terça-feira, outubro 22, 2013

Autor de ficção fala de criacionismo mas escreve conto

Macroevolução é ficção
Está em andamento, aqui no Brasil, mais uma tentativa de dar um verniz de respeitabilidade científica ao velho criacionismo, a ideia de que os seres vivos da Terra não evoluíram de forma natural, mas foram magicamente criados pelo Deus judaico-cristão-islâmico. Nas redes sociais, volta e meia pipocam convites para eventos, em escolas e universidades, com palestrantes comprometidos com a tese. Para evitar confronto direto, no caso de instituições públicas, com as leis que proíbem o uso de recursos do Estado para a promoção de ideias religiosas – e, também, para mais facilmente seduzir os incautos – os organizadores costumam evitar menções explícitas ao criacionismo, a Deus ou à religião em seu material de divulgação, mas as entrelinhas sempre revelam o verdadeiro objetivo: promover o ideário criacionista como uma “alternativa científica” à Teoria da Evolução.

Em termos espirituais, é claro que cada um é livre para crer no que quiser. Mas quando ideias religiosas tentam se passar por ciência, um pouco de ceticismo vem a calhar. Em ciência, uma “teoria” é um conjunto articulado de explicações bem testadas que dá conta de uma ampla série de fenômenos. Por exemplo, a Teoria da Relatividade Geral explica coisas como o movimento dos planetas em torno do Sol e a expansão do universo.

No parágrafo acima, é importante dar ênfase especial à expressão “bem testadas”: toda teoria nasce como hipótese – uma proposta de explicação para algum fato conhecido – e se consolida à medida que permite entender coisas que, para as hipóteses concorrentes, são mistérios; e também à medida que faz previsões que se confirmam.

A Evolução das Espécies é um caso clássico de teoria bem consolidada: ela não só dá conta dos fatos tal como eram conhecidos no tempo de seus autores, Darwin e Wallace – por exemplo, a adaptação das espécies a seus ambientes – como ainda permitiu entender fenômenos sem explicação clara naquela época, como extinções. E previu, certeira, não só que a Terra deveria ser muito mais velha do que se imaginava no século 19, como também que todos os seres vivos têm um ancestral comum, algo magistralmente confirmado mais de cem anos depois, graças aos avanços da biologia molecular no século 20.

Em comparação, o criacionismo, quaisquer que sejam seus méritos como doutrina religiosa, funciona muito mal como hipótese científica: ou ele não prevê nada (afinal, supõe-se que Deus pode fazer o que quiser do jeito que quiser, enquanto que a ciência, para prever, pressupõe causas naturais amarradas por leis e limitações) ou só faz previsões fracassadas (como a de que a Terra teria surgido há poucos milhares de anos).

A vacuidade científica da tese criacionista leva seus cultores a atacar a evolução. É uma manobra típica de quem, sabendo que não tem nada a oferecer, tenta dar a impressão de que o adversário também é vazio, estabelecendo, assim, uma falsa equivalência.

Mas a evolução não é uma hipótese vazia: é uma teoria bem consolidada, que sobreviveu a inúmeros testes e que, se estivesse errada, teria sido desmentida, nos últimos 150 anos, pela geologia, pelo registro fóssil, pela biologia molecular. Só que não foi.

(Carlos Orsi, Galileu)

Nota: Carlos Orsi é conhecido entre os leitores de ficção científica (lembro-me dele dos tempos da Isaac Asimov Magazine) e contos de terror. Os anos se passaram e, pelo jeito, ele continua ligado à ficção – o texto acima parece exatamente isto: uma peça de ficção científica. É impressionante como, em tão poucos parágrafos, ele consegue escrever tantas impropriedades e reforçar estereótipos repetidos ad nauseam pelos evolucionistas mal informados. Vamos por partes:

1. Dizer que o Universo e a vida teriam surgido de forma “natural” (informação a partir do nada, vida da não vida, matéria da ausência de matéria, etc.) não equivale a dizer que tudo surgiu de forma “mágica”? Sinceramente, não vejo diferença.

2. Orsi pinta um quadro sombrio (ao estilo “terror”) dos criacionistas, como “agentes obscuros” defensores de ideias medievais e que procuram se infiltrar aqui e ali para disseminar suas crendices e fazer discípulos. Sinceramente, não me vejo dessa maneira (será que sou tão míope a ponto de não perceber?). Orsi caricaturiza os criacionistas e, mesmo que um ou outro por aí seja meio “doido” (e “doidos” há em todos os lugares, sob todas as “bandeiras”), ele erra ao tomar o todo pela parte. Os criacionistas que eu conheço e com os quais convivo são amantes da ciência, do conhecimento e da verdade. Tudo o que querem é ser respeitados, não a despeito de suas crenças, mas exatamente porque creem de forma racional e razoável, e essa sua subjetividade não os impede de fazer boa ciência, muito pelo contrário, os motiva – como aconteceu com os “pais da ciência” Newton, Galileu, Copérnico e outros.

3. Os criacionistas não estão preocupados em “promover o ideário criacionista como uma ‘alternativa científica’ à Teoria da Evolução”. Isso não existe. Já disse aqui e repito: a Sociedade Criacionista Brasileira não defende que se ensine criacionismo nas escolas públicas. Por quê? Porque dificilmente se poderiam conseguir professores capacitados a expor devidamente (e equilibradamente) as ideias dos dois modelos, e porque o criacionismo é um modelo científico-teológico (se posso dizer assim), portanto, não adequado para ser ensinado em escolas laicas. O que se deseja é que o evolucionismo seja ensinado de forma crítica e não como uma verdade incontestável, como vem sendo apresentado a alunos incapazes ainda de enxergar a realidade por si mesmos.

4. Orsi diz que, “quando ideias religiosas tentam se passar por ciência, um pouco de ceticismo vem a calhar”. Um pouco de ceticismo sempre vem a calhar, até mesmo – e principalmente – quando alguém tenta dizer que uma coisa é de um jeito que não é. Não conheço nenhum criacionista bem esclarecido que confunda ciência com “ideias religiosas”. Conheço, sim, muitos evolucionistas – como Orsi – que confundem ciência com cientificismo e com naturalismo filosófico. É com esse tipo de confusão que surgem as “peças de ficção científica”. O naturalismo é uma cosmovisão que não pode ser submetida ao método científico, no entanto, os evolucionistas (especialmente os ateus) a priori a abraçam avidamente como se fosse a única “explicação” possível para a origem de tudo.

5. O ficcionista explica que teoria “é um conjunto articulado de explicações bem testadas que dá conta de uma ampla série de fenômenos”, e então menciona a Teoria da Relatividade Geral (curiosamente, ele não mencionou a gravidade, como é mais comum), que explica coisas como o movimento dos planetas em torno do Sol. Ok, mas o que isso tem a ver com o conceito de macroevolução? O movimento dos planetas nós podemos observar todos os dias, in loco (pois moramos no sistema solar), mas e a origem da vida? E o processo de “transformação” de uma barbatana em pata ou do surgimento de novos órgãos complexos, cujo processo nem consta no registro fóssil? Comparar a Relatividade Geral e a gravidade com a macroevolução é um absurdo total; é mais “forçação de barra” do que muitas ficções por aí.

6. Num único parágrafo, Orsi transita de um conceito a outro, numa confusão típica entre evolucionistas (por má intenção ou desconhecimento?). Ele diz que “a Evolução das Espécies é um caso clássico de teoria bem consolidada”, depois menciona “a adaptação das espécies a seus ambientes” e o “fato” de “que todos os seres vivos têm um ancestral comum”. É mais uma evidência de que o termo “evolução” pode ser usado a torto e a direito, dependendo do interesse de seu usuário. Quando fala em “evolução das espécies”, Orsi não esclarece a que está se referindo. Depois ele muda o discurso para tratar especificamente da diversificação de baixo nível (chamada por alguns de “microevolução”), sim, porque “adaptação das espécies a seus ambientes” se trata exatamente disso. E todo mundo sabe (ou deveria saber, se os evolucionistas deixassem) que adaptações (assim como mutações) não “criam” informação necessária para que houvesse o surgimento de novos planos corporais e/ou órgãos complexos. Adaptações são apenas isto: adaptações. Em seguida, o ficcionista muda de novo o discurso para transformar a palavra “evolução” em macroevolução, ao dizer que “todos os seres vivos têm um ancestral comum”. Cadê as provas disso? Aliás, novas pesquisas parecem mostrar que a realidade é bem outra (confira).

