sexta-feira, maio 11, 2018

O avanço do evolucionismo-teísta no Brasil

Este é um tema que precisa ser mais bem divulgado pela comunidade criacionista no Brasil. Existem situações ainda pouco conhecidas a respeito de uma instituição brasileira divulgadora do evoteísmo. A meu ver, dentro do campo da ciência e religião, esse foi, é e será cada vez mais o maior problema que nós criacionistas literais enfrentaremos no anúncio das boas-novas de um Deus Criador em nosso próprio país. A estratégia usada nesse modelo é a de se misturar verdades com mentiras. Sabemos que esse problema não é novo. A Bíblia diz que o pai dessa ideia foi Satanás, ainda lá no Éden.

Eu sou até certo ponto tolerante e entendo a postura e o modo de pensar de evolucionistas sinceros, mesmo que estes ignorem os atuais dados científicos. Mas quando o assunto é evolucionismo teísta a coisa fica diferente. Saindo do campo científico, mesmo porque essa ideia não se apoia em evidências científicas, e entrando no campo filosófico e teológico (como humano, pessoa que sou), vejo que essa tem sido uma estratégia satânica, um modo de misturar a falsamente chamada ciência com péssima teologia. E esses argumentos evoteístas tem feito um estrago dentro da igreja cristã. Jovens têm sido seduzidos por argumentos que têm como fundamento a areia movediça.

Argumentos que tentam fazer com que jovens aceitem, por exemplo, o princípio da superposição, que diz respeito às diversas camadas geológicas que teriam sido depositadas ao longo de bilhões de anos, e com isso o aceite “lógico” de que Deus teria dirigido o processo de evolução em nosso planeta também ao longo de bilhões de anos. Na etapa seguinte, isso nos conduz para a aceitação de que a morte é parte do processo natural da criação de Deus, o que nos leva a um ponto crítico: se a morte não é resultado do pecado de Adão e Eva em desobedecer a Deus (como diz Gênesis), então concluo, dentre algumas possibilidades, que a linguagem do livro de Gênesis é simbólica e, portanto, esses personagens nunca existiram como fato histórico.

Na etapa seguinte o pensamento se propaga e enraíza destruindo toda a base da fé cristã. Isso porque, se a história de Gênesis não é real, então não haveria a necessidade de Jesus ter vindo morrer numa cruz a fim de salvar a humanidade de seus pecados e da morte, e tampouco voltar uma segunda vez para nos levar para a vida eterna. Opa, chega-se a um impasse! “Será que também todo o restante da Bíblia é simbólico?” Essa é a conclusão a que chegam os que aceitam o evoteísmo. Você consegue enxergar como esse pensamento vai minando desde o Antigo até o Novo Testamento?

Caso você queira conhecer em detalhes os inúmeros problemas teológicos, filosóficos e científicos que podem ser encontrados na perigosa proposta evoteísta, deixo como indicação o livro Theistic Evolution: A Scientific, Philosophical, and Theological Critique. Em relação a esse livro, o Dr. James N. Anderson, professor associado de Teologia e Filosofia no Seminário Teológico Reformado (Charlotte, EUA), comenta:

 “Os evangélicos estão experimentando uma pressão sem precedentes para fazer as pazes com a teoria da evolução darwinista, e números crescentes estão hasteando a bandeira branca. A trágica ironia é que a teoria neodarwinista está mais ameaçada do que nunca, em face de múltiplos desafios científicos e discordâncias crescentes. Até agora não houve uma resposta acadêmica consolidada à evolução teísta que combinasse – quanto às desse livro – críticas científicas, filosóficas e teológicas. Os editores reuniram um elenco impressionante de especialistas e o conteúdo é de alto nível. Evolucionistas teístas, e aqueles influenciados por seus argumentos, devem ler e digerir este compêndio de ensaios.” 

Hoje, ao que tudo parece, a maior instituição que propaga de forma implícita essas ideias no Brasil é a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC2), com 27 grupos locais alcançando, principalmente, os grandes centros universitários. Apesar de seu intento em evitar mencionar sua proposta “evolucionista teísta”, conforme pode ser visto em “Quem somos”, ao mencionar um dos parágrafos de seu estatuto o qual diz: “Enquanto organização, a ABC² não toma posição quando há desacordo honesto entre cristãos em uma questão.”

Em uma notícia divulgada sobre o lançamento do Discovery-Mackenzie, a ABC2 também comenta sua estratégia e sua suposta imparcialidade quanto a se posicionar como evoteísta: “Temos procurado contribuir para o diálogo com a difusão de material da linha menos difundida no Brasil entre os evangelicais (a da criação evolucionária), sem, contudo, nos identificarmos com ela enquanto instituição. Pelo contrário, o que desejamos com isso é que todas as vertentes estejam mais bem representadas no país e aprendam a dialogar com mais profundidade e sem caricaturas.”

Porém, o jornalista Marcio Campos, da Gazeta do Povo, publicou uma matéria intitulada Criacionismo recua nos Estados Unidos, na qual faz o seguinte comentário acerca da ABC2: “A ABC2 afirma, sim, que o material que difunde pende para a linha da ‘criação evolucionária’, que é a menos popular entre os protestantes brasileiros, mas que a instituição está aberta a defensores de todas as correntes, e por isso a entidade dá as boas-vindas ao núcleo do Mackenzie, esperando que ele não adote uma posição de isolamento.”

Também é importante mencionar que a ABC2 tem recebido recursos milionários da Fundação Internacional Templeton World Charity Foundation (TWCF), conhecida também como John Templeton Foundation. Dessa forma, eles têm organizado uma série de conferências em âmbito nacional e regional e produzido muitos materiais acessíveis como, por exemplo, cinco cursos a distância (EaD), texto escancaradamente evoteísta publicado em sua página sob o título “Criação,Evolução e Cristãos Leigos”, uma série de livros sobre ciência e religião, tal como o do título Deus e DarwinPensamento evolutivo e teologia natural, e documentários como “O Diálogo Entre Fé Cristã e Ciência no Brasil”.

Além disso, parece que a ABC2 tem flertado com a Biologos, instituição publicamente evoteísta fundada pelo Dr. Francis Collins, aquele do Projeto Genoma Humano. A Biologos admite o seguinte em seu “Quem somos”, no tópico “Missão”: “O BioLogos convida a igreja e o mundo a ver a harmonia entre a ciência e a fé bíblica à medida que apresentamos uma compreensão evolucionária da criação de Deus.” Uma coisa é certa: a ABC2 tem divulgado constantemente as conferências da Biologos.

