dela para os outros): o corpo humano foi criado para se mover, para a atividade física, tanto quanto para a intelectual.

E esse assunto começou a me “incomodar”. De uma hora para outra, sem explicação, comecei a sentir uma forte convicção de que deveria caminhar. Era como se ouvisse em minha mente a ordem: “Você precisa caminhar. Você precisa caminhar.” E não é que comecei a sentir vontade de fazer o que antes sempre considerei “sem graça”, monótono e difícil de começar? Mas continuei adiando. A que horas faria isso? À noite, quero estar com a família, dar atenção aos filhos e ler. De manhã, já levanto bem cedo para ler a Bíblia, orar (sim, sou um homem religioso) e me dirigir ao trabalho. Como caminhar? Bem, talvez mais tarde, daqui a alguns anos, quando os filhos já estiverem crescidos... Afinal, ainda sou “jovem” e tenho boa saúde, não é mesmo? E a “protuberância” no meio do corpo até que não era grande. Dava para “administrar”. A esposa nem reclamava muito...

Desânimo – Mas minha condição de saúde começou a mudar. Antes tão saudável e disposto, de repente, comecei a me sentir constantemente cansado, com a mente pesada e com certo desânimo sem razão aparente. Fiz um exame de sangue completo e o resultado me mostrou o óbvio: taxa altíssima de triglicerídeos. “Mas, doutora, não como gorduras de origem animal; não bebo refrigerante e como um ou outro doce apenas de vez em quando. Por que isso?”, perguntei, indignado. “Você pratica exercícios físicos?”, foi a pergunta que me atingiu em cheio e me fez recordar a ordem que eu estava ouvindo fazia dias em minha mente. “Você precisa fazer exercícios e cortar de vez qualquer tipo de doces e queijos, e evitar as massas.” “Eu já sabia disso”, pensei, envergonhado. Era o empurrão que faltava.

No dia seguinte, levantei às 5h30, calcei meu único par de tênis que eu quase não usava e fui para a rua, antes ainda de o Sol nascer. Estava um pouco frio, mas o ar fresco era revigorante e tive uma sensação agradável. Não estava com preguiça. Tinha plena convicção de que aquilo era um milagre para o qual Deus havia estado me preparando dias antes (talvez, para você, isso não seja um fato assim tão extraordinário, mas, acredite, para mim, levantar àquela hora para caminhar era realmente um milagre). 

Dei os primeiros passos na rua deserta, ainda achando tudo aquilo meio estranho, e logo aumentei as passadas, intensificando o ritmo da caminhada. Em pouco tempo, apesar do frio, gotas de suor já molhavam a testa e a respiração se tornava mais intensa, profunda e menos espaçada. Descobri como é agradável respirar profundamente o ar matinal. Dei uma volta no quarteirão (pouco menos de 1.500 metros) e entrei novamente na rua que leva à minha casa, uma subida. Quando entrei no banho, estava bem suado e ofegante. Passei aquele dia sentindo dores nas pernas e, no dia seguinte, sentia dores em músculos que eu nem sabia que existiam!

Mesmo com a dor, na manhã do dia seguinte, levantei-me à mesma hora, com a mesma disposição, e lá fui eu para as ruas desertas e escuras. Outro fator de motivação era o seguinte: meu filho mais novo tinha pouco mais de dois anos na época. Pensei: “Quando ele tiver dez, eu estarei com quase cinquenta e quero ainda ter bastante disposição para brincar com ele.” E continuei caminhando.

Com o tempo e orientações de profissionais, aumentei o percurso e passei a correr pequenas distâncias. A disposição melhorou; os pensamentos negativos foram embora e meu estado geral melhorou bastante. Ah, e perdi mais de cinco quilos, o que causou redução naquela “protuberância central”. Pelo menos a esposa notou e elogiou. Mais motivação!

Novos desafios – Bem que me disseram que, uma vez que você deixa o sedentarismo de lado, a atividade física se transforma num bom “vício”. Foi nessa busca de “algo mais” que me deparei com os exercícios funcionais, que se valem do peso do próprio corpo e desenvolvem força, flexibilidade, aptidão cardiorrespiratória e agilidade. E melhor: posso fazer tudo isso sem sair de casa.

O exercício ou treino funcional se baseia nos movimentos naturais do corpo humano, como pular, correr, agachar, puxar, girar e empurrar, o que nos prepara mais adequadamente para os desafios da vida diária. Para trabalhar a musculatura profunda, podem ser usados acessórios como cordas, bolas, elásticos, cones, hastes, etc.

