sexta-feira, abril 05, 2013

Mitocôndria: uma nave celular híper mega hightech

Agradeço ao Fabiano pela leitura, pela crítica e pela gentileza acadêmica de me oferecer a réplica [ao texto dele]. Meu adversário de ideias, mas amigo de propósito, o de encontrar a Verdade. Agradeço a ele também por me apontar dois erros em meu texto. Aliás, duas trocas. Uma, troquei ao digitar, coisa que faço nos minutos que me sobram em algumas madrugadas, o ano da observação de Carl Benda (1898) pelo de seu nascimento (1857), dois antes do ano “fatídico”, o ano de 1859. Outra troca, imperdoável, eu sei, a qual não consigo, sinceramente, explicar, foi a de seu sexo. Só consigo apelar para a influência da imensa maioria hoje de mulheres, na Ciência, ainda mais na Química, e em meu laboratório. Afora, porém, essas duas trocas, que vou corrigi-las, certamente, e além de uns “typos das altas madrugadas”, assombrações cibernéticas que me perseguem, o resto reputo impecável, baseado em fatos científicos difíceis de contrapor.

Contrário ao que afirma Fabiano, não afirmei que Carl Benda foi o “descobridor das mitocôndrias”. Pois todos nós sabemos, e assim relatam os historiadores da Ciência, que a “descoberta” e a caracterização bioquímica das mitocôndrias não foram feitos isolados e que possam ser atribuídos, com justiça, a um pesquisador só, em particular. Foi um processo lento e gradual, que levou décadas (não evolutivo, mas de intervenção inteligente), iniciando-se em meados do século 12, pelos atores que Fabiano bem descreveu. Apenas citei a observação que julguei de maior importância, feita por Carl Benda, o “pai que a elas deu o nome”, por acreditar ele que as mitocôndrias funcionariam como os “pilares de sustentação” das células, usando assim as palavras gregas mitos e chondros (“fios de cartilagem”) para descrevê-las. Em sua critica, Fabiano dá, porém, a seu querer, muito mais crédito aos outros, relegando a um segundo plano o papel de quem eu destaquei. Note, porém, que se alguém merece maior crédito pela “descoberta” das mitocôndrias, esse alguém parece ser exatamente aquele que este “ignorante” aqui em história da Ciência destacou. Pois há pelo menos referencias a se citar, em favor dele, se alguém assim o desejasse, como o livro 100 Greatest Science Discoveries of All Time (Libraries Unlimited, 2007), no qual Kendall Haven cita exatamente Carl Benda como o “descobridor das mitocôndrias” (veja o apendix 2, p. 233).

Quanto à minha falha em não citar a teoria apresentada pela Dra. Lynn Margulis para a evolução das mitocôndrias, eu não citei porque meu objetivo não era o de desqualificar teses evolucionistas, que sei existem aos montes (via muita retórica e pouca evidência, muitas vezes nenhuma). Meu objetivo era focar em apresentar os argumentos a favor do Design Inteligente. Porque sei que assim os dados indicam, opto pela TDI!

Mas se me forçam ao contraponto, vou então parafrasear Dawkins em sua entrevista recente a Folha [veja também o comentário aqui]. Eu não citei a tal teoria, pois me recuso, como ele, a respeitar “crenças” contrárias ao “bom senso” científico. Notem que troquei consenso, que em ciência quer disser pouca coisa – quase nada, pois a geração espontânea era um enorme consenso científico, apoiada por toda a nomenklatura científica e por vários papers na Nature e na Science e pelos ancestrais de Dawkins e pelos principais “blogs” da época, quando Pasteur, pelo bom senso científico, a derrubou.

A tal endossimbiose é uma desesperação absurda, um sonho infantil, uma ilusão, que atribui a alguns verdadeiros milagres químicos e genéticos a “criação” dessas organelas hiper mega high tech, no caso, a mitocôndria e seu “primo”, o cloroplasto, como consequência de uma tal “associação simbiótica” estável entre organismos durante o processo evolutivo.

Gente, leiam os artigos que Fabiano citou e avaliem os processos ao nível molecular, se vocês souberem (bio)química - coisa que a evolução espera que não -, e vejam o que seria necessário para esses processos ocorrerem - não o blá blá blá, mas a Química e a Genética necessárias -, e me digam se eu deveria respeitar isso. Vejam quantas mutações benéficas isso requereria, e qual o tempo necessário para elas se fixarem, e lembrem-se de que mitocôndrias parecem ser quase tão ancestrais quanto a vida neste planeta, se não iguais. E vejam quem fala lá que estabeleceu a direcionalidade das mutações, na direção das mitocôndrias. Direcionalidade via processos não guiados, acéfalos, sem propósito ou planejamento futuro, quem fez isso? Só porque são parecidas com uma bactéria, evoluíram dela? Fazem o mesmo com os humanos e os chimpanzés...

