terça-feira, agosto 06, 2013

Suspeito de matar família gostava de Assassin’s Creed

Uma notícia triste (mais uma neste mundo que afunda) chocou o Brasil nesta semana. Cinco pessoas da mesma família foram encontradas mortas na noite de segunda-feira, dia 5, dentro da casa em que moravam, na Brasilândia, Zona Norte de São Paulo. Entre os mortos, estavam dois policiais militares – o sargento Luis Marcelo Pesseghini, 40 anos, e a mulher dele, a cabo Andreia Regina Bovo Pesseghini, 35 anos. O filho do casal, Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini, 13 anos, também foi encontrado morto, assim como a mãe de Andreia, Benedita Oliveira Bovo, 65 anos, e a irmã de Benedita, Bernardete Oliveira da Silva, 55 anos. A investigação descartou que o crime tenha sido um ataque de criminosos aos dois PMs e passou a considerar a hipótese de uma tragédia familiar: o garoto teria atirado nos pais, na avó e na tia-avó e cometido suicídio. A teoria foi reforçada pelas imagens das câmeras de segurança da escola onde Marcelo estudava: o adolescente teria matado a família entre a noite de domingo e as primeiras horas de segunda-feira, ido até a escola com o carro da mãe, passado a noite no veículo, assistido à aula na manhã de segunda e se matado ao retornar para casa.

O pai de um colega de escola do estudante Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini, 12, contou à polícia que deu carona para o menino na segunda-feira, depois de ele frequentar as aulas no colégio Stella Rodrigues, na Zona Norte de SP. Segundo informações da polícia, essa testemunha disse que parou na porta da casa da família de Marcelo Eduardo, na Brasilândia (zona norte), e buzinou para chamar os pais do menino. A criança, porém, teria dito para ele não buzinar, pois o pai estaria dormindo. Em seguida, ele se despediu do pai e do colega e entrou no imóvel. Em entrevista ao SPTV, da Rede Globo, o comandante da PM, Benedito Roberto Meira, disse que a perícia aponta que as vítimas já estavam mortas nesse momento e que o menino cometeu suicídio em seguida.

Todas as vítimas foram assassinadas com um tiro na cabeça com a pistola calibre 40 de Andrea. A arma foi encontrada embaixo do corpo de Marcelo Eduardo. Segundo o comandante, o menino era canhoto e o disparo foi feito do lado esquerdo da sua cabeça. De acordo com o comandante da PM, não há sinais de arrombamento na casa e nada foi levado da família.

Um detalhe mencionado na reportagem do site Folha.com me chamou a atenção: o menino utilizava no seu perfil do Facebook a imagem do protagonista da série de videogames chamada Assassin’s Creed. No jogo, que se passa durante o Renascimento, o personagem faz parte de uma seita de assassinos e pretende vingar a morte de seus familiares.

Antes que os críticos de plantão me condenem, quero deixar claro que não acredito (obviamente) que todas as crianças que gostam de jogos violentos se tornarão assassinas nem que todos os fãs de filmes sanguinários sairão por aí matando gente. Não é isso. Mas não dá para negar que existem muitas coincidências quando o assunto é assassinato e consumo de mídias violentas. Em anos mais ou menos recentes, temos tomado consciência de várias tragédias como a que se abateu sobre a família Pesseghini e, em muitas delas, seus protagonistas tinham contato com essas mídias violentas.

Sinceramente, não sei o que passa na cabeça de gente que desenvolve videogames cujo objetivo é matar, decepar, trucidar. E há aos montões esse tipo de coisa no mercado. As crianças se entretêm derramando sangue, ainda que virtual. Mas quem garante que esse tipo de comportamento não vai ser reproduzido na vida real? Parece que exemplos não faltam. E a coisa é ainda pior quando há armas ao alcance.

Como tenho certeza de que videogames violentos não deixarão de ser vendidos tão cedo (essa é uma indústria multibilionária e a “liberdade artística” está a favor dela), cabe aos pais acompanhar o que os filhos têm feito em seus momentos de lazer. O tempo é precioso. A mente de nossas crianças é valiosa. Por isso, vale a pena todo e qualquer esforço para direcioná-las a entretenimentos sadios e, sobretudo, para passar momentos de qualidade com elas, em família, valorizando a ética, a bondade e o respeito pela vida humana – real ou virtual.[MB]

(Com informações do portal UOL e do site Folha.com)

Nota: Não quero posar de exemplo, longe disso. Quero apenas partilhar uma experiência ocorrida dia desses com minhas filhas. Elas me pediram para baixar o aplicativo de um joguinho “inocente”, com um menino que corria pelas ruas, saltando obstáculos e acumulando pontos ao pegar não me lembro o que (e também não me lembro do nome do jogo). Baixei o tal aplicativo gratuito e quando elas foram iniciar o jogo, vi que o motivo que faz o menino correr pelas ruas é totalmente reprovável: ele picha uma parede e foge da polícia. Fechei o jogo e expliquei para as meninas que isso não é passatempo para pessoas que desejam ter um bom caráter. Perguntei: “Vocês acham que é certo o que o menino fez? Fugir da polícia é um bom motivo para um jogo?” Elas entenderam e imediatamente deletamos o aplicativo infeliz. Não devemos fazer virtualmente aquilo que não aprovaríamos na vida real. Além disso, aqui vai uma dica (se lhe for útil): meus filhos sabem que somente podem jogar alguma coisa depois de ler alguns capítulos de um bom livro. Esse ainda é o melhor passatempo.[MB]

segunda-feira, agosto 05, 2013

Supercomputador K simula 1% do cérebro humano

A maior simulação computadorizada já feita de uma rede neural - uma espécie de cérebro eletrônico - acaba de ser realizada no Japão. A simulação foi possível graças ao desenvolvimento de estruturas de dados avançadas para o software de simulação NEST, um programa de código aberto disponível gratuitamente para cientistas de todo o mundo. Rodando o NEST em um supercomputador japonês, a simulação alcançou 1,73 bilhão de neurônios, interconectados por 10,4 trilhões de sinapses. Simular uma rede neuronal - e um processo como o aprendizado, por exemplo - requer grandes quantidades de memória porque as sinapses são modificadas constantemente pela interação neuronal, e o simulador precisa oferecer condições para essas modificações. Assim, mais importante do que o número de neurônios na rede neural simulada é o fato de que, durante a simulação, cada sinapse entre os neurônios excitatórios contou com 24 bytes de memória, permitindo uma descrição matemática precisa da rede.

Usando os 82.944 processadores do Supercomputador K, um dos mais rápidos do mundo, o programa levou 40 minutos para completar a simulação de 1 segundo de atividade da rede neural em tempo real - ou seja, 40 minutos de tempo computacional se traduzem em 1 segundo de tempo biológico.

Embora a simulação esteja sendo comemorada como um marco no campo das neurociências, ela representa apenas 1% da rede neural já mapeada do cérebro. Assim, o objetivo da equipe japonesa e alemã era avaliar a capacidade dos supercomputadores e, principalmente, do programa de simulação, que agora poderá ser aprimorado.