Pratiquei durante um ano e meio esse tipo de exercício em casa. Perdi mais peso, ganhei mais força e mais motivação. E então resolvi fazer um teste de fogo: fui até Sorocaba e realizei um treino demonstrativo na academia Move, do professor Rodrigo Nogueira – e até que me saí bem, segundo ele. Nogueira, de 36 anos, é um entusiasta da modalidade. Ele garante que “o treino funcional prepara a pessoa para viver bem; que ele trabalha tudo, inclusive o cérebro”. Em sua academia, Nogueira mistura várias modalidades: musculação, pilates e levantamento de peso. E o próprio ambiente de uma academia de treino funcional já deixa clara a filosofia do negócio: não há espelhos e o ambiente é simples e até rústico. O foco está no exercício, não na vaidade. “O corpo foi criado para se movimentar. A falta de exercício mata mais que álcool e cigarro”, compara Nogueira.

O professor Rodrigo garante que em dois meses pode-se obter um bom condicionamento com o treino funcional. Cerca de noventa por cento das pessoas que procuram sua academia são sedentárias, mas, quando entram no programa de três sessões de exercícios de 45 minutos cada, passam a se sentir bem melhor. “Não vendemos perda de peso, mas condicionamento físico que leva à perda de peso”, garante o professor. “A estética, às vezes, pode mascarar problemas de saúde. Nosso lema é: ‘Pessoas reais, resultados reais.’”

Comece já! – Não espere que um exame médico jogue em sua cara o que você deveria ter feito ou estar fazendo há muito tempo. Nossa saúde é um dos bens mais preciosos que temos nesta vida. Nossa família merece nossa saúde e nossa boa disposição. Nosso cérebro precisa estar em boas condições para abrigar pensamentos claros e saudáveis.

Se você pode caminhar, agradeça a Deus por esse milagre e não desperdice esse dom. Caminhe! Vale a pena. Eu posso lhe garantir. Agora posso.

(Michelson Borges é jornalista, ex-sedentário e editor da revista Vida e Saúde)

domingo, julho 27, 2008

O que perdi e o que ganhei


Certa vez, disse a um de meus alunos (daquele tipo meio rebelde) que eu gostaria muito de ter tido a oportunidade que ele tinha: de poder estudar num colégio adventista. Nasci em lar católico e fui alfabetizado numa escola estadual [mais detalhes aqui]. Depois estudei em duas escolas técnicas. Na segunda, onde me formei como técnico em química, conheci a mensagem adventista por intermédio de um colega de classe consciente de seu papel como missionário. Fui batizado aos 19 anos e sempre lamentei o fato de não ter conhecido a Igreja Adventista antes e de não ter podido desenvolver meu caráter e aprender as primeiras lições da vida numa escola da Igreja. Daí meu sentimento de indignação com aquele aluno que parecia não dar valor ao tesouro que tinha ao alcance da mente e do coração.

Alguns meses depois do meu batismo, em 1991, mudei-me para Florianópolis, a fim de iniciar a faculdade de Jornalismo na UFSC. Cheguei a pensar em trancar a matrícula, depois de dois anos de estudos, a fim de cursar Teologia no Unasp (na época, ainda IAE – campus central). Aconselhado por amigos, terminei o curso de Jornalismo, com a intenção de, em seguida, iniciar o teológico. Mas a falta de recursos financeiros me impediu de realizar o sonho (só que eu não sabia que Deus tinha outros planos para mim e compensaria toda a frustração).

Procurando ser fiel aos mandamentos divinos, recusei boas ofertas de emprego na área de comunicação e acabei por aceitar um convite para lecionar História no Colégio Adventista de Florianópolis. E foi justamente ali que tentei fazer aquele aluno ver o quão privilegiado ele era por estudar numa escola adventista (o que depois ele acabou compreendendo, graças a Deus).

Foi ensinando que aprendi que “a verdadeira educação significa mais do que avançar em certo curso de estudos. É muito mais do que a preparação para a vida presente. Visa o ser todo, e todo o período da existência possível ao homem. É o desenvolvimento harmônico das faculdades físicas, intelectuais e espirituais. Prepara o estudante para a satisfação do serviço neste mundo, e para aquela alegria mais elevada por um mais dilatado serviço no mundo vindouro” (Ellen G. White, Educação, p. 13). Isso é que é educação. E que tremenda responsabilidade participar nesse processo ensino-aprendizagem.