Também tem traduzido e divulgado entrevistas com eminentes evolucionistas teístas em seu site como, por exemplo, a entrevista com Denis R. Alexander, autor do Livro Criação ou Evolução: Precisamos Escolher?, que chega a afirmar o seguinte em sua entrevista: “O que as igrejas precisam fazer é mostrar como a evolução, como uma teoria biológica, é perfeitamente compatível com uma fé cristã sólida. Isso significa que não há necessidade de rejeitar uma teoria tão bem fundamentada. Eu tenho sido um crente evangélico nos últimos 58 anos e nunca duvidei da teoria da evolução.”

Agora pergunto: Seria mera coincidência toda essa divulgação da ABC2 em prol do evoteísmo? Outra entrevista curiosa divulgada em seu site foi a realizada com o teólogo Dr. Gijsbert van den Brink da Faculdade de Teologia da Vrije Universiteit Amsterdam, na qual recomenda: “Os cristãos não deveriam investir energia no combate à teoria evolucionista, mas deveriam se concentrar em distinguir a sóbria teoria científica da evolução (grande parte dos quais são bastante convincentes) da ideologia anticristã do evolucionismo. É contra este último movimento cultural que a batalha espiritual tem de ser travada. Os cristãos não devem, no entanto, combater o que hoje em dia conta (por boas razões) como resultados estabelecidos da pesquisa científica.”

Recentemente, por fim, mais uma vez a mesma organização financiadora da ABC2 aqui no Brasil, a John Templeton Foundation, foi noticiada por meio de uma matéria na página do Instituto Smithsoniano, intitulada “Como falar com os evangélicos sobre a evolução”, como financiadora da popularização da macroevolução humana a partir dos fósseis de supostos hominídeos, lá nos EUA, para o público evangélico. A matéria diz: “Uma organização com bons recursos que apoia os esforços para trazer a harmonia entre a religião e a ciência.”

Mera coincidência ou decisões intencionais?

(Everton Alves)

Leia mais sobre evolucionismo teísta aqui.

sexta-feira, maio 04, 2018

A morte de Cristo e a incrível “coincidência” de terremotos em Jerusalém


Começarei este texto fazendo uma pergunta fundamental para a sociedade em que vivemos na qual a razão é posta acima de qualquer outro componente. Há evidências científicas sobre a crucificação de Jesus Cristo? Seria possível estudos científicos, 2000 anos depois, precisarem com exatidão a data em que tal evento aconteceu? A resposta é sim. Em 1983, artigo publicado na revista Nature, intitulado "Dating the Crucifixion" (Datando as crucificação, em português), escrito pelos astrônomos Colin Humphreys e Waddington, utilizaram dados históricos e astronômicos para se chegar a uma possível data (Humphreys e Waddington, 1983). O cálculo e outras investigações levaram os pesquisadores a concluírem que a provável data seria no dia 3 de abril do ano 33d.C., dia em que o fenômeno de uma "lua de sangue" devido a um eclipse lunar teria sido visível em Jerusalém.

Mas e quanto a narrativa bíblica de um terremoto? Há evidências de um terremoto em Jerusalém próximo a essa data? Bem, há quem diga que em Jerusalém não há movimentos sísmicos, falhas geológicas que possibilitem episódios de terremotos. Mas a Bíblia, especialmente no Evangelho de Mateus, capítulos 27:54 e 28:2, narra de forma sequencial a ocorrência de terremotos nos eventos da crucificação de Cristo e em Sua ressurreição. Ademais, também narra que, na crucificação de Jesus, próximo da hora “sexta” até a hora “nona”, houve “trevas”: “E, chegada a hora sexta, houve trevas sobre toda a terra até a hora nona” (Marcos 15:33). 

Evidências históricas confirmam o relato bíblico de um terremoto durante a morte de Cristo. O autor grego Flégon descreveu uma cronologia relacionada a um evento de terremoto que teria ocorrido durante a crucificação de Cristo, no tempo de Tibério César. Paul Maier, a respeito desse período de escuridão, em uma nota de rodapé do seu livro sobre Pôncio Pilatos (1968), diz: “Esse fenômeno, evidentemente, foi visível em Roma, Atenas e outras cidades do mediterrâneo. Segundo Tertuliano, [...] foi um evento ‘cósmico’ ou ‘mundial’. Flégon, um autor grego da Caria, escreveu uma cronologia pouco depois de 137 d.C. em que narra como no quarto ano das Olimpíadas de 202 (ou seja, 33 d.C.) houve um grande ‘eclipse solar’, e que ‘anoiteceu na sexta hora do dia [isto é, ao meio-dia], de tal forma que até as estrelas apareceram no céu. Houve um grande terremoto na Bitínia, e muitas coisas saíram fora de lugar em Nicéia’” (MAIER, Paul, Pontius Pilate, p. 366) (Strobel, 2001, p.86).

Se não bastasse, pesquisas científicas também têm corroborado os relatos históricos de Flégon, citado acima, bem como do historiador samaritano Talo, que escreveu em 52 d.C. acerca dessa mesma escuridão durante a morte de Cristo (McDowell, 1992). Ademais, os terremotos da Terra Santa têm sido evidenciados por escavações arqueológicas. Nenhuma outra região da Terra tem uma cronologia tão longa e bem documentada de grandes terremotos como a dessa região. Inclusive geólogos investigaram a cronologia de 4.000 anos das perturbações do terremoto nas camadas superiores de sedimentos laminados do Mar Morto (Ben-Menahem, 1991; Ken-Tor et al., 2001; Migowski et al., 2004; Agnon, Migowski e Marco, 2006).

Em 1994, a revista Israel Exploration Journal, editada pelo Instituto de Arqueologia da Universidade Hebraica publicou um artigo intitulado “Terremotos em Israel e áreas adjacentes: observações macrossísmicas desde 100 a.C.” Na página 265, eles listam um ligeiro terremoto em Jerusalém em 30 d.C. e um em 33 d.C., o que afetou a Judeia, Jerusalém, incluindo danos ao templo (Amiran, Arieh e Turcotte, 1994). 



Em 2012, um artigo publicado na revista International Geology Review apresentou evidências de um terremoto na Palestina por volta do ano 31 d.C., com precisão de ±5 anos (Williams, Schwab e Brauer, 2012). Levando em conta que o fim do ministério de Jesus é datado entre os anos 30 e 33 d.C., conforme artigo intitulado publicado na revista Nature (Humphreys e Waddington, 1983)e que o relato dos Anais do governador Tácito (XV, 44), além dos quatro evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João)corroboram que a crucificação ocorreu em uma sexta-feira, num período quando Pôncio Pilatos era procurador da Judéia, ou seja, entre 26 e 36 d.C., temos aí mais evidências científicas para a confiabilidade histórica das Escrituras.