7. Ao contrário do que Orsi quer, “os avanços da biologia molecular no século 20” têm é mostrado que a ideia de complexidade irredutível de Behe é fato, e que se Darwin dispusesse dos equipamentos (como o microscópio) e dos conhecimentos de hoje, talvez a história de sua teoria fosse outra.

8. Orsi diz que o criacionismo ou não prevê nada ou só faz previsões fracassadas. Falso. Os criacionistas previram que o registro fóssil apresentaria lacunas e não transições graduais às milhares. Confirmado. Previram que os organismos do passado seriam maiores, mais fortes e complexos que seus descendentes. Confirmado. Previram que quanto mais a ciência avançasse, mais se perceberia que a complexidade da vida aponta para um design inteligente. Confirmado (a menos que se neguem os fatos). Previram que seriam encontradas evidências de uma grande catástrofe hídrica que extinguiu quase que completamente as formas de vida do mundo de então (incluindo aí os dinossauros). Confirmado. Etc. Etc.

9. Muito mais poderia ser dito sobre esse “conto” de Orsi, mas concluo com esta pérola dele: “A vacuidade científica da tese criacionista leva seus cultores a atacar a evolução.” Negativo. O que leva a maioria dos criacionistas (pelo menos os que eu conheço) a “atacar” a evolução é a doutrinação materialista que procura forçar os estudantes a aceitar um pacote ideológico (filosófico) como se fosse ciência empírica. O que leva os criacionistas a “atacar” a evolução é o desejo de que se compreenda o que é ciência e o que é naturalismo filosófico; que se perceba que há um grupo de ateus tentando usar essa “teoria” como alavanca para mover Deus para o lado e defender sua descrença; que se evidencie o fato de que o evolucionismo se transformou numa verdadeira religião e que seus defensores são tão fanáticos quanto o estereótipo de criacionista que eles criaram.

De qualquer forma, é bom saber que a revista Galileu agora também publica contos de ficção científica travestidos de ciência. Não faltava mais nada mesmo... [MB]

Meu texto no OI: pontos obscuros da evolução

Em resposta ao meu artigo “Revista desconversa quando o assunto é evolução”, publicado no Observatório da Imprensa, o biólogo Adelino de Santo Júnior (que também é mestre em Ecologia pela USP), escreveu o texto “Alguns pontos sobre a evolução das espécies”. Vou deixar de lado os argumentos ad hominem que não levam a lugar algum e me deter na argumentação de Adelino. Já que ele apontou alguns “pontos”, passo a seguir aos contrapontos, os quais agrupei em três grandes áreas, para simplificar a discussão: [Continue lendo e deixe seu comentário lá.]

segunda-feira, outubro 21, 2013

Adventista testemunha na revista Glamour

Sábado é um dia especial 
Alana Marques, 25 anos, advogada, cristã adventista: “Sou dessas pessoas fadadas a ter uma vida super-religiosa. Minha família é adventista, uma vertente do cristianismo protestante. Meus avós, meus pais e meus irmãos são da Igreja. Tenho até tios que são pastores. Então vocês podem imaginar que a educação religiosa sempre foi muito forte lá em casa. Quando fui para o Ensino Médio, meus pais me mandaram para um colégio interno adventista, uma tradição familiar. Me sentia em uma grande república. Imagina a festa? Várias meninas de 15 ou 16 anos realizando o sonho de morar com as amigas. Como eu vivia cercada de adventistas, fazia tudo por inércia, e foi só na faculdade que as diferenças passaram a ser uma questão para mim. Uma questão contornável, mas que por vezes pesava. Os adventistas não podem trabalhar, estudar, badalar do pôr do sol de sexta até o pôr do sol de sábado. Então, minhas amigas me chamavam para sair, beber, dançar, e eu tinha de lembrar a mim mesma dos meus ensinamentos. De resto, sou uma menina normal de 25 anos: trabalho, assisto à TV, ouço música, sou vaidosa. Mas sábado é especial, um dia para a gente se guardar.

Nunca senti preconceito, mas muita gente não entendia o fato de eu acreditar na teoria do criacionismo (e negar a evolução) e seguir a fundo essas normas. Minhas amigas diziam para eu pedir para o pastor autorização para sair. Só que nunca foi uma questão de permissão, e sim de crença. No trabalho, meus colegas sempre acharam que eu tinha privilégios por ser liberada sexta à tarde. Não estou nem aí: se cumpri meus deveres, azar de quem achar ruim.

Muita gente vê isso como uma restrição, mas sábado sempre foi meu dia preferido. Além de não ter de me sentir culpada por não estar estudando ou trabalhando, é o dia que passo com minha família. Vamos à igreja, almoçamos todos juntos... Como isso pode ser ruim?”

(Glamour)

1º Simpósio Baiano das Origens

quinta-feira, outubro 17, 2013

Descoberta pode reescrever “história evolutiva humana”

Nada de ancestrais: contemporâneos
E se em vez de serem todos de espécies diferentes, os diversos homens primitivos cujos fósseis têm sido encontrados ao longo dos anos em diversos locais – Homo habilisHomo rudolfensinsHomo erectus e outros – fossem todos membros de uma única e mesma espécie de humanos e as suas diferenças físicas apenas refletissem a variabilidade normal entre indivíduos dessa espécie? Os autores de um novo estudo comparativo de crânios fósseis humanos encontrados no Cáucaso, e publicado nesta sexta-feira na revista Science, afirmam que é precisamente isso que os seus resultados sugerem. A peça-chave do trabalho desenvolvido nos últimos oito anos por David Lordkipanidze, director do Museu Nacional da Geórgia, e uma equipe internacional de colegas, é um crânio – designado Crânio 5 – com quase 1,8 milhão de anos [segundo a cronologia evolucionista]. O seu maxilar inferior foi encontrado em 2000 na escavação arqueológica de Dmanisi (a uns 100 quilômetros de Tbilisi, a capital da Geórgia) – e o resto do seu rosto e cabeça em 2005.

“O Crânio 5 é um achado extraordinário”, explicou em coletica de imprensa telefônica a coautora Marcia Ponce de León, da Universidade de Zurique (Suíça). “É o crânio fóssil mais completo de um adulto do gênero Homo. Encontra-se num estado de conservação perfeito [...] e [a segunda peça] foi encontrada cinco anos depois do maxilar a menos de dois metros de distância [da primeira].”

Acontece que o Crânio 5 não era tudo o que os cientistas esperavam, visto o caráter maciço do maxilar previamente desenterrado. Estavam à espera de um crânio de grande tamanho, mas depararam-se, pelo contrário, com uma caixa craniana pequena por cima de um rosto grande, numa combinação de traços morfológicos nunca antes observada num homem primitivo [sic].

Também em Dmanisi foram encontrados, ao longo dos anos, mais quatro crânios (apenas um sem maxilar inferior), algumas ferramentas de pedra e ossos fossilizados de animais – achados que, segundo estudos anteriores, são vestígios deixados por um grupo de humanos que viveu no mesmo sítio ao mesmo tempo. “O tempo que demorou a formação geológica do local foi bastante breve, o que permite concluir que a sedimentação de todos os ossos [de homens primitivos] aconteceu simultaneamente”, explicou Lordkipanidze. “Dmanisi é como uma cápsula do tempo que preservou um ecossistema de 1,8 milhão de anos [idem].”

Os crânios de Dmanisi permitem realizar análises comparativas que até aqui não eram possíveis. E de fato, diante da descoberta do resto do Crânio 5 e da sua anatomia inédita, tornou-se necessário explicar as diferenças físicas patentes entre os cinco crânios humanos daquele sítio paleontológico, que fazem com que alguns deles sejam mais bem classificados como Homo habilis e outros como Homo erectus. Poderiam esses homens primitivos, que ao que tudo indica faziam parte da mesma comunidade, ter pertencido a várias espécies diferentes de humanos? “Sabíamos que vieram do mesmo local e do mesmo período geológico; podiam, portanto, representar uma única população de uma única espécie”, salientou Christoph Zollikofer, outro coautor, também da Universidade de Zurique.

Para determinar qual dessas duas possibilidades – uma ou várias espécies – era a mais provável e, em particular, se era possível que o nível de variação observado naqueles fósseis se verificasse no seio de uma única espécie, os cientistas recorreram a métodos de morfometria 3D computadorizada. Por outro lado, para garantir a compatibilidade dos novos resultados com estudos comparativos anteriores, também aplicaram métodos mais tradicionais de comparação de características morfológicas.