Um apelo aqui não ao “deus das lacunas”, o que eu não faço, mas - me permitam a analogia - à “Nossa Senhora Seleção Natural Desatadora de Nós”, daqueles nós químicos, genéticos e bioquímicos, que só a Seleção Natural consegue desatar; aquela santa “loira”, pois acéfala, e despropositada (portanto, desastrada) da evolução; ao “São Tempo das Causas Perdidas”, que Georg Wald disse uma vez faria os “milagres” da evolução tornando causas “inviáveis” em “inevitáveis” – como se pulando, um dia eu pudesse chegar à Lua –, e a um tal “MacGyver nanomolecular”, que eu não sei quem é, mas que lá deveria estar, para juntar todas as partes, simbioticamente, juntinhas e certinhas, e pô-las a funcionar em mitocôndrias; e, mais ainda, em seus primos “verdes”. Haja fé no irracional, fé no inviável, ao nível molecular, fé que desconhece Química e Genética, e Matemática, e fé de um tipo que eu me recuso a ter, e como Dawkins, a respeitar.

Fabiano faz também uma afirmação incorreta, quando tenta justificar que Vida com V poderia dispensar as mitocôndrias. E afirma o que eu não disse, que “o autor (eu) tenta nos convencer de que todos os seres vivos precisam obrigatoriamente de uma mitocôndria”. Pois disse claramente – e lá está no meu web-book para quem quiser conferir: “[mitocôndrias] estão presentes em praticamente todas as células eucarióticas.” Ou seja, o praticamente aqui deixa em aberto espaço para umas poucas exceções, que Fabiano corretamente citou. Mas não obrigatoriamente, mas direta ou indiretamente, sim, as mitocôndrias parecem mesmo indispensáveis à Vida plena – às suas formas plenas –, pois energia é preciso; pergunte a um espermatozoide!

Fabiano, então, tentando justificar seu descrédito à minha tese, menciona dois parasitas do organismo humano, Giardia lamblia e Trichomonas vaginalis, como prova de que Vida com V pode, sim, existir neste planeta sem mitocôndrias. Pois, vejamos, mesmo que isso fosse possível, não refutaria minha tese, pois conhecemos Vida que delas depende, e as possui, e então temos que explicá-las, via processos naturais não guiados ou pela intervenção de uma mente inteligente, estas são as opções. Mas ele citou parasitas, e estes são dependentes de seus hospedeiros, ou não seriam? E no caso aqui, o hospedeiro somos nós, recheados de mitocôndrias “da cabeça aos pés”! Ou seja, se parasita depende do hospedeiro, e se o hospedeiro depende de mitocôndrias, logo o parasita depende de mitocôndrias. Ou não?

Mitocôndrias, repito aqui, são – os dados nos forçam a admitir – um espetáculo hiper mega high tech e indesculpável de inteligência e sofisticação. Coisa de tirar o fôlego, ainda mais para quem consegue visualizá-las ao nível molecular. As mitocôndrias, por exemplo, se movem “a la bondinho do Pão de Açucar”, penduradas em fios proteicos, por rodovias celulares (Figura 1), e impulsionadas por aquele robô nanomolecular, o nanomotor que tem pernas e mãos nanomoleculares – as kinesinas (Figura 2), outro espetáculo indesculpável de DI! E aí querem me convencer de que tudo isso, isso sim uma associação simbiótica real de um nanorrobô molecular com uma usina manomolecular de energia, que em si é recheada de ATP sintases, verdadeiros nano-reatores moleculares, que abraçam as moléculas de ADP e fosfato para formar ATP (Figura 3), um outro espetáculo de design megainteligente, seria tudo isso fruto da ação exclusiva de forças naturais (eletromagnéticas) não guiadas? Eu, um químico, que conheço bem tais forças e sei de seus limites? Você pode crer nisso, mas eu não!


Figura 1. Algumas funções mitocondriais absurdamente inteligentes: (1) movimento dinâmico ao longo de microtúbulos assistido por motores nanomoleculres – kinesinas; (2) o ciclo de Krebs que ocorre na matriz mitocondrial; (3) transaminação de α-cetoglutarato que produz os neurotransmissores glutamato e GABA; (4) a cadeia de transporte de elétrons (ETC); a transferência de elétrons é acoplada com a extrusão de prótons para fora da matriz pelo espaço intermembranar, produzindo um gradiente eletroquímico através da membrana interna de cerca de -200 mV; (5) prótons retornam para a matriz através da ATP sintase, utilizando a energia livre produzida pelo ETC para dirigir a síntese de ATP; (6) homeostase do cálcio e íons Ca2+ sequestrados na matriz sob a forma de um complexo de fosfato reversível.


Figura 2. Os nanorrobôs moleculares, as kinesinas, se locomovendo através das rodovias moleculares. Com nanobraços e nanopernas moleculares. Sabem o que pegar, de onde e para onde levar. Outra evidencia indesculpável de DI na Vida.

Figura 3. A ATP sintase. O menor e mais eficiente nano-motor deste planeta turbinando a usina nanomolecular de produção de energia da Vida.

Mitocôndrias são, assim, um espetáculo hiper mega high tech indesculpavelmente nítido de inteligência e sofisticação, de complexidade irredutível, de informação aperiódica funcional, de antevidência genial. E para as mitocôndrias, as kinesinas, as ATP-sintase, e suas associações simbióticas, todas que recheiam a Vida, a Ciência conhece hoje uma única causa, a gente goste ou não, necessária e suficiente: uma mente híper mega inteligente!


