Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta elo perdido. Ordenar por data Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta elo perdido. Ordenar por data Mostrar todas as postagens

quinta-feira, outubro 22, 2009

Novo fóssil põe "elo perdido" sob suspeita

Um grupo independente de cientistas analisou o fóssil de primata propagandeado em maio deste ano como "o elo perdido" da evolução humana e chegou a uma conclusão não muito empolgante: o bicho é provavelmente só um primo antigo e esquisito dos lêmures. Se eles estiverem corretos, o alarde midiático organizado em torno de "Ida, o elo perdido", ou Darwinius masillae, como o animal foi batizado oficialmente, pode se tornar um dos casos clássicos em que a vontade de chamar a atenção do público atropelou a ciência. Afinal, a descrição científica de Ida foi coreografada com o lançamento de documentários, sites, livros e de um evento para a imprensa no qual os pesquisadores responsáveis por estudá-la compararam o fóssil com a Mona Lisa e com o Santo Graal, afirmando que ele mudava tudo o que se sabia sobre a evolução humana.

À época, boa parte da comunidade científica concordou que se tratava de um exemplar belíssimo. Diferentemente dos outros primatas antigos, Ida, com quase 50 milhões de anos de idade [sic], teve seu esqueleto completo preservado - sem falar na presença de pelos e até do conteúdo digestivo do animal. Mas poucos concordaram com a sugestão de que o fóssil representava um ancestral direto dos antropoides, a linhagem de macacos que acabou desembocando no homem.

No novo estudo, que está na revista científica Nature desta semana, a equipe coordenada por Erik Seiffert, da Universidade de Stony Brook (EUA), compara Ida a uma nova espécie de primata extinto descoberta por eles no Egito.

Trata-se do Afradapis longicristatus, que é 10 milhões de anos [sic] mais novo que o suposto elo perdido, mas, ao que tudo indica, é um parente próximo de Ida, a julgar pela análise detalhada da mandíbula e dos dentes da espécie africana (aliás, esses são os únicos materiais preservados do bicho).

Seiffert e companhia também compararam Ida, o novo primata e outras 117 espécies vivas e extintas de primatas, levando em conta uma lista de 360 características do esqueleto. Essa comparação extensa, que não foi feita na descrição original de Ida, ajuda a estimar quais traços dos bichos realmente se devem ao parentesco e permite montar uma árvore genealógica dessas espécies.

O veredicto: Ida seria apenas uma prima muito distante do grupo que inclui o homem [sic], estando bem mais perto dos lêmures atuais. As semelhanças superficiais dela com o grupo dos antropoides seriam explicadas por evolução convergente - ou seja, porque ambos os grupos adotaram estilos de sobrevivência parecidos.

"São características relacionadas ao encurtamento do focinho e ao processamento de alimentos relativamente duros, como folhas", explica Seiffert. O pesquisador aponta o que, para ele, foi o principal erro da equipe que descreveu Ida. "Acho que eles deveriam ter feito comparações mais detalhadas com os mais antigos antropoides indiscutíveis. Eles teriam visto que traços como a fusão das duas metades da mandíbula, que não aparecem nesses antropoides [mas aparecem em Ida], não poderiam ser um elo entre Ida e eles."

Philip Gingerich, paleontólogo da Universidade de Michigan e um dos "pais" de Ida, não concorda. "Acho esquisito que o Afradapis seja muito parecido com os antropoides, mas acabe classificado em outro grupo. A ideia de convergência parece implausível", diz ele.

Aliás, argumenta Gingerich, "o Darwinius [Ida] conta com um esqueleto muito mais completo que o do Afradapis, e ele apresenta características adicionais de primatas avançados que não aparecem na análise".

(Folha Online)

Nota: Pelo visto, é outra novela que renderá muitos capítulos. Mas os seguidores de Darwin não poderiam perder a chance de celebrar afoitamente o achado, batizando-o inclusive com o nome de seu ídolo. Infelizmente, para eles, o novo elo perdido perdido poderá é estragar a festa darwinlátrica.[MB]

sexta-feira, maio 02, 2008

Examinando o Australopithecus anamensis

Destaquei recentemente como a cobertura do Tiktaalik revelava o fenômeno fascinante, que somente após descobrir um novo “elo perdido” é que os evolucionistas irão reconhecer o prévio estado insignificante de evidência fóssil a favor da evolução. Esse comportamento é novamente visto na cobertura da descoberta dos fósseis de Australopithecus anamensis na Etiópia. A mídia também exagerou e extrapolou as afirmativas de que essa evidência apóia a “evolução humana”.

O mais novo “elo perdido” é, na verdade, composto de alguns dentes e fragmentos de ossos de A. anamensis, uma espécie tipo macaco que viveu um pouco mais de 4 milhões de anos atrás. Incrivelmente, afirmações de “aspecto intermediário” são baseadas em 2-3 dentes caninos fragmentados de tamanho e formato “intermediários”. Isso agora terminou em grandes afirmações na mídia quanto à descoberta de um “elo perdido”. Porque alguns fragmentos de ossos de Ardipithecus ramidus e Australopithecus afarensus também foram encontrados na área, a MSNBC destacou essas descobertas num artigo de primeira página chamando isso de “até aqui a mais completa corrente de evolução humana”. A cobertura da mídia dessa descoberta segue então um padrão idêntico àquele do Tiktaalik: afirmações incrivelmente exageradas de um “fóssil transicional” foram seguidas de admissões desagradáveis de quão previamente insignificante foi a evidência a favor da evolução. Além disso, as afirmações de que essa descoberta ilumina a “evolução humana” são enganadoras, pois esses fósseis vêm de uma espécie tipo macaco que há muito antecede o surgimento do nosso gênero Homo, e tido como removido da origem dos “humanos”. [NOTA BENE!!!]

** A EVOLUÇÃO ERA "OBSCURA" ANTES E É OBSCURA AGORA

Conforme destacado, os evolucionistas somente admitem quão frágil a evidência foi a favor da evolução após terem algum fóssil novo supostamente “transicional” em suas mãos. Compare quão idêntica dicção foi usada na Nature para conceder à evidência previamente “obscura” a favor do tetrápode, e depois agora com a evolução australopitecínea após terem sido feitas recentes descobertas:

Tiktaalik: “A origem das principais características de tetrápodes tem permanecido obscura pela falta de fósseis que documentem a seqüência das mudanças evolutivas.” (Daeschler et al., “A Devonian tetrapod-like fish and the evolution of the tetrapod body plan”, Nature, Vol. 440:757-763 [April 6, 2006]; ênfase adicionada).

Australopithecus: “Até recentemente, as origens do Australopithecus eram obscurecidas por um registro fóssil esparso.” (White et al., “Asa Issie, Aramis and the origin of Australopithecus”, Nature, Vol. 440:883-889 [April 13, 2006]; ênfase adicionada).

Aparentemente o artigo da MSNBC até se sentiu confortável em admitir que nunca tínhamos anteriormente uma seqüência contínua de fósseis documentando a “evolução humana” em um só lugar: “Até agora o que os cientistas tinham eram fotos da evolução humana espalhadas ao redor do mundo. Encontrar tudo numa área geral faz daquelas fotos mais do que um mini-filme caseiro de evolução” ("Fossil discovery fills gap in human evolution", por Seth Borenstein, Associated Press, 4/12/06).

É claro que a falta de um “mini-filme caseiro” nunca importunou antes aos evolucionistas: os críticos têm sido solicitados a não pedir seqüências contínuas de fósseis exibindo a evolução porque as espécies podem migrar, e freqüentemente a evolução ocorre em pequenas e isoladas populações que não ficam preservadas como fósseis. Como Niles Eldredge disse uma vez, a evolução parece sempre “ocorrer em algum outro lugar”. Não esperaríamos encontrar uma seqüência contínua de fósseis de espécies todas evoluindo num só lugar; pelo menos foi isso que nos disseram antes que eles encontrassem esses espécimes de fósseis.

Se a origem do Australopithecus foi previamente “obscurecida por um esparso registro fóssil”, então alguém presumiria que agora temos as respostas. Resulta que a evidência ainda permanece muito “obscura”.

** O QUE ELES REALMENTE ACHARAM?

O que realmente foi encontrado tem sido reportado como nada “novo”, apenas uma nova “localidade” interessante: “A espécie anamensis não é nova, mas a sua localização é o que ajuda a explicar a mudança de uma fase inicial de desenvolvimento do tipo humano para a próxima, disseram os cientistas” (Artigo da MSNBC, ênfase adicionada).

De acordo com o artigo notícia da National Geographic, a descoberta consistia “principalmente de fragmentos de osso mandibular, dentes superiores e inferiores, e um fêmur” – não é uma série impressionante de ossos. O artigo da Nature destaca que os dentes que eles encontraram não são nenhuma novidade porque eles “definitivamente classificaram a amostra de Asa Issie dentro dos limites esperados de variação do A. anamensis” (Nature 440:883-889.) Em outras palavras, eles descobriram alguns dentes e fragmentos de ossos representativos de uma espécie preexistente – nada realmente novo!

** ELO PERDIDO OU DENTES PERDIDOS?

Incrivelmente, toda a afirmação de que esta espécie representa uma “forma transicional” é devida a ALGUNS DENTES [ênfase inexistente] que têm tamanho intermediário: “Isso parece ser o elo entre o Australopithecus e o Ardipithecus como duas espécies diferentes”, disse White. “A principal diferença perceptível entre as fases do homem podem ser vistas nos maiores dentes mastigadores do Australopithecus para comer comida mais dura, disse ele" (Artigo da MSNBC).

Se esta nova evidência incrível não chega a fazer de você um convertido, considere então o modo impressionante como a Grande Mídia disse ser essa evidência: “O mais recente fóssil descoberto de um sítio importante de ancestrais humanos na África permite que os cientistas conectem a mais completa corrente de evolução humana até aqui” (Artigo da MSNBC).

NOTA BENE: É aqui que os evolucionistas cometem o seu erro de relações públicas: se esta é “a corrente mais completa”, então a sua melhor “corrente” tem um punhado de “elos perdidos”. Esses fragmentos ósseos supostamente nos informam que o gênero tipo macaco Australopithecus evoluiu de um gênero tipo macaco Ardipithecus. Vamos considerar atentamente os três gráficos para determinarmos quão impressionante esta evidência é na verdade:

1. Foto dos fragmentos de osso e dentes que vieram deste “elo perdido”:



2. Figura 3 de White et al.: As figuras 3a e 3b mostram os dentes colados e/ou os fragmentos de dentes que formam toda a base para chamar esta descoberta de “intermediária”. Essa é toda a base para as afirmações dos autores e da mídia de que isso é um “elo perdido”. Em 3b há dois dentes caninos, que formam a base das afirmações de “intermediário”. Nas figuras 3d - 3g, os dados do novo “intermediário” são representados nas colunas ASI 2&5, que consite de 2-3 exemplares de dentes (vistos no pequeno quadrado 2-3 destacado naquela coluna).


(Adaptado com permissão de Macmillan Publishers Ltd: Nature, T. D. White et. al. “Asa Issie, Aramis and the origin of Australopithecus”, 440:886 [2006].)