“Se os computadores de escala peta, como o Computador K, são capazes de simular 1% da rede de um cérebro humano hoje, então sabemos que a simulação de todo o cérebro no nível das células nervosas individuais, e todas as suas sinapses, será possível com os computadores de escala exa, que provavelmente estarão disponíveis na próxima década”, explica Markus Diesmann, da Universidade Julich, na Alemanha.

No total, o simulador usou cerca de 1 petabyte de memória principal, que corresponde à memória de cerca de 250.000 PCs comuns. O trabalho será uma das bases do Projeto Cérebro Humano, que começará a funcionar em outubro deste ano.

Em lugar de supercomputadores, uma equipe britânica está usando um conjunto de processadores de baixo custo, já tendo atingido uma simulação de 1 bilhão de neurônios:


Nota: Resumindo: o mais potente computador já criado pelo ser humano inteligente consegue simular apenas um por cento da capacidade do cérebro biológico surgido como resultado de mutações aleatórias filtradas pela seleção natural, ou seja, sem a intervenção de uma mente inteligente! Resumindo de outro modo: o cérebro humano inteligente é capaz de criar um cérebro artificial que imita apenas um por cento da capacidade de seu criador que crê que seu cérebro não foi criado! (Nem todos creem assim, eu sei.) Enquanto o cérebro humano tem apenas em média um quilo e meio e pode ser facilmente segurado na palma de uma mão, ou seja, é algo muito grande num espaço muito pequeno (como diria Carl Sagan), o Supercomputador K ocupa uma sala enorme (veja o tamanho da "criança" na foto lá em baixo). O cérebro humano resiste relativamente bem a pancadas e é à prova d'água (você pode mergulhar à vontade com ele). Mas experimente jogar água sobre seu computador... O cérebro humano processa inconscientemente quantidade tal de informação que travaria qualquer supercomputador. Resumindo o resumo: o cérebro humano é tremendamente mais complexo que o melhor cérebro que ele pode criar. E como toda criação sempre é inferior ao seu criador, como deve ser o criador do cérebro humano?

Noticiando o mesmo feito, o site Tecmundo destacou: “Em diversos filmes que fizeram sucesso nos cinemas, há robôs que contam com inteligência bastante parecida com a dos seres humanos – dois bons exemplos disso são as produções ‘Eu, Robô’ e ‘A.I. Inteligência Artificial’. No entanto, a tecnologia atual está consideravelmente longe de conseguir máquinas tão desenvolvidas. [...] Para que isso seja possível, foi utilizado o sistema NEST e estruturas de dados feitas exclusivamente para a pesquisa. Além disso, o supercomputador simulou o funcionamento de neurônios e sinapses, da mesma maneira que acontece em cérebros orgânicos – trabalho muito complicado, especialmente pela grande quantidade de memória que a máquina precisou utilizar.” 

Interessante: a nanotecnologia de que dependemos para viver existe há milênios e supera em muito a nanotecnologia que o ser humano começou a usar em anos recentes; nossas mitocôndrias (verdadeiras usinas conversoras de energia miniaturizadas) são tremendamente mais eficazes que as mais modernas hidrelétricas; e eu poderia mencionar aqui inúmeros outros exemplos de sistemas irredutivelmente complexos que os pesquisadores conseguem apenas imitar – mas o aspecto irônico em tudo isso é que muitos desses pesquisadores insistem na tese de que a vida não dependeu de um Criador inteligente para trazê-la à existência. Quanta contradição![MB] 


Fraude científica e baixaria humanista

Quando estamos na frente de uma figura que consideramos carismática, as áreas do cérebro responsáveis pela vigilância e pelo ceticismo são desligadas. Essa é a conclusão de um estudo que analisou o cérebro de pessoas quando estão na presença de alguém que afirma ter poderes divinos. Pesquisadores da Universidade Aarhus, na Dinamarca, estudaram cristãos pentecostais, que acreditam que algumas pessoas possuem poderes proféticos, de cura e de sabedoria. Usando um aparelho de ressonância magnética, os cientistas analisaram os cérebros de 20 pentecostais e 20 céticos enquanto eles assistiam a cultos. Apenas os devotos tiveram mudanças nas atividades cerebrais em resposta às orações. Partes do córtex pré-frontal, que têm papel fundamental de vigilância e que conferem importância para a informação que outras pessoas nos dão, eram completamente desativadas. Quando quem estava falando não era o pastor ou outro líder religioso, a atividade cerebral dos voluntários diminuía menos.

Para os especialistas isso explica por que algumas pessoas parecem ter mais influência sobre as outras. Não está claro se isso funciona apenas para líderes religiosos, mas os cientistas acreditam que o mesmo aconteça com pessoas com ótima oratória – políticos, advogados, médicos e, até mesmo, nossos pais. (Fonte: Hypescience)

A fraude acima é clara. O estudo, na verdade, testa um fenômeno: “a reação de pessoas diante de figuras de autoridade que usem um tipo específico de retórica”. Tanto que, no último parágrafo, o texto da Hypescience reconhece isso.

O problema é que na hora de seleção das amostras sob investigação, escolheram apenas os religiosos como as pessoas a estarem diante das figuras de autoridade, e os não religiosos como as pessoas a não darem a mínima para essas figuras de autoridade. Daí compararam os dois grupos e concluíram: o cérebro do crente “desliga” na frente dessas pessoas.

Isso já é o suficiente para que matilhas neoateístas comecem a capitalizar em cima da notícia, e é mais uma amostra de como, dentro de instituições aparentemente científicas, é possível implementar instâncias da estratégia gramsciana. Qualquer evento ou ação, por menor que seja, pode ser politizada, desde que um dos lados controle o fluxo das informações.

Alguém poderá dizer que não é fraude, “pois, no final, o texto reconhece que o mesmo efeito pode ocorrer em não religiosos”. Falso. Continua sendo fraude, pois as amostras foram selecionadas para testar apenas os crentes religiosos, mesmo que os pesquisadores já tenham em mente que não é claro se o efeito funciona apenas em crentes religiosos. Quer dizer, os pesquisadores já sabiam que deveriam obter amostras variadas (e não apenas de religiosos) para não ter um estudo enviesado.

Vamos dar um exemplo da fraude. Suponha que em um estudo sobre uma característica pejorativa, o autor selecionasse apenas negros. Isso provaria que negros teriam mais essa categoria pejorativa do que brancos, certo? Errado, pois o fenômeno estudado não deveria estudar uma categoria de pessoas, mas todas as amostras que poderiam estar abarcadas pelo mesmo fenômeno. Por isso, os pesquisadores deveriam ter testado não só 20 crentes na religião tradicional, como também 20 crentes no humanismo, 20 crentes no marxismo, e aí por diante.

Quem estudou propaganda sabe que é muito fácil manipular estudos somente com o controle do fluxo de informações. E qualquer um que usa um fenômeno universal e o maquia para fazer parecer que ele só afeta uma determinada parcela da população está cometendo uma fraude.

