Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta saramago. Ordenar por data Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta saramago. Ordenar por data Mostrar todas as postagens

segunda-feira, agosto 31, 2009

O evangelho segundo Saramago

Há Ateus e ateus. Há Socialistas e socialistas. As maiúsculas são propositais: discernem os que merecem admiração dos que não ultrapassam o lastimável. Na primeira categoria, temos Graciliano Ramos. Na segunda, José Saramago. O socialista/comunista e ateu José Saramago lança em outubro um livro justificando o fratricida Caim (leia sobre isso aqui). Acredito que o socialista e ateu Graciliano Ramos poderia ter escrito uma obra por compaixão a Abel. Vejamos o porquê.

Brasil e Portugal já produziram romancistas, ensaístas, dramaturgos, cronistas e poetas de estatura, que nada deveram a seus pares de outras línguas: Machado, Eça, Sá Carneiro, Pessoa, Drummond, Almada Negreiros, Bandeira, Cecília Meirelles, João Cabral, o próprio Graciliano – a lista é imensa.

Coube, entretanto, a Saramago o reconhecimento máximo ao nosso idioma por meio de um Nobel. Não cabe aqui discutir-lhe os méritos. Há quem aprecie sua pontuação bissexta, seu estilo professoral, que enfastia o leitor menos ovino. Contudo, sejamos indulgentes com o pouco que se salva: O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) é uma obra impressionante. Memorial do Convento (1982) também merece ovações (ok, ok... dou a mão à palmatória aos que dizem que o primeiro é impressionantemente maçante e o segundo mereça ovadas).

Mas veio 1998 e com ele o Nobel. E foi-se o que havia de memorável em Saramago. Alçado à condição de celebridade laureada, danou a garatujar libelos ideológicos e iconoclásticos, invariavelmente imaturos, juvenis.

Voltaire, lendo o celerado Rousseau, dizia-se tentado a andar de quatro. Quando leio a resenha de qualquer dos livros de Saramago, vem-me de imediato à mente uma fala de Micael Cássio, tenente do mouro Otelo: “To be now a sensible man, by and by a fool, and presently a beast!” (em tradução livre: “Era um homem sensato, que aos poucos foi-se tornando um idiota; e agora é uma besta”).

Sinal dos tempos e da decadência mental e cultural do Ocidente: espinafrar o Cristianismo ainda é o melhor atalho para a publicidade gratuita e o aplauso fácil. Interessante notar que Pasolini (aquele!) foi rigorosamente respeitoso para com Jesus Cristo em seu O Evangelho Segundo Mateus, assim como Mel Gibson em “A Paixão de Cristo”. O mesmo não se pode dizer de Martin Scorcese em “A Última Tentação de Cristo”. Compreende-se: a patota de Saramago, essa nata que se pretende bem-pensante, não admite que se mostre Jesus reduzido por sessões de tortura a um moribundo irreconhecível, mas vai ao delírio quando Ele é retratado tendo fantasias sexuais com Maria Madalena. Voltemos ao escritor português.

Em novembro de 2008, durante a comemoração do cinquentenário do caderno “Ilustrada” da Folha de S. Paulo, José foi sabatinado pelo jornal perante um auditório com cerca de 300 pessoas. Sempre à vontade diante da deslumbrada claque, soltou o verbo:

“A história da humanidade é um desastre contínuo. (...) Esta raiva que no fundo há em mim, uma espécie de raiva às vezes incontida, é porque nós não merecemos a vida. Não a merecemos. (...) O que importa é que o mundo estava errado, e eu queria fazer coisas para modificá-lo. O espaço ideológico e político em que se esperava encontrar alguma coisa que confirmasse essa ideia era, é claro, a esquerda comunista. Para aí fui e aí estou. Sou aquilo que se pode chamar de comunista hormonal. O que isso quer dizer? Assim como tenho no corpo um hormônio que me faz crescer a barba, há outro que me obriga a ser comunista.” (No fim da entrevista, uma saramaguete mais espevitada berrou do fundo da plateia: “Em nome de todos os brasileiros, obrigada por existir!”)

Não se pode acusar Saramago de incoerência. Ao reconhecer que o Homem não merecia a vida, desposou ele uma ideologia que levou o ódio à Humanidade ao Estado da Arte: em números subestimados, ao menos 150.000.000 de almas foram ceifadas. Precavido, Saramago esconde-se atrás de um subterfúgio curioso, o tal “marxismo hormonal”. Quão conveniente! Em Nuremberg, os nazistas (que foram bem menos prolíficos que os socialistas em produzir cadáveres) alegaram estar cumprindo ordens. Ao sapatear sobre uma cordilheira de defuntos, José de Sousa Saramago sempre poderá dizer: “Eu estava apenas cumprindo meu código genético.”

O que o comunista tardio Graciliano Ramos tem a ver com a história? Em 10/12/2009, por ocasião dos 70 anos da publicação de Vidas Secas, o sempre correto jornalista Reinaldo Azevedo escreveu para Veja um artigo sobre o escritor alagoano (confira aqui). Algumas partes do texto:

Vidas Secas? É bastante conhecida uma das mais devastadoras passagens da literatura brasileira: as páginas em que Graciliano narra a agonia e morte da cadela Baleia. Fabiano, que vaga com a família pelo sertão, tangido pela seca, decide matá-la com um tiro para aliviar-lhe o sofrimento. Segue um trecho:

“‘A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia (...) E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo (...). Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano. (...) Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora, cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. (...) A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. (...) A pedra estava fria. Certamente sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo. Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás (...) gordos, enormes.’”

Prossegue Azevedo:

“Baleia é mais comoventemente miserável quando se arrasta sobre dois pés, quando ‘anda como gente’. Ele não deprecia o homem, comparando-o ao cão; antes, hominiza o cão porque vê com compaixão a nossa condição – e essa compaixão inclemente pelo humano é marca da sua obra. Há dias, em passagem pelo Brasil, José Saramago declarou padecer de ‘marxismo hormonal’. Segundo o escritor português, não merecemos a vida. Ele nos negaria um pedaço de osso. ‘Preás gordos, enormes’, então, nem pensar.”

E conclui:

“‘Todo homem mata aquilo que ama’, escreveu na cadeia o escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900). Por isso nos arrastamos, como Baleia, vida afora, em busca de perdão. Somos uns cães. Mas, ainda assim, dignos de amor. E cerraremos os olhos contando acordar felizes, num mundo ‘cheio de preás gordos, enormes’.”