Mapa do mar morto e arredores mostrando a localização central em Ein Gedi e a localização do afloramento em Nahal Ze’elim

Além disso, existe uma ampla lista bem documentada (aqui e aqui) de vários outros terremotos que teriam ocorrido próximos daquela mesma região em diferentes momentos da história humana. Mas o que nos chama a atenção é realmente o fato de as descobertas atuais da ciência apontarem para uma incrível “coincidência” que demonstraria a autenticidade do relato bíblico em relação aos eventos associados à crucificação de Cristo.

(Everton Alves)

Referências:
Humphreys CJ, Waddington WJ. "Dating the Crucifixion." Nature. 1983; 306:743-746.
Strobel L. Em defesa de Cristo, Vida, 2001.
McDowell J. Evidência que exige um veredito. Candeia: 1992, p. 81.
Ben-Menahem A. “Four Thousand Years of Seismicity along the Dead Sea Rift.” Journal of Geophysical Research. 1991; 96(B12):20195-20216.
Ken-Tor R, et al. “High-resolution Geological Record of Historic Earthquakes in the Dead Sea Basin.” Journal of Geophysical Research. 2001;106 (B2): 2221-2234;
Migowski C, et al. 2004. “Recurrence Pattern of Holocene Earthquakes Along the Dead Sea Transform Revealed by Varve-counting and Radiocarbon Dating of Lacustrine Sediments”. Earth and Planetary Sciences Letters. 222(1):301-314.
Agnon A, Migowski C, Marco S. “Intraclast Breccias in Laminated Sequences Reviewed: Recorders of Paleo-earthquakes.” In: New Frontiers in Dead Sea Paleoenvironmental Research. Enzel Y, Agnon A, Stein M (Eds.). Geological Society of America Special Paper 2006, v. 401, 195-214.
Amiran DHK, Arieh E, Turcotte. “Earthquakes in Israel and Adjacent Areas: Macrosismic Observations since 100 BCE.” Israel Exploration Journal 1994; 44:260-305.
Williams JB, Schwab MJ, Brauer A. “An early first-century earthquake in the Dead Sea.” International Geology Review 2012; 54(10):1219-1228.

quinta-feira, maio 03, 2018

Ontologia, leis físicas e a “atemporalidade” de Deus


Nosso artigo que toca na questão da relação de Deus com o tempo gerou comentários bastante interessantes. Parte dos comentários refere-se à falta de profundidade no que foi dito sobre o debate teológico em si, com suas várias posições, argumentos e contra-argumentos que foram propostos ao longo da história, bem como as diversas ideias que foram consideradas e aceitas por uns e descartadas por outros. Não são apenas duas posições, mas um espectro de ideias. É verdade que deixamos de comentar (intencionalmente) todo esse rico debate, até porque não era esse o foco do artigo. O objetivo era dizer que existe esse debate com dois pólos principais em relação à questão da temporalidade de Deus e que em boa parte ele tende a apoiar-se no vazio quando não leva em conta a natureza do tempo. E levar em conta a natureza do tempo é algo difícil quando não se sabe o que é o tempo, detalhe que só foi descoberto no século 20 e ainda permanece desconhecido para a maioria das pessoas. O resultado inevitável são argumentos razoáveis misturados com falácias, as quais parecem ao senso comum tão razoáveis quanto o restante. Nosso foco continua sendo esclarecer alguns detalhes do conhecimento técnico que temos atualmente e deixar para os teólogos aplicar o assunto ao debate sobre a temporalidade de Deus. Como fizemos antes, podemos exemplificar consequências e reformulação de conceitos. Em particular, qualquer cenário ou ideia na qual Deus seja incapaz de agir na história, ao longo do tempo, entra em conflito com a Bíblia. Qualquer ideia que limite Deus a uma linha de tempo qualquer entra em conflito com o que sabemos sobre o tempo e sobre Deus. Deus necessariamente existe independentemente do tempo e além dele, mas a palavra “independentemente”, aqui, tem um significado técnico que pode ser diferente do que alguns esperariam em um debate filosófico. De forma alguma significa que Deus não interage com o tempo.

Outro detalhe importante é a inadequação de linguagens não formais (não matemáticas) para lidar com esse tipo de assunto. Quando falamos em “interagir com o tempo”, por exemplo, em linguagem comum, as pessoas tendem a pensar em um processo, parte do qual ocorre fora do tempo. Evidentemente, isso não faz sentido, mas nos referimos a um tipo de relação que, pelo ponto de vista de quem vive a passagem do tempo, corresponde a um processo ao longo dele. Uma parte desse aspecto foi discutida por Agostinho, com base apenas em uma boa intuição sobre o tempo. Hoje, porém, temos conhecimentos para tratar desse assunto em muito maior profundidade e entrar seguramente em detalhes que em épocas anteriores não eram imaginados ou, em alguns casos, eram meras especulações.

Alguns dos comentários feitos indicam que precisamos discutir também certas questões periféricas para que o tema seja mais bem entendido. As reais implicações sobre o que sabemos hoje a respeito da natureza do tempo não parecem ter sido plenamente avaliadas, mesmo por alguns dos nossos leitores mais competentes que conhecem o debate teológico, mas que se beneficiariam de uma intuição mais profunda de aspectos físicos do problema. Infelizmente, essa percepção tende a ser bloqueada por alguns conceitos filosóficos que precisam de alguns ajustes para se encaixar no que a natureza nos revela.

Ontologia

Uma das questões levantadas nos comentários é sobre a ontologia do tempo e das leis físicas. A título de exemplo, em nosso artigo mencionamos o princípio da ação mínima como um exemplo de entidade atemporal que não apenas interfere, mas rege o que acontece ao longo do tempo. Isso foi recebido com estranheza por alguns. Afinal, o princípio da ação mínima pode ser considerado uma entidade? E o tempo? Seria uma entidade ou apenas um atributo do Universo? Nesse ponto temos um conflito de jargões de diferentes áreas. Além disso, existe uma questão conceitual que transcende à diferença de uso de palavras. Por essa razão, mesmo antes de discutirmos jargões, procuraremos comentar de maneira informal essa questão ontológica. Adiantamos, porém, que o conceito de entidade que utilizamos aqui também é bastante geral. Um atributo de qualquer coisa (ou pessoa) é uma entidade matemática. Mas o assunto principal agora é ontologia.

Para quem não está familiarizado com esse termo filosófico, ontologia diz respeito à essência do ser, o que ele é de fato; como as entidades se classificam e se relacionam em função de sua natureza mais fundamental.