Arqueólogos descobrem complexo de 4 mil anos no Iraque

Arqueólogos britânicos divulgaram nesta quinta-feira (4) a descoberta de um grande complexo perto de onde se situava a antiga cidade de Ur, no atual Iraque. As construções datam de 4 mil anos atrás, mesma época em que Abraão viveu na cidade, de acordo com a Bíblia. Stuart Campbell, pesquisador da Universidade de Manchester que liderou o trabalho, disse que a descoberta é “de tirar o fôlego”. O complexo tem a área semelhante à de um campo de futebol, e descobertas tão grandes e tão antigas são consideradas raras. “Parece ser algum tipo de prédio público. Pode ter sido um centro administrativo, pode ter tido conexões religiosas ou pode ter sido usado para controlar a entrada de mercadorias na cidade de Ur”, explicou Campbell. Os objetos descobertos no local, assim como restos de plantas e animais encontrados nas ruínas, devem ajudar a contar a história das civilizações que ocuparam a região na Antiguidade. Ur foi a última capital da civilização suméria, surgida 5 mil anos atrás em uma região historicamente conhecida como Mesopotâmia, no Oriente Médio.

Depois de décadas de guerras e relações tensas com o Ocidente, o Iraque volta a ser um campo a ser explorado por arqueólogos – o sul do país, onde foi feita esta descoberta, é considerado relativamente estável. Esta foi a primeira expedição de pesquisadores britânicos ao local desde a década de 1980.


Pensamentos: no princípio e no fim


quinta-feira, abril 04, 2013

Seria Deus um “monstro moral”?

Paul Copan (Ph.D, Marquette University) é professor de Filosofia e Ética na Palm Beach University, na Flórida, EUA. É autor e editor de dezenas de livros na área de apologética cristã e filosofia da religião. Além de diversos artigos publicados em importantes publicações na área de filosofia, como a Philosophia Christi, ele também é membro da Evangelical Society of Philosophy. Is God a Moral Monster? é uma resposta para as diversas acusações contra o caráter de Deus como exposto nas páginas do Antigo Testamento, principalmente da parte dos chamados neoateus. Com a publicação da obra Deus, um Delírio, de Richard Dawkins (2005), e Letter to a Christian Nation, de Sam Harris (2007), o Antigo Testamento começou a ser visto pelo público secularizado como uma mola propulsora para a violência e a intolerância. Tópicos ali encontrados como homofobia, genocídio, machismo e fundamentalismo religioso são alguns dos motivos – aparentemente verdadeiros – que têm levado muitos a rejeitar qualquer princípio ético das páginas das Escrituras Hebraicas.

Apesar de Copan não ser um especialista em Antigo Testamento (AT) e documentos do Antigo Oriente Médio (AOM), sua obra foi classificada por Richard Davidson, do departamento de AT da Andrews University, em Michigan, EUA, como “a mais poderosa e coerente defesa do caráter de Deus no AT diante dos ataques dos neoateus” (p. ii), e de “a melhor defesa da ética do Antigo Testamento” (p. i), por Gordon Wenham, professor emérito de AT na University of Gloucestershire.
           
A obra está dividia em quatro partes. Na primeira (p. 13-24), Copan oferece um breve histórico sobre o movimento conhecido como neoateísmo, bem como suas críticas à religião bíblica. Já na segunda (p. 25-54), são abordados tópicos como a suposta arrogância e o ciúme de Deus em Sua aliança com Israel. Além desses assuntos, Gênesis 22 – um capítulo que tem sido muito utilizado para descrever a “brutalidade” de Yahweh – também foi analisado à luz do contexto do Antigo e do Novo Testamentos.
           
A terceira seção (p. 55-206) é a principal do livro, onde tópicos mais espinhosos são abordados, tais como Heiligkeitsgesetz, o Código de Santidade (Levítico 17-26), no qual, inclusive, encontramos leis relacionadas com práticas homossexuais; as leis que regulamentavam a escravidão em Israel; e a questão da matança dos cananeus. Paul Copan fez um excelente trabalho comparando material bíblico disponível nas páginas do AT com documentos de povos do AOM trazidos à luz pelas descobertas arqueológicas dos últimos 200 anos.
           
Já a quarta e última seção (p. 209-222) lida com o fundamento teísta para a moralidade humana. Além de apresentar a fragilidade de uma noção de certo e errado sem um Ser transcendente, Copan ainda apresenta brevemente como o cristianismo foi responsável por revolucionar o mundo ocidental graças a importantes contribuições humanitárias, filosóficas, literárias, artísticas e até musicais, uma resposta sutil ao subtítulo da obra do ateu Christopher Hitchens, deus não é Grande: Como a Religião Envenena Tudo (2007).

Gostaria de destacar dois pontos que ressaltam a importância da obra de Copan. Primeiro, a constante comparação entre diversas práticas do AT com práticas legais de diversos povos do AOM. Para muitos leitores não treinados nesse ramo de estudo, o trabalho de Copan surge como uma excelente ferramenta para a constatação de uma faceta mais humanitária de Israel em contraste com os povos da Mesopotâmia, Canaã e até o próprio Egito.
           