O próprio título da matéria é sensacionalista, e foi feito para atrair os neoateus. O objetivo da pesquisa, de produzir evidências contra os religiosos (ao invés de tentar entender a mente humana), mostra que estamos diante de ciência por encomenda.
A baixaria humanista realmente não encontra limites...

domingo, agosto 04, 2013

União estável de três polemiza conceito de família

A união estável “poliafetiva” lavrada no interior de São Paulo pela tabeliã Claudia do Nascimento Domingues entre um homem e duas mulheres trouxe à tona um debate que divide juristas e a sociedade. Num momento pós-união estável homossexual, já aceita pela Justiça, até onde vai o conceito de família no Brasil? Na visão da advogada e oficial do cartório de notas da cidade de Tupã, não há lei na Constituição brasileira que impeça mais de duas pessoas de viverem como uma família e a ausência da proibição abre caminho para um precedente. A definição de “união poliafetiva” vem sendo usada por ela na tese de doutorado que desenvolve na USP. “Não sei se esse será o termo mais adequado, mas é o que escolhi para empregar em meus estudos.” Para ela, há chances de que as uniões poliafetivas tenham uma trajetória semelhante às uniões homoafetivas, entre duas pessoas do mesmo sexo, que após muitos anos de recursos e trâmites em diferentes instâncias do país foram consideradas válidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que decidiu por uma “revisão” do texto constitucional no ano passado.

“O modelo descrito na lei é de duas pessoas. Mas em nenhum lugar está dizendo que é crime constituir uma família com mais de dois. E é com isso que eu trabalho, com a legalidade. Sendo assim o documento me pareceu bastante tranquilo. Trata-se de um contrato declaratório, não estou casando ninguém”, diz Claudia.

Ela explica que, em termos oficiais, trata-se de uma “escritura pública declaratória de união estável poliafetiva”, o que, traduzindo em poucas palavras, significaria um contrato onde os três envolvidos deixam claras suas vontades e intenções como família. Cabe a empresas, prestadoras de serviços, órgãos públicos e à Justiça, em casos de ações judiciais e subsequentes recursos, decidirem se aceitam o documento ou não. [...]

Outros juristas defendem que a família só pode ser constituída por um casal, ou seja, duas pessoas, e rejeitam o conceito tanto em termos jurídicos quanto morais. Num sinal de novos tempos, no entanto, mesmo os mais conservadores tomam por base que a definição de casal hoje no Judiciário brasileiro já admite um homem e uma mulher, dois homens ou duas mulheres, acatando a decisão do STF. [...]

Muito além das minúcias jurídicas quanto à validade da escritura da união poliafetiva, o debate moral iniciado pelo caso deve criar polêmica na sociedade brasileira, questionando até onde se pode estender o conceito de família no país.

“O fato de eles viverem de tal jeito não afeta a minha vida, é a liberdade privada deles. Gostaria que fosse muito simples: você vive como quer, do jeito que quer, não afeta a vida dos outros, e ninguém tem que se intrometer. Mas a realidade no Brasil, como nós sabemos, não é essa”, diz a tabeliã de Tupã. “No Brasil ainda se pensa muito de forma individual. Se algo não é bom para mim, não é bom para ninguém. Tudo bem, eu continuo não querendo para mim, mas eles não me afetam, vivendo em três, ou em cinco. Agora me afetam, por exemplo, quando fazem de conta que têm um casamento maravilhoso, mas têm dois amantes, três amantes. Isso me afeta, fazer de conta que não sei”, complementa.


Nota: Isso é o que dá mudar o conceito bíblico de casamento: um homem com uma mulher numa relação monogâmica. Há grupos que defendem a zoofilia. O que a lei poderá dizer a respeito disso, daqui a algum tempo? E o incesto? Quando se derrubam as bases da moralidade judaico-cristã e se defende o relativismo, escancara-se a porta para todo tipo de promiscuidade. Vale tudo e os mesmos legisladores que aprovaram o “casamento” gay terão que ceder a outras distorções.[MB]

Leia também: "Casal de homossexuais vai à Justiça para obrigar igreja a realizar cerimônia de casamento gay"

Você sabe o que é cochonilla?

sexta-feira, agosto 02, 2013

“Senhor, concede-me sabedoria!”

Vivemos em um mundo complexo, profundamente marcado por problemas variados e difíceis de ser resolvidos. Desafios éticos e religiosos e demandas nas áreas política e econômica se agigantam diante de nós. Não só isso: testemunhamos também a crescente problemática no âmbito da segurança, educação e saúde. Como se não bastasse, o mundo natural, com sua crise ecológica, parece ameaçar a própria existência da humanidade e dos demais seres vivos. Um “fantasma” multifacetado paira sobre a atmosfera terrestre e, com isso, o clamor da sociedade pede uma solução daqueles que detêm o poder, os recursos, o saber e os métodos. A natureza e o volume de tais problemas confrontam as mentes mais hábeis e inteligentes, desafiando-as a agir com prontidão e conhecimento, mas, sobretudo, com sabedoria – esta última, o elemento-chave que deve estar presente na vida de toda pessoa chamada para dar sua contribuição a uma sociedade cada vez mais conturbada. Todavia, as grandes necessidades humanas são numerosas em comparação com as poucas mentes privilegiadas. Há cada vez mais carência de seres humanos sábios.

Alguém acertadamente refletiu: “Nosso mundo contemporâneo tem produzido gigantes intelectuais, mas anões em sabedoria.” Isso significa que a inteligência e o progresso tecnológico não estão sendo suficientes para enfrentarmos as crises deste planeta. É necessário o plus da sabedoria. Precisamos de pessoas diferentes, que enxerguem além das aparências e contemplem o invisível. Não que a inteligência e as habilidades técnicas sejam desprezadas, mas que as pessoas guiem-se por ações entremeadas de sabedoria. No entanto, o que é a sabedoria? Como adquiri-la? Onde encontrá-la? Na busca de respostas, não recorreremos nem a definições dicionarizadas nem a conceitos filosóficos que tornam a sabedoria uma abstração. Consultemos a Bíblia, o Livro da mais elevada sabedoria, o qual nos mostra a natureza, o valor para a vida prática e a Fonte dessa virtude. Vamos nos reportar à incrível história bíblica de Salomão, registrada no livro de 1 Reis, capítulo 3.

Com a morte de seu pai, o rei Davi, Salomão assume o trono de Israel. O novo monarca estava apreensivo e muito preocupado diante da grandiosa tarefa que lhe cabia: governar uma nação inteira marcada por conflitos internos e crises. Diante da responsabilidade enorme, sentia-se inexperiente e impotente. Foi quando, certa noite, falou-lhe Deus em sonhos, concedendo-lhe a oportunidade de fazer o pedido que desejasse. Salomão, de pronto, agarrando a chance áurea, respondeu a Deus: “Teu servo está no meio do Teu povo que elegeste, povo grande, que nem se pode contar, nem numerar, pela sua multidão. Portanto, dá ao Teu servo um coração entendido para julgar o Teu povo, para prudentemente discernir entre o bem e o mal” (1Rs 3:8, 9).