(Marco Antonio Dourado, analista de TI, Curitiba, PR)

Leia também: "A fixação bíblica de José Saramago"

domingo, agosto 30, 2009

Saramago "redime" Caim em novo romance

O escritor português José Saramago volta a atacar a religião em Caim, seu novo romance, que será publicado em outubro e no qual "redime" o protagonista do assassinato de Abel e aponta Deus "como o autor intelectual do crime, ao desprezar o sacrifício que Caim Lhe havia oferecido". O romance será levado à Feria do Livro de Frankfurt, que ocorre de 14 a 18 de outubro e no fim do mesmo mês chegará às livrarias de Portugal, América Latina e Espanha. [Nem mesmo o Nobel de literatura Saramago consegue fugir do rentável filão dos livros que tentam detonar a Bíblia. É outro ateu profundamente interessado em Deus...]

Saramago vai falar pela primeira vez de seu novo livro no lançamento mundial, em Lisboa. Mas o escritor, que passa o verão em sua casa na ilha espanhola de Lanzarote e prepara as malas para voltar a Lisboa, falou à Efe por e-mail que o que pretende dizer com Caim é que "Deus não é de se fiar. Que diabo de Deus é esse que, para enaltecer Abel, despreza Caim?" [Saramago critica o que não conhece. Despreza o que ignora e não se dá ao trabalho de estudar a teologia por trás das histórias bíblicas. Qualquer leitor mais atento da Palavra de Deus sabe que os sacrifícios de cordeiros representavam o grande sacrifício que Jesus, o Cordeiro de Deus (cf. João 1:29), faria na cruz pela humanidade. Quando Caim ofereceu frutas em sacrifício, no lugar do cordeiro, estava, na verdade, desprezando a provisão dada por Deus para perdão dos pecados: o sangue do inocente cordeiro/Jesus pela culpa do arrependido. A atitude de Caim ilustra bem a tentativa de salvação/justificação pelas obras humanas.]

Quase 20 anos depois de seu discutido livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo, que foi vetado pelo governo português para competir pelo Prêmio Europeu de Literatura, o Nobel português faz uma irreverente, irônica e mordaz leitura por diversas passagens da Bíblia, mas não teme que voltem a crucificá-lo.

"Alguns talvez o façam" - afirma Saramago - "mas o espetáculo será menos interessante. O Deus dos cristãos não é esse Jeová. E mais, os católicos não leem o Antigo Testamento. Se os judeus reagirem não me surpreenderei. Já estou habituado." [Se o Deus dos cristãos não é Jeová, Jesus foi um mentiroso, pois Se referiu inúmeras vezes a esse Deus como Seu Pai e o Criador de todas as coisas. Diversas vezes Jesus disse que os judeus de Seu tempo aqui na Terra estavam errando por não conhecerem as Escrituras, e essas Escrituras às quais Ele Se referia eram o Antigo Testamento que justamente apresenta Jeová como o Deus dos judeus e dos cristãos. O Novo Testamento consiste na sequência natural e ampliação do Antigo. Saramago erra mais uma vez.]

No entanto, acrescentou: "Mas é difícil para mim compreender como o povo judeu fez do Antigo Testamento seu livro sagrado. Isso é uma enxurrada de absurdos que um homem só seria incapaz de inventar. Foram necessárias gerações e gerações para produzir esse texto." [Saramago deve ter raiva da religião, por algum motivo que talvez a psicologia pudesse explicar... De fato, foram necessárias muitas gerações para produzir a Bíblia, mas isso, longe de desacreditá-la, chama mais atenção para sua credibilidade, pois todos os livros do cânon sagrado são perfeitamente harmônicos e não se contradizem. Isso é fantástico!]

José Saramago não considera esse romance seu particular e definitivo ajuste de contas com Deus, porque "as contas com Deus não são definitivas, mas sim com os homens que O inventaram", disse. "Deus, o demônio, o bem, o mal, tudo isso está em nossa cabeça, não no céu ou no inferno, que também inventamos. Não nos damos conta de que, tendo inventado Deus, imediatamente nos tornamos Seus escravos", assinalou o autor. ["Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará", disse Jesus (cf. João 8:32). Entre um ateu enraivecido e Jesus, fico com o segundo, sem pestanejar.]

O escritor nega que o fato de ter chegado perto da morte há um ano, quando foi hospitalizado por conta de uma pneumonia, o tenha feito pensar mais em Deus. "Tenho assumido que Deus não existe [ele "assume" porque sabe que não pode afirmar isso], portanto não tive de chamá-Lo em uma situação gravíssima na qual me encontrava. Mas se eu o chamasse, e ele aparecesse, que poderia dizer ou pedir a Ele, que prolongasse minha vida?" Saramago diz ainda que "morreremos quando tivermos que morrer. E diz que quem o salvou foram os médicos, Pilar (sua esposa e tradutora) e o excelente coração que tenho, apesar da idade [e o "excelente coração" que ele tem é resultado de quê? Quem o projetou? A ingratidão é triste.]. O resto é literatura, da pior espécie". (...)

O escritor começou a pensar em Caim há muitos anos, mas começou a escrever o romance em dezembro de 2008, concluindo o texto em menos de quatro meses. "Estava em uma espécie de transe [!]. Nunca havia me sucedido tal coisa, pelo menos com essa intensidade, com essa força", lembra. (...)

(O Estado de S. Paulo)

quarta-feira, outubro 28, 2009

Deus: a imprensa informa ou desinforma?

O bom artigo de Eugênio Bucci – “Notícias sobre a inexistência de Deus” –, além de mostrar que a alegada notícia não é mais algo tão bombástico quanto se pensa, pode oferecer outra reflexão. Estão os jornalistas, de modo geral, devidamente preparados para lidar com a questão filosófica da existência ou inexistência de Deus? Nos últimos anos, na esteira dos lançamentos de autores como Sam Harris, Richard Dawkins, Christopher Hitchens e outros profetas do ateísmo moderno, o imbróglio teológico veio com força às pautas. E a aceitação passiva de certas declarações tem demonstrado que os profissionais de imprensa não estão preparados para lidar com um assunto que, não é todo mundo que sabe, possui alto grau de sofisticação teórica. É possível que o despreparo venha de uma visão obtusa da filosofia como atividade desprovida de rigor. Ou até mesmo de um desconhecimento da história do tratamento filosófico da questão – enfim, má realização do dever de casa.

O resultado disso tudo é desinformar. Quando José Saramago diz em entrevista ao Estado de S. Paulo que “Deus não existe fora da cabeça das pessoas que nele creem”, está comprometido com uma tese metafísica altamente controversa e nem um pouco nova. O ar explosivo da frase do escritor perde um pouco de sua força quando nos damos conta de que Anselmo, já no século 11, considerou a diferenciação entre entidades que existem somente na imaginação e aquelas que existem tanto na imaginação quanto na realidade. Deus, para Anselmo, existe tanto na imaginação quanto na realidade. Posteriormente, outros filósofos tentaram desenvolver o pensamento de Anselmo ao longo da história. Ora, se o jornalista que entrevistou Saramago já sabia da posição do escritor, poderia ter levantado a objeção de que a afirmação dada não é consensual entre os estudiosos do assunto.