Na cultura do último século no estudo da Física, tipicamente reservam-se questões ontológicas para filósofos. Físicos preocupam-se com comportamentos, em sentido amplo. Forma, cor, características, por exemplo, são comportamentos. Comportamentos em relação ao tempo representam apenas um dos tipos que estudamos. A rigor, o físico não pergunta o que é um elétron em sua essência, mas como ele se comporta. Qualquer coisa que se comporte como um elétron será chamada de elétron, por definição. A classificação é feita por meio do comportamento. Mas o que é um elétron, em última análise? Em princípio, essa não é uma pergunta para a qual o físico se julgue competente para procurar uma resposta. Eu disse “em princípio”.

Descoberta de leis

Esse jogo de quebra-cabeças que consiste em reunir pistas sobre como funciona a realidade física apresenta uma “virada” interessante quando se ligam alguns pontos. Para explicar que virada é essa e em que se baseia convém trazer à tona alguns detalhes mais relevantes da história das descobertas na área da Física.

Seguindo a proposta de Galileu e outros, Isaac Newton deu largos passos rumo a adotar uma forma de estudar a natureza utilizando métodos matemáticos de maneira mais sistemática. No processo, descobriu o Cálculo Diferencial e Integral (assim como Leibniz, independentemente). Isso foi essencial ao progresso dos últimos séculos, pois o estudo da realidade física tem o Cálculo como pré-requisito e não há como ir muito longe no estudo das leis da natureza sem um conhecimento sólido de equações diferenciais, que dependem do Cálculo. Usando essas ferramentas matemáticas descobertas no próprio mundo físico, Newton conseguiu formular três leis da Mecânica. Essas mesmas ferramentas matemáticas revelam um rico infinito além, o qual ainda mantém físicos e matemáticos ocupados até os dias atuais. É difícil até mesmo dar conta da quantidade de informações que jorram abundantemente da natureza quando usamos esses métodos. Comparado com isso, o conhecimento humano adquirido ao longo de dois milênios corresponde apenas a gotas.

Juntamente com a Teoria da Mecânica de Newton (três equações e suas consequências) havia uma série de ideias extras mantidas pelo próprio Newton e por outros. Entre elas, a de que o tempo seria algo absoluto. Nada nas leis de Newton diz isso, mas essa ideia era tida como verdadeira e afetava a maneira como as pessoas utilizavam as equações de Newton.

No século 19, James C. Maxwell descobriu a Teoria Eletromagnética, composta de quatro equações diferenciais vetoriais que regem os fenômenos eletromagnéticos, isto é, quase tudo o que existe no cotidiano, incluindo a Química, a Biologia e a tecnologia de aparelhos elétricos e eletrônicos. Tornou-se viável construir aparelhos que processam informações sofisticadas graças a essa teoria. O problema é que as equações do eletromagnetismo nos dizem que a velocidade de propagação das ondas eletromagnéticas é absoluta. Três possibilidades foram imaginadas: (1) houve erro na dedução das equações, (2) existe um referencial absoluto e aquela forma das equações só funciona nesse referencial ou (3) o tempo é relativo, o espaço é relativo, mas o espaço-tempo é absoluto. Até onde se pode medir e testar, a proposta (1) é falsa; as equações são válidas. O item (2) também demonstrou-se falso; as equações valem em qualquer referencial inercial. O item (3) deu origem à Relatividade Especial, demonstrando-se verdadeiro em cada um dos milhões de instâncias testadas até hoje. Mas a Relatividade Especial parecia gerar resultados bem diferentes dos da Teoria de Newton a altas velocidades. Contraria também a intuição comum e até hoje sofre críticas por isso, tipicamente com argumentos falsos, mas que parecem razoáveis. Um exemplo é o famoso pseudo-paradoxo dos gêmeos, simples de resolver mas que confunde alguns.

No início do século 20, outra descoberta importante ocorreu: descobriu-se que átomos possuem um núcleo eletricamente positivo com volume insignificante comparado com o tamanho total do átomo. E o núcleo contém quase toda a massa do átomo. Ao redor, temos elétrons, negativos. Imaginou-se o átomo como sendo semelhante ao Sistema Solar, com o núcleo fazendo o papel do Sol e os elétrons orbitando o núcleo como planetas. Mas a Teoria Eletromagnética dizia algo importante sobre isso: se os elétrons se movessem em trajetórias curvas ao redor do núcleo, irradiariam sua energia cinética e logo cairiam sobre o núcleo. Os átomos não seriam estáveis. Mas os átomos são estáveis. O que estava errado? A Teoria Eletromagnética ou a Teoria de Newton? Por que elas pareciam incompatíveis? Imaginou-se então que, no mundo microscópico, as leis de Newton não valeriam e que novas leis entrariam em vigor.

Essas coisas causaram uma espécie de crise filosófica entre físicos. Como entender esse fracasso de teorias bem testadas? Propôs-se que o papel dessas teorias não seria o de descrever hipóteses ontológicas, mas o de produzir resultados observáveis dentro de uma região de validade. As leis de Newton, por exemplo, seriam válidas somente para baixas velocidades e para o mundo macroscópico. Felizmente, esse não foi o fim da conversa. Algo muito interessante ocorreu em seguida e impôs mais um corretivo ao pensamento dos físicos. Infelizmente, a maioria parece ter parado na fase anterior.

Antes de prosseguir, precisamos comentar brevemente uma estrutura matemática chamada de espaço de Hilbert. E antes de falar nisso, precisamos comentar o conceito de vetor. Quem teve a oportunidade de cursar o Ensino Médio deve ter aprendido algo sobre vetores. Nesse nível, tipicamente, diz-se que eles possuem direção, módulo e sentido. Um exemplo disso é a velocidade. Para uma descrição da velocidade de algo, precisamos pelo menos do valor dessa velocidade (módulo: quantos quilômetros por hora) e para onde está indo o objeto em movimento. Na verdade, esse é apenas um dos tipos de vetores que existem. Existe uma infinidade de tipos de vetores e os respectivos espaços nos quais eles existem. Esses espaços consistem em um conjunto de vetores (tipicamente em quantidade infinita) juntamente com escalares (que podem ser números) e operações internas e externas a esses conjuntos. Usamos definições matemáticas rigorosas para defini-los e teoremas para lidar com eles. Uma das famílias de espaços vetoriais são os espaços de Hilbert. Eles são extremamente úteis para representar situações (estados) de sistemas físicos, entre outras coisas. Outro conceito importante é o de operador. Podemos, por exemplo, representar a velocidade de um avião por um vetor. Mas como representar um giro na trajetória causado pelo piloto? Trata-se de uma transformação que muda a velocidade do avião de um vetor para outro. Matematicamente, descrevemos isso como uma operação que aplicamos sobre um vetor e cujo resultado é outro vetor. A entidade matemática responsável por essa operação chama-se operador.