Conclusão: “Nossa análise estatística mostra que os padrões e a magnitude da variabilidade dos crânios de Dmanisi são semelhantes aos das populações de espécies modernas”, disse Zollikofer. “Embora os cinco indivíduos de Dmanisi sejam claramente diferentes uns dos outros, não são mais diferentes entre eles do que cinco humanos modernos ou cinco chimpanzés numa dada população.” Ou seja, “a diversidade no interior de uma espécie é a regra e não a exceção”. Os cientistas decidiram designar essa potencial única espécie pelo nome Homo erectus, por ser a mais bem documentada e consensual de todas as espécies de homens primitivos cujos fósseis se conhecem.

Evidência de simples diversificação, não "evolução"

Os novos resultados poderão ter implicações em termos da classificação das espécies de hominídeos que viviam na África e saíram de lá há cerca de dois milhões de anos [idem], espalhando-se pela Europa e Ásia, especulam os cientistas. “Há duas maneiras de interpretar a diversidade dos hominídeos fósseis”, explicou Zollikofer. “A primeira é que existiu apenas uma linhagem de homens primitivos; a segunda é que houve múltiplas linhagens coexistentes.”

“Se a caixa craniana e a face do Crânio 5 tivessem sido encontradas separadamente em locais diferentes da África, poderiam ter sido atribuídas a duas espécies diferentes”, acrescentou [admissão interessante]. Mas visto que os fósseis de Dmanisi provêm indubitavelmente do mesmo ponto no tempo e no espaço – e que parecem ter todos pertencido a uma única espécie de homens primitivos –, o mesmo poderá ter acontecido na África.

A conclusão não convence todo mundo. Enquanto um paleontólogo citado num artigo jornalístico (também publicado na Science, de autoria de Ann Gibbons) recusa liminarmente a ideia de que todos os fósseis africanos possam ter sido Homo erectus, outro é da opinião de que o Crânio 5 parece um Homo habilis. E um terceiro faz notar que a ideia está tendo o efeito de uma pequena bomba na comunidade dos especialistas.



Nota: Só para lembrar: os criacionistas vêm dizendo isso há anos, mas quem quis ouvir? Sempre dissemos que os “homos” são simplesmente humanos antigos com a natural variabilidade morfológica que existe entre seres humanos atuais (talvez alguns até com certas deformidades). Mas os evolucionistas, em sua ânsia por criar árvores evolutivas imaginárias, com base em fragmentos de ossos encontrados aqui e acolá, foram capazes de desenvolver toda uma história da “linhagem evolutiva humana” – que pode estar totalmente errada. Já imaginou quanto papel e quanta tinta foram gastos para divulgar a historinha anterior, que era tão "certa"? O que será feito dos livros didáticos, das enciclopédias e - pior - das cabeças que foram doutrinadas educadas com esse conteúdo até então tido como verdadeiro? 

O título dado à notícia pela Gazeta do Povo também é interessante: "Crânio de 1,8 milhão de anos sugere que homens vieram de uma única espécie." Isso também é óbvio para o criacionista: viemos de uma mesma espécie, de uma mesma linhagem, de um casal ancestral que viveu no Éden.

Será que em algum momento a hipotética sequência evolutiva do cavalo, por exemplo, reproduzida ad nauseam em livros e mais livros, será reavaliada também? Perceberão, como estão percebendo na história dos "homo", que se trata simplesmente de diversificação de baixo nível, adaptação (ou "microevolução", como dizem alguns), e não ancestralidade?

Fico imaginando quanto ainda pode ser revelado pela pá dos arqueólogos e dos paleontólogos. Os fatos que contradizem o modelo evolucionista só vão se acumulando. Resta saber quando o paradigma vai, finalmente, cair por terra. [MB]

quarta-feira, outubro 16, 2013

Jesus foi inventado por aristocratas romanos?!

Teoria mirabolante da vez
Jesus nunca existiu. Jesus é um plágio de divindades egípcias, gregas e romanas. Jesus existiu e era o Filho de Deus entre nós. Jesus existiu, mas não era divino, e Ele passou a infância na Índia. Jesus existiu e era casado. Na verdade, Jesus foi uma invenção de aristocratas romanos do 1º século d.C.

O parágrafo anterior poderia ser muito maior, sumarizando outras opiniões a respeito da pessoa de Cristo. A última teoria vem da pena de Joseph Atwill (foto), autor da obra Caesar’s Messiah: The Roman Conspiracy to Invent Jesus (2001). Seria muito conveniente para mim, um pastor formado por uma tradicional instituição cristã, dizer que a obra de Atwill não passa de mais um péssimo livro acadêmico e que não deveria ser levado a sério. Ao invés disso, vou citar acadêmicos sem nenhuma agenda religiosa, que não concordam com a tese de Atwill.

O primeiro é Bart Ehrman, professor na University of North Carolina, em Chapel Hill, nos EUA, e um ex-cristão, hoje agnóstico. Ehrman é tido como um dos principais historiadores dos primeiros séculos da história do cristianismo, e ganhou notoriedade no Brasil com a publicação da obra O Que Jesus Disse? O Que Jesus Não Disse?: Quem mudou a Bíblia e por quê? (Prestígio, 2006). Na época, várias revistas publicaram reportagens a respeito do livro revolucionário. 

Em 2012, Ehrman publicou a obra Did Jesus Exist? The Historical Argument for Jesus of Nazareth (Harper Collins). Para ele, a resposta é óbvia: sim, Jesus existiu e ponto final. Mas logo no prefácio da obra ele explica o que o levou a escrever sobre o tema: a quantidade de e-mails questionando a historicidade de Jesus.

Ao pesquisar o tópico na internet, Ehrman ficou impressionado com a quantidade de “especialistas” que acreditavam que Jesus era um mito. Em seu livro, o acadêmico agnóstico dá ouvidos às afirmações de vários defensores do “mito”, entre eles Acharya S., Earl Doherty, Frank Zindler, David Fitzgerald e Robert Price. De acordo com as pesquisas de Ehrman, “acadêmicos treinados em Novo Testamento ou em estudos do cristianismo primitivo que lecionam em grandes ou pequenos seminários teológicos, Divinity Schools, Universidades ou Colégios nos EUA, Europa ou em qualquer lugar do mundo, não defendem a ideia do Jesus-mito”. Ele continua: “Dos milhares de acadêmicos de cristianismo dos primeiros séculos que lecionam em tais escolas, nenhum deles, até onde eu saiba, duvida de que Jesus tenha existido” (p. 2, tradução livre).

Curiosamente, a mídia brasileira não publicou nada a respeito desse livro. Não se trata de um pastor pentecostal escrevendo sobre Jesus. Trata-se de um verdadeiro acadêmico (repito, agnóstico) defendendo a historicidade dEle. Mas não, importante mesmo é a teoria de que Jesus foi uma invenção romana para manipular as massas! Algo útil para levantar mais discussões sobre como igrejas evangélicas "estão manipulando as massas no Brasil".

Nem mesmo os defensores do “mito” conseguem levar a sério a tese de Atwill. Richard Carrie é um deles. Note bem, ambos estão no mesmo barco – eles não acreditam que Jesus existiu –, mas, para Carrier, a tese de Atwill beira o ridículo.

Carrier publicou em seu blog inúmeros motivos pelos quais tem vergonha da tese de Atwill. Outra defensora do “mito” que também não comprou a ideia foi Acharya S. (D. Murdock). Mesmo para aqueles que têm uma posição negativa a respeito de Jesus, o trabalho de Atwill consegue ser desqualificado. Só mesmo Richard Dawkins para comprar essa ideia! (confira)

Em suma, você pode não acreditar que Jesus era Filho de Deus, mas supor que Ele foi um personagem inventado, isso, sim, parece ser fruto de manipulação.

(Luiz Gustavo Assis é formado em Teologia pelo Unasp e cursa o mestrado nos EUA)

Alguns pontos obscuros sobre a evolução

Os fundamentos são sólidos?
Em resposta ao meu artigo “Revista desconversa quando o assunto é evolução”, publicado no Observatório da Imprensa, o biólogo Adelino de Santo Júnior (que também é mestre em Ecologia pela USP), escreveu o texto “Alguns pontos sobre a evolução das espécies”. Vou deixar de lado os argumentos ad hominem que não levam a lugar algum e me deter na argumentação de Adelino. Já que ele apontou alguns “pontos”, passo a seguir aos contrapontos, os quais agrupei em três grandes áreas, para simplificar a discussão:

Primeiro ponto: Adelino afirmou: “Nós não viemos dos macacos, nós somos macacos! Caso houvesse um agrupamento biológico definido como ‘macacos’, certamente estaríamos dentro dele. A espécie humana faz parte da ordem dos primatas, na qual se inserem todos os macacos!”