A frase seguinte, dita na Itália, também merece consideração: “Que Ratzinger tenha a coragem de invocar Deus para reforçar seu neomedievalismo universal, um Deus que jamais viu, com o qual nunca se sentou a tomar um café, demonstra apenas o absoluto cinismo intelectual da personagem.”

Parece que Saramago só consideraria como evidência verdadeira da existência de Deus aquela que nos tocasse os sentidos. Um estudo filosófico sério nos diria que não necessariamente. A questão toda é, novamente, de fundo metafísico e sua implicação principal é saber se Deus é uma entidade necessária na estrutura da realidade. Por “necessário”, dentro do jargão, entendemos algo que existe e não poderia não existir. A disposição de Deus para tomar um café com o papa é algo de importância secundária. Em outras palavras, não precisamos captar Deus para que sua existência seja verdadeira.

É possível que esta concepção, digamos, materialista da evidência, seja resquício de um senso comum que considera a existência de Deus um assunto pertinente somente às ciências empíricas, esquecendo a importante contribuição que o estudo sistemático da metafísica pode oferecer. É claro que um jornalista ao lidar com o assunto não precisa estudar conceitos modais como necessidade ou possibilidade, inerentes à metafísica. Mas seria proveitoso para qualquer jornalista presente no momento da declaração entender que a via proposta por Saramago não é a mais adequada. Novamente, é só ir aos livros de história da filosofia.

Uma vez que o jornalismo é uma atividade crítica, uma boa sugestão para aguçar o caráter crítico da profissão é o estudo da lógica. Não é aceitável que um profissional que lida com argumentos tenha pouca ideia do que, afinal, é um argumento (uma experiência interessante seria perguntar para jornalistas uma definição de argumento). Com maior domínio da lógica (sobretudo aspectos da lógica informal), o jornalista do Estado poderia indagar a Saramago quais premissas sustentam sua conclusão de que Deus só existe dentro da cabeça daqueles que nele creem. No caso da declaração feita na Itália, seria pertinente perguntar o que sustenta o citado materialismo em relação à evidência.

Existem no mercado bons manuais de lógica que podem dar ao jornalista preciosas noções de argumento, validade ou invalidade de argumentos e, importantíssimo, dicas para evitar falácias. Assim como o estudo da história, é dever de casa do jornalista dominar com alguma eficácia prática a disciplina que está por trás da argumentação, pois querendo ele ou não, os argumentos estarão lá. Logo, a lógica também.

Quando o padre Manuel Morujão, citado no artigo de Bucci, diz que “um escritor da craveira de José Saramago deveria ir por um caminho mais sério”, é provável que esteja correto. Partindo das falas de Saramago, tanto na entrevista ao jornalão paulistano como na Itália, pode-se concluir que o escritor andou ignorando os livros de metafísica. Portanto, não poderia posar de autoridade no assunto.

Os jornalistas, por sua vez, deveriam ir com mais frequência ao estudo da história da filosofia e, podendo aplicar também a usos mais gerais, ao estudo dos aspectos da lógica. Todos ganhariam. A discussão sobre a existência ou inexistência de Deus seria mais precisa e o leitor seria premiado com uma abordagem de qualidade. Já que é para colocar na mesa de debates tal problema teológico, que se faça isso respeitando certos aspectos fundamentais do assunto e que se mantenha o espírito inquisitivo e informado perante as supostas “autoridades”.

(Aluízio de Araújo Couto Júnior, Observatório da Imprensa)

Leia também: “José Saramago e a Bíblia... novamente!”

segunda-feira, junho 29, 2009

O que merece ser escrito, merece ser bem escrito

O escritor português José Saramago, que está prestes a publicar um livro com os artigos que escreveu em seu blog, diz acreditar que com o crescimento desse tipo de espaço na internet “está se escrevendo mais, embora pior”. “A prática do blog levou muitas pessoas que antes pouco ou nada escreviam a escrever. Pena que muitas delas pensem que não vale a pena se preocupar com a qualidade do que se escreve”, disse Saramago em entrevista publicada pelo jornal argentino Clarín. O escritor português reuniu os artigos publicados durante os seis primeiros meses de sua atividade como blogueiro em Caderno de Saramago, um livro vetado na Itália por Silvio Berlusconi e que reflete o espírito crítico de seu autor.

“Pessoalmente cuido tanto do texto de um blog como de uma página de romance”, completou o Nobel português, de 86 anos e que apresentará o livro em um encontro com blogueiros aberto a internautas de todo o mundo no próximo dia 25 em Lisboa. Quanto a seu blog, o escritor disse que não destina ao espaço “nenhuma ideia em particular”, para depois expressar que “os sismógrafos não escolhem os terremotos, reagem aos que vão ocorrendo, e o blog é isso, um sismógrafo”.

“Aqueles que me leem sabem que podem encontrar-se a cada dia diante de algo totalmente inesperado”, reforçou Saramago, que respondeu às perguntas do diário argentino por e-mail da Espanha, onde mora.

[Saramago] avaliou que “se o blog é um espaço para a reflexão, não deve surpreender que ilumine aquele que o escreve”.

(G1 Notícias)

Nota: Concordo com Saramago que se deva tratar o texto com carinho, não importa se se escreve um livro, uma postagem num blog ou um simples e-mail. Faz parte da boa educação pelo menos reler o que se escreve, antes de publicar/enviar (quanto à correção/precisão de um texto, um colega editor mais experiente sempre me dizia: tenha certeza de suas dúvidas e duvide de suas certezas). Quem se aventura na arte de escrever deveria procurar aprimorar a capacidade de redação lendo alguns manuais (aliás, lendo de tudo um pouco e muito) e praticando bastante. Os leitores merecem – e você cresce.[MB]

sexta-feira, outubro 31, 2008

“Marx nunca teve tanta razão”, afirma Saramago

O escritor português José Saramago afirmou na segunda-feira que Karl Marx “nunca teve tanta razão como agora”, sobre a atual crise do sistema capitalista. O escritor fez a declaração em uma entrevista coletiva sobre o lançamento do filme “Ensaio sobre a cegueira”, de Fernando Meirelles, em Lisboa.

“Onde estava todo esse dinheiro [desbloqueado para resgatar os bancos]? Estava muito bem guardado. Logo apareceu, de repente, para salvar o quê? Vidas? Não, os bancos”, declarou o prêmio Nobel de Literatura de 1998.

“Marx nunca teve tanta razão como agora”, ressaltou José Saramago, acrescentando que “as piores conseqüências ainda não se manifestaram”.

Ao ser ouvido sobre o vínculo entre o tema de seu romance e a crise financeira, o escritor respondeu que “sempre estamos mais ou menos cegos, sobretudo, para o fundamental”.