Voltemos à história das descobertas. Encontraram-se duas maneiras de estudar as leis do mundo microscópico (mundo quântico). Essas maneiras pareciam totalmente diferentes, mas davam os mesmos resultados. Examinando ambas, é possível notar que são instâncias de diferentes representações de operadores e vetores em espaços de Hilbert. As abordagens usadas até então para estudar o mundo microscópico (quântico) eram apenas dois exemplos de um conjunto infinito de representações possíveis de espaços de Hilbert. Cada direção nesse espaço representa um estado físico (no sentido de descrição completa do sistema, não se é sólido, líquido ou gasoso). Os operadores, que transformam um vetor em outro, correspondem a mudanças de estado físico, como no exemplo do operador rotação faz um avião desviar-se de sua trajetória original.

O interessante é que, ao contrário do que pareceu antes, as leis de Newton continuam perfeitamente válidas no mundo microscópico. O que não é válido é representar grandezas mensuráveis somente por números. Nesses domínios, é importante representar o ato de medir, sendo o resultado da medida insuficiente para descrever o que ocorre. O ato de medir corresponde a operadores no espaço de Hilbert. As leis da Mecânica Quântica são as leis de Newton expressas como representações de relações entre operadores no espaço de Hilbert.

E quanto à Relatividade? A Teoria de Newton não diz que o tempo é absoluto? De maneira nenhuma! Quando corretamente expressas, as equações de Newton não dizem que o tempo é absoluto. De fato, a Relatividade Especial consiste nas equações de Newton acrescidas de dois novos postulados (duas leis extras). Nada deixou de valer. Aliás, nenhuma teoria baseada em métodos matemáticos corretamente usados jamais deixou de valer diante de novas descobertas. De fato, ao testar novas teorias, uma das primeiras coisas que os físicos fazem é verificar se elas passam no princípio da correspondência: se uma teoria nova possui intersecção com uma teoria já testada em sua região de validade, então a nova teoria precisa concordar com a teoria anterior na região da intersecção. A realidade não muda. O que já funciona não pode parar de funcionar porque algo novo foi descoberto. A ideia de que teorias aceitas hoje podem ser rejeitadas amanhã é válida no âmbito do que deveria ser chamado de pseudociência ou falsa ciência. Na Ciência formal isso não acontece.

De volta à Mecânica Quântica, apesar de não se pretender utilizá-la para resolver questões ontológicas, ela se desdobrou em tantas consequências interessantes que fez com que os físicos e filósofos ficassem a debater até hoje em busca de maneiras de colocar tais achados em algum arcabouço filosófico (o matemático baseado em espaços de Hilbert já estava lá e resolveu os problemas com facilidade). Embora esse não seja o trabalho do físico, é difícil resistir a um apelo assim. Afinal, alguém precisa traduzir uma parte do que o formalismo matemático diz para que o conhecimento se espalhe na sociedade. Traduzi-lo inteiramente para uma linguagem humana é impossível, mas é importante traduzir o que for possível. Entre esses desdobramentos, existem alguns com implicações sobre a ontologia de tudo o que nos cerca. Mesmo que não seja isso o que os físicos procurem, teorias e frameworks científicos são descobertos e não inventados (ao contrário das teorias e frameworks pseudocientíficos), de forma que possuem vida própria e podem contrariar até mesmo seus formuladores (aqueles que encontraram maneiras de escrever as relações descobertas em linguagem formal). Uma consequência disso é que teorias científicas podem trazer informações inesperadas sobre a realidade, surpreendendo até seus descobridores. Isso, de fato, acontece com certa frequência quando se usam métodos matemáticos da Ciência. Muitas entidades e fenômenos desconhecidos foram descobertos dessa maneira muito antes de serem observados na prática.

Mecânica Quântica e Ontologia

Tentaremos agora prover um vislumbre de um detalhe do mundo quântico que traz em seu germe profundas implicações ontológicas.

Em condições normais, em um espaço-tempo de uma dimensão de tempo e três de espaço, existem dois tipos de partículas fundamentais: férmions e bósons. Exemplos de férmions: elétrons, prótons, nêutrons, neutrinos, quarks. Exemplos de bósons: fótons, glúons, W, Z. O que os distingue é uma propriedade chamada spin. Bósons possuem spin inteiro (ex.: 0, 1, 2, ...). Férmions possuem spin na forma n+½ (ex.: 1/2, 3/2, ...). Parece algo sem maiores consequências, mas não é. Uma consequência importante e não óbvia é que dois férmions não podem ocupar o mesmo estado quântico ao mesmo tempo (“princípio” da exclusão, que na verdade é um teorema). Bósons não possuem tal restrição. É graças a esse comportamento dos férmions que a Química existe. Sem essa propriedade, não haveria níveis eletrônicos estáveis acima do 1s. Não haveria ligações químicas. Não haveria moléculas, nem reações químicas, nem sólidos ou líquidos. Só haveria fluidos semelhantes a gases. A vida seria impossível. Nós não existiríamos. Na verdade, as consequências vão além disso, pois até os núcleos atômicos teriam propriedades tais que toda a matéria do Universo tenderia a colapsar gerando buracos negros. Mesmo que não houvesse o colapso, não haveria estrelas.

Mas o que exatamente isso tem a ver com ontologia? Nossa intuição sobre o assunto molda-se em um ambiente no qual não existem dois objetos exatamente iguais. Cada objeto (no sentido mais amplo da palavra, que inclui pessoas) tem sua identidade e pode ser distinguido dos demais. Nossa intuição ontológica e a filosofia que desenvolvemos a partir dela baseia-se nisso. No mundo microscópio, a partir de certo nível, a situação se inverte. Por exemplo, férmions (ex.: elétrons) só respeitam o princípio da exclusão se forem absolutamente indistinguíveis. Isso é mais profundo do que parece. Para que o “princípio” da exclusão funcione, não pode haver qualquer diferença, conhecida ou desconhecida, entre dois elétrons, dois prótons, e assim por diante. Mais do que isso, é preciso ser impossível até rotular dois elétrons para se dizer qual é o elétron 1 e qual é o elétron 2. Isso necessariamente é impossível. Eles precisam ser indistinguíveis no nível ontológico. Se houver qualquer maneira de atribuir-lhes alguma individualidade, a Química deixa de existir, levando-nos com ela.