3. Figura 4 de White et al.: A figura 4a mostra exatamente o que foi transicional nesta espécie A. anamensis: a sua “robustez mastigatória” (em outras palavras, a capacidade de mastigar material mais duro). Falando sério, eu não estou brincando: isso forma a base das afirmações dos autores e da mídia de que isso é um “elo perdido”. A evidência da evolução é tão abundante [nota: meu sarcasmo] que quando comparando os modelos evolutivos nas figuras 4b e 4c, eles explicam que “nenhma das hipóteses pode ser falsificada com as densidades de amostras disponíveis” porque o registro fóssil é muito pobre. Tudo bem: mas isso deveria nos ajudar a entender o estado da evidência se isso é “a mais completa corrente de evolução humana até aqui”.


(Adaptado com permissão de Macmillan Publishers Ltd: Nature, T. D. White et. al., “Asa Issie, Aramis and the origin of Australopithecus”, 440:886 [2006].)

Como um cético do neodarwinismo, tudo que eu peço é por favor não me joguem nessa armação de fragmentos (algumas vezes colados) de dentes de “formato/tamanho intermediários” de espécies hominídeas já previamente conhecidas!

** COLOCANDO A EVIDÊNCIA EM PERSPECTIVA

O Australopithecus foi um gênero tipo macaco considerado ter vivido há cerca de 1-4 milhões de anos, e alguns de seus membros são considerados como tendo evoluído em nosso gênero Homo cerca de 2 milhões de anos atrás. Mas esse local [na Etiópia] não implica em fósseis de Homo, nem isso mostra a não ser fragmentos muito antigos de Australopithecus e alguns fragmentos de Ardipithecus. Esta descoberta não documenta nada sobre a evolução de nosso gênero Homo atual. Então por que esses artigos da mídia afirmam ERRONEAMENTE [ênfase inexistente] que essa evidência documenta a “evolução humana”?

E o que dizer daqueles “elos” mais distantes na “corrente” mostrando como que o Australopithecus evoluiu em Homo? Considere atentamente o que alguns autores escreveram num artigo que não foi destacado na primeira página do MSNBC: “A amostra de anatomia do H. sapiens mais antigo [aqui significando o Homo erectus & Homo ergaster] indicam modificações significantes do genoma ancestral, e não é simplesmente uma extensão de tendências evolutivas de uma linhagem australopitecínea mais antiga por todo o Plioceno. Na verdade, a sua combinação de características nunca aparece mais cedo...” (Hawks, J., Hunley, K., Sang-Hee, L., Wolpoff, M., “Population Bottlenecks and Pleistocene Evolution”, Journal of Molecular Biology and Evolution, 17(1):2-22 [January, 2000]).

A MSNBC nunca destacou este artigo na sua primeira página porque os autores disseram que a origem do Homo exigia “uma revolução genética” onde “nenhuma espécie australopitecínea é obviamente transicional”. (Desculpem, mas o A. habilis não serve como exemplo.) Um comentarista até chamou o estado da evidência como mostrando uma “teoria big bang” de evolução humana (vide “New study suggests big bang theory of human evolution”). Talvez isso seja devido ao fato de que “os primeiros membros do Homo sapiens são realmente bem distintos dos seus predecessores e contemporâneos australopitecíneos”:


(À esquerda: membro antigo do gênero Homo. À direita: um dos quatro supostos ancestrais australopitecíneos. Aqui a falta completa de elo se torna bem nítida. A citação e figura do artigo "New study suggests big bang theory of human evolution")


Mas a evidência presentemente no site da MSNBC nem lida com a questão de como o gênero Homo evoluiu do gênero Australopithecus. Se essa é a “corrente” mais completa, então verdadeiramente estamos lidando com uma evidência muito fragmentária da “evolução humana”. O mais triste é que o artigo está errado em implicar isso, pois essa evidência nada diz sobre como os australopitecíneos tipo macaco evoluíram em nosso gênero Homo. Até o autor principal do artigo da Nature, Timothy D. White, afirmou ERRONEAMENTE [ênfase inexistente] no artigo da MSNBC que essa evidência documenta as “fases do homem”. Isso não é verdade: se alguma coisa, esses fragmentos ósseos fornecem minúsculas sugestões de fases mais antigas de muitos hominídeos tipo macaco que antecedem o gênero Homo por 2 milhões de anos e o “homem” (Homo sapiens sapiens) em cerca de 3 milhões de anos. Essa evidência pode ajudar a colocar uma minúscula lacuna na evolução australopitecínea (lembre-se, nenhuma nova espécie foi encontrada, e tudo que eles acharam de interessante foram alguns dentes caninos de tamanhos intermediários), mas ao contrário do que diz o artigo da MSNBC, nada documenta a “evolução humana” ou as “fases do homem”.

** QUANTO MAIS AS COISAS EVOLVEM, MAS AS COISAS SOFREM ESTASE

Recentes notícias estão se envolvendo emocionalmente para "encher a bola" dessas descobertas de fósseis de A. anamensis em algo que elas não são: um “elo perdido” que documenta a “evolução humana”. Parece que pouco mudou desde 1981, quando Constance Holden escreveu na revista Science: “O campo da paleoantropologia estimula naturalmente interesse devido ao nosso próprio interesse nas origens. E, porque as conclusões de significância emocional para muitos devem ser tiradam de evidência extremamente insignificante, freqüentemente é difícil separar as disputas pessoais das científicas que vêm grassando no campo” (“The Politics of Paleoanthropology”, Science, p.737, 14 de agosto de 1981).

Se a evidência presente para a evolução do australopitecíneos antes desta descoberta era “obscura”, talvez seja seguro dizer que eles ainda estão muito nas trevas, e que muito pouco mudou nos últimos 25 anos.

(Do blog Desafiando a Nomenklatura Científica; publicado com autorização)

Mais um "elo perdido"

A revista Nature acabou de publicar que "finalmente" o elo perdido da evolução das aves foi encontrado. Pera aí, macacada! Eu acho que todos nós devemos estar sofrendo de um gravíssimo caso de dissonância cognitiva – afinal de contas, todos nós não aprendemos nos livros-texto de Biologia (autor até com Ph. D. em Genética e professor de renomada universidade pública) e fomos, somos e seremos bombardeados continuamente pela Grande Mídia Tupiniquim (GMT) de que existe "massiva evidência" de gradualismo darwiniano no registro fóssil? Como então somente agora "o elo perdido da evolução das aves" foi encontrado?

E o Archaeopteryx, como é que fica? Alô, MEC-SEMTEC, fiquem de olho para a devida atualização dos livros didáticos de Biologia do ensino médio no ano que vem. Alô, autores desses livros didáticos, não se esqueçam de atualizar o seu texto e jogar o Archaeopteryx na lata do lixo da História da Ciência como mais um ícone do "fato da evolução" que foi para o saco! Afinal de contas, exatidão e objetividade é o que se espera no ensino de ciências, mas isso não te pertence mais...

Será que não estou entendendo realmente? Será que não estou exigindo demais em termos epistêmicos de uma "jovem teoria científica" de quase 150 anos? Por que tão-somente agora esse "elo perdido" da evolução das aves foi encontrado, quando nos ensinaram que isso já tinha sido resolvido? Será que houve estardalhaço na GMT? Soltaram rojões?

Snif, snif... Tchau, Archaeopteryx. E eu que tinha desenvolvido um "elo" afetivo com você, como é que fico? De volta à realidade, acho que sou estúpido demais para acompanhar e entender o curso de Epistemologia Histórica 101 e Lógica Darwinista 101...

Enézio E. de Almeida Filho, no blog Desafiando a Nomenklatura Científica.

Comentário da SCB sobre o novo "elo perdido"

A versão impressa da notícia sobre “O Elo Perdido dos Pioneiros da Terra”, assinada por John Noble Nilfore do New York Times, veiculada pelo jornal O Globo, e em sua versão online de 6 de abril, não apresenta qualquer argumentação científica propriamente dita que comprove a existência de um elo entre peixes e animais terrestres.

** A NOTÍCIA

O elo perdido dos pioneiros na terra
Fóssil de peixe capaz de deixar a água é um duro golpe no criacionismo

Cientistas descobriram fósseis de um peixe de 375 milhões de anos que parece ser o elo perdido na evolução de alguns peixes da água para a vida na terra, como os primeiros animais de quatro patas. Além de comprovar uma das mais importantes etapas da evolução, os fósseis são vistos pela ciência como um forte golpe nos religiosos criacionistas, que pregam uma leitura literal da Bíblia sobre a origem e o desenvolvimento da vida.

Numerosos esqueletos fossilizados desse peixe foram encontrados no Canadá, a 960 quilômetros do Pólo Norte. A descoberta foi anunciada na revista Nature. Os esqueletos bastante conservados para sua idade indicam que o peixe chegava a quase três metros de comprimento.

Mais importante ainda, os cientistas observaram traços de uma criatura de transição: um peixe com características que anunciavam a emergência dos animais terrestres — um predecessor de anfíbios, répteis, aves e mamíferos.

O animal tinha barbatanas assemelhadas a membros e deveria andar em terra de forma parecida com a das focas. Há estruturas primitivas de tornozelos, cotovelos e ombros. O peixe também tinha a cabeça chata, semelhante à de um crocodilo, e pescoço, quadris e outras partes do corpo similares às de animais de quatro patas conhecidos como tetrápodes. O peixe foi chamado de Tiktaalik roseae.

"A origem dos membros provavelmente passou por mudanças que já estavam presentes no Tiktaalik", disse o coordenador do estudo, Neil H. Shubin, da Universidade de Chicago.

O artigo da Nature diz que a criatura é claramente um elo entre os peixes e os vertebrados terrestres.

"Esse fóssil confirma tudo o que pensávamos sobre a evolução dos animais terrestres. Nos mostra inclusive a ordem em que adaptações importantes ocorreram — disse Jennifer A. Clack, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Ela e Erik Ahlberg, da Universidade de Uppsala, na Suécia, assinaram na mesma edição da Nature uma análise sobre a importância da descoberta. O mais curioso é que ambos são antigos rivais do grupo de Shubin.

O diretor da seção de paleontologia da Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos, Richard Lane, disse que a descoberta era um marco essencial. "Esta descoberta é como uma Pedra da Roseta dos fósseis e nos levará a uma compreensão profunda sobre a vida", afirmou.

Um ponto destacado pelos cientistas americanos foi o fato de os fósseis serem de uma espécie de transição. Com isso, eles são uma prova concreta contra a crença criacionista de que não existiam formas de transição.

[Fim da notícia.]

Trata-se, na realidade, de um retorno às especulações análogas que foram feitas no século passado quanto a outro suposto elo encontrado (e posteriormente perdido novamente) entre peixes e animais terrestres, o famoso Celacanto, ou na taxionomia mais erudita aplicada ao “fóssil vivo” Latimeria Chalumnae.

Ao invés de apresentar informações consistentes a favor da tese evolutiva, o artigo apregoa que a descoberta (sobre a qual são dadas apenas escassas informações morfológicas) é vista pela ciência “como um forte golpe nos religiosos criacionistas” que, ainda acrescenta, “pregam uma leitura literal da Bíblia sobre a origem e o desenvolvimento da vida”.