Quando Adelino diz que somos macacos, ele levanta um problema para os cientistas. Quais os critérios que nos definem como macacos? O DNA? E os taxonomistas? Será que estão de acordo com os geneticistas? Então por que somos classificados como Homo sapiens e não como Pan troglodita? Outra coisa: Por que Adelino evitou mencionar o gênero Homo? Ele não salienta para os leitores que a paleoantropologia é uma das áreas científicas mais controversas e polêmicas. Por exemplo, o registro fóssil permanece fragmentário, pois nenhum fóssil de hominídeo foi encontrado para o período entre 6 e 13 milhões de anos atrás, tempo em que a diversificação entre as linhagens de chimpanzés e humanos teria ocorrido. Um artigo interessante sobre esse tema é “Pattern pluralism and the Tree of Life hypothesis, de Doolittle e Baptest (PNAS, 29 de janeiro de 2007 [doi: 10.1073/pnas.0610699104]). Nele é questionado o dogma da ancestralidade comum universal.

Donald Johanson (o descobridor de Lucy) e Blake Edgar destacaram, em 1996: “Cerca da metade do intervalo de tempo nos últimos três milhões de anos permanece não documentada por quaisquer fósseis humanos”, e “desde o período mais antigo da evolução hominídea, mais de quatro milhões de anos atrás, somente um punhado de fósseis não diagnosticados tem sido descoberto” (Donald Johanson and Blake Edgar, From Lucy to Language [New York: Simon & Schuster, 1996], 22-23).

Devido à condição “fragmentária” e “desconexa” dos dados, Richard Lewontin, paleontólogo da Universidade Harvard, disse que “nenhuma espécie hominídea pode ser estabelecida como nosso ancestral direto” (Richard Lewontin, Human Diversity [New York: Scientific American Library, 1995], 163).

Outro grande desafio enfrentado pelos paleoantropólogos são os próprios exemplos de fósseis. Geralmente, os fósseis tipicamente hominídeos consistem literalmente de meros fragmentos de ossos. Isso dificulta ao cientista chegar a conclusões definitivas sobre a morfologia, o comportamento e as relações de muitos espécimes. Stephen Jay Gould admitiu isso, quando disse: “A maioria dos fósseis hominídeos, muito embora sirvam como base de especulação interminável e contar de historinhas bem elaboradas, são fragmentos de mandíbulas e de pedaços de crânios.”

A paleoantropologia é uma área científica que lida com dados fragmentados, mas, mesmo assim, os paleoantropólogos fazem afirmações confiantes sobre como teria ocorrido a evolução humana. A discordância grave entre os cientistas sobre nossos ancestrais é bem descrita por Constance Holden, no artigo “The politics of paleoanthropology” [A política da paleoantropologia], publicado na revista Science. No artigo, Holden reconhece que “a principal evidência científica” em que os paleoantropólogos se apoiam “para construir a história evolucionária do homem” é “um deplorável conjunto pequeno de ossos. [...] Um antropólogo comparou a tarefa à reconstrução da trama de Guerra e Paz com 13 páginas selecionadas aleatoriamente” (Constance Holden, “The politics of paleoanthropology”, Science, 213 [1981]: 737-40).

No Abstract do artigo “Evolution of the genus Homo”, publicado no Annual Review of Earth and Planetary Sciences, volume 37:67-92 (Volume publication date May 2009), Ian Tattersall e Jeffrey H. Schwartz escreveram o seguinte: “A definição do gênero Homo é quase tão carregada quanto a definição de Homo sapiens. Nós consideramos a evidência para o ‘Homo primitivo’ e encontramos pouca base morfológica para estender nosso gênero para quaisquer das formas fósseis de 2,5–1,6 milhões de anos designadas para o ‘Homo primitivo’ ou Homo habilis/rudolfensis.”

A ausência de fósseis intermediários é tanta que a transição hipotetizada de hominídeos/Homo é confirmada pelos antropólogos da Universidade de Harvard Daniel E. Lieberman, David R. Pilbeam e Richard W. Wrangham: “Uma das várias transições que ocorreram durante a evolução humana, a transição de Australopithecus para Homo, foi, sem dúvida, uma das mais críticas na sua magnitude e consequências. Como em muitos dos principais eventos evolucionários, há tanto boas como más notícias. Primeiro, as más notícias são que muitos detalhes dessa transição são obscuros por causa da pobreza dos registros fósseis e arqueológicos. [...] E quais são as boas notícias? Embora não tenhamos muitos detalhes sobre exatamente como, quando e onde a transição ocorreu de Australopithecus para Homo, temos dados suficientes de antes e após a transição para fazer algumas inferências sobre a natureza geral das principais mudanças que ocorreram” (Daniel E. Lieberman, David R. Pilbeam, and Richard W. Wrangham, “The transition from Australopithecus to Homo”, in Transitions in Prehistory: Essays in Honor of Ofer Bar-Yosef, eds. John J. Shea and Daniel E. Lieberman [Cambridge: Oxbow Books, 2009], p. 1).

Ian Tattersal, um dos maiores especialistas nessa área, também reconhece a falta de evidência de uma transição de hominídeos para humanos: “Nossa história biológica tem sido de eventos esporádicos em vez de acréscimos graduais. Ao longo dos cinco milhões de anos atrás, novas espécies hominídeas regularmente surgiram, competiram, coexistiram, colonizaram novos ambientes e tiveram êxito – ou falharam. Nós somente temos a percepção mais obscura de como essa história dramática de inovação e interação se desenrolou” (Ian Tattersall, “Once we were not alone”, Scientific American [January, 2000]: 55-62).

Ernst Mayr, o “Darwin do século 20”, reconheceu o surgimento abrupto do gênero Homo sem transições: “Os fósseis mais antigos de Homo, Homo rudolfensis e Homo erectus, estão separados dos Australopithecus por uma grande e desconectada lacuna. Como podemos explicar esse salto aparente? Não tendo quaisquer fósseis que possam servir de elos perdidos, temos que lançar mão do honrado método antigo da ciência história – a construção de uma narrativa histórica” (Ernst Mayr, What Makes Biology Unique?: Considerations on the Autonomy of a Scientific Discipline [Cambridge: Cambridge University Press, 2004], 198).

Além disso, uma leitura objetiva da literatura demonstra que as conclusões obtidas nas pesquisas geralmente perdem seu caráter explicativo quando novas evidências surgem nessa área, contrariando aquelas.

Afinal de contas, os humanos são mesmo mais aparentados com chimpanzés ou com orangotangos? “Nossas análises mostram que para ~0,8% de nosso genoma, os humanos são mais aproximadamente relacionados com os orangotangos do que com os chimpanzés” (Asger Hobolth et al, “Incomplete lineage sorting patterns among human, chimpanzee, and orangutan suggest recent orangutan speciation and widespread selection”, Genome Research, vol. 21:349-356 [2011]). Detalhe: ~0,8% equivale a 20 milhões de pares de bases.

Outra pesquisa revela que em “aproximadamente 23% de nosso genoma nós não partilhamos ancestralidade genética imediata com o nosso parente vivo [sic] mais próximo, o chimpanzé. Isso engloba genes e éxons na mesma extensão que as regiões intergênicas. Concluímos que cerca de 1/3 de nossos genes começaram a evoluir assim que as linhagens especificamente humanas antes de ocorrer a diferenciação de humanos, chimpanzés e gorilas” (Ingo Ebersberger, Petra Galgoczy, Stefan Taudien, Simone Taenzer, Matthias Platzer, and Arndt von Haeseler, “Mapping human genetic ancestry”, Molecular Biology and Evolution, vol. 24[10]:2266-2276 [2007]).

E convenhamos, 23% não é uma porcentagem pequena...