A indistinguibilidade de férmions tem consequências fundamentais para a existência de tudo o que a humanidade conhece e experimenta. Mas bósons também são indistinguíveis de outros do mesmo tipo. Isso é uma característica geral da realidade física. É como se não existissem muitos elétrons, mas muitas cópias do mesmo elétron, cópias que não podem sequer ser rotuladas por serem ontologicamente idênticas. Se uma cópia pudesse ser identificada e distinguida das demais, não estaríamos aqui.

Isso tem consequências para o que é composto dessas partículas (ex.: matéria). Dois átomos de um mesmo tipo (ex.: C-12) que estiverem no mesmo estado nuclear e eletrônico são absolutamente indistinguíveis.

Mas, então, como é possível haver objetos diferentes, distinguíveis? Estados podem ser identificados. Estados são informação. Informação permite ontologia física. Duas moléculas exatamente com a mesma composição, mas em estados diferentes são distinguíveis. Estados podem ser transferidos de um material para outro. Isso equivale a teletransporte, já que a ontologia está nos estados. Não são as partículas que nos compõem que nos conferem identidade. Nossa identidade compõe-se de informação, não de matéria.

São as propriedades e os estados dos sistemas físicos que lhes conferem identidade, que os tornam acessíveis a considerações ontológicas.

Nosso objetivo aqui foi o de dar um vislumbre sobre o tipo de coisas que encontramos no estudo da realidade física que nos forçam a repensar o que aprendemos em Filosofia e a utilizar novos conceitos ou a redefinir os antigos.

Propriedades, características, possuem, no mínimo, tanto direito a ser chamadas de entidades quanto partículas ou coisas compostas por elas. Isso inclui o tempo, que é uma propriedade do espaço-tempo, que é o “tecido” do qual o Universo é feito. As leis físicas também possuem existência bem real e são elas que permitem a existência de outras ontologias. Merecem ser chamadas de entidades, embora não sejam seres conscientes, mas apenas padrões matemáticos que permitem que tudo exista e funcione.

Deus é a entidade coerente máxima, o que Lhe confere não apenas consciência em um nível inatingível para seres finitos (onisciência), mas uma infinidade de outras características que sequer podemos imaginar, muitas das quais temos aprendido a estudar graças à enxurrada de conhecimentos específicos sobre o Criador proporcionados pela natureza, depois de destrancarmos a porta com a chave provida pela Bíblia, chave essa chamada Ciência formal (matemática). A onisciência divina é de tal natureza que dispensa o tempo de tal maneira que implica em que Ele tenha características de um Ser Pessoal. Uma familiarização com teoremas ontológicos e suas consequências torna isso até intuitivo. Contudo, precisamos ter em mente que a intuição não é um guia seguro fora dos domínios do cotidiano, o que nos força a depender muito mais da Matemática, que se tem demonstrado sempre confiável. Seres finitos não poderiam ter essa propriedade independentemente do tempo, pois dependem de processos mentais ao longo do tempo para ter consciência. Mas isso abre outra longa questão cuja complexidade técnica exige ainda mais esforço didático do que o que acabamos de apresentar.

(Eduardo Lütz é astrofísico e engenheiro de software)

Arqueólogos descobrem evidências do reino de Davi


Todo mundo que tem um pouco de familiaridade com a Bíblia já deve ter escutado falar da famosa disputa entre Davi e Golias. Um jovem pastor de Belém que derrotou o gigante filisteu para conquistar a confiança do rei hebreu Saul, tornando-se imperador entre os séculos 11 e 10 a.C., unindo o povo de Israel. Nas últimas décadas, porém, cada vez mais pesquisadores começaram a questionar a real existência do reino de Davi. Afinal, não havia evidências de construções reais no local onde o reino deveria ter sido erguido. Assim, concluíram que os governadores locais, naquele tempo, controlavam apenas a região de Jerusalém e as redondezas. Nada parecido com um grande e unido reino. O mais parecido com isso era a “Residência do Governador”, uma construção destruída no século 8 na invasão Assíria. As ruínas, porém, resguardam características da arquitetura típica dos povos de Israel, sem influência dos Filisteus, por exemplo, o que indica que só foi construída muitos séculos depois do reino de Davi.

Um estudo recém-publicado pelos arqueólogos Avraham Faust e Yair Sapir, no jornal Radiocabon, dá sobrevida à ideia da existência do reino. “Surpreendentemente, as datas de radiocarbono da fundação que foi colocada abaixo do piso indicam que o edifício já havia sido erguido no século 10 a.C., entre o fim do século 11 e o terceiro quarto do século 10 a.C.”, afirma Faust.

Segundo os pesquisadores, o engano foi causado pelo que conhecemos como “efeito casa velha”, no qual uma construção antiga existe por muitos séculos, porém guarda registros somente de sua última fase. “As fases anteriores são dificilmente representadas nas pesquisas, pouco estudadas e raramente publicadas”, diz o estudo.

Apesar do achado, ainda é pouco para garantir a existência real de um reino de Davi, mas serve como alerta para os arqueólogos de todo o mundo. “Nós sugerimos que o efeito casa velha influencia interpretações arqueológicas em todo o mundo, e é também responsável pelas recentes tentativas de rebaixar a complexidade social na Judá”, conclui a publicação.

quarta-feira, maio 02, 2018

A Bíblia e os unicórnios

Quando lemos as Escrituras Sagradas, encontramos termos interessantes que despertam a curiosidade. Às vezes, são simples problemas de tradução ou palavras que têm duplo significado. Um problema desses é referente ao "unicórnio bíblico". "Salva-me da boca do leão; sim dos chifres dos unicórnios… tu me respondeste", diz o Salmo 22:21. E em Salmo 29:6 lemos: "E os faz saltar como um bezerro, O Líbano e o Siriom como um filho de unicórnio." Esses textos foram tirados da versão King James em inglês e mostram a descrição de um animal que era chamado de "unicórnio". Porém, seria o animal mitológico que tinha a forma de um cavalo com um único chifre em espiral e possuía poderes mágicos?

Detalhe de um antigo mosaico do assoalho da Basílica de San Giovanni Evangelista, Ravenna, datado do ano 1213
O erro está na tradução para outras línguas. As Escrituras originais mencionam nove vezes um animal pelo termo hebraico re’ém, רֶאֵם (Isaías 34:7; Jó 39:9,10; Números 23:22; 24:8; Deuteronômio 33:17; Salmos 22:21; 29:6; 92:10).

A Bíblia Septuaginta grega trocou o termo re’ém para monokeros (mono = um; keros = corno ou chifre) dando o sentido de “um só chifre”, ou “unicórnio”.