A título de ilustração, Copan fez amplo uso da literatura conhecida sobre as leis que regulamentavam a escravidão em Israel (Êx 21), e a apresentou nos capítulos 12-14. Desde códigos de leis hititas, passando por documentos cananitas do 2º milênio a.C., até uma análise minuciosa do texto hebraico do AT, percebe-se entre os israelitas um caráter mais humanitário quanto à escravidão. Na lei mosaica, sequestrar alguém para ser vendido como escravo era um crime punido com pena capital (Êx 21:16). Um escravo hebreu deveria trabalhar apenas seis anos para pagar sua dívida, sendo liberto no sétimo ano sem pagar nada (Êx 21:2). Além disso, ele deveria receber do seu proprietário alguns animais e alimentos para começar a vida novamente (Dt 15:13, 14). Durante seu período de serviço, o(a) escravo(a) teria um dia de folga semanal, o sábado (Êx 20:10). Não só isso, mas em Israel, o escravo e seu senhor eram tratados em pé de igualdade (cf. Jó 33:15, 16). Um avanço humanitário significativo e totalmente desconhecido até aquele momento em todo o território do AOM.

Segundo, é a apresentação do ambiente social e religioso de Canaã durante o 2º e o 1º milênio a.C. Práticas como sacrifícios humanos, prostituição, incesto e zoofilia eram ingredientes comuns naquelas culturas. Tais atividades são examinadas com atenção pelo autor e são apresentadas como motivos reais para o “genocídio” cananeu. Digno de nota são suas considerações sobre a “retórica exagerada no Antigo Oriente Médio” (p. 169-185), onde o autor argumenta, citando diversos documentos arqueológicos, que a linguagem de completa destruição (heb. herem) não era tão completa assim.
           
Finalmente, existe um tópico que demonstram certa fragilidade argumentativa do autor. Nas páginas 79-81, Copan faz menção das leis dietéticas de Levítico 11, a distinção de animais puros e impuros. O autor fez uso de Marcos 7:19 e Atos 10:10-16 para afirmar que no Novo Testamento todos os alimentos são puros. Ora, o assunto em Marcos 7 é a halakah, a tradição dos anciãos, e não as leis de saúde de Levítico 11. Já em Atos 10, o assunto não é alimentação, mas, sim, o preconceito que os judeus nutriam contra os gentios (cf. At 11). O autor demonstrou estar bem familiarizado com publicações de eruditos adventistas como Richard Davidson, Roy Gane e Barna Magyarosi. Sendo assim, ele poderia ter levado em consideração a tese doutoral de Jirí Moskala, “The Laws of Clean and Unclean Animals of Leviticus 11: Their Nature, Theology, and Rationale (An Intertextual Study)” (Adventist Theological Society Publications, 2000). Sua compreensão de Levítico 11 poderia ser mais equilibrada, se essa obra tivesse sido consultada.

Além de uma bem documentada referência bibliográfica, o livro contém um guia de estudo para cada um dos seus capítulos, tornando-se uma ferramenta útil para grupos de estudo, seminários em igrejas e aulas para alunos do ensino médio.

(Luiz Gustavo Assis é pastor em Porto Alegre, RS, e Bacharel em Teologia pelo Unasp)

Por que o mundo existe, ao invés do nada?

Existe uma resposta possível à pergunta “por que o mundo existe, ao invés do nada?” O mestre de yoga indiano Swami Sivananda (1887-1963) dizia que essa era uma “Atiprasna”, ou uma questão transcendental. “Você não pode encontrar a solução para essa pergunta nem se quebrar sua cabeça por milhares de anos”, dizia Sivananda. Mas o ensaísta, crítico de filosofia, matemática e ciência Jim Holt, colaborador da revista New Yorker e do jornal The New York Times, dedicou um livro inteiro à busca dessa resposta: Why Does the World Exist? An Existential Detective Story (Por que o Mundo Existe? Uma Estória de Detetive Existencial), 320 páginas, lançado em junho nos Estados Unidos. Jim foi entrevistado pelo colunista John Williams, do The New York Times, que publicou uma coluna intitulada “No small talk: Jim Holt on Why the World Exists” (Sem conversa fiada: Jim Holt sobre Por Que o Mundo Existe) com as respostas do autor. Algumas delas foram traduzidas livremente para o português [pelo blog Dharmalog] e estão publicadas abaixo.

Difícil imaginar um título mais ambicioso para um livro. Como você sintetizaria a questão que ele investiga?

Por que o Universo seu deu ao trabalho de existir? Por que há algo ao invés de nada? William James chamou esta de “a questão mais negra de toda filosofia”. Para Wittgenstein, a existência do mundo era razão para maravilhamento. “Não é como as coisas estão no mundo que é místico”, disse ele, “mas que elas existam”. Divido esse sentido de maravilhamento, e queria ver o quão longe a mente humana poderia ir penetrando no mistério da existência.