As árvores moleculares são baseadas na premissa de que o grau de semelhança genética reflete o grau de relação evolucionária. Um artigo mostra explicitamente essa premissa: “A sistemática molecular é (amplamente) baseada na premissa, primeiramente articulada claramente por Zuckerkandl e Pauling (1962), de que o grau de semelhança geral reflete o grau de parentesco. Essa premissa deriva da interpretação da semelhança molecular (ou dessemelhança) entre os táxons no contexto de um modelo darwinista de mudança contínua e gradual. A revisão da história da sistemática molecular e suas afirmações no contexto de biologia molecular revelam que não existe base para a ‘premissa molecular’. [...] Para os historiadores e filósofos de ciência, as questões que surgem agora são como surgiu a crença na infalibilidade dos dados moleculares para a reconstrução das relações evolucionárias e como essa crença se tornou tão central” (Jeffrey H. Schwartz, Bruno Maresca, “Do molecular clocks run at all? A critique of molecular systematics”, Biological Theory, vol. 1[4]:357-371 [2006]).

Essa semelhança de 99% entre o DNA humano e o do chimpanzé é exata? Embora recentes pesquisas tenham confirmado que certos trechos do DNA humano e de chimpanzé são, em média, 1,23% diferentes, isso é meramente um cálculo com grandes ressalvas. Um artigo na revista Science observou que o cálculo de 1% “reflete somente as substituições de bases, não de muitos trechos do DNA que têm sido inseridos ou deletados nos genomas”.

Então, quando o genoma do chimpanzé não tem nenhum trecho similar no DNA humano, tais sequências do DNA são ignoradas, alardeando-se a estatística de que humanos e chimpanzés são apenas 1% geneticamente diferentes. O subtítulo do artigo da Science é “The myth of 1%” [O mito do 1%], e descreve assim a estatística de 1%: “Pesquisas estão demonstrando que [humanos e chimpanzés] não são tão semelhantes como muitos tendem a acreditar”; “a estatística de 1% é um ‘truísmo’ que deve ser retirado”; “a estatística de 1% é ‘mais um empecilho do que ajuda para a compreensão’”; “a diferença de 1% não foi toda a história”; “pesquisadores estão descobrindo que além da distinção de 1%, pedaços de DNA em falta, extragenes, conexões alteradas em redes de genes e a própria estrutura dos cromossomos confundem qualquer quantificação de condição humana versus condição de chimpanzé” (Jon Cohen, “Relative differences: The myth of 1%”, Science, vol. 316:1836 [June 29, 2007]).

Segundo ponto: Adelino corretamente definiu microevolução como mudanças evolutivas em pequena escala e macroevolução como surgimento de um novo táxon, uma nova espécie. Mas erra em afirmar que elas são definições vagas utilizadas apenas por questões organizacionais. Talvez ele desconheça, mas até hoje existe uma controvérsia científica sobre se os processos observáveis dentro de espécies existentes e pools genéticos (microevolução) podem explicar as mudanças de grande escala ao longo do tempo geológico (macroevolução) e se continuam em ação até hoje. E a macroevolução é um aspecto fundamental na teoria da evolução de Darwin através da seleção natural.

Eis alguns artigos com revisão por pares que mencionam essa controvérsia ainda não resolvida:

David L. Stern, “Perspective: evolutionary developmental biology and the problem of variation”, Evolution 54 (2000): 1079-1091.

“Um dos mais antigos problemas em biologia evolucionária permanece em grande parte sem solução até hoje. [...] Historicamente, os sintetizadores neodarwinistas enfatizaram a predominância das micromutações na evolução, enquanto outros notaram as semelhanças entre algumas mutações dramáticas e transições evolucionárias para defender o macromutacionismo.”

Robert L. Carroll, “Towards a new evolutionary synthesis”, Trends in Ecology
and Evolution, 15 (January, 2000):27.

“Fenômenos evolucionários de grande escala não podem ser entendidos somente na base de extrapolação de processos observados no nível de populações modernas e espécies.”

Andrew M. Simons, “The continuity of microevolution and macroevolution”, Journal of Evolutionary Biology 15 (2002): 688-701.

“Um debate persistente em biologia evolucionária é sobre a continuidade da microevolução e da macroevolução – se as tendências macroevolucionárias são governadas pelos princípios da microevolução.” Embora Simons creia que a disputa possa ser resolvida, mesmo assim ele admite: “A continuidade dos processos seletivos sobre o tempo microevolucionário e macroevolucionário continua a ser uma fonte de discordância em biologia evolucionária (Solé et al, 1999; Erwin, 2000; Carroll, 2001; Plotnick & Sepkoski, 2001); algo que Maynard Smith (1989) descreveu como “não satisfatória”. A questão é se os efeitos da seleção natural operando ao longo do tempo microevolucionário, ou em nível populacional, seriam responsáveis pelas tendências observadas ao longo do tempo macroevolucionário.

A. M. Simons, “The continuity of microevolution and macroevolution”, Journal of Evolutionary Biology, vol. 15:688-701 (2002).

Embora diversas características de processos macroevolutivos possam ser previsíveis a partir da microevolução (Mark Ridley, Evolução, Blackwell, 3ª edição, 2003), para se considerarem os exemplos de especiação mencionados por Adelino, é necessário definir antes o que são espécies e especiação:

Espécies são agrupamentos de populações naturais intercruzantes, reprodutivamente isolados de outros grupos com as mesmas características. Especiação é a divisão de uma espécie em duas reprodutivamente isoladas. O que é interessante destacar é que essas definições nada dizem sobre o grau e a mudança morfológica, comportamental ou genética que evoluiu. Portanto, a definição de “espécie” não implica, necessariamente, que ocorreu mudança biológica significativa entre as duas populações. Na maioria dos casos de “especiação” na literatura científica, as duas populações podem ser nomeadas como “espécies” diferentes sob o conceito biológico de espécie, mas ainda assim as diferenças entre as populações são de pequena escala e triviais.  

Para reforçar sua réplica, Adelino menciona alguns artigos na literatura especializada como eventos comprovados de especiação. Primeiro, é bom esclarecer o seguinte: nenhum criacionista afirma a fixidez das espécies nem nega que a especiação possa ocorrer na natureza, se e somente se a especiação for definida como uma população isolada capaz de reprodução, e que essa definição é trivial demais para as grandiosas afirmações transmutacionistas darwinistas: a evolução de novas estruturas biológicas, planos corporais e taxa superiores.

Por razões de espaço, comento apenas dois desses artigos: Rice WR, Hostert EE. 1993, “Laboratory experiments on speciation: What have we learned in forty years?”, Evolution 47 (6): 1637-1653, Dodd, D.M.B. 1989; “Reproductive isolation as a consequence of adaptive divergence in Drosophila pseudoobscura”, Evolution 43 (6): 1308-1311.

“Pode-se argumentar que a especiação incipiente não ocorreu nesse experimento por duas razões. Primeiro, quantidades de traços de fluxo de genes ocorreram entre a população usando os habitats SE e 4L, pois uma pequena fração de moscas trocou de habitats entre as gerações. [...] Em segundo lugar, o cruzamento forçado entre as duas populações produziu descendência fértil em F1 e F2, e assim o isolamento reprodutivo foi mediado somente pelo comportamento de preferência de habitat. [...] Não ocorreu isolamento reprodutivo irreversível nesse experimento.”

Depois de trinta gerações de mosquinhas das frutas e elas não podiam cruzar livremente? E Rice e Salt afirmaram que foi somente “especiação incipiente que nós cremos ter ocorrido”? Desonestidade intelectual de Adelino ou ele somente citou especialistas mais capacitados para intimidar os críticos pensando que eles não iriam ler nem destacar posteriormente o que realmente foi descoberto a respeito da especiação?

No resumo do artigo “The role of hybridization in plant speciation”, Pamela S. Soltis e Douglas E. Soltis, in Annu. Rev. Plant Biol. 2009, 60:561-88, assim se expressaram sobre a hibridização: “A importância da hibridização na especiação de plantas e evolução tem sido debatida há décadas, com pontos de vista oponentes da hibridização tanto como uma força evolucionária criadora ou ruído evolutivo. A especiação híbrida pode ocorrer tanto em nível homoplóide (i.e., entre duas espécies da mesma ploidia) ou em nível poliplóide, cada um com suas concomitantes consequências genéticas e evolutivas. Enquanto que a alopoliploidia (i.e., resultante da hibridização e duplicação do genoma) há muito tempo tem sido reconhecida como um modo importante de especiação de plantas, as implicações da duplicação do genoma não têm sido tipicamente levadas em conta na maioria das áreas de biologia de plantas.”