A Bíblia Vulgata latina frequentemente traduz o termo re’ém para “rinoceronte”.

A Bíblia traduzida de Lutero (Luther Bibel 1545) traduz o termo re’ém para einhörner (ein = um; horner = chifre), que também significa único chifre, ou unicórnio.

Então, como vemos, o termo "unicórnio", na Bíblia, se referia a alguma espécie que tinha apenas um chifre. Poderia ter sido o rinoceronte ou alguma outra espécie extinta. O elasmotherium pode ter dado origem ao mito moderno do unicórnio, como descrito por testemunhas na China e na Pérsia.

Ilustração do elasmotherium
Ahmad ibn Fadlan, viajante muçulmano cujos escritos são considerados uma fonte confiável, diz ter passado por locais em que homens caçavam o animal. Fadlan, inclusive, afirma ter visto potes feitos com chifres do unicórnio.

Em 1663, perto de uma caverna na Alemanha, foi encontrado o esqueleto de um animal que, especulava-se, seria um unicórnio. As ossadas encontradas na Alemanha eram possivelmente de mamute com outros animais, montados por humanos de forma equivocada. A caveira estava intacta e com um chifre único no meio, preso com firmeza. Cerca de 100 anos depois, uma ossada semelhante foi encontrada perto da mesma caverna. Os dois esqueletos foram analisados por Gottfried Leibniz, sábio da época, que declarou que (a partir das evidências encontradas) passara a acreditar na existência de unicórnios.

A conclusão óbvia é que animais de um chifre só existiram e podem ter povoado a mente e as histórias de muitos. Sem nada místico ou mágico, apenas um animal.


Leia mais sobre o unicórnio aqui.

Estudo de Harvard conclui que dieta vegetariana pode prevenir uma em três mortes prematuras


Segundo um novo estudo da Universidade de Harvard, nos EUA, um terço de todas as mortes prematuras poderia ser evitado por uma dieta vegetariana. Essas descobertas indicam que temos subestimado enormemente os benefícios de uma dieta baseada em vegetais. Os resultados da pesquisa foram apresentados na 4ª Conferência Internacional do Vaticano na Cidade do Vaticano, pelo pesquisador Dr. Walter Willett, professor de epidemiologia e nutrição da Faculdade de Medicina de Harvard. Willett disse na conferência: “Acabamos de fazer alguns cálculos olhando para a questão de quanto poderíamos reduzir a mortalidade mudando para uma dieta saudável, mais baseada em vegetais, não necessariamente totalmente vegana, e nossas estimativas são de que cerca de um terço das mortes precoces poderia ser evitado.”


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quinta-feira, abril 26, 2018

Cérebro humano é capaz de trabalhar com onze dimensões


Usando a topologia algébrica, um campo da matemática que faz a associação entre estruturas algébricas e um espaço topológico com o objetivo de obter informações sobre esse espaço, uma equipe de pesquisadores descobriu um universo de estruturas geométricas multidimensionais e espaços dentro das redes do nosso cérebro. Essa abordagem, nunca usada na neurociência, apresentou resultados surpreendentes. Segundo o estudo, realizado no ano passado, o cérebro humano está cheio de estruturas geométricas multidimensionais operando em até 11 dimensões. Estamos acostumados a pensar no mundo a partir de uma perspectiva 3D, então isso pode soar um pouco complicado, mas os resultados desse estudo podem ser o próximo passo na compreensão do tecido do cérebro humano, a estrutura mais complexa que nós conhecemos.

Esse modelo cerebral foi produzido por uma equipe de pesquisadores do Blue Brain Project, uma iniciativa de pesquisa suíça dedicada a fazer uma reconstrução do cérebro humano alimentada por um supercomputador. Os pesquisadores descobriram que os neurônios se conectam em “grupos”, e que o número de neurônios em um grupo levaria ao seu tamanho como um objeto geométrico de alta dimensão (um conceito dimensional matemático, não do espaço-tempo).

“Encontramos um mundo que nunca havíamos imaginado”, disse o pesquisador-chefe, o neurocientista Henry Markram, do Instituto EPFL, na Suíça. “Há dezenas de milhões desses objetos, mesmo em uma pequena partícula do cérebro, através de sete dimensões. Em algumas redes, encontramos estruturas com até 11 dimensões.”

Essas dimensões não são as mesmas que vemos em nosso mundo – as três espaciais e mais uma dimensão de tempo. Em vez disso, elas se referem a como os pesquisadores analisaram os grupos de neurônios para determinar como eles estão conectados. “As redes são frequentemente analisadas em termos de grupos de nós que estão todos conectados a todos, conhecidos como cliques. O número de neurônios em um grupo determina seu tamanho, ou mais formalmente, sua dimensão”, explicam os pesquisadores no artigo.

Markram sugere que isso pode explicar por que é tão difícil entender o cérebro. “A matemática geralmente aplicada para estudar redes não consegue detectar as estruturas e espaços de alta dimensão que agora vemos claramente.” Calcula-se que os cérebros humanos tenham impressionantes 86 bilhões de neurônios, com múltiplas conexões de cada célula em todas as direções possíveis, formando a vasta rede celular que de alguma forma nos torna capazes de pensar e ter consciência. Com um número tão grande de conexões para trabalhar, não é de admirar que ainda não tenhamos uma compreensão completa de como funciona a rede neural do cérebro.

A estrutura matemática construída pela equipe nos leva um passo mais perto de um dia ter um modelo cerebral digital. Para realizar os testes matemáticos, a equipe usou um modelo detalhado do neocórtex que eles mesmos criaram em 2015. Acredita-se que o neocórtex seja a parte mais recentemente desenvolvida [sic] de nossos cérebros, e esteja envolvida em algumas de nossas funções de ordem superior, como a cognição e percepção sensorial.

Depois de desenvolver sua estrutura matemática e testá-la em alguns estímulos virtuais, a equipe também confirmou seus resultados em tecido cerebral real de ratos. De acordo com os pesquisadores, a topologia algébrica fornece ferramentas matemáticas para discernir detalhes da rede neural tanto em uma visão de perto no nível de neurônios individuais, quanto em uma escala maior da estrutura do cérebro como um todo. Ao conectar esses dois níveis, os pesquisadores puderam discernir estruturas geométricas de alta dimensão no cérebro, formadas por coleções de neurônios fortemente conectados e os espaços vazios entre eles.