O relato continua dizendo que o pedido de Salomão pareceu bom aos olhos de Deus. Por causa disso, o Senhor lhe deu não só um coração sábio, mas até mesmo o que não havia solicitado: riquezas, fama, glória, poder e inteligência singular. Fascinante, não? Quem não gostaria de receber de Deus algo assim? É possível a história desse rei se repetir em nossa experiência? O pedido de Salomão ficou imortalizado na Bíblia por um motivo: indicar a chave que abre as portas de todos os demais tesouros do mundo. Seguindo os passos do rei, caminhemos em busca dessa mesma sabedoria que ele alcançou.

Primeiro ponto: em que constitui a sabedoria? A sabedoria que vem do alto é claramente definida na Bíblia como “primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade e sem hipocrisia” (Tg 3:17). Na história de Salomão, que pode ser a nossa, ele especifica seu pedido: “Dá a teu servo um coração entendido, [...] para prudentemente discernir entre o bem e o mal” (1Rs 3:3). Aqui se encontram, resumidamente, as características de uma pessoa sábia. Não é aquela que possui erudição destacada ou conhecimento enciclopédico, mas a que, mesmo humilde e sem ser notada, é capaz de perceber o bem e a verdade, discernindo o mal e evitando-o. No pensamento de Alister McGrath, professor de Oxford, a sabedoria está caracterizada assim: “Os autores do mundo antigo [...] faziam uma distinção que nossa era moderna parece ter esquecido – a distinção entre ‘conhecimento’ e ‘sabedoria’. Conhecimento é a acumulação de fatos; sabedoria é ser transformado com base no que é verdadeiro e realmente importante. Na linguagem da tradição clássica, a sabedoria é afetiva, isto é, ela muda quem a procura ao colocá-lo em sua órbita e sob sua influência transformadora. A sabedoria muda as pessoas. ‘O conhecimento vem, mas a sabedoria perdura’ (Tennyson).”

Não é estranho pensar que Deus Se aproxima de nós quando estamos, assim como Salomão, aflitos por uma resposta diante de um grande problema. Em nossos “sonhos”, talvez perturbados pelas preocupações, Deus pode Se apresentar e dizer: “Pede-Me o que queres que Eu te dê”, com o intuito de oferecer a dádiva mais preciosa – um coração cheio de entendimento. Assim como Ele Se revelou ao filho de Davi, deseja Se manifestar a cada pessoa. Apelando ao nosso livre-arbítrio, oferece a oportunidade de escolha. Logo, se você se sente como Salomão, um menino pequeno, que não sabe como sair nem como entrar nas mais diversas situações, aproveite a oportunidade de Deus e faça sua súplica. É Ele mesmo quem garante na Palavra: “Se algum de vós tem falta de sabedoria, peça a Deus, que a todos dá liberalmente” (Tg 1:5). Pedir, portanto, é a primeira atitude sábia.

Depois de compreender o que é a sabedoria e de solicitar a Deus esse dom, precisamos praticá-la em cada momento da vida, principalmente naqueles mais complicados, quando teremos de realizar julgamentos, proferir sentenças, fazer escolhas delicadas, decidir entre vários caminhos. Nesses instantes, o olhar sábio verá o que ninguém consegue enxergar, proporcionando saída quando aparentemente não existe solução.

Voltando ao caso de Salomão, perceba como ele conseguiu resolver uma causa bastante complexa entre duas mulheres que se diziam mãe da mesma criança (1Rs 3:16-28). Sabiamente, o monarca conseguiu penetrar na questão com discernimento e profundidade, alcançando o resultado esperado: a vitória do bem e da justiça. Que habilidade! De igual modo, onde estivermos – seja no lar, no exercício da profissão ou sob qualquer circunstância – teremos que nos defrontar com questões das quais desejaremos fugir. Nesses instantes, a sabedoria divina será bem-vinda e, de forma bastante prática, salvará a situação de um desastre ou de uma injustiça.

Foi o que ocorreu nesta brevíssima narrativa, contada por Salomão: “Houve uma pequena cidade em que havia poucos homens, e veio contra ela um grande rei, e a cercou e levantou contra ela grandes tranqueiras. Ora, vivia nela um sábio pobre, que livrou aquela cidade pela sua sabedoria. Mas ninguém se lembrou mais daquele homem. Então eu disse: Melhor é a sabedoria do que a força” (Ec 9:13-15).

Não se podem resolver os problemas, por maiores que sejam, fazendo mero uso da força ou de outros expedientes. Seja no ataque ou na defesa, nossa arma mais eficaz é a sabedoria provida por Deus. Com ela, você é apto a salvar uma “cidade inteira” dos invasores mais temíveis, trazendo salvação quando não há expectativa alguma. O sábio, embora pobre, frágil e desconhecido, não foge diante dos gigantes ameaçadores da vida. Enfrenta-os e vence-os!

Quem é sábio converte a morte em vida e o mal em bem; aponta a saída do labirinto e é a luz no meio das trevas. Pois neste mundo de loucura, quando a maioria age com insensatez, “o coração do sábio discernirá o tempo e o modo, embora o mal do homem seja grande sobre ele” (Ec 8:6). A sabedoria não se limita ao mundo teórico das ideias. Por isso, praticá-la é a segunda atitude de um sábio.

Uma certeza que precisamos pôr em mente é que a sabedoria é pessoal, está representada em um Ser divino; possui identidade. Esse Ser – não os livros, a Filosofia ou os grandes homens e mulheres do mundo – é a Fonte da sabedoria. Observe a Sabedoria Se apresentando nesta belíssima alegoria, expressa em Provérbios 8: “O Senhor Me possuía no início de Sua obra, antes de Suas obras mais antigas. Desde a eternidade fui estabelecida, desde o princípio, antes do começo da Terra. Antes de haver abismos, Eu nasci, e antes ainda de haver fontes carregadas de água. [...] Ainda Ele não tinha feito a Terra, nem as amplidões, nem sequer o princípio do pó do mundo. Quando Ele preparava os céus, aí estava Eu; quando traçava o horizonte sobre a face do abismo; quando firmava as nuvens de cima; quando estabelecia as fontes do abismo; quando fixava ao mar o seu limite, para que as águas não traspassassem os seus limites; quando compunha os fundamentos da Terra; então Eu estava com Ele e era Seu Arquiteto.”