Outros artigos que vale a pena conferir são: “The continuity of microevolution and macroevolution” (J. Evol. Biol. 15 [2002] 688-701); “The notion of the Cambrian pananimalia genome” (PNAS, vol. 93, p. 8475-8478, 1996); “Evolutionary Developmental Biology and the problem of variation” (Evolution, 54[4], 2000, p. 1079-1091); “Towards a new evolutionary synthesis” (Tree, vol. 15, n. 1, 2000, p. 27-32).

Finalmente, deixo um desafio para Adelino: Poderia fornecer algum documento científico sobre uma mudança de espécie de bactéria para outro ser? Isso levando em conta que bactérias vêm sendo cultivadas por dezenas de anos (com um tempo de geração médio de 30 minutos), e elas sempre permanecem bactérias, nunca tendo sido publicado um comunicado dizendo que bactéria evoluiu para protozoário, por exemplo. (Seria bom, também, conferir os trabalhos de A. Larssen, que “destroem” o fenômeno da mutação como ferramenta da evolução.) 

Terceiro ponto: Qual é a relação filogenética de as aves possuírem genes para produção de dentes semelhantes aos dentes dos crocodilos? Ancestralidade comum? O que dizer, então, da pesquisa de Mindell et al descrevendo as dificuldades encontradas quando os biólogos evolucionistas tentam construir uma árvore filogenética para os principais grupos de aves usando o DNA mitocondrial? As árvores baseadas nessas moléculas de mtDNA têm divergido com as noções tradicionais das relações entre as aves. Surpreendentemente, os autores até acham semelhança “convergente” entre alguns mtDNAs de aves e os mtDNAs de espécies distantes como cobras e lagartos (D. P. Mindell et al., “Multiple independent origins of mitochondrial gene order in birds”, Proceedings of the National Academy of Sciences USA, vol. 95: 10693-10697 [September 1998]).   

Quanto ao fato de o colágeno dos tiranossauros ser basicamente o mesmo que o das aves, Adelino precisa dizer como o colágeno de tiranossauros (extintos há mais de supostos 65 milhões de anos) pôde ser extraído e pesquisado, se é sabido que o DNA não fica preservado além de 100 mil anos!

Interessante o que Lynn Margulis e seu filho Dorion Sagan escreveram sobre a teoria da evolução: “Nós concordamos que muito poucas proles potenciais sobrevivam para reproduzir e que as populações mudam através do tempo, e que, portanto, a seleção natural é de importância crítica para o processo evolucionário. Todavia, essa afirmação darwinista para explicar tudo da evolução é uma meia-verdade popular cuja falta de poder explicativo é compensada somente pela ferocidade religiosa de sua retórica. Embora as mutações aleatórias tenham influenciado o curso da evolução, sua influência foi principalmente pela perda, alteração e refinação. Uma mutação confere resistência à malária, mas também faz felizes as células sanguíneas dentro dos transportadores deficientes de oxigênio da anemia falciforme. Outra mutação converte um recém-nascido lindo em um paciente de fibrose cística ou uma vítima de surgimento precoce de diabete. Uma mutação faz com que uma mosquinha das frutas voadora de olhos vermelhos não ganhe uma asa. Nunca, contudo, aquela mutação fez surgir uma asa, uma fruta, um caule lenhoso ou uma pata. Resumindo, as mutações tendem a provocar doença, morte ou deficiências. Nenhuma evidência na vasta literatura de mudanças hereditárias mostra evidência inequívoca de que a mutação aleatória em si mesma, mesmo com o isolamento geográfico das populações, resulte em especiação. Então, como surgem as novas espécies? Como que couves-flores descendem de pequeníssimas plantas mediterrâneas tipo repolho, ou porcos de ursos selvagens?” (Lynn Margulis, Dorion Sagan, Acquiring Genomes: A Theory of the Origins of the Species, p. 29 [Basic Books, 2003]).

Pelo visto, depois de “ouvirmos” os entendidos no assunto, podemos perceber que, a despeito dos esforços de alguns evolucionistas, os fundamentos teóricos sobre os quais eles vêm construindo seu modelo não são tão sólidos assim. Há muitos pontos obscuros nessa controvérsia toda. E a humildade intelectual sempre será bem-vinda nesse caso.

(Michelson Borges, jornalista e mestre em teologia)

terça-feira, outubro 15, 2013

O fórum cancelado e o preconceito contra criacionistas

De volta à Idade Média?
É com grande estranheza que leio os comentários nada éticos ou acadêmicos do professor Leandro Tessler que, pelo visto, deseja ser representante de um setor na Unicamp [comentários a propósito do 1º Fórum Unicamp de Filosofia e Ciências das Origens, que seria realizado nesta quinta-feira]. Recomendo que você leia os comentários dele antes de ler o que escrevo a seguir. A postura de Tessler me lembra a daqueles acadêmicos criticados por Michael Ruse, um eminente especialista em evolucionismo e darwinismo, em seu livro The Evolution-Creation Struggle. Apesar de ser um ferrenho opositor do criacionismo, esse autor deplora a postura acadêmica de monopólio teórico que nega ao outro a oportunidade de se manifestar, fazendo com que apenas Darwin fale, deixando de fora qualquer opinião ou proposta levantada pelo outro lado.

Ruse chega a dizer que existe uma tremenda semelhança entre certos defensores do evolucionismo e o fundamentalismo criacionista a que eles tanto se opõem. Ou seja, ambos se tornam radicais em seu discurso, tratando o outro com pouco ou nenhum respeito e evitando a todo custo que seus seguidores ouçam os argumentos que o outro lado teria a dizer. Isso revela insegurança e preconceito, não um debate racional e equilibrado sobre a questão. E Ruse, compensa repetir, é um respeitado acadêmico evolucionista.

O professor Leandro faz acusações do ponto de vista lógico que simplesmente quebram várias leis do raciocínio correto – pelo menos para quem já estudou filosofia – e beiram a falácias e paralogismos. Ele apela especialmente para o argumento por autoridade e a Petição de Princípio. Resume-se a dizer que o que ele ensina está provado e que o que o outro lado diz é ridículo. Mas não mostra onde está o ridículo das afirmações a que ele se opõe. Pressupõe-nas ridículas porque fogem ao seu senso comum ou ao que ele está acostumado a acreditar.  

Isso, fora o fato de que um acadêmico, seja de que área for, deveria tratar com cuidado e precisão o uso de fontes, mesmo se tratando de um blog não indexado. Afinal, sua autoridade acadêmica pode induzir os leitores ao erro. Neste texto, darei alguns exemplos de sua incongruência argumentativa.

Palavras de indignação do professor Leandro: “Por que a Unicamp empresta seu prestígio a um evento desse tipo, que estaria muito mais apropriadamente sediado em alguma igreja ou associação cristã? [...] Por isso causou-me surpresa que a administração central da Unicamp, uma universidade pública e prestigiada como uma das melhores do Brasil, esteja dando suporte institucional para um evento criacionista que ocorrerá dia 17/10 dentro da série de debates chamados de Fóruns Permanentes. Trata-se do 1º Fórum de Filosofia e Ciência das Origens (espero que seja também o último!).” Depois de questionar evento semelhante ocorrido na Universidade Mackenzie, ele conclui: “Universidades confessionais protestantes americanas de primeira linha como Harvard, Princeton ou Yale jamais permitiram que um evento desse tipo ocorresse em suas dependências” (grifo nosso).

A conclusão dele é que esses assuntos deveriam se limitar ao interior de igrejas ou instituições religiosas. Jamais deveriam adentrar os limites de uma universidade como a Unicamp. Será?

Minha resposta: o professor deveria se inteirar melhor disso antes de passar uma visão distorcida a seus alunos e aos leitores de seu blog. Será que “universidades de ponta” não se interessam por assuntos envolvendo Deus, religião e ciência? Ele chega a dar como exemplo uma suposta mancha na reputação da UnB porque sediou um Núcleode Estudos de Fenômenos Paranormais e pelo curso de extensão em Astrologia. Veja, não sou astrólogo, paranormal nem simpatizante dessas correntes, mas devo mostrar que as coisas não são como o professor apresenta.

Que tal, então, esses casos? De 21 a 23 de outubro de 2001, Harvard (a mesma instituição que ele afirmou jamais se prestaria a esse papel) sediou um congresso intitulado “The Harvard Conference on Science and the Spiritual Quest”, realizado no campus de Cambridge, MA. Igualmente, a Universidade de Berkeley, na Califórnia, possui um programa acadêmico sobre “busca espiritual” (Spiritual Quest Program SSQ) e um “Center for Theology and the Natural Sciences”. Compensa dar uma olhada na página deles (http://www.ctns.org/ssq/) e ver como Berkeley discorda do professor da Unicamp e leva para o Campus coisas que ele sugere ficarem circunscritas aos limites de uma igreja ou instituição religiosa. William D. Phillips, ganhador do prêmio Nobel de Física, participou de vários eventos do SSQ e afirmou que a espiritualidade e a convicção religiosa mantida por cientistas deveriam ser assuntos mais bem explorados em universidades de renome. 