Você se lembra do momento em que pensou nessa pergunta pela primeira vez?

Cresci numa família religiosa, por isso a resposta padrão era que Deus fez o mundo, e Deus mesmo existe eternamente em sua própria natureza. Na adolescência, comecei a duvidar dessa história teológica. Me interessei pelo existencialismo e botei minhas mãos num livro de Heidegger chamado Uma Introdução à Metafísica. A primeiríssima frase era: “Por que há algo ao invés de nada?”, ainda posso me lembrar da pura poesia que me atropelou.

Você cita o autor Roy Abraham Varghese para dizer que “a pergunta original última é uma pergunta metacientífica – uma que a ciência pode fazer, mas não pode responder”. Depois de escrever esse livro, você concorda?

Varghese disse aquilo porque queria resguardar o mistério para a religião. Não fico feliz com isso. Mas também não fico feliz com o jeito que o físico Lawrence Krauss tentou responder a derradeira questão do “por que” em seu livro Um Universo do Nada (A Universe From Nothing). Krauss é um físico talentoso e um popularizador e sempre vale a leitura, mesmo quando está sendo filosoficamente tolo. Krauss, em essência, pensa que as leis da teoria do campo quântico estabelecem a existência de um universo. De onde essas leis vêm, e o que lhes dá sua aparente força sobre o vazio, ele não diz.

Há um capítulo sobre a morte de sua mãe que eu achei incrivelmente tocante. Que impacto, se houve algum, isso teve com relação às grandes perguntas feitas pelo seu livro?

A pergunta “Por que o mundo existe?” rima com a pergunta “Por que eu existo?”. As existências pessoal e cósmica são precárias ao extremo. Isso nasceu em mim quando, exatamente quando eu estava escrevendo os últimos capítulos do livro, sobre o eu e a morte, minha mãe morreu inesperadamente. Eu estava sozinho com ela no quarto do asilo no momento final. Ver um ser piscar para dentro do nada – o próprio ser que criou sua própria vida, nada menos – é sentir a esquisitice da vida de uma nova maneira.

quarta-feira, abril 03, 2013

A Bíblia entre os mitos: que diferença!

Vivemos em uma época de reducionismo. Isso se torna especialmente evidente pelo uso comum da palavra “apenas”. Os reducionistas dizem: “A mente humana é apenas um sistema complexo de matéria”, ou “A moralidade é apenas um subproduto da evolução para a sobrevivência do grupo.”[1] Quando se trata de estudos bíblicos, normalmente o reducionismo assume a seguinte forma: “As narrativas do Gênesis são apenas mais um mito do Oriente Próximo Antigo.” Os pós-evangélicos usam hoje, regularmente, esses argumentos. Em nível popular, escritores como Rachel Held Evans comentam sobre os “notadamente semelhantes” relatos da criação e do dilúvio do Antigo Oriente Próximo em relação aos encontrados em Gênesis. Compreender Gênesis como não histórico, um mito não científico, que contém os mesmos “recursos literários humanos” e “pressupostos cosmológicos” que os do Antigo Oriente Próximo, teria sido, segundo ela mesma, “libertador”.[2]

Peter Enns é o estudioso pós-evangélico mais frequentemente associado com essa visão. Em seu livro Inspiration and Incarnation (Inspiração e Encarnação), Enns procurou mostrar que Deus se ajustou às culturas do Antigo Oriente Próximo, usando formas literárias não históricas e não científicas em Gênesis (e em outros escritos) para comunicar sua mensagem.[3] Muitos seguiram sua liderança, especialmente aqueles que procuram resolução da [suposta] discórdia percebida entre fé e ciência. [Continue lendo.]


O Cético: teoria elástica

Clique na tirinha para vê-la ampliada.

terça-feira, abril 02, 2013

“Origem de Deus é questão absurda”

Enquanto a Folha de S. Paulo entrevista adolescentes ateus e dá a essas reportagens títulos sensacionalistas (confira), e vive concedendo espaço para ateus militantes como Richard Dawkins (confira), o jornal O Estado de S. Paulo faz jornalismo melhor, “ouve” o outro lado e entrevista gente que realmente tem o que dizer para contribuir efetivamente na discussão. Em 2009, por exemplo, o Estadão entrevistou John Lennox, professor em Oxford e autor de livros como Por Que a Ciência Não Consegue Enterrar Deus?. Leia a entrevista:

Como o senhor contaria a história do Universo, com base no design inteligente?

Bem, no início, Deus criou o mundo. Quando isso aconteceu, eu não sei. A Bíblia não diz. A melhor estimativa hoje é em torno de 13 bilhões de anos atrás. Não vejo problema com isso. A descrição científica do Universo se expandindo a partir de um ponto inicial é fascinante, porque foi só a partir dos anos 60 que os físicos começaram a falar nisso. Por séculos, eles aceitaram a versão de Aristóteles, de que o Universo sempre existiu. Mas a Bíblia sempre disse que houve um início. É o que eu chamo de convergência. Ciência e teologia buscam respostas para perguntas muito diferentes, mas não totalmente diferentes.

Então o senhor não vê conflito entre a ciência do Big Bang e a teologia da Criação?