Pude acompanhar de longe e ter como parâmetro professores cuja vida vale mais que muitos compêndios. Homens do quilate de um Orlando Ritter, um Pedro Apolinário – que vontade de ter estudado com mestres como eles... Mas Deus ainda me reservava uma tremenda compensação.

Depois de lecionar por dois anos e meio, recebi um chamado para trabalhar na Casa Publicadora Brasileira, inicialmente na Editoria de Livros Didáticos. Aos poucos, o sonho de Deus para mim se mostrava mais e mais claro. Mas tinha mais.

Em julho de 2006 tive o privilégio de iniciar o mestrado em Teologia, no Unasp. Finalmente, depois de muitos anos, pude experimentar o ambiente de um internato adventista e ver realizado um desejo havia muito acalentado. No primeiro dia de aula, olhei para os lados e vi dezenas de pastores desejosos de adquirir mais conhecimentos e experiência para levar avante o ministério. Meus olhos se encheram de lágrimas e agradeci a Deus em silêncio o privilégio que Ele estava me dando.

Meu bondoso Senhor compensou tudo aquilo que não pude experimentar anteriormente e me fez lembrar das palavras do apóstolo Paulo: “Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo pelo prêmio da vocação celestial de Deus em Cristo Jesus” (Fp 3:13, 14).

A educação adventista, que nasceu no coração de Deus, deve continuar fazendo exatamente isso: levar homens e mulheres a olharem para a frente, para o alvo máximo do ser humano – a vida eterna com Jesus.

Michelson Borges

quarta-feira, julho 15, 2009

E-mails que nos alegram (9)

"Olá, Michelson. Meu nome é Tiago Moreti e, assim como você, me formei na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Sou biólogo e tenho mestrado em Biotecnologia também pela UFSC. Quero parabenizá-lo pelo seu blog, sou um leitor frequente dele, e após ler a matéria 'Preparando-se para uma batalha intelectual' e 'O que perdi e o que ganhei', resolvi escrever para você. Tornei-me adventista no ano passado, antes da conclusão do mestrado, e antes mesmo de me tornar adventista, sempre fui muito crítico em relação ao papel da universidade em relação ao seu conceito de ciência e no que diz respeito ao crescimento intelectual dos seus alunos. As universidades hoje, pelo menos na área biológica (ciências em geral), são meras replicadoras do modismo científico; seus pesquisadores não 'buscam a verdade' ou tentam compreender o raciocínio natural das coisas; hoje somos meros reprodutores de uma ciência falha e que se acha esplenderosa. A ciência e as revistas científicas são grandes paradigmas, pois ou você reproduz o que está na moda ou escreve o que a revista quer passar, para aumentar o próprio status da revista. Muitos pesquisadores estão mais preocupados em encher currículo Lattes do que com o verdadeiro resultado de suas pesquisas. Que Deus te abençoe sempre; que você possa continuar fazendo esse trabalho de divulgação do criacionismo e que as pessoas enxerguem que a ciência não é o que está escrito na Veja ou na Superinteressante, e, sim, tudo o que foi criado pelo PAI."

(Tiago Moreti, Laboratório de Polimorfismos Genéticos da UFSC)

segunda-feira, abril 02, 2012

IstoÉ destaca internatos adventistas

O cenário seria suíço, não fosse pela simplicidade de parte das instalações, como as cadeiras brancas de plástico do refeitório. Emoldurados por colossais montanhas de pedra à beira da BR 040, em Petrópolis, os 600 mil metros quadrados do Instituto Petropolitano Adventista de Ensino (Ipae) abrigam com conforto 530 alunos, 300 em regime de internato. À primeira vista, a descontração da meninada sugere tratar-se de uma escola comum. Mas a vida lá não é muito fácil, principalmente para os hormônios da adolescência. Um beijo flagrado é o suficiente para submeter o estudante ao Conselho de Disciplina, que pode tirar três pontos no “sistema de ocorrências”, dependendo do ardor da infração. Um cigarro aceso, menos três pontos, assim como o consumo de bebida alcoólica. Com dez negativos, a saída é a “transferência compulsória”, eufemismo para expulsão no vocabulário do pastor Ervino Will, 54 anos, diretor-geral da escola.

“Se alguém for pego fazendo sexo, usando drogas ou roubando, é transferido compulsoriamente”, avisa o dirigente. Na infância, como interno, Ervino conheceu a colega Luci, com quem se casou há 33 anos, teve dois filhos e três netos. Há 23 anos dirigindo escolas adventistas, ele garante que aplicou, na prática, o princípio que se esforça para introjetar nos pupilos. “Nós também não podíamos nem pegar na mão. Me orgulho de ter casado virgem”, conta.