Outro programa de Berkeley em parceria com a prestigiada fundação John Templeton foi o “Science and the Spiritual Quest II” (SSQII), realizado em 2003. E antes dele, em 1988, uma conferência realizada pelo departamento de Física da Universidade de Berkeley reuniu vários especialistas em cosmologia para que eles apresentassem as implicações da espiritualidade em seus trabalhos acadêmicos e a riqueza de se fazer ciência sem deixar de ser religioso. Muitos compareceram como palestrantes, incluindo Allan Sandage, religioso praticante e ganhador do prêmio Gruber de Astronomia.

Yale realizou entre 11 e 14 de maio de 2000 uma conferência intitulada “The God in Nature and Humanity: Connecting Science, Religion and the Natural World”. O objetivo segundo os coordenadores era encontrar links entre ciência, religião e natureza.

Em 14 e 15 de setembro de 2006, Yale realizou outra conferência envolvendo design inteligente, criacionismo e evolucionismo. O tema geral foi “The Religion and Science Debate: Why Does It Continue?”. Outro congresso multidisciplinar realizado também em Yale, em 2000, diretamente ligado ao tema do design, foi o “Science and Evidence for Design in the Universe”. Alguns evolucionistas tentaram alegar que esse congresso não ocorreu sob os auspícios da universidade, mas apenas utilizou indevidamente seu nome. Isso não é verdade. Tanto que o próprio site da universidade fez a propaganda do evento (confira), e a Yale Law School Forum on Cultural and Academic Freedom era uma das coordenadoras. 

Mas ainda que fosse como alguns dizem, torna-se curioso dizer que Yale nunca escreveu nenhum parecer oficial desmentindo ou processando os coordenadores pelo uso indevido de seu nome.

Ademais, vários outros congressos de diversos temas e áreas são realizados como esse: sediados por um braço da universidade e vinculados diretamente ao seu nome. Esse é um procedimento normal e quem trabalha em universidades públicas ou privadas sabe como funciona. Creio que esses exemplos são suficientes para mostrar que o dito no blog do professor Leandro simplesmente não procede. Curiosamente, nem Berkeley, Yale ou Harvard tiveram sua reputação manchada por sediar cursos, centros e conferências envolvendo Deus, religião e ciência. Por que a Unicamp ficaria?

O professor também dispara preconceitos contra os palestrantes convidados, ao afirmar: “Como mostrarei a seguir, nenhum dos palestrantes tem um perfil acadêmico compatível com essa universidade, exceto pelo professor Marcos Eberlin, do Instituto de Química da Unicamp, que participará da sessão de abertura.”

Minha resposta: são cinco os palestrantes convidados. Marcos Eberlin, que ele aceita como exceção, é professor da Unicamp e é um deles. Mas o professor Leandro não explica por que Eberlin (que tem o perfil acadêmico da instituição) estaria ali entre os palestrantes de um evento tão “anticientífico”. Outro detalhe: O que ele entende por “perfil acadêmico compatível com essa universidade”? Gostaria que esclarecesse melhor, pois o prof. Humphreys, como ele mesmo admite, tem doutorado em Física – área sobre a qual ele apresentaria sua palestra – e possui “patentes e publicações em periódicos de seletiva política editorial, especialmente na área de instrumentação”.

Leandro se limita a dizer que o professor Nahor é doutor em Geociências, mas não diz que foi pela USP e que ele foi professor na USP e na Unesp por 13 anos! Curioso, serve para a USP, mas não tem o perfil necessário para a Unicamp! Irônico!

Quanto a mim (Rodrigo Silva), ele apenas diz que sou doutor em Teologia e apresentador de programa de TV. Mas não afirma que tenho especialidade em arqueologia (tema de minha palestra), nem que estou vinculado ao MAE (Museu de Arqueologia e Etnologia) da USP, terminando um segundo doutorado em Arqueologia Clássica. Aliás, estou envolvido com professores da USP, Unesp e do Ipen, numa pesquisa de datação por luminescência (área de especialidade do dito professor), cujo artigo sobre um artefato “bíblico” foi aceito para apresentação num congresso internacional a ser realizado em Pernambuco, no fim deste ano.

Curioso que é só clicar no nome de cada autor que o currículo Lattes ou do CNPQ aparece. Mas ele usou as informações que lhe convinha. O Michelson (formado pela UFSC), de fato, é o único que não leciona, mas sua participação seria como jornalista e não como professor universitário. Seu tema também está correlacionado com o que ele trabalha.

Bem, se nenhum dos acadêmicos acima tem perfil para estar na Unicamp palestrando, quem teria? Ademais, ninguém estava se preparando para pregar um “sermão”. As apresentações eram de fundo exclusivamente acadêmico, como se pode ver pelos resumos.

Além disso, quando o professor questiona a “ausência” de artigos indexados defendendo o DI ou o criacionismo, ele parece ignorar o monopólio evolucionista de acadêmicos que, como ele, barram publicações que ofendem a boa reputação de Darwin. Mas isso não é argumento algum. Seria o mesmo de dizer que o protestantismo não possui teologia válida porque não encontramos em periódicos católicos artigos defendendo a doutrina de Lutero!

Veja que o próprio Francis Collins admitiu ter ficado por muitos anos calado em relação à sua fé em Deus, porque sabia que se divulgasse isso antes de terminar suas pesquisas ele seria, por preconceito, retirado do programa de mapeamento do Genoma Humano. Ou, pior ainda, nem teria entrado nele!

Contudo, há sim, exceções razoáveis ao generalizado preconceito, ou seja, artigos contrários ao evolucionismo publicados em revistas indexadas. Veja uma lista parcial deles em http://www.discovery.org/a/2640.

Continuando, o professor ainda destaca: “Debater com eles [os criacionistas e partidários do DI] é perda de tempo, pois não há evidência na Terra (ou no céu!) que os faça rever seu modelo e suas posições, como os cientistas costumam fazer.” Mas, depois, ele mesmo diz: “Infelizmente, o blog não é aberto para comentários, mas eu ia propor que fizéssemos um debate verdadeiro e mais equilibrado em algum templo (não numa univerisdade [sic]): 2 criacionistas e 2 cientistas abordariam evolução e as origens do universo, seguido de um debate.”

Mas é para debater ou não? Fiquei na dúvida do que o professor propõe. E por que na universidade não e na igreja sim? Qual a diferença? Seus alunos não iriam a uma igreja, seria isso? Seu interesse é ganhar adeptos? E mais: Que dicotomia mais preconceituosa é essa? “2 criacionistas e 2 cientistas”? Não seria mais correto – considerando nomes como o do professor e cientista Marcos Erbelin – dizer “2 cientistas criacionistas e 2 cientistas evolucionistas”? Caso contrário, professor Leandro, em que grupo eu deveria colocar o professor Marcos?

Outro detalhe: O que importa é o conteúdo ou o ambiente? Por que debater na igreja e não na universidade?

Concluindo... O professor Leandro escreve com uma arrogância tal que parece supor que ele (ou pelo menos os que concordam com ele) detém a chave do conhecimento acadêmico e o monopólio do saber universitário. Se for assim, gostaria de lembrar ao distinto professor que foi exatamente contra essa postura imperialista e autoritária que a universidade surgiu na Europa, reagindo contra o ditame das Universitas que eram pautadas pelo medievalismo monopolizador do programa Roma Locuta Finita Causa Est (Roma falou, está acabado!). Ou seja, somente o que a Igreja aceitava com válido podia ser ensinado e discutido nas classes, o resto era heresia.

Parece que estamos voltando aos tempos medievais em que antigos bispos, censores e até mesmo inquisidores da teologia são substituídos por neosacerdotes do ateísmo e do evolucionismo, como o professor Leandro. Ele é a voz da ciência; ganhou procuração para isso! Todas as conclusões devem concorrer para os ditames em que ele mesmo acredita. Quem discordar dele está fora do jogo. Como isso me lembra a máxima do passado “extra ecclesiam nulla salus” (fora da igreja não há salvação). E antes que me acusem de anacronismo, é bom argumentar logicamente por que seria um anacronismo e não apenas dizer que é!