(Folha Online)

quinta-feira, maio 01, 2008

Saramago e a morte

Os críticos estão dizendo que em seu novo romance – As Intermitências da Morte – o escritor português José Saramago volta ao conhecido estilo que o consagrou mundialmente. No livro, Saramago fala sobre um país fictício cujos habitantes, de repente, deixam de morrer. Depois da alegria inicial, surgem os problemas. Prejuízo para as funerárias e seguradoras, hospitais e asilos superlotados e a falência iminente do governo, devido ao aumento das pensões e aposentadorias.

Segundo o também escritor Moacyr Scliar, embora não deixe de lado o engajamento político, Saramago investe mais em outros dois elementos: a sátira e a discussão sobre a finitude da vida. E no fim, “faz da morte uma personagem pela qual o leitor pode ser arrebatado sem medo e até com encanto”.

Infelizmente, não é bem essa a realidade. A maioria das pessoas tem, senão medo, incertezas quando o assunto é morte. O que acontece quando se morre? Para onde vão as pessoas? É possível manter contato com os mortos? Ontem (2 de novembro), milhões de pessoas (2 milhões só em São Paulo) foram aos cemitérios prestar homenagem aos seus queridos falecidos, num ritual que se repete ano após ano e revela o tremendo impacto, o vazio e a dor deixados por esse inimigo inevitável de todo ser vivo: a morte.

** O QUE É A MORTE?

Platão, o filósofo grego, ensinava que a “alma reside no corpo, como numa prisão de que se vê livre na morte”. Alguns crêem que o homem tem uma alma que lhe sai por ocasião da morte, indo para o Céu ou para o inferno. Outros ensinam que a alma vai ao purgatório expiar suas faltas. Outros ainda dizem que há “evolução do espírito”. Portanto, a maior parte das pessoas acredita que o homem tem dentro de si uma alma e um espírito que, desencarnados, vão para algum lugar. Mas, afinal, qual é a verdade? Para entender o que ocorre com o homem na morte, é preciso que se entenda o que é o homem. Qual a natureza humana.

Quando Deus criou Adão, utilizou-Se de dois elementos: o pó da terra e o fôlego de vida. E, conforme relata Gênesis (capítulo 2, verso 7) o homem “tornou-se alma vivente”. Não diz ali que o homem recebeu uma alma, mas sim que o homem tornou-se uma alma.

Assim como a lâmpada não tem luz por si só, mas produz luz quando está em conexão com a energia elétrica, e ao mesmo tempo a energia elétrica sozinha não ilumina a menos que esteja conectada com a lâmpada, o pó da terra, sozinho, não tem consciência. É simplesmente pó. O fôlego, ou sopro de vida, igualmente, não subsiste por si só. É simplesmente fôlego. A consciência e a vida são, portanto, o resultado da harmoniosa relação entre o corpo e o sopro ou fôlego de vida que Deus concedeu ao homem.

A morte, portanto, é o oposto da vida. Veja o que diz o livro de Eclesiastes, no capítulo 12, verso 7: “E o pó volte para a terra como era, e o espírito [fôlego] volte a Deus que o deu.”

Resumindo: Pó da terra + fôlego de vida = alma vivente. Tira-se um dos elementos e a alma vivente deixa de existir.

** É A ALMA IMORTAL?

Antes de Adão e Eva se desviarem da estrita obediência a Deus, Ele lhes havia feito a seguinte advertência: “No dia em que você a comer [da árvore da ciência do bem e do mal], certamente morrerá” (Gênesis 2:17). Mas Satanás introduziu uma mentira que dura até hoje. Disse ele: “Vocês não morrerão coisa nenhuma!” (Gênesis 3:4).

Antes de mais nada, é preciso que se entenda que a palavra alma, em hebraico, é nephesh. E essa palavra significa apenas ser vivente. Há um texto bíblico, escrito pelo profeta Ezequiel, que deixa mais clara ainda esta questão sobre a alma ser ou não imortal: “...a alma que pecar, esta morrerá” (Ezequiel 18:4). Existe algum ser humano que não peca? Logo, todos são mortais.

“A alma não possui existência consciente à parte do corpo, e em parte alguma a Escritura indica que por ocasião da morte a alma sobrevive como entidade consciente. Efetivamente, ‘a alma que pecar, essa morrerá’. Eze. 18:20” (Nisto Cremos, pág. 458).

Paulo encerra o assunto quando diz que só Deus é imortal (I Timóteo 6:15 e 16). Paulo mesmo não cria que ao morrer iria imediatamente ao Céu. Ele também esperava ressuscitar somente na segunda vinda de Cristo (ver Filipenses 3:11 e II Timóteo 4:8). E disse mais: “E quando isso que é mortal se revestir de imortalidade...” (I Coríntios 15:54). Você compreende? Se a alma já é imortal, qual a necessidade de se revestir de imortalidade? Somente crendo em Cristo, que é o Caminho, a Verdade e a Vida, o ser humano terá a vida eterna.

** COMUNICAÇÃO COM OS MORTOS

Alguém pode perguntar: “Se a alma não é imortal e, quando morremos, aguardamos pela ressurreição na vinda de Cristo, então é impossível haver comunicação com os mortos?” Exato. É o que diz a Palavra de Deus: “Os vivos sabem que vão morrer, mas os mortos não sabem nada. Eles não vão receber mais nada e estão completamente esquecidos. Os seus amores, os seus ódios, as suas paixões, tudo isso morreu com eles. Nunca mais tomarão parte naquilo que acontece neste mundo”, pois, na sepultura, “não se faz nada, e ali não existe pensamento, conhecimento nem sabedoria” (Eclesiastes 9:5, 6 e 10; Salmo 146:4).

Por isso, se você quer dizer algo, entregar uma flor ou fazer o bem a alguém, faça-o agora, pois “no seol [sepultura], para onde tu vais, não há obra, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma” (Eclesiastes 9:10).

** MORTE = SONO

Quando Lázaro morreu, Jesus disse para Seus discípulos que iria despertá-lo do sono. Eles acharam aquilo estranho, pois não entenderam o que Cristo dissera. Foi somente quando viram o morto (que já estava em estado de decomposição) sair da tumba, vivo, que entenderam aquelas palavras do Mestre (ver João 11:11-15). E é interessante notar, também, que, ao sair do sepulcro, Lázaro nada disse sobre alguma “experiência” após a morte. Ele simplesmente acordou.

Agora pense bem: se Lázaro estivesse no Céu (lugar para onde vão os mortos, imediatamente após a morte, como crêem alguns), não seria uma grande injustiça da parte de Jesus chamá-lo de volta a esta triste vida, sujeito às doenças e, novamente, à morte? Não, Jesus não faria isso com Lázaro, nem com ninguém. Lázaro estava dormindo, inconsciente, como ficam todos os que morrem.