Essa passagem se refere a Jesus, o Verbo por meio do Qual todas as coisas foram criadas, o Logos de Deus. Acerca dEle é dito o seguinte: “O mundo tem tido seus grandes ensinadores, homens de poderoso intelecto e vasto poder investigativo, homens cujas palavras têm estimulado o pensamento e revelado extensos campos ao saber; tais homens têm sido honrados como guias e benfeitores do gênero humano; há, porém, Alguém que Se acha acima deles. Podemos delinear a série dos ensinadores do mundo, no passado, até ao ponto a que atingem os registros da História; a luz, porém, existiu antes deles. [...] Cada raio de pensamento, cada lampejo do intelecto, procede da Luz do mundo.” Estando no princípio de todas as coisas, criando o mundo e estendendo os céus, o Deus-sabedoria quer estar também presente no princípio de nossa vida para construir em nós um mundo belo, harmonioso, cujos fundamentos jamais sejam abalados. Daí Salomão recomendar: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Pv 9:10).

Diferentemente dos gregos, que a mantinham bem distanciada da humanidade, quase inatingível – algo muito abstrato –, a Sabedoria do pensamento hebraico, embora altíssima e grandiosa, procura manter conosco um relacionamento. Deseja ser conhecida de perto por todos nós. Assim como Ela foi pessoalmente a Salomão em sonhos, procura-nos onde estamos: “Não clama, porventura, a Sabedoria, e o Entendimento não faz ouvir a Sua voz? No cimo das alturas, junto ao caminho, nas encruzilhadas das veredas Ela Se coloca; junto às portas, à entrada da cidade, à entrada das portas está gritando: A vós outros, ó homens, clamo; e a Minha voz se dirige aos filhos dos homens.” Este Ser que nos chama é o próprio Deus.

Durante a fase da vida em que Salomão manteve comunhão com Deus, tornou-se afamado e reconhecido como um homem extremamente sábio. Afastando-se, porém, perdeu o discernimento espiritual e moral. Transformou-se num insensato, despertando bem mais tarde de sua loucura.

Não invertamos as nossas necessidades pedindo primeiramente riquezas, glória, poder e honra. Quem age dessa maneira jamais será uma pessoa sábia. Retomando a recomendação do próprio Salomão, não devemos jamais nos esquecer de que “o temor do Senhor é o princípio da sabedoria”. Logo, permitir que Deus ocupe o primeiro lugar em nossa vida, relacionando-nos com Ele, é a terceira atitude sábia.

“Deus dá sabedoria, conhecimento e prazer ao homem que Lhe agrada” (Ec 2:26). Em outras palavras, o Senhor deseja nos alimentar diariamente com sabedoria, provendo-nos a refeição que nos susterá em um mundo carente de valores, de amor, de justiça e de paz. Deus tenciona suprir nossa mente com pensamentos elevados e transformadores. Este é o banquete da sabedoria que já está preparado para aquele que pedir e for em busca de Sua morada, nas alturas: “A Sabedoria edificou a Sua casa, lavrou as Suas sete colunas, sacrificou os Seus animais, misturou o Seu vinho e arrumou a Sua mesa. Já deu ordens às Suas criadas e, assim, convida desde as alturas da cidade: Quem é simples, volte-se para aqui. Aos faltos de senso diz: Vinde, comei do Meu pão e bebei do vinho que misturei. Deixai os insensatos e vivei; andai pelo caminho do entendimento.”

Viver inteligentemente é alimentar-se de sabedoria. Se assim procedermos nesta breve existência, a sabedoria será para nós sombra sob o sol causticante (Ec 7:12), brilho na escuridão mental (Ec 8:1), felicidade na tristeza (Pv 3:13) e esperança de vida (Ec 7:12; Pv 8:35).

Ao pedir sabedoria a Deus, talvez Ele não lhe dê a riqueza, glória e o poder concedidos a Salomão. Contudo, a promessa para quem se comportar e pensar sabiamente é um lauto banquete no futuro, bem mais abundante do que aquele que é servido aqui. Por enquanto, peçamos a entrada, pois o prato principal está reservado para a hora certa. Não nos esqueçamos de que o melhor de um homem sábio sempre vem depois.

Se você encontrou a sabedoria, achou um tesouro. Se ainda não, se sente falta dela, faça da oração de Salomão a sua prece: “Senhor, concede-me sabedoria!”

(Frank de Souza Mangabeira é membro da Igreja Adventista do Bairro Siqueira Campos, Aracaju, SE; servidor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Sergipe)

quinta-feira, agosto 01, 2013

Os papas, os pobres e a perda de hegemonia católica

O Brasil tem passado por uma mudança na composição da religiosidade de sua população e a vinda dos papas ao país não interrompeu esse processo, ao contrário, tem acelerado. João Paulo II, com apenas dois anos de pontificado, foi o primeiro papa que pisou no território brasileiro. Ele chegou em 30 de junho de 1980 e realizou o gesto célebre de ajoelhar-se e beijar o chão, saudando a terra do maior país tropical do mundo. Ele levou uma multidão de cerca de cinco milhões de católicos e não católicos às ruas e mexeu com o Brasil. Em 1980, os católicos representavam 89% da população nacional. A segunda visita do papa João Paulo II ao Brasil – no auge da sua fama e logo após o fim da União Soviética e a queda do Muro de Berlim – foi entre 12 e 21 de outubro de 1991, sendo recebido em Brasília pelo então presidente Fernando Collor de Mello, visitou a Irmã Dulce, em Salvador, percorreu dez capitais e fez 31 pronunciamentos, também beatificou Madre Paulina. Em 1991, os católicos representavam 83% da população nacional.

A terceira visita do papa João Paulo II ao Brasil foi entre 2 e 6 de outubro de 1997, quando foi recebido pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Nessa visita o papa participou do II Encontro Mundial com as Famílias, realizado na cidade do Rio de Janeiro, ficando por quatro dias na cidade. Naquele ano, os católicos representavam cerca de 74% da população nacional.

Pesquisa divulgada em 21 de julho de 2013 pelo Instituto Datafolha mostra que, quando o papa Bento XVI veio ao Brasil, em 2007, os católicos representavam cerca de 64% da população e agora, na visita do papa Francisco, os católicos representam apenas 57% da população nacional.

Ou seja, embora o Brasil nunca tenha presenciado tantas vindas papais na história, o percentual de católicos tem diminuído na impressionante cifra de 1% ao ano. Será que o papa Francisco, com sua pregação de aproximação com os mais pobres, vai mudar essa realidade? Certamente, o papa Francisco tem carisma e em sua visita ao Brasil evitou os temas polêmicos da Igreja e passou uma mensagem de esperança e de defesa das comunidades pobres. Ele fez discurso contra a corrupção e disse: “Nunca desanimem, não percam a confiança.”

Mas será que a Igreja Católica no Brasil vai encontrar forças para virar o jogo? Os dados da pesquisa Datafolha lançam alguma luz sobre a participação dos entrevistados nas igrejas.

Entre os católicos, 28% costumam ir à missa uma vez por semana e 17% costumam ir à missa e outros serviços religiosos mais de uma vez por semana. 21% dizem ir à igreja uma vez por mês e 7% assumem que não a frequentam. Os números também apontam que 34% deles têm o hábito de contribuir financeiramente com a Igreja, com um valor médio mensal de R$ 23.