Não. O que o Big Bang nos diz é que houve um início, representado por uma singularidade (um ponto de massa e densidade infinitas). O que os cientistas fazem é apontar para trás e dizer sinto muito, não posso ir além desse ponto, porque aqui as leis da física deixam de funcionar. A pergunta lógica que se faz é: Qual é a causa dessa singularidade? Aí entram as Escrituras e dizem: Deus é responsável. Isso não é anticiência, é algo que faz sentido.

Mas a mesma pergunta pode ser feita sobre Deus: Se ele criou o Universo, quem criou Deus?

Se você me pergunta isso, significa que você pensa em Deus como algo que foi criado. A maioria de nós (cristãos) nunca acreditou nisso. A pergunta que não quer calar é outra, muito mais profunda: Existe algo eterno, que nunca foi criado? Deus é eterno, segundo a fé cristã; Ele não foi criado, sempre existiu. Perguntar quem o criou é absurdo. E o que dizer sobre a matéria e a energia? Os materialistas acreditam que elas são eternas. De ambos os lados do debate há uma realidade definitiva. Para mim, essa realidade é Deus. Para o materialista, é matéria e energia. Então, não venha discutir comigo sobre quem criou Deus. A verdadeira pergunta que devemos fazer é: Para que lado apontam as evidências?

O que diz o design inteligente?

É importante contextualizar isso, porque estou cansado das interpretações equivocadas que são feitas. A pergunta que está na base do assim chamado “movimento do design inteligente” é esta: Há evidências científicas de que o Universo não é um sistema fechado; de que houve um input de inteligência na sua criação? O que buscamos fazer com isso é separar a questão científica da questão teológica. Imagine o seguinte: você e eu voamos para Marte e encontramos lá várias pilhas de cubos de titânio. A primeira pilha tem dois cubos, a segunda três, depois 5, 7, 11, 13 e assim por diante, seguindo a ordem de números primos. O que você acharia disso? Certamente alguém esteve lá antes de nós, mas quem? Podemos concluir que aquilo é um arranjo inteligente, mesmo sem saber a identidade da inteligência que o criou. Agora, você acha que o fato de o Universo ser inteligível é evidência do quê? De uma inteligência superior que o criou, ou de um processo aleatório e despropositado?

Como é que a evolução se encaixa nesse modelo?

Temos que ter cuidado aqui, pois a palavra evolução é como a palavra criacionismo; ela pode ter várias definições, e não vejo problema com algumas delas. Não vejo problema com o que Darwin observou. Ele foi um gênio! A seleção natural faz algumas coisas, como mudar bicos de pássaros e coisas assim. O erro está em acreditar que a evolução faz tudo. A evolução pressupõe a existência de um organismo replicador mutante. Ela não pode explicar a existência daquilo que é mutado, não pode explicar a origem da vida. Não estou dizendo que processos naturais não estão envolvidos; estou dizendo que a inteligência tem que estar envolvida desde o início. Se você define a natureza como aquilo que a física e a química podem fazer, a vida parece ser algo sobrenatural. Processos naturais são ótimos para transmitir informação, mas não para criar informação.

O senhor acredita que Deus criou uma única forma de vida primordial, da qual todos os seres vivos evoluíram, ou que todas as espécies foram criadas por Deus da maneira como existem hoje?

Não quero ser dogmático sobre isso. Nós já conversamos sobre a singularidade que existia na origem do Universo. Os físicos concordam que houve um início, então eles estão em acordo com a Bíblia nesse aspecto. No primeiro capítulo da Bíblia está escrito: “E Deus disse: faça-se a luz.” Então eu imagino que Deus falou e criou o Universo. Depois Ele falou de novo, e houve outras singularidades. Talvez uma delas tenha sido a criação da vida.

Mas o que foi criado exatamente? Vou colocar a pergunta de outra forma: O senhor acredita na ancestralidade comum de todos os seres vivos, como propõe Darwin?

Ora, isso está sendo disputado profundamente pelos cientistas neste momento. Não sou geneticista, mas estou muito impressionado com as novas argumentações que estão surgindo nessa área. Elas mostram que a árvore da vida está morta. O que eu acredito é que houve pontos específicos na história em que Deus introduziu coisas novas, que não podem ser explicadas apenas pelos processos naturais que já estavam em curso. Os momentos mais importantes foram a criação do Universo, da vida biológica e da vida humana. Não acredito que os seres humanos evoluíram de alguma forma animal, puramente por processos naturais.

O ser humano, então, seria uma singularidade criada por Deus, como o Universo? Ele foi criado da forma como existe hoje?

Isso é o que eu acredito. O que você teria visto se estivesse lá no momento da criação, eu não sei dizer. O que sei é que os seres humanos são seres únicos em toda a criação. A Bíblia diz que eles foram feitos à imagem de Deus. Em resumo, minha atitude é muito simples: sem Deus, não se pode chegar do nada a alguma coisa. Sem Deus, não se pode chegar do material ao vivo. Sem Deus, não se pode chegar do animal ao humano. Acredito nisso não por uma questão de fé, mas porque é o que as evidências me levam a crer.