O autor do artigo, dentro de sua ótica de parcialidade, tem como objetivo evidentemente desacreditar os “religiosos criacionistas”, esquecendo-se de que a verdadeira ciência é imparcial relativamente à fronteira entre o natural e o sobrenatural. Ainda mais, o autor induz os leitores a considerar que só é ciência aquilo que é estabelecido em termos da filosofia evolucionista, confundindo ciência com filosofia.

Essa parcialidade do autor, cujo objetivo é evidente, é reforçada no fecho de seu artigo ao afirmar que os fósseis descobertos “são uma evidência concreta contra a crença criacionista de que não existiam fósseis de transição”. Na realidade, a existência de fósseis de transição é que constitui uma crença centenária dos evolucionistas, que desde Darwin não conseguiram encontrar nenhum que merecesse consistentemente ser assim considerado. Daí a propaganda enganosa desse artigo!

Veja só as “provas” apresentadas (destaques nossos):

1) “Os cientistas observaram traços de uma criatura de transição: um peixe com características que anunciavam a emergência dos animais terrestres.” Atente para o detalhe que já visa condicionar os leitores relativamente a uma suposta comprovação não mais da evolução de peixe a réptil, mas de toda a chamada cadeia evolutiva [a partir de um elo duvidoso e não comprovado cientificamente]: “um predecessor de anfíbios, répteis, aves e mamíferos”.

2) “O animal tinha barbatanas assemelhadas a membros”, afirmação que de ciência nada tem, mas sim de paraciência, ou “parecência”!

3) “E deveria andar em terra de forma parecida com a das focas.” Haja imaginação! O “andar” do celacanto também foi um sonho acalentado, que se desfez ao simplesmente se descobrir que o habitat dos celacantos vivos (com centenas de espécimes já encontrados) está a mais de 180 metros de profundidade.

4) Segue-se a descrição morfológica de partes do animal encontrado, com a indicação de que “há estruturas primitivas de tornozelos, cotovelos e membros”, sem qualquer conexão com o que seria realmente necessário para uma criatura como essa que está sendo descrita pudesse andar em terra firme. Atente para o uso do adjetivo “primitivo”, claramente induzindo a idéia da evolução, na tentativa de condicionar os leitores a essa idéia. E como comprovar o que supostamente existiu no decorrer do longo caminho exigido pela evolução entre essas estruturas “primitivas” e as estruturas dos animais terrestres? Dever-se-ia a continuar a esperar a descoberta de uma infinidade de outros elos perdidos?

5) Continua a descrição: “O peixe também tinha a cabeça chata, semelhante à de um crocodilo, e pescoço, quadris e outras partes do corpo similares às de animais de quatro patas conhecidos como tetrápodes.” Novamente a “parecência”! E atente para a comparação de partes do corpo do fóssil descoberto com as de outros animais. Porque não com as de outros peixes que também têm cabeça chata e outras partes “parecidas” com as dos tetrápodes?!

6) Observe a tendenciosidade da notícia: “A origem dos membros provavelmente passou por mudanças que já estavam presentes no Tiktaalik” (nome dado ao peixe encontrado, que em Português já está sendo chamado de “focaré” – um pouco de foca e um pouco de jacaré).

7) Afirma o articulista, sem qualquer esclarecimento “científico”: “O artigo da Nature diz que a criatura [acreditam na Criação?!] é claramente um elo entre os peixes e os vertebrados terrestres." Devemos lembrar que a mesma revista Nature divulgou precipitadamente, no início de 2003, o fóssil Microraptor gui como elo entre dinossauros e aves, posteriormente tendo que se retratar. Essa situação repetiu-se no caso mais recente da divulgação pela mesma revista dos trabalhos com células-tronco embrionárias desenvolvidos pelo cientista sul-coreano Hwang Woo-Suk e sua equipe. Da mesma forma, a revista National Geographic teve que se retratar da divulgação precipitada do fóssil Archaeoraptor liaoningensis feita em fins de 1999, como elo entre dinossauros e aves.

8) Em continuação, o autor deixa-se trair com a afirmação: “Este fóssil confirma tudo o que pensávamos sobre a evolução dos animais terrestres.” Realmente, elo entre peixes e animais terrestres, e a própria macroevolução, existem apenas em pensamento!

9) Antigos rivais compartilham da importância da descoberta, o que é bastante indicativo do abalo que a estrutura conceitual evolucionista vem sofrendo em face do avanço verificado no âmbito do Design Inteligente. Quando há perigo à vista, até rivais se unem em desespero!

10) Mais reservadamente, o diretor da Seção de Paleontologia da Fundação Nacional de Ciências dos EUA, menciona o articulista, “disse que a descoberta era um marco essencial”. Tudo bem, aguardemos um exame mais científico da descoberta, que poderá deixar sua marca da mesma forma que o celacanto!

11) O autor encerra seu artigo com a declaração de que a descoberta “nos levará a uma compreensão profunda sobre a vida”. De fato, quando acontecer o mesmo que aconteceu com o celacanto, concluiremos que a compreensão mais profunda da vida situa-se no âmbito da estrutura conceitual criacionista, que aponta para o Criador da vida.

12) Não poderia deixar de ser destacado pelo autor que os cientistas que aceitam a estrutura conceitual evolucionista consideram o fóssil como “uma espécie de transição”. Na realidade, a alternativa científica que não foi mencionada é a que já foi aceita de há muito com o estudo procedido a respeito do ornitorrinco – uma forma “mosaica”. A esse respeito, leia o que cientistas criacionistas dizem sobre a questão "Formas-Mosaico" ou "Formas de Transição":

“Na discussão sobre a possibilidade de formas evolutivas intermediárias, deve-se discernir cuidadosamente noções descritivas e interpretativas. Os seres vivos que reúnem características de diversos grupos são qualificados como formas-mosaico ou formas de transição. Estes conceitos devem ser entendidos como descritivos e não dizem nada sobre a relação de origem. Se as formas-mosaico forem interpretadas como de transição filogenética entre esses grupos, usamos o conceito de 'elos de ligação' ou 'formas de transição'. As formas-mosaico como, por exemplo, a 'ave' primitiva (Archaeopteryx) não podem ser automaticamente avaliadas como formas evolutivas de transição; em muitos casos, isto nem sequer é possível (por exemplo, com o ornitorrinco)” (Evolução – Um Livro Texto Crítico, Reinhard Junker e Siegfried Scherer, SCB, Brasília, 2002).

(Fonte: www.scb.org.br)

segunda-feira, abril 24, 2023

O elo perdido, segundo Frei Betto

[Meus comentários seguem entre colchetes. – MB] Há tempos a ci­ência in­ves­tiga o elo per­dido entre o ma­caco e o homem. Já há con­senso de que Darwin tinha razão [sic]. Até o papa João Paulo II, que não era de dar o braço a torcer, ad­mitiu a per­ti­nência do darwi­nismo [sim os últimos papas deixaram clara sua visão evoteísta, que tenta misturar Bíblia com darwinismo]. O que obrigou os bispos da Ar­gen­tina, adeptos fun­da­men­ta­listas [sic] do cri­a­ci­o­nismo, a sus­pender, nas es­colas ca­tó­licas, o en­sino de que entre Deus e nós não houve outros in­ter­me­diários senão Adão e Eva.

Os cri­a­ci­o­nistas não podem ir além da ideia de um deus oleiro que, tendo brin­cado com ar­gila e so­prado o barro, deu vida às maquetes hu­manas [lamentável ver um frei usar linguagem irônica ao se referir ao relato histórico e factual da criação conforme registrado por Moisés em Gênesis]. Se dessem um passo a mais na ge­ne­a­logia do pri­meiro casal fi­ca­riam en­ca­la­crados. Se Adão e Eva ti­veram apenas fi­lhos machos, Caim, Abel e Seth, como se ex­plica essa vasta des­cen­dência da qual fa­zemos parte? Se­ríamos todos fi­lhos e filhas de um pa­ra­di­síaco in­cesto? [“Aos 130 anos, Adão gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem; e deu-lhe o nome de Sete.
Depois que gerou Sete, Adão viveu 800 anos e gerou outros filhos e filhas” (Gênesis 5:3, 4). Que falta faz ler a Bíblia levando-a a sério.]

Como os an­tigos he­breus não frequen­taram a uni­ver­si­dade e, por­tanto, es­tavam isentos da lin­guagem aca­dê­mica, abs­trata, em toda a Bí­blia não há uma só aula de dou­trina ou te­o­logia [quanta prepotência!]. Sua lin­guagem é a do mi­neiro, à base de “causos”. Vê-se o que se lê. A lin­guagem figurativa, própria dos povos semitas, trans­forma con­ceitos em ima­gens. O vo­cá­bulo he­braico “terra” deu origem a Adão [sim, pois ele foi formado dos mesmos constituintes químicos do solo], e “vida” a Eva [claro, pois é da mulher que provém a vida], numa configuração plástica da noção de que Deus criou o mundo e a humanidade. O curioso é que o autor bíblico sugere que a vida veio da terra, o que só foi constatado pela ciência no século 19, quando foram descobertas as leis da evolução do Universo.

A Bí­blia quer en­sinar apenas que Deus é o cri­ador do Uni­verso, in­cluídos os hu­manos que, em­bora obra di­vina, pa­decem de duas li­mi­tações in­trans­po­ní­veis: têm prazo de va­li­dade e de­feito de fa­bri­cação [se levasse a Bíblia a sério, entenderei o que explica o capítulo 3 de Gênesis: que a morte e os “defeitos” não fazem parte da criação original de Deus, mas são resultado temporário da entrada do pecado no mundo]. O que a dou­trina cristã chama de pe­cado ori­ginal [se não há doutrinas na Bíblia, como escreveu Betto, então elas foram todas inventadas pelos cristãos?].

Isto é óbvio: todos morrem um dia, mal­grado as aca­de­mias de le­tras re­pletas de imor­tais, e não são poucos os que de­mons­tram grandes de­feitos de fa­bri­cação – ao longo da vida tornam-se cor­ruptos, men­ti­rosos, criminosos, opor­tu­nistas, se­gre­ga­dores, ma­chistas, homofóbicos, cí­nicos. Em suma, ho­mens sem qua­li­dade, diria Musil. E muitos com uma cu­riosa ten­dência para a po­lí­tica [adepto da teologia da libertação há muitos anos, o frei não perderia a oportunidade de politizar o assunto...].

Quando teria se dado o salto do símio ao hu­mano? No dia em que um ma­caco uti­lizou um pe­daço de pau como ex­tensão das mãos, como mostra Stanley Ku­brick, no filme “2001, uma odis­seia no es­paço”? [curiosamente, o relato bíblico da criação é mitológico, alegórico, mas no filme é “mostrada” e evolução humana... Cada um escolhe as fontes nas quais acreditar.] Ou no dia em que o oran­go­tango de­cidiu, ao con­trário de toda a fa­mília zo­o­ló­gica, deixar de comer quando tem fome e marcar hora para as re­fei­ções? Teria sido na­quela tarde de sá­bado em que o ma­caco tem­perou a caça com pi­menta e assou na brasa que res­tara de uma quei­mada pro­du­zida pelo re­lâm­pago, sem saber que in­ven­tava o chur­rasco? [Isso não é história pra macaco dormir; o texto bíblico, esse sim, é!]