Porém, entre os evangélicos pentecostais (que em média são mais pobres do que os católicos), 63% vão à igreja mais de uma vez por semana, 52% contribuem financeiramente, e o valor médio é de R$ 69,10 mensais. Entre os evangélicos não pentecostais, 51% vão à igreja mais de uma vez por semana, 49% contribuem financeiramente, e o valor médio é de R$ 85,90 mensais.

Segundo o censo demográfico 2010, do IBGE, havia 123 milhões de católicos e 42 milhões de evangélicos no país. Aplicando as percentagens mostradas na pesquisa Datafolha chega-se ao número de 34,5 milhões de católicos que frequentam a missa uma vez por semana e 26,6 milhões de evangélicos que participam dos cultos com a mesma frequência. Mas como a contribuição financeira média é maior entre os segundos, pode-se concluir que, entre os fiéis mais presentes nas missas/cultos, as igrejas evangélicas arrecadam mais que o dobro do montante de dinheiro em relação à Igreja Católica.

Além de contribuir menos financeiramente com a igreja, os católicos também são os menos sujeitos a seguir as orientações políticas dadas por sua igreja, segundo o Datafolha. Apenas 5% dos entrevistados que se disseram católicos afirmaram ter votado em um candidato recomendado pela Igreja, e 11% consideram importante a opinião dos religiosos durante a campanha.

Todavia, entre os evangélicos pentecostais, os números sobem para 18% e 21%, respectivamente. Entre os evangélicos não pentecostais, 14% votaram em candidato recomendado e o mesmo número considera a opinião dos religiosos importante.

Dessa forma, a pesquisa Datafolha mostra que o processo de mudança de hegemonia religiosa continua em ritmo acelerado e os católicos podem perder a posição de maioria absoluta da população em um prazo mais curto do que o previsto anteriormente. Os pentecostais são mais ativos no processo de evangelização e no uso das mídias na conquista dos fiéis. Eles crescem entre os pobres e com o dízimo dos pobres.

Em entrevista ao portal IG, em 26 de julho, Frei David disse: “O carreirismo é uma doença que contagiou muito a Igreja Católica do Brasil. Os novos padres não revelam garra para servir aos pobres. Há exceções, graças a Deus. Ao serem ordenados, querem paróquias ricas, nas quais entra muito dinheiro. Querem carro do ano, reformar sua casa paroquial, comprar os últimos equipamentos eletrônicos. Querem ocupar cargos e sonham em ser bispos. Há uma perigosa perda de foco.”

Os evangélicos, por outro lado, engrossam suas fileiras por quatro motivos: (a) porque estão mais bem posicionados nos grupos demográficos mais dinâmicos da sociedade brasileira; (b) porque promovem a migração inter-religiosa, atraindo fiéis das hostes católicas; (c) formam pastores em tempo mais curto e que estão mais presentes junto às comunidades em geral, especialmente as pobres; e (d) customizam o discurso evangélico para as diversas camadas da população, para os diversos estabelecimentos do comércio da fé e para os inúmeros segmentos do mercado religioso.

Na última década, houve perda, não só relativa, mas também absoluta de católicos. Não existem dados longitudinais, mas tudo indica que a migração tenha se dado tanto entre os católicos praticantes quanto entre não praticantes, mas não necessariamente na mesma proporção. Há inclusive diversos exemplos de padres católicos que viraram crentes, como o do pastor Nivaldo Lisboa Soares, da Assembleia de Deus.

Segundo Hélio Schwartsman, da Folha de S. Paulo: “A pesquisa Datafolha feita às vésperas da chegada do papa ao Brasil mostra que os católicos estão se tornando menos numerosos, menos fiéis (vão pouco a missas) e menos obedientes (são tolerantes para com temas que o Vaticano considera tabu).”

As maiores perdas dos católicos acontecem entre as mulheres e os jovens. O Rio de Janeiro é a Unidade da Federação com menor percentual de católicos e o maior percentual de pessoas que se declaram sem religião. Nesse sentido, a realização da Jornada Mundial da Juventude e a presença do papa Francisco constitui uma tentativa de estancar a perda de fiéis. Mas, enquanto os católicos tentam se aproximar dos pobres, setores dos evangélicos reforçam o discurso da teologia da prosperidade, que, sem juízo de valor, tem, na prática, prevalecido tanto sobre os princípios da teologia da libertação quanto em relação às pregações dos carismáticos.

Segundo o professor Reginaldo Prandi (2013), do departamento de sociologia da USP, os evangélicos estão na trilha de se tornar a força religiosa dominante no país: “Depois de trocar o discurso do desapego material pela apologia do consumo, o pentecostalismo brasileiro se vê instado a afrouxar sua moral conservadora para conquistar segmentos mais abastados e escolarizados.”

Parece que a maioria das igrejas pentecostais se adaptou melhor às mudanças na sociedade capitalista que abandonou o ascetismo do trabalhador produtivo (tipo calvinista) para o capitalismo keynesiano com centralidade no consumo. A teologia da prosperidade tem sido a ponte para o mundanismo reformado.

Segundo Prandi: “A nova teologia promete que se pode contar com Deus para realizar qualquer sonho de consumo. Em suma, já não se consegue, como antes, distinguir um pentecostal na multidão por suas roupas, cabelo e postura. Tudo foi ajustado a novas condições de vida num país cujo governo se gaba do (duvidoso) surgimento de certa ‘nova classe média’.”

Na nova conjuntura econômica e política do país e em uma sociedade cada vez mais secularizada, dificilmente o papa Francisco, mesmo com sua tentativa de se aproximar dos pobres, terá muito êxito em conseguir mudar o rumo das transformações religiosas, inclusive o crescimento da parcela que se declara sem religião. Entre os próprios evangélicos cresce a percentagem daqueles não praticantes.

Dessa forma, as diversas religiões vão se adaptando às exigências da cultura secular. Por exemplo, mesmo o papa conclamando os jovens a irem para as ruas, os participantes da JMJ tiveram que conviver com o “beijaço gay”, com o protesto das feministas do movimento autodenominado “Vadias” e das diversas manifestações reafirmando a laicidade do Estado, pedindo a descriminalização do aborto, criticando os altos custos envolvidos na vinda do papa, etc. As religiões hoje em dia, nas sociedades democráticas, são obrigadas a conviver com manifestações pagãs e com críticas às práticas religiosas.

Mas a ideia de “desencantamento do mundo”, de Max Weber, avançou conjuntamente com o encantamento pelo consumo no capitalismo pós-moderno. A pluralidade religiosa pode ser uma boa novidade em um país que passou quase 500 anos com monopólio de uma única fé. Mas o crescimento de algumas denominações religiosas pode ser apenas fenômeno temporário da atual conjuntura da sociedade brasileira. Como disse Alves (2012), “o crescimento das correntes evangélicas pentecostais no país tem sido compatível com o fato de que o sagrado está cada vez mais comercializado e dessacralizado. É o Brasil cada vez mais desencantado”.