Mas se os que morrem ficam inconscientes, não podem participar deste mundo e só voltarão à vida quando Cristo retornar, quem são os que aparecem por aí, dizendo ser espíritos desencarnados? De uma coisa jamais podemos nos esquecer: Satanás é um inimigo astuto e laborioso. Ele pode “se transformar e parecer um anjo de luz!” (II Coríntios 11:14). Essas supostas “almas dos mortos” são, na verdade, “espíritos de demônios, que fazem milagres” (Apocalipse 16:14). A Bíblia, inclusive, reage contra a consulta aos mortos, condenando essa prática. Basta ler passagens como Deuteronômio 18:10-14; Isaías 8:19 e I Timóteo 4:1, para confirmar.

O ser humano pode ter a vida eterna unicamente através de Cristo que é o “Caminho, a Verdade e a Vida”. Uma vez “dormindo”, só poderá ressuscitar ao chamado de Jesus, em Sua segunda vinda, assim como os que estiverem vivos, por ocasião desse acontecimento, serão transformados (ver I Coríntios 15:51 e 52) e juntos com os que estavam mortos – não antes, nem depois – subirão para se encontrarem com Deus (ver I Tessalonicenses 4:13-17).

Você percebe a astúcia do inimigo? Ele quer fazer com que os seres humanos creiam que a imortalidade lhes é um dom inerente. Assim, ninguém precisa se preparar para a vinda de Cristo. O que Satanás prega é que todos são imortais. De um jeito ou de outro, a vida continuará. É a velha mentira: “Vocês não morrerão!”

Lembre-se do que disse Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em Mim, ainda que morra, viverá” (João 11:25). Satanás não quer que as pessoas creiam em Jesus. Por isso inventa todo tipo de falsas ideologias que, no fundo, servem para afastar-nos de Cristo e eliminar nossa dependência dEle.

** E A REENCARNAÇÃO?

A Bíblia é bem clara quando diz que “cada pessoa tem de morrer uma vez só e depois ser julgada por Deus” (Hebreus 9:27). É verdade que muitos dos que crêem na reencarnação se dizem cristãos (e há muitos sinceros entre eles). Mas o verdadeiro cristão é aquele que aceita a Cristo como Salvador. Alguns dizem que, através de reencarnações sucessivas, cada pessoa pode “pagar” pelas culpas da vida anterior. É uma espécie de auto-redenção. Para essas pessoas, o que fez Cristo na cruz? Para que teria Ele morrido pelos pecados de quem é capaz de salvar a si mesmo? Cristianismo e reencarnação, por mais que se deseje, são inconciliáveis.

O caminho para a vida eterna é único: examine as Escrituras, pois elas testificam de Cristo, que é a vida eterna (João 5:39). E Ele diz: “Pois a vontade do Meu Pai é que todos os que vêem o Filho e crêem nEle tenham a vida eterna; e no último dia Eu os ressuscitarei” (João 6:39). No último dia deste mundo, Cristo ressuscitará aqueles que aceitaram Seu convite para uma relação de amizade e companheirismo, e desenvolveram uma fé genuína. Por isso, para aqueles que “morrem no Senhor” (Apocalipse 14:13), o fim é apenas o começo; o começo de uma nova vida que terá início na segunda vinda de Cristo.

Michelson Borges é autor do livreto Esperança Para Você (www.cpb.com.br ou 0800-9790606).

sexta-feira, julho 09, 2010

Depois da polêmica, Playboy portuguesa será fechada

A versão portuguesa da revista Playboy perdeu sua licença e terá que fechar as portas após publicar um ensaio que chocou o mundo todo com uma homenagem ao escritor José Saramago, que morreu no dia 18 de junho. O ensaio da revista coloca a imagem de Jesus Cristo, representado por um modelo, ao lado de moças seminuas em poses provocantes. Segundo a revista, a ideia era recriar uma das obras mais importantes de Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, como um pornô leve. A Playboy Enterprises, que controla os direitos da marca no mundo todo, anunciou em comunicado enviado à imprensa, que a filial portuguesa vai perder sua licença e terá que fechar as portas. O site Gawker reproduziu o comunicado, assinado pela vice-presidente de relações públicas da empresa, Theresa Hennessy, na íntegra:

"Nós não vimos ou aprovamos a capa e o ensaio da edição de julho da Playboy Portugal. É uma quebra chocante dos nossos padrões e nós não teríamos permitido isso se tivéssemos visto antes. Como resultado disso e de outros problemas com a editora portuguesa, estamos iniciando o processo de romper o nosso contrato."

(Folha.com)

Nota: Que bom que a Playboy ainda tem alguns "padrões", se bem que parece o presidente Lula quando disse não saber quem estava envolvido no escândalo do mensalão. Acontece que esse desrespeito a figuras religiosas não ocorreu somente em Portugal. Clique aqui para conferir.[MB]

Leia também: "Não bastava ser politicamente incorreto?"

terça-feira, julho 06, 2010

Para homenagear ateu, Playboy estampa Jesus na capa

Deu no site da Veja: "O escritor português José Saramago, morto no último dia 18, ganhou uma homenagem espirituosa - para não dizer polêmica - da Playboy do seu país. Com inspiração no romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo, a edição de julho da revista traz um ensaio com um modelo vestido de Jesus e diversas mulheres nuas ou seminuas. O Evangelho Segundo Jesus Cristo provocou um estremecimento na relação entre Saramago e o governo português, que, sob pressão da Igreja Católica, vetou a indicação da obra para o Prêmio Literário Europeu, em 1992. No mesmo ano, o escritor se mudou de Portugal para Lanzarote, nas Ilhas Canárias, onde viveu até a morte. Além da homenagem, a revista traz uma entrevista com o escritor, único Prêmio Nobel de língua portuguesa."

Nota: Curiosamente, a revista homenageia o escritor ateu com o Ser que ele sempre procurou negar. É a pura polêmica nonsense criada para vender. Nonsense é pouco; trata-se de desrespeito e blasfêmia, uma vez que, para os cristãos, Jesus é o próprio Deus Filho, a encarnação da Divindade que caminhou entre os seres humanos para revelar o amor do Criador e, finalmente, morreu pelos pecadores, ressuscitando e dando prova de Seu poder. É claro que esses polemistas baratos sabem na face de quem estão batendo - daqueles que, por amor aos ensinamentos e exemplo pacifistas de seu Mestre, suportam a afronta e ainda oferecem o outro lado do rosto. Duvido que os editores da Playboy teriam coragem de usar Maomé como personagem. Para onde caminha a humanidade? Não contentes em rebaixar a mulher, exibindo-a como mercadoria para uma plateia masculina dada ao voyeurismo editorial, esses revisteiros partem agora para o rebaixamento do próprio Criador. Nossa dívida com Sodoma e Gomorra continua aumentando e a atitude irreverente de nosso tempo é puro cumprimento das profecias (cf. 2Tm 3:1-5). O que mais falta? "Não retarda o Senhor a Sua promessa [da segunda vinda], como alguns a julgam demorada; pelo contrário, Ele é longânimo [paciente] para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento" (2Pe 3:9).[MB]