Ademais, anoto o agravante de que a Unicamp é uma universidade pública e os recursos que a sustentam e que, inclusive, pagam o salário do professor de Física são justamente oriundos dos impostos de uma maioria teísta que ainda crê em coisas que ele considera banais. E nessa maioria não há apenas gente “leiga”. Há físicos, matemáticos, historiadores, filósofos, etc. que creem na criação ou no design. Se quiser, dou de memória uma lista enorme deles. Gente inclusive com mestrado e doutorado em reconhecidas universidades públicas.

Engraçado, pois já vi todo tipo de reivindicações de alunos em universidades públicas. Muitas legítimas, outras nem tanto. Mas nenhuma parece chocar tanto o professor e seus adeptos quanto o tema de Deus relacionado à ciência. Até a maconha está tendo seus adeptos e conseguindo seu espaço nas discussões da universidade pública, mas Deus ainda tem de ficar de fora.

Veja que contraste: entre 17 e 18 de maio de 2010, ocorreu na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) um simpósio internacional sobre a liberação do uso da Cannabis (nome científico da maconha). Bem, o simpósio tinha como título o uso “medicinal” regulamentado por uma agência brasileira que deveria ainda ser criada. Contudo, deixe-me tecer dois comentários sobre isso: primeiro, tenho certeza de que nem todos os especialistas concordariam com a proposta do evento ou com as conclusões técnicas que muitos participantes defendiam, mesmo assim, o evento foi realizado. Essa é a democracia do saber, pois, embora eu não diga com Nelson Rodrigues que toda a unanimidade é burra, posso, pelo menos, dizer que em muitos momentos a pluralidade de ideias (até mesmo divergentes) pode ser uma fonte de riqueza intelectual. Posições divergentes são sempre bem-vindas ao fórum acadêmico, principalmente se a instituição for pública, isto é, pertencente ao povo que paga seus impostos.

Segundo comentário: erra feio quem pensa que um simpósio como esse da Unifesp ficaria apenas no âmbito científico. A pauta de blogs semelhantes a esse do professor Leandro afirmava ser aquela uma iniciativa a favor dos movimentos antiproibicionistas que lutam pela legalização do consumo de drogas no Brasil. Aliás, como disse numa entrevista a neurocientista Cecília Hedin, que era na época diretora do Instituto de Ciências Biomédicas da URFJ: “É comum o cientista achar que não é seu papel participar desses debates, sem perceber que sua disciplina é, muitas vezes, utilizada para justificar políticas públicas. Muitos se julgam neutros, mas raramente um de nós de fato é.”

Veja, não estou emitindo juízo de valores sobre a questão da maconha, pois esse não é o assunto deste texto. Apenas faço essa comparação para mostrar a postura de contradição de professores intolerantes, como alguns da Unicamp. Maconha pode ser discutida, Deus não! Religião, como o professor Leandro defende, é coisa para ser confinada às igrejas, não à universidade. Ora, se fosse assim, Deus não deveria ser mencionado para nada! Silêncio total. Mas, contradizendo isso, o Criador é muito mencionado nas aulas de professores ateus. Ele é mencionado para ser desacreditado, desmentido, desautorizado. Duvido que o professor Leandro nunca tenha em sala de aula repelido com força o criacionismo diante de seus alunos ou desdenhado do relato do Gênesis. Mas, deixe-me ver se entendi: “Deus e o Universo” não constitui tema para um ambiente universitário. A menos que seja para construir toda uma tese provando para os alunos que tal coisa não existe.

Que estranho comportamento acadêmico. Só deixo que meus alunos tenham acesso ao que eu mesmo creio como sendo verdadeiro. O que os demais dizem eu me limito a invalidar sem provar porque é errado. Isso é retórica acadêmica e não método científico. É muito fácil falar mal dos “outros” sem deixar que eles mesmos apresentem suas razões. Se tudo o que meus alunos souberem dos “outros” se limitar ao que “eu digo dos outros” – e digo como bem entender –, posso levá-los a preconceitos e chauvinismos recheados de argumentação pseudocientífica.

Isso é o que alguns chamam de “advento do marxismo cultural” da ex-URSS, onde professores com cartilhas e dogmas supostamente “comprovados” se infiltram através de concursos em universidades públicas; afirmam que isso e isso é politicamente correto, que isso e isso é cientifico, e o resto é lixo! Então constroem a proposta do que consideram a sociedade perfeita, depois lavam o cérebro dos alunos com toda essa eloquência e, como resultado, criamos uma sociedade desajustada. Perfeitos ignorantes com diploma nas mãos; alunos não reflexivos que se limitam a repetir o que o professor diz, pensando não por si mesmos, mas tornando-se refletores do pensamento alheio.

Como os valores espirituais são coisa que pertence às igrejas, o ensino da ética também fica bastante limitado e o resultado não é nada animador. Um exemplo disso é que, no passado, quebra-quebra como o que vimos nas manifestações recentes seria reputado como “falta de cultura” e “falta de educação”. Agora nos surpreende o elevado número de universitários entre os arruaceiros. Educação é tudo? Estamos cumprindo mesmo nosso papel?

Ora, professor Leandro, ninguém pode rejeitar conscientemente o que não conhece. Se você quiser mesmo que seus alunos rejeitem as propostas não darwinistas da origem do Universo, deveria deixar que eles ouvissem os argumentos e decidissem por si mesmos, e não que repetissem como gravadores as coisas que o senhor mesmo diz em sala de aula – certamente repetindo sem questionar a mesma cartilha que um dia escutou.

Será que seus alunos saberiam dar um exemplo concreto, observável e científico de macroevolução darwinista? Veja, eu disse macroevolução! Por favor, não fique girando em torno de bactérias e amebas que se modificaram com o passar dos anos! Isso eu também aceito, mas não é bem o que o evolucionismo clássico diz, pois a bactéria, ainda que mudada, continua bactéria; a ameba modificada continua ameba. Refiro-me a mudanças de espécie em que o réptil realmente virou pássaro; e um anfíbio virou mamífero terrestre.

Uma parábola para terminar. Imagine que ETs chegassem à Terra daqui a dois mil anos e não encontrassem mais seres vivos no planeta. Eles viriam o avião e analisariam tudo o que ele contém: asas, motor, rádio, trem de pouco, etc. É uma máquina perfeita. Como foi feito? Como surgiu? Ninguém tem uma resposta definitiva, pois não estavam aqui em nosso tempo nem visitaram a fábrica da Embraer ainda em funcionamento.

Então, um grupo, partindo da lógica, deduz que alguém – provavelmente um ser humano inteligente – fez o avião. Mas outro grupo, mais politicamente engajado, prefere negar a existência de “inventores ou fabricantes do avião”, afirmando que ele é fruto do acaso e que não precisamos de fabricantes para justificar sua existência.

“Mas a lógica de sua engenharia supõe um engenheiro”, diz o primeiro grupo. “Ora, isso é pseudociência”, diz o segundo. “Já provamos que o avião é fruto de uma série de mudanças acidentais que geraram essas máquinas que hoje conhecemos.” Prova por prova, nenhum dos grupos têm. Mas creio que a lógica faz supor a primeira opção. Afinal de contas, creio que nem mesmo o professor Leandro aceitaria dizer que a existência do avião dispensa a existência de um fabricante. Ele é muito complexo para ser fruto do acaso!

Mostre-me “cientificamente” – não filosoficamente – a possibilidade de um avião alguma vez ser fruto do acaso cego e eu passarei seriamente a acreditar que o pássaro também pode ser. Até lá! Não chame de científico o que não foi cientificamente provado, nem arvore para si a monopolização do saber. A Idade Média, companheiro, já ficou para trás.

(Rodrigo Silva possui graduação em Teologia pelo Instituto Adventista de Ensino do Nordeste [1992], graduação em Filosofia pelo Centro Universitário Assunção [1999], mestrado em Teologia Histórica pelo Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus [1996], doutorado em Teologia Bíblica [2001], estudos pós-doutorais com concentração em arqueologia bíblica pela Andrews University, EUA [2008], e atualmente está cursando doutorado em arqueologia clássica pela Universidade de São Paulo. É professor do Centro Universitário Adventista de São Paulo – Campus Engenheiro Coelho, SP [Unasp], curador do Museu Paulo Bork de Arqueologia do Oriente Médio e apresentador do documentário semanal Evidências, pela TV Novo Tempo)