Um ver­da­deiro hu­mano seria uma pessoa do­tada de cri­a­ti­vi­dade. Quem já viu uma casa de joão-de-barro com uma va­ran­dinha ou um pu­xa­dinho para abrigar o filho recém-casado? [Pois é. Quais foram as mutações aleatórias filtradas pela seleção natural lenta e gradual que “ensinaram” o joão-de-barro e tantos outros animais a serem tão engenhosos, dependentes de instintos que deveriam funcionar bem desde o princípio?] Ocorre que a cri­a­ti­vi­dade é também um atri­buto dos ban­didos. Talvez seja me­lhor ca­rac­te­rizar o hu­mano por suas vir­tudes: uma pessoa ge­ne­rosa, al­truísta, ética, so­li­dária, amo­rosa, capaz de par­ti­lhar seus bens e dons. Isso existe? [E se existe, quando foi que a evolução nos dotou de tais atributos antievolutivos, que contrariam a “sobrevivência do mais forte”?]

Se es­ti­vermos de acordo que isso ainda é um pro­jeto, uma pers­pec­tiva, um sonho, então há que aceitar: o elo per­dido entre o ma­caco e o homem somos nós, essa ca­deia de ma­mí­feros que co­meça com a cu­ri­o­si­dade de Adão e Eva, que foram meter o nariz onde não eram cha­mados, à ge­ração atual con­tem­po­rânea de Biden e Putin! Aliás, dois bons exem­plos da es­pécie pré-hu­mana que tem o rabo preso; onde mete os pés cria uma bana­nosa e vive in­va­dindo o es­paço alheio. [Aí tenho que concordar com Betto: Biden e Putin (e Xi Jinping, também) são “bons” exemplos da decadência da humanidade, em sua sanha conquistadora, repressora, destrutiva, capitalista, gramcista, secularista, deturpadora de valores bíblicos, etc., etc.]

Nós somos o elo que an­dava per­dido. No en­tanto, ele sempre es­teve na nossa frente. Basta-nos mirar no es­pelho. O ver­da­dei­ra­mente hu­mano é ainda um projeto de fu­turo. Caso con­trário, o pró­prio elo ha­verá de se romper e o pro­jeto hu­mano que­dará como uma utopia. Talvez re­a­li­zável em algum outro planeta onde haja abun­dância disto que tanto falta por aqui: vida in­te­li­gente. [Esta é a visão típica dos religiosos marxistas da teologia da libertação: não há esperança real para a humanidade; tudo se trata de utopia irrealizável; os cristão bíblicos criacionistas creem que Deus resolverá o problema; creem que Jesus voltará e um dia recriará a Terra, devolvendo-a à sua condição edênica. Mas como crer nisso, quando se pensa que o “pecado original” não existiu de fato (pelo menos não como relata a Bíblia em Gênesis 3), e que, portanto, Jesus não veio para saldar a dívida humana e redimir a humanidade, mas veio para morrer como um mero mártir revolucionário? Como crer nisso, se a segunda vinda de Cristo sequer é tida como uma doutrina e uma promessa Bíblica?]

Ou quem sabe o Cri­ador de­cida passar a limpo sua cri­ação pela se­gunda vez. Du­vido que vá des­truí-la com um novo di­lúvio. A água é, hoje, um bem es­casso. Deus é ge­ne­roso, não per­du­lário. Talvez o aque­ci­mento global seja o pri­meiro in­dício de que tudo ha­verá de virar cinza. Ou, quem sabe, nós mesmos apressaremos o apocalipse desencadeando uma guerra nuclear. Então um novo Gê­nesis terá início. [Como? De que forma? Destruiremos o mundo para que possa haver uma nova suposta evolução? Deus deixará as coisas chegarem a esse ponto, assistindo a tudo de braços cruzados?]

Des­confio que, no sexto dia, Deus criará ani­mais inaptos a de­sen­volver uma ca­deia evo­lu­tiva. E, no sé­timo, se re­cos­tará em sua rede no Jardim do Éden, porque nin­guém é de ferro, e con­tem­plará a be­leza do Uni­verso – agora livre da ameaça de um pe­ri­goso pre­dador descendente dos ma­cacos, o elo entre o que já não é e o que nunca foi. [Lamento muito que um frei, um religioso mantenha esse tipo de ponto de vista melancólico e o ensine por aí; mas chego a entendê-lo, pois, antes de me tornar criacionista, sustentei visão semelhante e desprovida de esperança. Mas os iluminados são eles e os “fundamentalistas” de mente estreita somos nós. Sim, uma pena.]

(Instituto Humanitas Unisinos)





quinta-feira, setembro 10, 2015

Homo naledi: mais um candidato a elo perdido

Homo naledi é o nome de um novo candidato a elo perdido, descoberto por uma equipe de pesquisadores numa gruta da África do Sul. Os fósseis de 15 ditos hominídeos foram encontrados perto de Johanesburgo. Lee Berger, pesquisador da Universidade de Witwatersrand, disse o seguinte, numa entrevista coletiva em Maropeng: “Apresento-lhes uma nova espécie do gênero humano.” Chris Stringer, do Museu de Londres, explica que “alguns aspectos do Homo naledi, como as mãos, os pulsos e os pés, são muito próximos dos do ser humano moderno. “Ao mesmo tempo, o pequeno cérebro e a forma da parte superior do corpo estão mais próximos de um grupo pré-humano denominado australopiteco.”

Recentemente, o jornalista Reinaldo José Lopes, da Folha de S. Paulo, publicou uma matéria que revela o desespero dos pesquisadores evolucionistas em montar a suposta árvore evolutiva humana. Segundo Lopes, não há muita dúvida quanto ao Homo sapiens e ao neandertal, tanto que análises de DNA revelaram episódios de miscigenação entre humanos modernos e neandertais, o que leva alguns pesquisadores a considerar que eram todos humanos, afinal de contas.

Para Jeffrey Schwartz, da Universidade de Pittsburgh, e Ian Tattersall, do Museu Americano de História Natural, a coisa fica feia quando o objetivo é entender formas mais arcaicas de supostos ancestrais da humanidade. Escavações na África e em outros lugares do mundo revelaram um minizoológico dessas criaturas: há o Homo habilis, o Homo rudolfensis, o Homo ergaster, o Homo erectus e formas mais misteriosas, conhecidas simplesmente como “Homo primitivo”, isso sem falar em alguns outros nomes científicos que acabaram não pegando. Alguns consideram que se trata simplesmente de fragmentos de ossos de macacos que os darwinistas querem sempre promover a “elo perdido”.

Em artigo na última edição da revista Science, Schwartz e Tattersall defendem que esse milagre da multiplicação da nomenclatura foi longe demais. Boa parte dos fósseis não deveria estar no gênero Homo, dizem eles. Tattersall afirma que “os paleoantropólogos têm simplesmente enfiado fósseis mais e mais antigos no gênero sem se preocupar muito com a questão da morfologia. Em vez de fazer as coisas com cuidado, os trabalhos seguem o desejo de descobrir o ‘Homo mais antigo’, o que não dá muito certo”.

E por que os pesquisadores fazem isso? Para ter seus quinze minutos de fama, promovidos por alguma publicação científica ou pela mídia popular, que adora publicar matérias sensacionalistas sobre nossos supostos ancestrais. E é exatamente o que aconteceu no caso do Homo naledi. Ele ainda nem foi datado e já estampa a capa da revista National Gegraphic de outubro, com o título em letras garrafais: “Almost Human”, ou seja, “Quase Humano”.

Esteban Sarmiento, da Fundação Evolução Humana, dos EUA, diz que essa afobação toda tem levado cientistas mais afoitos a enxergar hominídeos em toda parte. Certos fósseis, na verdade, seriam de grandes macacos primitivos. “Existe um desejo subliminar de enxergar certos fósseis como hominídeos”, pondera Tattersall. E ele diz mais: “Nós descobrimos que muitos dentes do Extremo Oriente atribuídos ao Homo erectus poderiam ser interpretados de forma mais razoável como pertencentes a primos dos orangotangos.”

Como se pode ver nas fotos divulgadas do Homo naledi e mesmo na capa da National Gegraphic, quem mais tem trabalho nessas ocasiões são os artistas e escultores, que procuram, com muita imaginação, humanizar os macacos e “macaquizar” os humanos.

Michelson Borges







terça-feira, maio 19, 2009

"Elo perdido" é o grande sonho dos darwinistas


Cientistas revelaram nesta terça-feira, em Nova York, o fóssil de uma criatura de 47 milhões de anos [sic] que pode ser um elo perdido na evolução dos primatas superiores - macacos, gorilas e os seres humanos. O fóssil, batizado de Ida, está em estado tão bom de conservação que é possível ver sua pele e traços de sua última refeição. Os restos do animal, que se assemelha a um lêmure (tipo de animal parecido com um macaco que vive na ilha africana de Madagascar) foram apresentados no Museu Americano de História Natural pelo prefeito de Nova York, Michael Bloomberg. Eles foram descobertos na década de 1980 na Alemanha e pertenciam a uma coleção particular.

A pesquisa sobre sua importância foi liderada pelo cientista Jorn Hurum, do Museu de História Natural de Oslo, Noruega. Hurum diz que Ida representa "a coisa mais próxima que temos de um ancestral" e descreveu a descoberta como "um sonho que se tornou realidade".

Mas parte da comunidade científica se mostra cética em relação à descoberta. Um dos principais editores da revista Nature, Henry Gee, disse que o termo "elo perdido" pode induzir ao erro e que o fóssil não deve figurar entre as grandes descobertas recentes, como os dinossauros com penas.

Os cientistas que já examinaram o fóssil concluíram que este se trata de uma espécie nova, batizada Darwinius masillae. Para um dos pesquisadores que analisou Ida, Jenz Franzen, o fóssil tem traços que guardam "grande semelhança conosco", como unhas em vez de garras e o polegar em uma posição que permite agarrar coisas com a mão, como o homem e outros primatas.

Ainda assim, segundo ele, o fóssil não parece ser um ancestral direto do homem, mas sim estaria "mais para uma tia do que uma avó".

(O Globo)

Nota: As incertezas ainda são grandes. Mesmo assim, a mídia (como sempre) colabora para o clima de euforia darwinista (até o Google está dando sua parcela de contribuição à louvaminhice precipitada ao Darwinius masillae, conforme a imagem aí ao lado). Mais pesquisas devem ser realizadas antes de se permitir que o "sonho" interfira nas conclusões. Aguardemos os desdobramentos dessa descoberta.[MB]

quinta-feira, abril 08, 2010

Mais um candidado a ancestral do ser humano

Um cientista da universidade de Witwatersrand, na África do Sul, anunciou ter descoberto fósseis de duas criaturas hominídeas com mais de dois milhões de anos [sic], que poderiam ser o elo entre espécies mais antigas e as mais modernas, conhecidas como homo, entre as quais está a de pessoas atuais. Lee Berger afirmou à BBC que a descoberta, nas cavernas de Malapa, perto de Joanesburgo, foi feita por acaso em 2008, quando ele e o filho de 9 anos passeavam no local, identificado como um potencial sítio arqueológico graças a uma aplicativo do Patrimônio Histórico Mundial acoplado ao programa Google Earth.