domingo, junho 20, 2010

Os sapos cegos de Fernando de Noronha

Os sapos de Fernando de Noronha vivem em uma sociedade que parece ter sido criada por José Saramago. A cegueira e outras deficiências são frequentes entre os animais da ilha. E eles vivem bem assim, obrigado. Os cientistas sabem como os bichos conseguem sobreviver. No continente, um sapo cego seria comido por uma serpente antes que pudesse refletir sobre a sua condição. Mas em Noronha os animais não têm predadores. O que se quer saber agora é como pelo menos metade dos sapos da ilha tiveram malformações. Os cientistas estão levantando hipóteses. Uma possibilidade, por enquanto derrubada, dizia que parasitas poderiam ter se espalhado entre os sapos. Mas os cientistas reviraram os bichos sem achar sinal de que essa fosse a causa. Outra possibilidade é a contaminação ambiental, que tem grande potencial para criar deformações. Noronha, porém, é uma ilha limpa, e todo o lixo é enviado para o continente.

A melhor hipótese que resta está ligada à genética. Cruzamentos entre sapos aparentados entre si teriam contribuído para que mutações “ruins” se espalhassem. Faz sentido, porque a espécie apareceu em Noronha há cerca de um século. Um padre levou uns poucos sapos do continente para a ilha. Segundo os relatos que antigos moradores de Fernando de Noronha contavam, os insetos não deixavam a horta do sacerdote em paz. A ideia era controlar os insetos. As alfaces do padre foram salvas, e os sapos acabaram se multiplicando.

Os cientistas ainda relutam em cravar que a causa é genética porque isso, apesar de comum em humanos e outros animais, seria inédito entre sapos, diz Felipe Toledo, biólogo da Unicamp.

Ainda assim, uma taxa de malformações de 50% justifica tal hipótese. “Em uma população normal, a taxa é de 2%. E em Noronha ela pode ser ainda maior, porque isso foi o que vimos sem nem abrir o bicho”, conta. “Tem bicho caolho, tem com pálpebra colada, sem mão, dedo a mais, de tudo.” “É extremamente intrigante”, diz Duncan Irschick, biólogo da Universidade de Massachusetts que comentou a descoberta a pedido da Folha.

“A inexistência de predadores talvez tenha feito com que faltasse a pressão que remove os mais doentes e fracos, uma ideia instigante”, diz. Isso teria feito com que os genes “defeituosos” não tivessem sido eliminados. Irschick ressalta, porém, que vários estudos ainda são necessários para dizer com certeza que a causa não é contaminação ambiental. [...]

(Folha.com)

Nota: Mutações via de regra são deletérias e jamais representam ganho de informação genética, portanto, não podem dar origem a novos planos corporais e órgãos funcionais. Assim como as experiências com as moscas da fruta (Drosophila melanogaster) têm demonstrado, esses sapos cegos de Fernando de Noronha também deixam claro que as mutações não podem ser usadas como evidência de evolução no sentido de incremento de informação genética.[MB]

domingo, agosto 08, 2010

Christopher Hitchens está com câncer

Christopher Hitchens, 61 anos, colunista da Vanity Fair, é um dos maiores polemistas do jornalismo contemporâneo. O título de um de seus livros conta tudo: God is Not Great (Deus Não é Grande). Hitchens nasceu na Inglaterra, estudou em Oxford, foi de esquerda, mudou para os Estados Unidos e lá se tornou um dos semideuses do mundo literário e cultural americano. [...] Um de seus alvos é a religião. Hitchens, ateu, acha que a religião faz mais mal que bem para a humanidade. Uma frase clássica de um personagem Dostoievski – “se Deus não existe, tudo é permitido” – é usada por ele em sua argumentação. A frase, segundo Hitchens, é insultuosa para todos nós. Não dependemos da existência de Deus para saber que não devemos matar, roubar, estuprar [mas Hitchens e os darwinistas em geral não explicam satisfatoriamente a emergência da moral e do altruísmo num mundo formado por amontoados de moléculas e em que sobrevivem os mais aptos].

Hitchens, com sua pregação antideus, atraiu o ódio de muitos religiosos. Mas agora há grupos organizados rezando por ele. Não para que ele mude e acredite em Deus, mas para que sare. Há poucos dias, num artigo na revista Vanity Fair, ele anunciou que está com câncer na garganta. Pouca gente com seu tipo de câncer sobrevive para contar a história. Lembro de George Harrison: todo seu dinheiro não comprou a saúde quando o cigarro lhe provocou um câncer na garganta. (Quando penso em George, morto aos 58 anos, me ocorre Epicuro com sua sabedoria irrefutável: nada é tão importante para a felicidade como a boa saúde. O bilionário sem saúde é um miserável.)

Dramas como o de Hitchens sempre mostram a fragilidade de tudo. Hitchens tinha acabado de lançar, com uma repercussão extraordinária, um livro de memórias. Vivia dias de glória. Estava dando entrevistas para todo mundo e recebendo informações de vendas incríveis quando desabou sem conseguir respirar e mergulhou num pesadelo que, provavelmente, só terminará com sua morte. Desfrutar a vida como se cada dia fosse o último pode soar como clichê, mas é uma das melhores coisas que alguém pode fazer, e é uma pena que a gente só pense nisso quando aparecem casos como o de Hitchens.

Por que eu? Esta é uma pergunta clássica em situações extremas. Hitchens, com sua inteligência e agudeza, reformulou-a. “Por que não eu?” Sêneca, o grande filósofo romano, escreveu que nada que aconteça a alguém não pode acontecer a nós mesmos. Preparemo-nos, portanto, para tudo. E no entanto ficamos perplexos quando alguma coisa ruim irrompe em nossa vida.

Hitchens, numa entrevista à CNN em que sua viçosa cabeleira sexagenária estava substituída por tufos trazidos pela quimioterapia, não parecia desesperado, o que depõe em favor de seu caráter. Disse que abençoa os que rezam por ele, mas sem acreditar em “encantamento”. Ele próprio, coerentemente com suas convicções, não reza. [...]

Minha maior ambição, pós-vida, é virar pó, e nunca mais ter que enfrentar as dores deste vale de lágrimas. Reencarnar em meio a outras pessoas que não as que fazem parte de minha vida seria um pesadelo inominável para mim. Não quero outro pai, não quero outra mãe, não quero outros irmãos, não quero outros filhos, não quero outros amigos. Não quero sequer outros inimigos.