(José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; EcoDebate)

Referências:
PRANDI, Reginaldo. “A conversão do pentecostalismo”, Folha de S. Paulo, 21/7/2013
ALVES, JED. “A vitória da teologia da prosperidade”, Folha de S. Paulo, 06/7/2012
SCHWARTSMAN, Hélio. “Uma era secular”, Folha de S. Paulo, 26/7/2013

Nota: Parece que o panorama religioso em nosso país não é muito promissor. Com a superação da Teologia da Libertação e sua mensagem de cunho fortemente político (que deixou hostes de órfãos secularizados ou mesmo sem fé), focada nos pobres e nas lutas sociais, eis que desponta fortemente uma teologia ainda mais perniciosa: a da prosperidade. O coração não convertido é terreno fértil para a ganância. Enquanto os padres da Liberdade pregavam a revolução social com cores marxistas, os pastores da Prosperidade enfatizam o ganho pessoal e o enriquecimento; pregam o reino de Deus na Terra e parecem se esquecer do que Jesus disse: que Seu reino não é deste mundo. Sai de cena a teologia focada na comunidade (lembra-se das CEBs?) e entra no palco a teologia individualista, da barganha com Deus e da alienação. São dois extremos que acabam passando longe do verdadeiro evangelho.

É verdade que Cristo deu atenção especial aos desfavorecidos, pois é da natureza de Deus amar os que sofrem. Mas Ele jamais escorou Sua mensagem na subversão social, na luta contra o império e as injustiças políticas. O cristianismo acabou, sim, abalando o mundo, mas com a “arma” do amor, da pregação pacifista. Foi a revolução da conversão, cujo poder é inigualável. Foi a pregação do reino vindouro que sacudiu as bases dos reinos humanos.

Jesus também não pregou sobre a prosperidade financeira como se ela fosse consequência natural da aceitação de Seu reino. Na verdade, todos os discípulos dEle foram desprovidos dos bens que este mundo tanto valoriza e tiveram uma vida de privações e perseguições. A prosperidade financeira passou longe desses homens, mas o nome deles está gravado nos muros preciosos da Nova Jerusalém.


Não creio que o papa Francisco (nem mesmo ele) e os pastores evangélicos conseguirão reverter o quadro que tanto assusta os cristãos pensantes e verdadeiramente preocupados com a evangelização do mundo calcada nas páginas das Escrituras. A moral cristã se afrouxa; “a teologia da prosperidade tem sido a ponte para o mundanismo reformado”; a religião institucional dá lugar a uma religiosidade descompromissada; dogmas pagãos e pluralismo religioso com sabor pós-moderno substituem as verdades bíblicas.

Mas tudo isso não nos deve assustar (embora entristeça), pois Jesus mesmo advertiu: “Quando o Filho do homem vier, encontrará fé na terra?” (Lc 18:8). A fé verdadeira será cada vez mais artigo raro. Cristãos de verdade se contarão nos dedos. Mas a esperança permanece: Ele virá![MB]

Os cinco pilares da nova reforma católica

Na exortação apostólica Evangelii Nuntiandi, escrita pelo papa Paulo VI, em 1975, e direcionada ao episcopado, ao clero e aos fieis de toda a Igreja, há uma chamada à reação: “Façam chegar ao homem a mensagem cristã por todos os meios que estejam ao seu alcance.” Escrita um ano após a Renovação Católica Carismática (RCC) ter passado por mudanças estruturais e de nomenclatura (os carismáticos eram conhecidos como “católicos pentecostais”), a Evangelii Nuntiandi surge em reação a uma crise institucional que começava a se fazer sentir na Igreja. No documento, os meios de comunicação e a religiosidade popular são citados como elementos a serem trabalhados, em uma estratégia de difusão do catolicismo em áreas de domínio protestante, ortodoxo, islâmico e, ao mesmo tempo, de consolidação das áreas de influência do Vaticano, a exemplo da América Latina, regiões dispersas na África e na Ásia, nas Filipinas.

Evangelii Nuntiandi surge em decorrência do Concílio Vaticano II (1962-1965), em uma reafirmação da necessidade de uma liturgia mais participativa e da ampliação do diálogo ecumênico. Com a exortação apostólica, o papa Paulo VI também chama a atenção para a responsabilidade do trabalho evangelístico-missionário. Três anos depois, a eleição de Karol Wojtyla deu início a uma nova fase na história da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR). Pela primeira vez, em 460 anos, um papa não italiano assumia o domínio mundial da ICAR. Uma vez no Poder, Wojtyla passou a colocar em prática aspetos do Vaticano II e da Evangelii Nuntiandi. Por trás de sua eleição também havia uma manobra política e estratégica: é estabelecido um contrapeso ao domínio exercido pela União Soviética na Europa Oriental e da influência desta em alguns setores da Igreja, que, na América Latina, deu origem à Teologia da Libertação (TL). O ateísmo soviético e o temor de que a Igreja Ortodoxa encontrasse espaço no regime para expandir seu domínio, pesou na escolha do polonês Karol Wojtyla.

Posteriormente, com a dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), João Paulo II abriu caminho para a implantação de novas dioceses em territórios de maioria ortodoxa, levando a uma reprimenda por parte do Santo Sínodo da Igreja Ortodoxa Russa (IOR). Em um comunicado publicado em julho de 2002, a IOR comentou a decisão do papa João Paulo II, de criar a diocese de Odessa e Simferopol, para cobertura da região sul da Ucrânia. “A Igreja Ortodoxa Russa, respeitando a necessidade dos católicos ucranianos de acompanhamento pelos seus pastores, não se manifestou contra a criação de dioceses por Roma em regiões por eles historicamente habitadas. Porém, as cátedras episcopais recentemente criadas surgem em regiões onde o número de católicos é bastante insignificante [...] Isso são provas da intenção firme do Vaticano de seguir a política de expansão missionária, inaceitável para os ortodoxos.”

O desdobramento da eleição de Wojtyla serve-nos de exemplo de como o Vaticano se articula no sentido de ampliar sua presença (e influência) em locais estratégicos. Há uma orientação política que passa pela escolha de um novo pontífice, até a beatificação e canonização de “santos”. Cada passo da Igreja é cuidadosamente estudado e tem como base dados estatísticos, influências ou adversidades locais que podem colocar em risco seus interesses. Se a eleição de Wojtyla serviu como uma espécie de contenção da URSS e da influência ortodoxa na Europa Oriental, a escolha do atual papa Francisco também foi baseada em interesses locais, estratégicos. Com a diminuição de católicos na Europa e Estados Unidos, e, mesmo com o crescimento da igreja evangélica na América do Sul (como no Brasil), a Santa Sé optou por fortalecer sua zona de influência na América Latina, a partir de um papa conservador em alguns aspectos, mas liberal em outros, como na defesa de um ministério simples, sem luxúria, na ampliação do diálogo ecumênico e na abertura da Igreja para os pobres e sofredores.