A descoberta do Australopithecus sediba foi publicada na última edição da revista científica Science, e os cientistas que assinam o artigo dizem que os esqueletos preenchem uma brecha importante no desenvolvimento das espécies hominídeas. "Eles estão no ponto em que acontece a transição de um primata que anda sobre duas pernas para, efetivamente, nós", disse Berger.

"Acho que provavelmente todos estão conscientes de que este período, entre 1,8 milhão a 2 milhões de anos atrás, é um dos mais mal representados em toda a história fóssil dos hominídeos. Estamos falando de um registro muito pequeno, um fragmento."

Muitos cientistas veem os australopitecos como ancestrais diretos do Homo, mas a localização exata do A. sediba na árvore genealógica humana vem causando polêmica. Alguns acreditam que os fósseis podem ter sido da espécie Homo.

O que se sabe é que as criaturas de Malapa viveram às vésperas do domínio da espécie Homo. Inclusive, alguns esqueletos encontrados na África Oriental que se atribuem a espécies de Homo seriam até um pouco mais antigos que as novas descobertas.

Mas o A. sediba apresenta uma mistura de detalhes e características como dentes pequenos, nariz proeminente, pélvis muito avançada e pernas longas semelhantes às que temos atualmente.

No entanto, a espécie tinha braços muito longos e um crânio pequeno que lembra o da espécie australopitecus, muito mais antiga, à qual Berger e seus colegas associaram a descoberta.

Os ossos foram encontrados a cerca de um metro uns dos outros, o que indicaria que eles morreram na mesma época ou pouco tempo depois do outro.

Os especialistas dizem que os fósseis podem até ser de mãe e filho e que é razoável presumir que pertenciam ao mesmo bando.

Não se sabe se eles moravam no complexo de cavernas em Malapa ou se acabaram presos por ali, depois que ter sido arrastados para um lago ou piscina subterrâneos, talvez durante uma tempestade.

Os ossos dos dois espécimes foram depositados perto de outros animais mortos, entre eles um tigre dente-de-sabre, um antílope, ratos e coelhos. O fato de nenhum dos corpos ter sinais de ter sido comido por outros animais indica que morreram e foram sepultados repentinamente. [Curioso...]

"Achamos que deve ter havido algum tipo de calamidade na época que tenha reunido todos esses fósseis na caverna, onde ficaram presos e, finalmente, sepultados", afirmou o professor Paul Dirks, da universidade James Cook, na Austrália.

Todos os ossos ficaram preservados em sedimentos clásticos calcificados que se formam no fundo de poças d'água.

(BBC Brasil)

Nota: Histórias frustrantes recentes como a do Ardipithecus ramidus e do Darwinius masillae deveriam ter ensinado os pesquisadores a ter maior prudência antes de sair divulgando achados como sendo "elos perdidos". Esse poderá ser um novo caso de elo perdido perdido.[MB]

Leia também: "Australopithecus sediba: um fóssil importante, mas não é um elo perdido"

sexta-feira, maio 02, 2008

O novo "elo perdido"

Morei nos Estados Unidos na década de 80 do Século 20 (o tempo é cruel!) e havia uma propaganda de remédio na televisão: “How do you spell Relief?” [Como que você soletra alívio?]. “Relief” era o nome do remédio. Entrou no jargão lingüístico americano para explicar uma situação difícil e como sair dela faceiramente.

Com o anúncio bombástico na grande mídia internacional, os evolucionistas já elegeram este suposto "elo intermediário" como o novo ícone da evolução. “How do you spell relief? T-I-K-T-A-A-L-I-K.” Justamente agora, quando grandes dificuldades epistêmicas na teoria geral da evolução são destacadas, o anúncio desse "elo perdido" vem aliviar um pouco essa tensão de desconforto entre a Nomenklatura, e para "ensinar" os leigos o que eles precisam saber sobre o fato da evolução. Mas o que um "elo perdido" encontrado não faz, não é mesmo? Relief! Ooops, Tiktaalik! Não pude resistir, mas Tiktaalik soa quase como Titanic. Que falta de perspicácia!

A descoberta é de Neil Shubin (U. of Chicago) e de dois colegas. É um “fóssil de peixe tipo tetrápode”, encontrado numa ilha do Canadá. Mas o que isso significa? Peencheria a mais intrigante das transições do registro fóssil, e resgataria uma antiga e amarelecida nota promissória epistêmica de Darwin, de quase 150 anos: a evolução de um peixe em um animal terrestre?

A grande mídia, como sempre, atrelada à Nomenklatura científica, reportou com grande estardalhaço a descoberta, já comparada de grande importância como o Archaeopteryx. Pronto, isso significa dizer agora que todos os críticos da teoria geral da evolução (mesmos os científicos) devem enfiar seus "rabos epistêmicos" entre as pernas, saírem de cena, porque mais uma vez “os meninos de Darwin” venceram.

Para quem vinha afirmando desde 1859 que o registro fóssil era um testemunho contra as especulações transformistas de Darwin, eis aqui um "cala a boca", "ponha-se no seu devido lugar", "vá catar coquinhos", de um perfeito caso de forma transicional.

Abaixo algumas das afirmações feitas em inglês sobre o Tiktaalik roseae, o mais novo ícone da evolução:

EurekAlert: a “key marker in the evolutionary transition of fish to limbed animals.”

News@Nature: this is “the fish that crawled out of water” – a true "missing link" that “it helps to fill in a gap in our understanding of how fish developed legs for land mobility, before eventually evolving into modern animals including mankind.”

BBC News: “Fossil animals found in Arctic Canada provide a snapshot of fish evolving into land animals... giving researchers a fascinating insight into this key stage in the evolution of life on Earth.”... “Could prove to be as much of an ‘evolutionary icon’ as Archaeopteryx – an animal believed to mark the transition from reptiles to birds.”

Scientific American: “Newfound Fossil Is Transitional between Fish and Landlubbers.”

New Scientist: “It was one of the most important events of the last 400 million years: the moment our fishy ancestors began hauling themselves onto dry land. Now a fossil from the very beginning of that crucial transition has been found in the remote Arctic.” Neil Shubin calls it a “a ‘fishopod’: part fish, part tetrapod.”

MSNBC: “Scientists have caught a fossil fish in the act of adapting toward a life on land, a discovery that sheds new light on one of the greatest transformations in the history of animals. Researchers have long known that fish evolved into the first creatures on land with four legs and backbones more than 365 million years ago, but they’ve had precious little fossil evidence to document how it happened.... ‘It sort of blurs the distinction between fish and land-living animals’, said one of its discoverers, paleontologist Neil Shubin of the University of Chicago.”

National Geographic: “It’s our closest fish cousin, scientists say. Millions of years ago it apparently hoisted its croc-like head out of the water—and the rest is history.”

LiveScience: “Fishy Land Beast Bridges Evolutionary Gap.”

Com uma cobertura jornalística dessas, o leitor leigo fica com a impressão de que isso realmente é uma descoberta importante. Depois de muito confete, serpentina e alguns chopes (que cientista não é de ferro!), que tal dar uma olhada objetiva nos artigos científicos e ver o que eles disseram exatamente?

A notícia da descoberta desse "elo perdido" foi artigo de capa da revista Nature, com dois artigos da equipe de Shubin e uma resenha de Jennifer Clack, proeminente pesquisadora em origens dos tetrápodes. É aqui, no ambiente acadêmico, que os cientistas falam entre si, e por isso mesmo é de se esperar que sejam mais céticos, formais, reservados e bastante cautelosos sobre as interpretações. Falta isso na grande mídia, quando o assunto é Darwin.

Alguns aspectos que incomodam este "cético não global" são os seguintes: A pesquisa foi submetida à revista Nature em outubro de 2005, mas foi liberada somente agora. Mas a grande mídia recebeu os press releases com representação artística de como que o Tiktaalik roseae pareceria e entrevistas com os pesquisadores. Enfim, tempo suficiente para "armar o grande circo" e dar aquela manchete em cima dos pobres mortais não especialistas.

É bem nítido nos artigos que todos os autores acreditam que esse fóssil é realmente uma forma evolutiva transicional, mas convém destacar aqui para os leigos que as afirmações mais interessantes nos artigos científicos são as advertências e as notas discordantes. Mas o mais importante de tudo isso são os dados empíricos (observacionais) que sempre devem ter precedência sobre as interpretações.

Considere a abertura do primeiro artigo de Daeschler, Shubin e Jenkins [1]:
“The relationship of limbed vertebrates (tetrapods) to lobe-finned fish (sarcopterygians) is well established, but the origin of major tetrapod features has remained obscure for lack of fossils that document the sequence of evolutionary changes.”

“Here we report the discovery of a well-preserved species of fossil sarcopterygian fish from the Late Devonian of Arctic Canada that represents an intermediate between fish with fins and tetrapods with limbs, and provides unique insights into how and in what order important tetrapod characters arose. Although the body scales, fin rays, lower jaw and palate are comparable to those in more primitive sarcopterygians, the new species also has a shortened skull roof, a modified ear region, a mobile neck, a functional wrist joint, and other features that presage tetrapod conditions. The morphological features and geological setting of this new animal are suggestive of life in shallow-water, marginal and subaerial habitats.”

Até parece que estamos lendo a Folha de São Paulo, mas vamos buscar o que realmente interessa: o que não foi dito pela mídia. Os pesquisadores admitem:

“The evolution of tetrapods from sarcopterygian fish is one of the major transformations in the history of life and involved numerous structural and functional innovations, including new modes of locomotion, respiration and hearing.”

Trocando em miúdos (acho que mais "em graúdos"), muitas mudanças substanciais (isso demanda grande quantidade de informação genética) tinham de acontecer simultaneamente em um animal – do respirar antes através de guelras e agora respirar com pulmões, desenvolver pés que pudessem suportar o peso, desenvolver ossos digitiformes, tornozelos, dedos dos pés e "aprender" como usá-los. Eles prosseguem:

“During the origin of tetrapods in the Late Devonian (385-359 million years ago), the proportions of the skull were remodelled [implies intelligent design], the series of bones connecting the head and shoulder was lost, and the region that was to become the middle ear [implies progress] was modified. At the same time, robust limbs with digits evolved, the shoulder girdle and pelvis were altered, the ribs expanded, and bony connections between vertebrae developed.”

Eles afirmam que algumas dessas inovações são vistas nos "parentes" mais próximos de tetrápodes – Panderichthys, Acanthostega e Ichthyostega -, mas as desconsideram como fragmentárias e de utilidade duvidosa. Isso também se aplica ao candidato mais antigo daquela lista de "parentes":

“Panderichthys possesses relatively few tetrapod synapomorphies [convergent features], and provides only partial insight into the origin of major features of the skull, limbs and axial skeleton of early tetrapods. In view of the morphological gap between elpistostegalian fish and tetrapods, the phylogenetic framework for the immediate sister group of tetrapods has been incomplete and our understanding of major anatomical transformations at the fish-tetrapod transition has remained limited.”

Essa declaração prepara o terreno para o novo fóssil que, segundo os pesquisadores, “aumenta significativamente o nosso conhecimento da transição peixe-tetrápode”. Devagar, meus amigos, pois essa afirmação tem que ser examinada cum granum salis, pois afirmações semelhantes sobre o Panderichthys foram feitas anteriormente.