É justo que um materialista, como o senhor diz, exija provas de que Deus existe para acreditar nele?

Sem dúvida, desde que você me explique o que quer dizer por “provas”. Eu trabalho numa área - a matemática - em que “prova” tem um significado muito específico. É claro que eu não posso provar matematicamente que Deus existe. Mas eu posso dar evidências e fazer uma argumentação com base na ciência e em outras disciplinas. Assim como não posso provar que minha mulher me ama, mas tenho muitas evidências disso. Richard Dawkins diz que ter fé é acreditar em algo sobre o qual não há provas. Mas isso é a definição dele. Isso é fé cega. Eu sou um cristão, e a fé cristã é o oposto da cegueira. Ela é baseada em evidências, como a ressurreição de Cristo, sobre a qual há evidências históricas, diretas e indiretas.

A agonia de Cassandra - ou: a triste sina de Confuso

Talvez a parte mais estressante dos chamados filmes-catástrofe (terremotos, tubarões, maremotos, piranhas, polvos, aliens e asteroides) não seja a tragédia em si, mas o clichê que a precede: pessoas anônimas, sem grande credibilidade, buscam advertir as autoridades quanto à tragédia iminente, mas, por uma série interminável e previsível de motivos, ninguém lhes dá a mínima. Até que a desgraça desaba sobre os soberbos e, principalmente, sobre os inocentes. Parece-me que o apelo catártico desse tipo de filme não é o voyeurismo macabro que se costuma manifestar diante do sofrimento alheio - voyeurismo facilmente identificável na bem-sucedida indústria de tabloides e pasquins de “notícias populares”, que escorrem sangue. Talvez o mote do filme-catástrofe seja o desagravo de quem se preocupa com o semelhante e busca sua segurança - por que não dizer “salvação”? - empregando tempo e recursos, suportando o escárnio e o deboche, com evidente prejuízo para si.

Lembro-me desse tema sempre que ouço certos políticos e personalidades públicas tachando de “Cassandras” aqueles que recomendam prudência e ponderação em contraste com suas previsões progressistas (“liberem o aborto, as drogas, os casamentos mistos e múltiplos e adentraremos triunfantes na Era de Aquário!”).

Mas voltemos: a ignorância cultural e a falta de senso crítico da imprensa é o que mais salta aos olhos diante dessa rotulação grosseira. Ninguém percebe ou aponta que o termo “Cassandra” não designa um pessimista que sempre faz previsões furadas. Uma visita à mitologia grega, ainda que através da mendicante e tendenciosa Wikipédia, pode trazer luz à questão (http://pt.wikipedia.org/wiki/Cassandra):

Cassandra foi uma princesa troiana habilitada desde a infância a ouvir as vozes dos deuses após uma serpente lamber seus ouvidos enquanto ela dormia no Templo de Apolo. Posteriormente, agora uma moça extremamente bela, passou a servir fielmente a Apolo, que se apaixonou por ela e ensinou-lhe os segredos da profecia. Uma vez profetiza, Cassandra negou-se a deitar-se com ele, sendo por isso amaldiçoada: ninguém acreditaria em suas profecias. Dito e feito: prevendo que o Cavalo de Madeira deixado nos portões de Troia causaria a destruição da cidade, alertou seus pais, o rei Príamo e a rainha Hécuba. Não lhe deram ouvidos e Troia acabou sendo invadida e arrasada. 

Assim, o rótulo Cassandra não se aplica a catastrofistas alucinados que sempre quebram a cara, mas à pessoa que, antevendo a danação se aproximar, adverte, em vão, as futuras vítimas do desastre.

Na minha infância, eu costumava assistir a um desenho muito divertido, “Carangos e Motocas”, em que um fusquinha simpaticíssimo era atazanado por uma gangue de motocicletas. Entre essas, havia uma motoquinha barulhenta chamada Confuso. Confuso sempre aconselhava o líder da quadrilha a desistir de seus “planos infalíveis”. E sempre levava um chega-pra-lá do grandalhão. Resultado: o plano gorava, as motocas se davam mal e ainda tinham que aguentar a cantilena de Confuso: “Eu te disse, eu te disse, eu te disse! Mas eu te disse!” Era o final recorrente dos episódios.

Em tempos de hedonismo alucinado, da busca pelo êxtase espiritual em detrimento da verdadeira experiência com Deus através oração particular e do estudo aplicado das doutrinas da Bíblia Sagrada - sem falar na troca de Yavé por Mamom por exigência de “pastores” da Teologia da Rapacidade, resta mais que evidente que qualquer Cassandra moderna ou seu epígono infantil não conseguirá atrair muitos para a Arca de Noé, símbolo da graça de Cristo. O que não justifica negligenciarmos nossas responsabilidades.