Gosto da atitude de Hitchens. Ele fez a pergunta a exata para enfrentar, da melhor maneira possível, os tempos difíceis que tem pela frente: Por que não eu?

(Paulo Nogueira, Diário do Centro do Mundo)

Nota: Cada vez que um ateu enfrenta a morte sem Deus (não me entenda mal, amigo ateu), sinto um aperto no coração. Sempre admirei muito o astrônomo Carl Sagan. Ateu convicto, ele morreu na esperança de fazer contato com alguma raça extraterrestre. De Saramago, li muito pouco, mas também me entristeceu ver ir para a sepultura ser humano brilhante que deu às costas para o Criador. Agora chega a vez de Hitchens que, no teimoso orgulho de manter a postura ateia que lhe caracterizou a vida e os escritos, não quer desapontar os admiradores também negacionistas do sobrenatural. Mas quem vai saber que tipo de pensamentos passam pela cabeça de alguém em situações assim, quando está sozinho consigo mesmo e com seu vazio não admitido? Não passará ele também por experiência semelhante à do filósofo ateu Heinrich Heine ou do ex-ateu Antony Flew? Mais do que pela cura física, oro para que Hitchens encontre a Deus, mesmo que somente ele e o Pai saibam disso.[MB]

Leia também: "O cristianismo é bom para o mundo?"

segunda-feira, agosto 30, 2010

Literatura que redime bandidos

Ladrão, assassino, rebelde e salteador. Depois de ler os quatro evangelhos, José Roberto Torero voltou nas páginas e passou o marcador de texto em cima dos adjetivos grudados ao nome de Barrabás. Até então, ele estava na dúvida sobre quem seria o protagonista da sua versão para o Novo Testamento. Pensou em Maria Madalena, em Judas e até em Jesus Cristo, mas achou todos óbvios demais. Barrabás - um homem sobre quem se sabia muito pouco além dos tais adjetivos - não era nada óbvio. Barrabás era o cara. “Ele era mais amado que Jesus! Quando o povo teve que escolher, escolheu Barrabás”, diz o escritor, que trabalhou em dupla com Marcus Aurelius Pimenta, seu parceiro em mais de dez projetos literários. “O bom de um personagem assim, com tão pouca informação, é que se pode criar toda a história dele. Os coadjuvantes são os melhores narradores de uma história.” [...]

O livro, é bom que se diga logo, não é para ser levado a sério. Os autores narram a história de Barrabás desde seu nascimento - também fruto de uma concepção imaculada, ainda que menos idílica - até a crucificação de Jesus. Eles levaram três anos e meio e escreveram 17 versões. O texto junta referências bíblicas (o Canto dos Cânticos, por exemplo, é transformado em uma cantada amorosa), expressões da época, informações de enciclopédia, Padre Antônio Vieira e muito humor.

“Eu nunca tinha lido o Evangelho e descobri que é uma leitura maravilhosa. No primeiro não há alusão à virgindade de Maria e nem Cristo ressuscita”, diz Torero, que vive em São Paulo, mas esteve de passagem pelo Rio na semana passada, quando conversou com o Globo sobre o livro.

Torero e Marcus Aurelius, ambos jornalistas, misturam personagens reais e fictícios, descritos em falsos perfis. Assim, Barrabás, após perder os pais (uns tais de José e Maria) no massacre de Genesaré (um episódio verdadeiro), será criado por Atronges (um ladrão que realmente existiu) e um bando de malucos que parecem tirados de um filme dos Trapalhões.

A pesquisa que sustenta a narrativa dá de lambuja ao leitor informações geográficas e religiosas. Torero conta que as reuniões de criação - em que o mais difícil é convencer as respectivas mulheres a ficarem de fora - são muito divertidas. Os dois não têm escrúpulos em mexer nos textos um do outro, sempre que humor e ritmo exigem. Além das fontes formais, trabalham com a memória afetiva e um monte de referências pop. [...]

“Aos 15 anos, passei a duvidar de tudo. Aos 20, virei ateu”, diz o autor, ansioso com a repercussão do livro. “Acho democrático: será capaz de desagradar igualmente a católicos e judeus.”

Marcus é filho de protestantes e capaz de citar passagens da Bíblia de cabeça. Já Torero foi batizado, mas não fez Primeira Comunhão. Sua mãe já foi católica, já foi mística, não tem medo de umbanda e agora é seguidora do guru indiano Sai Baba. Nada que influenciasse o filho. Em 47 anos de vida, a única religião que merece a devoção de Torero é o Santos Futebol Clube: “Olha o Neymar, cara... No Neymar eu acredito.”

(O Globo)

Nota: Ainda que os autores encarem seu livro como “brincadeira”, muita gente acaba influenciada por esse tipo de literatura. Eles até podem ter pesquisado a geografia e os costumes neotestamentários, mas e a teologia que permeia as histórias? E os detalhes das entrelinhas, percebidos por aqueles que realmente estudam a Bíblia? Por exemplo, o livro parece ignorar o fato de que a turba que condenou Jesus foi manipulada para escolher Barrabás em lugar do Salvador. Barrabás não era “o cara”. Foi beneficiado pela ocasião. Dá para dizer que estava no “lugar certo e na hora certa” (para ele). Além disso, "evangelho" quer dizer boas-novas. Que boa-nova pode vir de um ladrão não convertido? O livro de Torero segue a tendência de redimir bandidos (algo que o falecido Saramago também procurou fazer com seu Caim e mostra que muitos ateus continuam interessados em temas religiosos (ou talvez incomodados com isso).[MB]

sexta-feira, maio 18, 2012

Aos meus queridos ateus

Os ateus sempre me chamaram a atenção. Na minha sala de aula, eles sempre foram os alunos mais curiosos, atentos, interessados, como no caso do Rafael, uma história que já compartilhei aqui com vocês. Mas quando falo de ateus não me refiro aos adolescentes rebeldes, os contestadores de autoridade que adoravam comprar uma briga com o professor de religião. Um deles, certa vez, num ato falho, disse numa das minhas aulas: “Graças a Deus, eu não acredito em Deus”... Não, não falo desses hippies de butique. Falo dos ateus genuínos, esses seres frequentemente agoniados, principalmente quando se veem diante das contradições e limites humanos, como a miséria, uma doença incapacitante ou a morte.

Sempre me comoveu a busca desses ateus, o embate entre a razão e o afeto, o inconformismo diante da beleza da vida e a brutalidade da morte, a convivência forçada e contraditória entre a fartura e a miséria, os contrastes que levam à pergunta ancestral: Onde está Deus?

Em nenhum momento me sinto superior a eles, como se eu fosse um ser iluminado, ou possuísse algo que eles não têm. Ao lado deles, me sinto simplesmente irmão. Talvez por isso, por esse respeito fraterno, minha relação com eles tenha sido tão serena ao longo de mais de três décadas na sala de aula.