Eles classificaram o Tiktaalik em algum lugar entre os Panderichthys e os tetrápodes. No artigo, eles forneceram os dados obrigatórios que devem aparecer numa publicação científica: local onde foi encontrado, taxonomia, nomenclatura, a descrição do fóssil, fotos, desenhos, etc. A cabeça estava bem preservada e foram encontrados três espécimes. Agora vem a parte mais difícil: nomear e classificar um fóssil. Por quê? Porque não fornece aos descobridores a liberdade de classificá-lo em algum cenário evolutivo presumido.

Vamos considerar a descrição técnica das partes. O Tiktaalik comparado com fósseis mais antigos conhecidos tem algo maior ou algo menor do que os outros. As comparações dos crânios não parecem ser muito informativas, considerando-se que não há partes moles fossilizadas e nós nem sabemos como que o animal viveu no seu ambiente devoniano (abundância de plantas terrestres, mas de algum modo esse fóssil parece mais um carnívoro do que herbívoro).

Um pequeno lembrete histórico en passant: lembra-se do Celacanto? Ele foi considerado uma forma transicional porque tinha nadadeiras ósseas, mas quando foi descoberto um espécime vivo, ele não as usava para andar ou levantar-se. Mas o que o Celacanto tem a ver com esse novo fóssil? Muito, pois sem as partes moles (guelras e outros órgãos) e sem um exemplo vivo, a interpretação dada aos ossos é, na melhor das hipóteses, um EXERCÍCIO SUBJETIVO DE ADIVINHAÇÃO.

Qual seria a posição filogenética do Tiktaalik? Quais características levaram os pesquisadores a decidir que esses espécimes eram transicionais?

“A phylogenetic analysis of sarcopterygian fishes and early tetrapods supports the hypothesis that Tiktaalik is the sister group of tetrapods or shares this position with Elpistostege. Tiktaalik retains primitive tetrapodomorph features such as dorsal scale cover, paired fins with lepidotrichia, a generalized lower jaw, and separated entopterygoids in the palate, but also possesses a number of derived features of the skull, pectoral girdle and fin, and ribs that are shared with stem tetrapods such as Acanthostega and Ichthyostega. Tiktaalik is similar to these forms in the possession of a wide spiracular tract and the loss of the opercular, subopercular and extrascapulars. The pectoral girdle is derived in the degree to which the scapulocoracoid is expanded dorsally and ventrally, and the extent to which the glenoid fossa is oriented laterally. The pectoral fin is apomorphic [i.e., derived, more developed] in the elaboration of the distal endoskeleton, the mobility of segmented regions of the fin, and the reduction of lepidotrichia distally.”

Resumindo, eles acham que os Panderichthys, Elpistostege e o Tiktaalik representam uma “paraphyletic [partially evolved] assemblage of elpistostegalian fish along the tetrapod stem that lack the anterior dorsal fins and possess broad, dorsoventrally compressed skulls with dorsally placed eyes, paired frontal bones, marginal nares, and a subterminal mouth”.

Contudo, “some tetrapod-like features evolved independently in other sarcopterygian groups”, enquanto que os outros dois fósseis parecem ter as características partilhadas com os tetrápodes básicos por meio de evolução convergente (homoplasia).

Ora, foi basicamente isso que eles afirmaram no primeiro artigo. O segundo artigo [2] discutiu o nadadeira peitoral do Tiktaalik, que eles afirmam ser “morfológica e funcionalmente transicional entre uma nadadeira e um membro”. Eles acham que as nadadeiras frontais capacitaram a criatura a se levantar e arrastar a cauda atrás.

Todavia, o “pulso” não tem os cinco dígitos (dedos), e representa um “mosaico” de caracaterísticas encontradas em taxon mais “básicos”. Embora ossos do “pulso” adicional sejam novas características desse fóssil, a presença dos cinco dígitos é INFERIDA no diagrama deles por meio de linhas pontilhadas. Como não há espécimes vivos representativos, eles também não foram capazes de dizer com certeza para o que foram realmente utilizados os ossos das nadadeiras.

Embora os pesquisadores tenham reconhecido que a transição da água para a terra requer “grandes mudanças em desenvolvimentos genéticos, estrutura esqueletal e biomecânica”, o aspecto mais evidente da nadadeira é o ângulo do “pulso” homólogo hipotético, mesmo não havendo evidência de que os dígitos verdadeiros para locomoção tenham mais tarde se desenvolvido dos ossos das nadadeiras desse animal.

Mas, mesmo que eles possam ter se desenvolvido assim [será???], os jornalistas científicos ficaram mais sintonizados com a conclusão confiante dos pesquisadores:

“The pectoral skeleton of Tiktaalik is transitional between fish fin and tetrapod limb. Comparison of the fin with those of related fish reveals that the manus [hand] is not a novelty of tetrapods; rather, it was assembled in fishes over evolutionary time to meet the diverse challenges of life in the margins of Devonian aquatic ecosystems.”

Que tal dar uma olhada no que os outros especialistas pensam a respeito disso? Na mesma edição da Nature, Erik Ahlberg e Jennifer Clack apresentaram sua análise [3]. Será que Clack, especialista eminente na pesquisa de ponta em evolução de tetrápodes, ficou extasiada pela descoberta? Será que ela não teve nenhuma ponta de inveja ou sentimentos de rivalidade? Eu não sei, eu só sei que juntamente com Ahlberg ela colocou um freio nas interpretações mais lépidas e tonitroantes, embora reconhecendo a significância da descoberta.

Em primeiro lugar, que tal dar uma "puxada de orelhas" sobre o conceito dos "elos perdidos"?

"The concept of 'missing links' has a powerful grasp on the imagination: the rare transitional fossils that apparently capture the origins of major groups of organisms are uniquely evocative. But the concept has become freighted with unfounded notions of evolutionary ‘progress’ and with a mistaken emphasis on the single intermediate fossil as the key to understanding evolutionary transitions. Much of the importance of transitional fossils actually lies in how they resemble and differ from their nearest neighbours in the phylogenetic tree, and in the picture of change that emerges from this pattern.

"We raise these points because on pages 757 and 764 of this issue are reports of just such an intermediate: Tiktaalik roseae, a link between fishes and land vertebrates that might in time become as much of an evolutionary icon as the proto-bird Archaeopteryx.”

Nota Bene: Embora esse fóssil vá “muito longe” no preenchimento da lacuna no registro fóssil, esses dois críticos disseram que ele não vai em toda a extensão. O exemplo mais próximo disso seria o Elpistostege, um fóssil fragmentado considerado ser mais próximo dos tetrápodes do que o Panderichthys. Eles admitem que “os autores demonstraram convincentemente que o Elpistostege e o Tiktaalik ficam entre o Panderichthys e os tetrápodes mais antigos na árvore filogenética”.

Você pensou que era o fim da história, não é mesmo? Embora impressionados, esses dois críticos levantam algumas questões interessantes. Sobre os ossos das nadadeiras eles afirmaram:

“Although these small distal bones bear some resemblance to tetrapod digits in terms of their function and range of movement, they are still very much components of a fin. There remains a large morphological gap between them and digits as seen in, for example, Acanthostega: if the digits evolved from these distal bones, the process must have involved considerable developmental repatterning. The implication is that function changed in advance of morphology.”

Embora cada um dos fósseis encontrados pareça representar um mosaico de características em vez de uma linha direta de evolução, esses dois críticos prontamente concordaram que a criatura foi “evidentemente uma etapa verdadeira a caminho da água para a terra”, e “parece que os nossos ancestrais remotos eram peixes grandes, achatados e predadores, com cabeças tipo crocodilo e fortes nadadeiras peitorais tipo membros que os capacitaram a sair da água”.

Aqui um pouco de ceticismo se faz mister. Leve em conta que esse é apenas um espécime e são necessários muitos mais para a confirmação de um achado científico. Além disso, a criatura deve ser ser examinada no seu contexto. Quem sabe - e aqui serão emitidas mais notas promissárias epistêmicas - as formas transicionais mais importantes não serão descobertas no futuro? Ah, o futuro pertence a Darwin:

“Of course, there are still major gaps in the fossil record. In particular we have almost no information about the step between Tiktaalik and the earliest tetrapods, when the anatomy underwent the most drastic changes, or about what happened in the following Early Carboniferous period, after the end of the Devonian, when tetrapods became fully terrestrial. But there are still large areas of unexplored Late Devonian and Early Carboniferous deposits in the world – the discovery of Tiktaalik gives hope of equally ground-breaking finds to come.”

Conclusão: o “elo perdido” não é assim nenhuma Brastemp, como foi reportado na mídia!

[Artigo elaborado sobre "ombros de gigantes" e publicado no blog www.pos-darwinista.blogspot.com; reproduzido com autorização]

Notas:
[1] Daeschler et al., “A Devonian tetrapod-like fish and the evolution of the tetrapod body plan”, Nature 440, 757-763 (6 April 2006) | doi:10.1038/nature04639; Received 11 October 2005; ; Accepted 8 February 2006.
[2] Shubin et al., “The pectoral fin of Tiktaalik roseae and the origin of the tetrapod limb”, Nature 440, 764-771 (6 April 2006) | doi:10.1038/nature04637; Received 11 October 2005; ; Accepted 8 February 2006.
[3] Per Erik Ahlberg and Jennifer A. Clack, “Palaeontology: A firm step from water to land”, Nature 440, 747-749 (6 April 2006) | doi:10.1038/440747a.

quinta-feira, maio 04, 2017

O Homo naledi não é o que pensavam

Mais um elo perdido
Já disse e repito: nada como um dia depois do outro e uma pesquisa depois da outra. Aclamado como um ancestral elo perdido da evolução humana, o Homo naledi descoberto em uma gruta na África do Sul, além de não ser elo, é bem mais “jovem” do que os evolucionistas pensavam e queriam. Quando a notícia da descoberta foi divulgada aos quatro ventos, os pesquisadores especularam que o hominídeo tivesse até três milhões de anos. Mas nada de data precisa. A antropóloga Carol Ward, da Universidade de Missouri, chegou a declarar ao The Atlantic: “Sem datas, os fósseis não revelam quase nada sobre a evolução hominídea.” Mas por que os três milhões de anos eram tão atraentes para os evolucionistas? Simples: os paleoantropólogos acreditam que foi nessa época que homo evoluiu do australopithecus. Ocorre que, segundo matéria publicada pela BBC, o naledi é bem mais “jovem” do que se cria (confira aqui), tendo “apenas” 200 a 300 mil anos. Segundo a BBC, “uma idade de 200 a 300 mil anos elimina inteiramente o naledi da história evolutiva da nossa espécie, Homo sapiens”. Pois é...

quinta-feira, setembro 12, 2024

Elo perdido?

No dia 3 de setembro deste ano, foi publicada uma notícia no site “Olhar Digital” (Di Lorenzo), que diz o seguinte: “‘Elo perdido’ que explicaria a origem da vida na Terra foi encontrado por cientistas”. Naturalmente, os títulos de reportagens, notícias e outros tipos de conteúdos divulgados nas mídias populares tendem a ser sensacionalistas no sentido de que precisam ser chamativos e atrair a atenção do público, mas, muitas vezes, não expressam a realidade do assunto divulgado.