Embora muita gente acredite que eles nem existam mais, os colégios internos continuam como uma opção educacional para alunos do ensino médio. “É uma posição muito pessoal, de cada família”, afirma Regina Vinhaes Gracindo, professora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília e integrante do Conselho Nacional de Educação. “Mas eu não vejo motivos, hoje, para uma família abdicar da possibilidade de influenciar a educação do filho adolescente e delegar essa responsabilidade para uma instituição.” A distância entre tanto rigor e os costumes liberais do século XXI contribuiu para a redução do número de internatos no Brasil. Mas é exatamente em busca da disciplina que não conseguem aplicar em casa que os pais procuram colégios como o Adventista. “Entrei para me enquadrar. Agora sei arrumar a cama e acabo de tirar 10 em física”, resigna-se Lucas Gesualdo, 17 anos. Morador de Ipanema, zona sul do Rio de Janeiro, Lucas foi para Petrópolis após ter sido reprovado no primeiro ano do ensino médio do Saint Patrick, no Leblon. “No Rio eu perco a noção da hora porque pego onda e tem coisas demais para fazer.” O jovem se diz acostumado, mas reclama da falta de carne nas refeições e de liberdade, especialmente para namorar. [...]

Na contramão do processo de extinção dos colégios internos, a Igreja Adventista expande seus institutos e universidades pelo País. Presentes em todos os Estados do Sul e Sudeste brasileiro, eles têm, entre outras, uma unidade em Taquara (RS) [foto acima], inauguraram neste ano uma em Joinville (SC) e em 2009 chegam a Belém (PA). “Sabemos que os internatos estão fora de moda, e eles nem são viáveis como negócio. Investimos no modelo porque acreditamos na filosofia”, afirma o diretor-geral de Engenheiro Coelho, José Paulo Martini. A igreja subsidia seus 18 internatos no Brasil. A mensalidade-base dos alunos externos dos colégios da instituição não chega a R$ 400 – no internato, é de aproximadamente R$ 1 mil. [...]

Em comum, os colégios internos remanescentes mantêm uma rotina britânica de horários. No Ipae, ao toque de recolher das 22h, as luzes são desligadas e os alunos despertam às 6h com uma sirene. Para as meninas da Unasp, uma boa amizade com as “prepas” [preceptoras] (como são chamadas as monitoras responsáveis pela fiscalização e o suporte pessoal aos alunos) é a chave para garantir algumas regalias marginais ao regulamento, como momentos a mais de luz durante o black-out noturno.

As “prepas” também formam a barreira a ser superada às portas dos dormitórios após o pôr do sol todas às sexta-feiras, quando acontece o culto religioso para os internos. Elas avaliam as roupas escolhidas pelas meninas para que não haja exageros (como saias acima do joelho). “É um desfile de moda. Tem garota que começa a se arrumar às quatro da tarde”, diz Camila Veríssimo, 17 anos, sobre a noite mais esperada da semana. A companheira de quarto, Larissa De Benedicto, endossa a importância social do evento. “A gente se produz mesmo, porque ‘bomba’. Não pode dar na cara que está paquerando, mas sempre rola um olhar”, confessa.

Embora o regulamento do internato proíba o contato físico – não é permitido nem andar de mãos dadas –, há alguns artifícios para burlar a vigilância. “Quem quer fazer algo mais vai para a mercearia”, diz Mateus Benvenutti, 15 anos. Ele se refere à loja de conveniência instalada logo à entrada da Unasp.

Mesmo dentro do campus a rígida disciplina é atenuada, ao menos em datas específicas. Faz parte do calendário de alguns colégios adventistas a Festa dos Namorados, evento no qual os casais têm direito a ambiente com velas e alguns minutos de mãos dadas. Aluna do Ipae, a americana e filha de pastor adventista Lorraine Castro faz graça da disciplina rígida nos internatos. Para ela, a falta de contato físico “estimula a discussão da relação”. A companheira de quarto Lilian Loura concorda. “Em nenhum lugar os namorados têm tanto tempo para conversar como aqui”, diz, tendo ao fundo uma escrivaninha entulhada de livros, em que os dizeres de um quadro de madeira dá o clima reinante de amizade. “Bem-vindo ao nosso hospício: aqui somos loucos, uns pelos outros.”