No fundo, talvez o ateu genuíno apenas expresse essa perplexidade que nos visita diante das contradições, dos absurdos, das brutalidades da vida e do homem.

O papa Bento XVI, tão rotulado de insensível pela grande mídia, quando visitou o campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, em maio de 2006, disse:

“Num lugar como este faltam as palavras. No fundo pode permanecer apenas um silêncio aterrorizado, um silêncio que é um grito interior a Deus: Senhor, por que silenciaste? Por que toleraste tudo isto? Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou?”

O Papa fazia eco a outro grito silencioso ali experimentado pelo escritor judeu Elie Wiesel, ele mesmo um sobrevivente do Holocausto, que, contando sua saga como prisioneiro naquele campo de morte no livro A Noite, diz:

“Voltávamos do trabalho uma tarde e vimos três forcas erguidas no centro do campo. Ao nosso redor, o pelotão dos S.S., com metralhadoras apontadas: a cerimônia tradicional. Três condenados algemados. Um deles, uma criança, um anjo de olhos tristes...

“Os três condenados subiram em suas cadeiras, juntos. Nos três pescoços foram colocados, ao mesmo tempo, os nós corrediços.

“– Viva a liberdade! – gritaram os dois adultos. O pequeno ficou calado.

“As cadeiras foram chutadas pelo carrasco e os três corpos caíram, num baque seco.

“– Onde está o bom Deus? Onde está? – perguntou alguém atrás de mim.

“Do fundo do meu coração, ouvi uma voz que lhe respondia:

“– Onde está Deus? Ali, pendurado naquela forca...”

Certa vez, assistindo ao programa Roda Viva, da TV Cultura, onde o entrevistado era o jornalista Paulo Francis, testemunhei um dos momentos mais angustiantes de um ateu genuíno. Francis, dotado de uma cultura enciclopédica, uma ironia corrosiva, debatia com seus entrevistadores como quem maneja uma espada afiada, no caso, sua língua ferina. Zombava da bancada, fazia piadas com os ataques, garantia o ibope com seu jeito característico e debochado de falar. Até que um dos presentes lhe perguntou: “E Deus, você acredita em Deus?”

Francis parou, ficou em silêncio por alguns insuportáveis segundos e disse: “Eu queria muito, muito mesmo, acreditar em Deus, mas não consigo. Viajei demais. Vi demais. Não consigo...”

O escritor português José Saramago, recentemente falecido, dizia coisa semelhante: “Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro...”

Em 1999, numa entrevista à jornalista Marília Gabriela, ele se declarava em paz com seu ateísmo. E acrescentava: “Não sou contra as religiões. Sou contra o poder daqueles que chamo de administradores das religiões.”

Respeito esses ateus genuínos. Admiro suas dúvidas, tão parecidas com as minhas. Sei, com um saber que não vem da compreensão intelectual, sei com minha alma infantil, ridiculamente infantil, que Deus existe. Nada mais que isso. Ou melhor, o que verdadeiramente me consola é saber que Ele sabe que eu existo. Mas não peçam para provar coisa alguma.

Quando o Rafael, meu aluno de 15 anos, me disse que não acreditava em Deus, me provocando, chamando para um debate inútil, eu apenas lhe respondi: “Tem problema não, Ele continua acreditando em você...”

Não há nada mais inútil para a fé que as certezas. Se há certezas, não há espaço para a fé, não há necessidade de fé. A fé só existe mesmo na escuridão. Sem ela, sem o risco do passo em falso, da corda bamba, não há como haver essa entrega gratuita, espontânea, infantil.

Por isso, creio em Deus ao modo de criança; porque sim.

Não me exijam argumentos, grandes elaborações intelectuais, fórmulas matemáticas, comprovações da Física quântica, da Metafísica, das moléculas da água, das considerações filosóficas. A minha fé não resistiria a tanta erudição.

Eu creio em Deus, repito, ao modo de criança. Sinto em mim, em tudo que há em mim, o seu amor silencioso, doce, terno, exigente, integrador. Um amor que não me poupa das agruras do deserto, mas é força para a travessia. Um amor que, em meio à sede ardente, sussurra em meus ouvidos, num eco, as palavras do Pequeno Príncipe, de Exupéry:

“O que torna belo o deserto é que ele esconde um poço, em algum lugar...”

Creio num Deus assim, que é amor em mim. Porque SIM...

(Eduardo Machado, no blog Estória das Histórias)

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

A coragem contra a coletividade burra

Repórter ferido em manifestação no RJ
[Texto publicado por Rubem Alves há 12 anos, mas mais atual do que nunca.] “Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece”, observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus eu guardei em segredo. Por medo. Albert Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega: “Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos.” Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem.
Vou dizer aquilo sobre o que me calei: “O povo unido jamais será vencido”, é disso que eu tenho medo. Em tempos passados invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o “povo” tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo... Não sei se foi bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere.

A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. Nada mais distante dos textos bíblicos. Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Bastou que Moisés, líder, se distraísse [sic] na montanha para que o povo, na planície, se entregasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.

E a história do profeta Oseias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras ideias. Amava a prostituição. Pulava de amante a amante enquanto o amor de Oseias pulava de perdão a perdão. Até que ela o abandonou... Passado muito tempo, Oseias perambulava solitário pelo mercado de escravos... E o que foi que viu? Viu sua amada sendo vendida como escrava. Oseias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: “Agora você será minha para sempre...” Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus.

Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável. O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras. As mentiras são doces; a verdade é amarga.

Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo. No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões. E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas mudaram. Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo.

O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas. As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos. Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro O Homem Moral e a Sociedade Imoral, observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se “responsáveis” por aquilo que fazem. Mas, quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas.

Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.

Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. É sobre esse pressuposto que se constrói o ideal da democracia.

Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. O povo é movido pelo poder das imagens, e não pelo poder da razão. Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras. O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. Uma coisa é o ideal democrático, que eu amo. Outra coisa são as práticas de engano pelas quais o povo é seduzido. O povo é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.

Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás. Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar. [Infelizmente, eu sei...]

O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer.

O povo, unido, jamais será vencido!

Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos... Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol. Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos e a brincar de “boca-de-forno”, à semelhança do que aconteceu na China.

De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: “Caminhando e cantando e seguindo a canção...” Isso é tarefa para os artistas e educadores. O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança. [E o povo que eu amo não existe, porque, para ser esse povo, cada um de seus componentes teria que ter um novo coração – e parece que nem todos querem. Seria a “revolução” individual que se alastraria como reação em cadeia, transformando a sociedade, sem lutas, sem ódio, sem sangue – porque o sangue de Um já foi derramado para que isso pudesse ser realidade. Como essa utopia não será real aqui, o povo que eu amo somente existirá quando for o transformado e redimido povo de Deus. – MB]

(Rubem Alves é psicanalista e escritor; Folha.com)