Que os pesquisadores têm esperança de que a bactéria pesquisada por eles, Candidatus Uabimicrobium helgolandensis, possa ser um “elo” entre organismos procariontes e a formação de organismos eucariontes, é verdade (Wurzbacher et al.). No entanto, afirmar que isso foi demonstrado pelas pesquisas e que explica a origem da vida na Terra já é esticar a verdade além de seus limites. É esperado que as mídias façam isso, apenas é bom que tenhamos consciência de que é assim.


Antes de prosseguir, só para relembrar, procariontes são organismos formados por uma única célula, como as bactérias e as arqueas, que não possuem um núcleo envolvido por membrana, nem organelas, apenas cromossomos e ribossomas, além de plasmídeos (DNA circular). Eucariontes são os organismos em que as células contêm núcleo e organelas envoltos por membrana.


A questão da evolução de organismos eucariontes a partir de procariontes é uma que pesquisadores da evolução dos seres vivos procuram desvendar, mas é uma questão bem distante da origem da vida, já que uma bactéria, mesmo a mais simples, já é um mundo em comparação com as moléculas orgânicas que formam os seres vivos. O surgimento das moléculas orgânicas complexas que formam os seres vivos é o desafio com o qual os pesquisadores da origem da vida têm se defrontado por cem anos. Esse problema não está nem perto de ter sido resolvido.


O principal problema das pesquisas sobre a origem da vida e os desafios monumentais que elas têm enfrentado tem a ver com a premissa errada de que a vida é definida pela junção de seus componentes básicos e que, se em algum laboratório forem simuladas as condições primitivas da Terra e moléculas orgânicas essenciais aos serem vivos, tais como ácidos nucléicos, proteínas e fosfolipídios, forem formados, isso representaria o começo da vida na Terra. Uma analogia para esse tipo de premissa seria a suposição de que a formação dos componentes básicos de um computador e a montagem dele, por algum conjunto de situações ideais ocorridas ao acaso, levaria a um computador funcionando perfeitamente e realizando tarefas.


E antes de prosseguir com a explicação dessa analogia, quero esclarecer que a palavra “acaso” para ela não provém de má informação da minha parte. Porque as leis físicas e as consequentes leis da química que dirigem quaisquer experimentos sobre origem da vida não têm preferência por originar moléculas e reações químicas que sejam as específicas e compatíveis com a vida. Por causa disso, porque o que está dirigindo esses experimentos é o acaso, geralmente são formados todos os tipos de moléculas, as que interessam à vida e seus isômeros, entre outros problemas. E também as reações químicas que acontecem são as que interessam para a vida e outras que atrapalham e dificultam essas reações.


Voltando à minha analogia com a construção de um computador, digamos que o computador tenha sido montado corretamente ao acaso, o que aconteceria quando ele fosse conectado a uma fonte de energia e ligado? O computador não faria nada. Por quê? Porque faltaria uma coisa essencial para que ele funcionasse: um sistema operacional, um programa que possibilita que ele realize as tarefas de um computador. Da mesma forma, a vida não está na organização e estruturação dos componentes orgânicos dos seres vivos, mas na “programação” que faz com que suas partes ajam inteligentemente, ou seja, a vida é processamento de informação!


Quanto ao caso das bactérias que estão sendo cogitadas como um elo entre seres procariontes e eucariontes, a ideia por trás dessa proposta é que, pelo fato de elas poderem fazer algo parecido com fagocitar (englobar e digerir) outras bactérias, isso poderia ser um primeiro passo para a formação de organelas com membrana dentro de uma bactéria primitiva. Porque há muito tempo têm sido ensinado em disciplinas de evolução que a mitocôndria (organela celular que produz energia) teria se originado de uma bactéria primitiva que foi englobada por outra célula primitiva e acabou se tornando parte da célula como uma organela. Esse teria sido o caso de cloroplastos e outros plastídeos também. Mas o fato é que se duvidava que uma célula procarionte pudesse ter energia suficiente para fazer algo assim, já que não possuía mitocôndrias que permitissem uma produção de energia bem mais eficiente.


A conclusão de que a bactéria que faz “fagocitose” seria um “elo perdido” entre procariontes e eucariontes se apoia no fato de que existem bactérias que vivem no interior de outros organismos e são conhecidas como endossimbiontes. Outra notícia que teria reforçado a hipótese da origem endossimbiótica de mitocôndrias e cloroplastos foi sobre uma suposta bactéria endossimbionte de uma alga marinha que evoluiu para uma organela (Coale et al. 217-222). Na verdade, os pesquisadores supunham que ela fosse uma bactéria endossimbionte, mas, ao examiná-la mais detidamente, concluíram que ela parece ser uma organela


O cenário imaginado para a teoria endossimbiótica é o de que algumas organelas celulares teriam sido formadas por endossimbiose bacteriana dentro de células que já eram eucariontes. Outra hipótese é de que a célula eucarionte teria se originado através de uma série de endossimbioses por diferentes bactérias (Bodył and Mackiewicz 484-492).


Encontrei um artigo em que foi feito mais do que ver como as pistas na natureza sobre este assunto podem apontar para uma conclusão e concluir que foi de fato assim (Libby et al.). O problema disso é que quando se encontra uma resposta possível para algo é preciso que se verifique se essa é a única resposta possível. Concluir que a primeira opção encontrada é a verdadeira porque é nossa resposta preferida para o problema não é a atitude de um verdadeiro investigador. Os autores do artigo que encontrei fazem estimativas quantitativas da viabilidade de organismos procariontes prosperarem numa associação endossimbiótica, já que, como eles disseram, “a endossimbiose é extremamente rara em bactérias e arqueas”.


Eles desenvolveram uma abordagem quantitativa para estimar a influência da compatibilidade metabólica entre os organismos procariontes vivendo em endossimbiose. Essa compatibilidade metabólica estimada significa “a capacidade do hospedeiro e do endossimbionte crescerem com os mesmos recursos”.  


Explicando seus métodos e resultados, os autores dizem o seguinte:

“Aqui, apresentamos uma estrutura quantitativa usando redes metabólicas em escala genômica que avalia o papel da compatibilidade metabólica nos diferentes estágios da evolução da endossimbiose procariótica: viabilidade, persistência e capacidade de evolução. Descobrimos que mais da metade dos pares aleatórios de metabolismos podem formar endossimbioses viáveis; no entanto, as endossimbioses resultantes frequentemente enfrentam custos de aptidão em termos de crescimento que dificilmente serão superados através de mutações. …No entanto, a robustez metabólica reduzida, as taxas de crescimento e a capacidade de evolução que estas endossimbioses provavelmente enfrentam limitam severamente a sua persistência e potencial para irradiar espetacularmente. As altas taxas de extinção e as baixas taxas de especiação resultantes dessas considerações metabólicas sustentariam apenas uma diversidade relativamente baixa de endossimbioses procarióticas existentes, confinadas a ambientes nos quais são menos propensas a serem superadas por hospedeiros ancestrais ou linhagens de endossimbiontes, tais como ambientes pobres em nutrientes.”


Ou seja, é pouco provável que bactérias endossimbiontes em células procariontes prosperariam para formar células eucariontes futuramente. Esses resultados acima mencionados me trazem à memória a história das pesquisas sobre a origem da vida que tenho acompanhado ao longo dos anos.


Em um artigo que foi publicado em 2020, por ocasião de um encontro em que pesquisadores em início de carreira se reuniram para considerar as perspectivas do futuro da pesquisa sobre a origem da vida, são citadas as palavras que  Oparin escreveu em seu livro em 1924:


“Todo um exército de biólogos está estudando a estrutura e organização da matéria viva, enquanto um número não menor de físicos e químicos  está diariamente nos revelando novas propriedades de coisas mortas. Como dois grupos de trabalhadores perfurando as duas extremidades opostas de um túnel, eles trabalham para o mesmo objetivo. O trabalho já percorreu um longo caminho e muito, muito em breve as últimas barreiras entre os vivos e os mortos desmoronarão sob o ataque do paciente e poderoso pensamento científico.”


Os autores desse artigo concluem: “O ‘muito, muito em breve’ não aconteceu até hoje”.

Oparin escreveu o primeiro livro sobre origem da vida que descreve o cenário de uma evolução química das moléculas e células primitivas que foram passando gradativamente, de forma espontânea, do estado não vivo para o de vivo (Oparin).

Freeman Dyson, em seu livro Origins of Life, declarou que a teoria de Oparin foi popular entre os cientistas por cerca de meio século “não porque houvesse qualquer evidência para apoiá-la, mas, antes, porque ela parecia ser a única alternativa para o criacionismo bíblico.” (Dyson)

Mais tarde, em 1953, Miller realizou seu famoso experimento que produziu aminoácidos. Mas o fato é que esse experimento não foi um sucesso. Encontraram-se evidências físicas e geológicas de que a atmosfera não era como seu experimento simulava, os aminoácidos produzidos não permaneciam muito tempo no ambiente em que eram formados senão seriam todos destruídos e descobriu-se que até os vidros dos tubos e balões onde ocorriam as reações reagiam com as moléculas da mistura.

Então, na década de 1980, Thomas R. Cech e Sidney Altman, trabalhando independentemente, descobriram que moléculas de RNA (moléculas muito parecidas com DNA) podem se dobrar de formas complexas e catalisar (acelerar) reações bioquímicas como fazem as proteínas enzimáticas (“The Nobel Prize in Chemistry 1989 - Press release”). 

Leslie Orgel, químico que ficou conhecido como o pai da teoria do mundo de RNA, e Gerald Joyce, bioquímico, idealizaram o que ficou conhecido como “o sonho do biólogo molecular”, mas que acabou se tornando “o pesadelo do químico prebiótico”. A molécula de RNA teria sido a primeira molécula importante para a vida porque conteria os genes codificadores de seres vivos e ao mesmo tempo poderia catalisar as reações de sua própria formação devido a sua função enzimática. Mas o que parecia uma resposta perfeita para o início da vida na teoria, se demonstrou um fracasso nas tentativas experimentais de produzir moléculas de RNA em um cenário prebiótico (de antes da vida começar).

A alternativa ao mundo de RNA consistia em um modelo de origem da vida através de um metabolismo primitivo, mas em 2010, um estudo (Vasas et al. 1470) dos cenários de origem da vida através de metabolismo, utilizando um modelo baseado em simulações computacionais para avaliar quantitativamente a viabilidade deles, concluiu o seguinte:

“A replicação da informação de compostos é tão imprecisa que os mais ajustados genomas de compostos não se mantêm pela seleção e, portanto, falta-lhes capacidade de evolução… Concluímos que esta limitação fundamental de conjuntos de replicadores adverte contra teorias de origem da vida de metabolismo primeiro.”

Um autor, em 2018, examinando a plausibilidade dos vários cenários para a origem da vida propostos (Tessera), cenários em que os compostos orgânicos que surgissem deveriam evoluir para originar seres vivos antes de haver uma evolução darwiniana (que atua sobre seres vivos), concluiu o seguinte:

“A partir desta revisão crítica infere-se que o conceito de ‘evolução pré-darwiniana’ parece questionável, em particular porque é improvável, se não impossível, que qualquer evolução em complexidade ao longo do tempo possa funcionar sem multiplicação e herdabilidade permitindo o surgimento de linhagens genética e ecologicamente distintas nas quais a seleção natural possa operar.”