A vinda do papa Francisco ao Brasil (a primeira viagem internacional do novo pontífice) também ocorre com base em uma estratégia romana de fortalecimento de sua área de influência na América Latina, para usá-la como ponta de lança para a remodelação mundial da Igreja. O crescimento do movimento evangélico brasileiro é um dos motivos, mas não o único. A porção latina do continente americano ainda é a parte mais dinâmica do mundo para o Catolicismo Romano, respondendo por 40% do número total de católicos existentes no mundo, contra os 10% de protestantes (2/3 dos quais de orientação pentecostal). A origem latina de Francisco e sua primeira viagem ao Brasil passam uma clara mensagem de que a Igreja pretende se consolidar na região, com o intuito de lançar um projeto de fortalecimento global, universal. De forma semelhante, João Paulo II iniciou sua caminhada internacional a partir da República Dominicana e do México, em um período em que a TL surgia como uma ameaça à influência da Igreja, tendo Leonardo Boff com um dos expoentes – João Paulo II considerava a TL uma aliada do comunismo, segundo destacou a agência de notícias Reuters, em 2005.

Foi a partir do papa João Paulo II, pois, que a Igreja colocou em prática cinco principais estratégias com o objetivo de se fortalecer e conter o crescimento de outros grupos religiosos considerados (internamente) ameaças a sua hegemonia, as quais são: fortalecer a presença da ICAR entre os jovens, levando, assim, ao despertamento de novas lideranças eclesiásticas; fortalecer e ampliar o ecumenismo com o intuito de absorção do protestantismo; fortalecer e ampliar a presença da ICAR em meios de comunicação de massa; beatificar e canonizar novos santos como representantes identificadores de seus países; e desenvolver uma linguagem semelhante à usada por igrejas evangélicas, tornando sua mensagem (e liturgia) mais atraente e participativa. Com o papa Francisco, as estratégias da ICAR alcançam novos patamares de conquistas.

Jornada Mundial da Juventude

Organizada em 1984, pelo papa João Paulo II, a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) foi criada com vistas a envolver a juventude nas atividades da Igreja, uma vez que esta possuía um aspecto arcaico, ultrapassado, resumido a um grupo de fieis da terceira idade. Atualmente, com o déficit de padres no Brasil e no mundo, a JMJ também funciona como um chamariz para a atração de novos seminaristas. O interesse pela América Latina também é uma constante na JMJ, uma vez que a segunda edição foi realizada em Buenos Aires, Argentina, três anos depois de seu lançamento, em Roma.

Ecumenismo

Começando pelo papa João XXIII que, em 1961, convocou o Concílio Vaticano II, o Ecumenismo passou a ser uma ambição e estratégia da Santa Sé, que teve maior repercussão com João Paulo II, Bento XVI e, hoje, com Francisco. A canonização de João XXIII e João Paulo II revela o interesse da Igreja de absorção do protestantismo e de outros grupos católicos cismáticos a partir do ecumenismo. No Brasil, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CNIC), fundado em 1984, em Porto Alegre, e que é composto pela Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil, Episcopal Anglicana e Metodista, representa parte do esforço da ICAR na absorção, ou, pelo menos, no tornar os protestantes simpáticos à Igreja Católica.

Meios de comunicação

A exortação apostólica Evangelii Nuntiandi foi um marco no sentido de que expôs o interesse da Cúria Romana no engajamento da liderança nos meios de comunicação. Embora ainda não usados pelas igrejas neopentecostais brasileiras, os meios de comunicação passariam a ser uma de suas principais bases de atração de novos fieis, tendo a Igreja Universal do Reino de Deus e Internacional da Graça de Deus como as primeiras a recorrer aos recursos audiovisuais. É somente a partir da década de 1980 que a ICAR também passaria a investir nos recursos, começando pela Canção Nova. Em 1994 é fundada a Rede Católica de Rádio (RCR), uma associação de emissoras vinculadas a organismos da Igreja. Atualmente a ICAR conta com 97 rádios, três geradoras e 13 tevês.

Canonização

Não somente a escolha de novos pontífices, mas também a beatificação e a canonização de santos segue uma orientação política. O vaticanista Ettore Masina exemplifica: “Quando o papa vai visitar um país onde nunca esteve, ou que ainda não tem um santo, a congregação agiliza o processo de um nome local”. Um dos casos mais escandalosos foi a “canonização extremamente rápida do fundador do Opus Dei, José Maria Escrivá de Balaquer, que morreu em 1975, foi beatificado em 1991 e canonizado onze anos depois, por João Paulo II”, lembra Ettore. O aumento do número de beatificações e canonizações feitas a partir de 1978 também é motivo de críticas – em apenas 26 anos de pontificado, João Paulo II beatificou 1.345 religiosos e reconheceu 483 santos, contra os 296 santos e 808 beatos levados à condição nos últimos 390 anos, a contar de 1588 quando foi criada a Congregação da Causa dos Santos (CCS), antes chamada de Ritos, e que é responsável pelo processo de identificação e reconhecimento.

Linguagem

Apoiada na Renovação Católica Carismática, a ICAR passou a utilizar uma linguagem mais próxima à utilizada por igrejas evangélicas, dando ênfase a orações, a evangelismos, ao Evangelho. A vinda do papa Francisco ao Brasil é apresentada como uma viagem “missionária”, um meio pelo o qual a Igreja se propõe a alcançar antigos e novos seguidores, fortalecer fracos e oprimidos. A liturgia também deve seguir a mesma orientação, ou seja, participativa, despojada, envolvente, alegre. A juventude é um dos principais alvos da nova campanha católica, além de tornar a absorção do protestantismo mais eficiente e rápida, via assimilação. A adaptação religiosa é um processo irreversível, mesmo que mantida a característica original da Igreja Católica.

(Johnny Bernardo, Napec)

Nota: A escolha de um jesuíta com ares de franciscano também faz parte da estratégia, uma vez que, de acordo com sua ordem, Bergoglio deve defender de forma tenaz e intransigente os interesses expansionistas da igreja que representa; e, seguindo o exemplo de quem tomou emprestado o nome (Francisco), ele se apresentará (como tem feito) como a nova cara da Igreja, a “encarnação” da bondade e da simplicidade que cativam.[MB]

Incêndio destrói residência, mas Bíblia fica quase intacta

Um incêndio destruiu uma residência na manhã desta segunda-feira (29) em Lebon Régis. Os Bombeiros Voluntários atenderam a ocorrência no bairro Núcleo do Rio Doce, mas, quando chegaram ao local, pouco podia ser feito. “Infelizmente, a casa já estava totalmente incendiada, apagamos as chamas e fizemos o rescaldo. Em meio às brasas e muito entulho queimado, encontramos uma Bíblia do Novo Testamento que mal teve chamuscadas a capa e as folhas”, explicou o bombeiro Flávio Machado. “Impressionante: a casa foi destruída pelo fogo, mas a Bíblia ficou intacta”, completou, dizendo estar impressionado com a situação.



Nota: Foi exatamente a leitura de uma Bíblia dessas que mudou a vida da minha esposa (confira aqui).