“Encontramos um número e uma variedade notavelmente elevados de grupos e cavidades dirigidas de alta dimensão, que não haviam sido vistas antes em redes neurais, biológicas ou artificiais”, escreveu a equipe no estudo. “A topologia algébrica é como um telescópio e um microscópio ao mesmo tempo”, explica a matemática Kathryn Hess, da EPFL. “Ele pode ampliar as redes para encontrar estruturas escondidas, as árvores na floresta e ver os espaços vazios, as clareiras, tudo ao mesmo tempo.”

Essas clareiras ou cavidades parecem ser criticamente importantes para a função cerebral. Quando os pesquisadores deram um estímulo ao tecido cerebral virtual, viram que os neurônios estavam reagindo de maneira altamente organizada. “É como se o cérebro reagisse a um estímulo construindo e depois destruindo torres de blocos multidimensionais, começando com hastes (1D), depois pranchas (2D), depois cubos (3D) e geometrias mais complexas com 4D, 5D, etc.”, explica outro membro da equipe, o matemático Ran Levi, da Universidade Aberdeen, na Escócia. “A progressão da atividade através do cérebro se assemelha a um castelo de areia multidimensional que se materializa a partir da areia e depois se desintegra.”

Essas descobertas fornecem uma nova imagem de como o cérebro processa informações, mas os pesquisadores apontam que ainda não está claro o que faz com que os grupos de neurônios e as cavidades se formem em suas formas altamente específicas.

Outras pesquisas serão necessárias para determinar como a complexidade dessas formas geométricas multidimensionais formadas por nossos neurônios se correlaciona com a complexidade de várias tarefas cognitivas.

Agora os pesquisadores querem saber se a complexidade das tarefas que podemos realizar depende da complexidade dos “castelos de areia” multidimensionais que o cérebro pode construir. A neurociência também tem lutado para descobrir onde o cérebro armazena as nossas memórias. Markran tem um palpite: “Elas podem estar ‘escondidas’ em cavidades de alta dimensão.”


Leia mais sobre essa maravilha de design chamada cérebro. Clique aqui. 

quarta-feira, abril 25, 2018

Existência de água antes da semana da Criação?


Muitos leitores nos têm enviado perguntas relacionadas a dúvidas sobre se o Universo é jovem ou antigo. Algumas dessas questões foram selecionadas e serão respondidas por um de nossos especialistas deste blog. A missão foi designada, é claro, para o nosso astrofísico Eduardo Lütz, palestrante oficial da Sociedade Criacionista Brasileira.

Gênesis 1:2 menciona a existência de água líquida antes da semana da criação. A presença de água nesse estado dependeria da existência de fótons?

Exegeticamente, existe a possibilidade de que essa água tenha sido criada juntamente com o planeta no primeiro dia da semana de Gênesis 1, embora não pareça possível provar isso. Isso nos leva à questão: Qual a implicação da existência de água (mencionada no verso 2) antes do “haja luz” (verso 3)? A água, como qualquer outra substância, é feita de moléculas. Moléculas são feitas de átomos conectados por forças eletromagnéticas. A própria estrutura do átomo existe por causa de forças eletromagnéticas, pois é esse tipo de interação que mantém a eletrosfera (nuvem eletrônica) presa ao núcleo do átomo. As interações eletromagnéticas consistem em fótons virtuais e reais. Não existem interações eletromagnéticas sem fótons. Sem interações eletromagnéticas, não há átomos, nem moléculas, nem matéria como a conhecemos. 

Em outras palavras, sem fótons não existe água. Uma implicação imediata disso é que “haja luz” não pode significar criação de fótons pela primeira vez no Universo, como alguns interpretam. De fato, os versos seguintes esclarecem que o assunto é o ciclo noite-dia, ou seja, o ajuste de período de rotação da Terra, não a criação de luz no Universo.
Ainda que gênesis estivesse se referindo a água em sua forma sólida, água depende de fótons para existir, independentemente de ser líquida, sólida ou qualquer outro estado que se imagine ou venha a ser descoberto desde que ainda possa ser chamado de água.

Esses fótons não teriam vindo da glória de Deus antes do “haja luz”?

Fótons existem em um nível muito fundamental. São criados e destruídos continuamente pelo próprio vácuo (espaço-tempo). E a criação do espaço-tempo causa a criação de uma tremenda quantidade de fótons que inunda o Universo em uma fração ínfima de segundo após a criação do espaço-tempo e antes de a coalescência dessa energia toda poder formar a matéria. Não há como haver matéria sem antes ter sido criada a luz.

A glória de Deus ao Se manifestar no Universo inclui fótons, entre outras coisas, segundo as descrições bíblicas. Mas é a criação do espaço-tempo que induz a criação de energia, que excita o vácuo, que produz partículas, incluindo fótons. E isso teria ocorrido antes.

O “haja luz” significa “haja dia”, referindo-se ao ajuste do período de rotação da Terra, conforme explicam os versos seguintes. Quando Deus disse “haja luz”, já havia até pessoas vivendo no Universo (Jó 38:7, por exemplo). Sem fótons, essas pessoas não existiriam ou, se fosse possível existirem, viveriam em trevas. Resumindo: não existe matéria sem fótons, mas já existia água antes do “haja luz”; logo, “haja luz” não pode ser a criação de fótons que ocorreu logo após a criação do Universo. Essa criação original de fótons precedeu à criação da matéria como a conhecemos.

Seria possível a glória de Deus, e não um sistema solar já pronto, ser a fonte de fótons que mantivesse a água preexistente no estado líquido (Gn 1:2) antes da semana da Criação, e que nutrisse as plantas antes que a luz do sistema solar viesse a existir no quarto dia?

Em princípio, sim, mas essa ideia gera complicações. E já haveria fótons no Universo antes do “haja luz” (até porque as imagens que recebemos de objetos distantes são muito mais antigas do que a criação da Terra, e essas imagens são feitas de fótons). Mas quanto a Deus ter feito o papel do Sol antes do quarto dia, essa ideia não é absurda, porém, não se encaixa bem no resto do padrão da criação. Note que, ao longo de todo o capítulo 1 de Gênesis, Deus cria primeiro as condições para depois criar o que depende delas. No caso do Sol, estaria fazendo o contrário. Para quê? Deixar para criar o Sol no quarto dia seria uma forma possível, porém, mais complicada de resolver um problema, o que iria contra o princípio da otimização (mais conhecido como princípio da ação mínima), que é a lei mais fundamental, da qual se podem deduzir as demais. Por outro lado, tornar a atmosfera transparente somente no quarto dia faz sentido em função do mesmo princípio. Aí, o Sol, a Lua e as estrelas apareceriam (se tornariam visíveis desde o ponto de referência da Terra) no céu em função disso.