Em outras palavras, sem multiplicação e herança, não poderia haver uma evolução química das moléculas até surgirem seres vivos.

O fato de estes resultados de pesquisas sobre a origem da vida me virem à mente quando li o artigo sobre a análise quantitativa da viabilidade de endossimbiose é porque estas duas situações demonstram justamente o que acontece quando as pessoas utilizam um conceito fraco de ciência que se originou com os filósofos iluministas e não com os pioneiros da ciência. Vejamos a diferença entre estes últimos e os primeiros.

Declarações de Roger Bacon em Opus Majus (Bacon)

“Passo agora à Matemática, o fundamento e a chave para todas as outras ciências, estudada desde as primeiras eras do mundo, mas que tem sido negligenciada ultimamente. Tratarei a seguir de sua aplicação ao conhecimento humano, ao conhecimento divino e ao governo da igreja... Temos a confirmação da experiência daqueles que conseguiram as maiores distinções em ciência. Eles devem seus resultados ao fundamento matemático de seus estudos... Passando dos métodos aos objetos de estudo, descobrimos ser impossível fazer progresso sem Matemática... Vimos a potência da Matemática quando aplicada a coisas seculares. Passamos agora a sua aplicação a coisas divinas. Filosofia é impossível sem Matemática, Teologia sem Filosofia. Todo o conhecimento está contido, direta ou indiretamente, nas Escrituras. Assim, para o correto entendimento da Escritura, conhecimento da natureza é necessário. Nas Escrituras, há um duplo significado, literal e espiritual. O primeiro é necessário para o segundo: e, como temos mostrado, conhecimento matemático é necessário para isso. Certamente os patriarcas estudaram Ciência Matemática e a transmitiram aos caldeus e egípcios, de onde ela chegou aos gregos. Isso é provado por Josefo e confirmado por Jerônimo e outros doutores, assim como por filósofos como Albumazar. Além disso, os próprios pais louvaram o valor da Ciência Matemática, como pode ser verificado em passagens de Cassiodoro, Agostinho, Bede e outros… O preconceito contra Matemática ganhou força pela luta do paganismo contra o cristianismo, em que a magia era usada pelo primeiro e em que os milagres cristãos eram considerados como magia.”

Declarações de Leonardo da Vinci (Da Vinci)

“Que nenhum homem que não seja um matemático leia os elementos de meu trabalho... Oh! estupidez humana, não percebes que, embora tenhas convivido contigo mesma toda tua vida, ainda não estás ciente da coisa que mais possuis, que é tua tolice? e então, com a multidão de sofistas, enganai-vos a vós mesmos e a outros, desprezando as ciências matemáticas, nas quais a verdade habita e o conhecimento das coisas nelas está... Ciência é a capitã e a prática são os soldados... Aqueles que se apaixonam pela prática sem a ciência são como aqueles que entram em um navio sem leme ou bússola e que nunca podem ter certeza de para onde estão indo... Nenhuma investigação pode ser chamada de ciência real se não puder ser demonstrada matematicamente... Portanto, ó estudantes, estudem Matemática e não construam sem fundamentos... Aqueles que condenam a suprema certeza da Matemática alimentam-se de confusão e nunca podem silenciar as contradições das ciências sofistas que levam ao eterno charlatanismo.”

Declarações de Galileu Galilei (Galilei)

“Em Sarsi pareço discernir a firme crença de que, ao filosofar, devemos apoiar-nos na opinião de algum autor célebre, como se nossas mentes devessem permanecer completamente estéreis e infrutíferas exceto quando casadas com o raciocínio de outra pessoa. Possivelmente, ele pensa que filosofia é um livro de ficção de algum escritor, como Ilíada ou Orlando Furioso, produções nas quais a coisa menos importante é se o que foi escrito é verdadeiro. Bem, Sarsi, não é assim que as coisas funcionam. A filosofia está escrita nesse grandioso livro, o universo, que permanece continuamente aberto a nossa vista. Mas esse livro não pode ser entendido a menos que primeiro se aprenda a entender a língua e a ler as letras com as quais é composto. Ele está escrito na língua da matemática, e seus caracteres são triângulos, círculos, e outras figuras geométricas sem as quais é humanamente impossível entender uma simples palavra dele; sem eles, fica-se a vagar em um labirinto escuro... Colocando de lado as dicas e falando abertamente e lidando com a ciência como um método de demonstração e raciocínio acessível ao uso humano, sustento que quanto mais isto participa da perfeição, menos proposições prometerá ensinar, e menos ainda provará conclusivamente. Consequentemente, quanto mais perfeita ela é, menos atrativa será e menor será seu número de seguidores. Por outro lado, títulos magníficos e muitas promessas grandiosas atraem a curiosidade natural dos homens e os mantém para sempre envolvidos em falácias e quimeras, sem nunca oferecer-lhes uma amostra sequer da nitidez da verdadeira prova pela qual o gosto pode ser despertado para saber o quão insípida é a ração diária da filosofia. Tais coisas manterão uma infinidade de homens ocupados, e será realmente afortunado o homem que, guiado por alguma luz interior fora do comum, puder sair dos confusos labirintos nos quais ele poderia ter permanecido perpetuamente errante com a multidão e tornando-se cada vez mais enredado.”


Agora vejamos as considerações sobre filósofos como Francis Bacon e Denis Diderot

“O Iluminismo, como a época em que a ciência natural experimental amadurece e se destaca, admira Bacon como ‘o pai da filosofia experimental’. A revolução de Bacon (promulgada, entre outras obras, em The New Organon, 1620) envolve conceber a nova ciência como (1) fundada na observação e experimentação empírica; (2) obtida através do método de indução; e (3) como objetivo final e confirmada por capacidades práticas melhoradas (daí o lema baconiano, ‘conhecimento é poder’). (Bristow)” 

“Denis Diderot foi um escritor e filósofo cujo corpus de trabalho contribuiu para as ideias da Revolução Francesa. Ele foi editor das seções de arte e ciência da enciclopédia. Ele foi um ‘teórico científico’ original do Iluminismo, que conectou a mais nova tendência científica a ideias filosóficas radicais como o materialismo. Ele foi especialmente interessado nas ciências da vida e seu impacto em nossas ideias tradicionais sobre o que é uma pessoa ou humanidade. (Kumar 59)”

A diferença entre os primeiros e os últimos é que os primeiros nos legaram uma ciência que se baseia em métodos matemáticos. Esta foi a ciência que inspirou Newton a descobrir o Cálculo que levou à “investigação do calor, luz, eletricidade, magnetismo e química atômica” (Williams). Newton “foi a figura culminante da Revolução Científica do século XVII” (Westfall). O tipo de ciência de Newton, baseado em métodos matemáticos levou ao desenvolvimento da física e da química, que levaram ao desenvolvimento da biologia, da medicina, da engenharia e da tecnologia.

Em contrapartida, as idéias dos filósofos iluministas, baseadas numa ciência que se apoia na razão humana, no raciocínio indutivo, em métodos de tentativa e erro, produziram resultados como a Revolução Francesa e o naturalismo metodológico.

A diferença entre estas duas ciências é que a primeira nos legou um método capaz de ajudar a humanidade a transcender as falhas do raciocínio humano quando ele tenta lidar com coisas que ultrapassam a experiência do cotidiano e que não são possíveis de serem imaginadas para serem observadas e se levantarem hipóteses a respeito. Ela provê insights sobre a realidade que provêm dos métodos matemáticos utilizados. Enquanto que a segunda, limita-se ao que o ser humano consegue imaginar para poder testar, baseia-se em coisas que parecem perfeitamente lógicas para o raciocínio filosófico, mas que na prática, levam a becos sem saída como as pesquisas sobre a origem da vida e o surgimento das primeiras células eucariontes.

(Graça Lütz é bióloga e bioquímica)

Obras citadas:

Bacon, Roger. Opus Majus. Oxford, Clarendon press, 1897.

Bodył, A., and P. Mackiewicz. Brenner’s Encyclopedia of Genetics. 2nd ed., vol. 2, Wrocław, Elsevier Inc., https://open.icm.edu.pl/server/api/core/bitstreams/2e5ba617-0224-403c-8f09-ac1acaacd762/content.

Bristow, William. Enlightenment. Edward N. Zalta & Uri Nodelman, 2023, https://plato.stanford.edu/archives/fall2023/entries/enlightenment/.

Coale, Tyler H., et al. “Nitrogen-fixing organelle in a marine alga.” Science, vol. 384, no. 6692, 2024, pp. 217-222. Science, https://www.science.org/doi/10.1126/science.adk1075. Accessed 10 09 2024.

Da Vinci, Leonardo. The notebooks of Leonardo da Vinci. 1955. Internet Archive, Braziller, https://archive.org/details/noteboo00leon/page/n6/mode/1up. Accessed 11 09 2024.

Di Lorenzo, Alessandro. “'Elo perdido' que explicaria a origem da vida na Terra foi encontrado por cientistas.” Olhar Digital, 03 09 2024, https://olhardigital.com.br/2024/09/03/ciencia-e-espaco/elo-perdido-que-explicaria-a-origem-da-vida-na-terra-foi-encontrado-por-cientistas/. Accessed 10 09 2024.

Dyson, Freeman. Origins of life. Cambridge, Cambridge University Press, 1999/2000.

Galilei, Galileu. Il Saggiatore. Roma, Rome Giacomo Mascardi, 1623.

Kumar, Sanjeev. “Impact of intellectuals and philosophers in French revolution 1789.” International Journal of History, vol. 2, no. 1, 2020, pp. 56-59.

Libby, Eric, et al. “Metabolic compatibility and the rarity of prokaryote endosymbioses.” PNAS, 2023. PubMed Central, https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC10151612/. Accessed 10 09 2024.

“The Nobel Prize in Chemistry 1989 - Press release.” The Noble Prize, https://www.nobelprize.org/prizes/chemistry/1989/press-release/. Accessed 11 09 2024.

Oparin, A. I. The Origin of Life. 2nd ed., New York, Dover Publications, Inc., 1953.

Tessera, Marc. “Is pre-Darwinian evolution plausible?” Biology Direct, vol. 13, no. 18, 2018. BMC, https://biologydirect.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13062-018-0216-7. Accessed 11 09 2024.

Vasas, Vera, et al. “Lack of evolvability in self-sustaining autocatalytic networks constraints metabolism-first scenarios for the origin of life.” PNAS, vol. 107, no. 4, 2010, pp. 1470-1475.

Westfall, Richard S. Isaac Newton. Encyclopedia Britannica, https://www.britannica.com/biography/Isaac-Newton. Accessed 10 2020.

Williams, L. Pearce. History of Science. Encyclopedia Britannica, https://www.britannica.com/science/history-of-science. Accessed 11 2022.

Wurzbacher, Carmen E., et al. “'Candidatus Uabimicrobium helgolandensis'—a planctomycetal bacterium with phagocytosis-like prey cell engulfment, surface-dependent motility, and cell division.” mBio, 2024. ASM Journals, https://journals.asm.org/doi/10.1128/mbio.02044-24. Accessed 10 09 2024.