(Marco Dourado, analista de sistemas formado pela UnB, com especialização em Administração em Banco de Dados)

segunda-feira, abril 01, 2013

Ateu fundamentalista prega o desrespeito às religiões

Matéria perfeita para o conhecido Dia da Mentira.* Depois de publicar uma “reportagem” despropositada, em sua edição dominical de uma semana atrás (lembra-se da fada do dente?), a Folha de S. Paulo volta à carga com uma entrevista feita com o maior ateu fundamentalista militante de nosso tempo: Richard Dawkins. Após várias linhas introdutórias dedicadas à propaganda gratuita dos livros do biólogo, diz a Folha na abertura da entrevista: “Figura polêmica, Dawkins tem provocado a admiração da comunidade leiga [sim, porque muitos especialistas – mesmo ateus – o repudiam] ao pregar o entusiasmo pelo pensamento livre e não dogmático; e também a ira de muitos líderes religiosos por sua crítica impiedosa ao criacionismo - tese que rejeita a evolução das espécies - e, ao mesmo tempo, sua apologia do ateísmo”. Detalhe: a entrevista foi gravada no mês passado, mas somente publicada hoje. Leia alguns trechos a seguir, com perguntas dadas de bandeja, do tipo que o ateu britânico adora (porque das difíceis ele corre, conforme bem sabe William Lane Craig, por exemplo) [meus comentários seguem entre colchetes]:

O sr. diz que há uma tendência ao silêncio em relação às doutrinas religiosas dos outros, que as pessoas evitam debater sobre suas próprias crenças, e que esse fato é nocivo à sociedade. Não seria necessário simplesmente respeitar as diferentes crenças das pessoas?

Não devemos respeitar crenças que influenciam a vida de crianças e que vão contra conhecimento dado como consenso na comunidade científica [e respeitar o ateísmo proselitista infantil de Dawkins, devemos? Clique aqui]. Uma coisa é uma pessoa dizer que acredita em Papai Noel e manter essa crença dentro de sua família - ainda que eu considere uma pena para os filhos. Quando algumas pessoas, contudo, começam a ensinar que a Terra tem apenas cerca de 10 mil anos, aí eu acho um absurdo e quero lutar contra isso [este sempre é o ponto nevrálgico: os criacionistas bíblicos. E se eu considerar nociva a ideia de ensinar às crianças que Deus não existe, deverei também desrespeitar quem pensa assim e “lutar” contra isso? Com seu ateísmo fundamentalista, Dawkins prega o clima de belicosidade que não leva a nada – talvez, no máximo, a uma inquisição sem fogueiras contra os crentes. Gostaria de ver Dawkins visitando presídios e deixando com os bandidos exemplares de A Origem das Espécies ou de Deus, um Delírio, para ver depois o que acontece... Ao contrário disso, Bíblias entregues sistematicamente nesses ambientes têm transformado muitas e muitas vidas].

Um novo papa acaba de ser eleito. Ele é argentino. É possível dizer que isso representa um avanço em termos políticos da fé no mundo em desenvolvimento? [De repente, o biólogo ateu de um país anglicano se transforma em autoridade sobre assuntos católicos...]

Se pensarmos que haverá uma menor centralização política daqueles que determinam o futuro da Igreja Católica, sim, sem dúvida. No Brasil, a Igreja Católica tem perdido fiéis para outras tradições protestantes. Alguns atribuem tal fenômeno à dinâmica dos rituais católicos, ainda bastante hierarquizados e tradicionais, se comparados às religiões protestantes. Não conheço bem o contexto brasileiro, mas é possível imaginar que a não participação ativa dos fiéis nas missas católicas é um dos fatores que provavelmente têm contribuído para tal queda.

Explicando melhor, os rituais protestantes nos EUA são como shows, os participantes dançam, cantam, tocam instrumentos. Suponho que no Brasil as missas ainda tenham um formato bastante tradicional e que provavelmente tenham pouco apelo social para conquistar seguidores jovens. [Enfim, o óbvio ululante que ignora contextos sociológicos mais profundos; a Folha fez a pergunta para a pessoa errada.]

E quanto ao que não conseguimos explicar? Não vem daí uma das “necessidades” da religião e da crença no “sobrenatural”?

Essa talvez seja uma das explicações que mais me aborrecem para se crer em uma deidade. Eu gostaria que as pessoas não fossem preguiçosas, covardes e derrotistas o suficiente para dizer: “Eu não consigo explicar, portanto isso deve ser algo sobrenatural.” A resposta mais correta e corajosa seria a seguinte: “Eu não sei ainda, mas estou trabalhando para saber.” [Dawkins deixa de lado os fundadores do método científico que trabalharam arduamente para descobrir como Deus criou o Universo. Fizeram a ciência como a conhecemos – e que garante o ganha-pão de Dawkins – movidos por profundo sentimento de gratidão e louvor ao Criador.]

Comentário do leitor Valderi Felizardo da Silva: “Abri ­– pela última vez e já digo por que – a página online da Folha de S. Paulo e, depois daquela matéria do “Deus é como a fada do dente” (não existem pessoas que, depois da infância, falem tanto da fada de dente como os ateus...), vi outra: li uma entrevista confusa, tendenciosa e inquisitiva de Richard Dawkins dizendo que não se deve respeitar as crenças que divergem do consenso científico. Que consenso científico? Quem estabelece os consensos? A ciência, que não fala nem tem opiniões, ou os formadores de opinião? Pelo menos nos comentários [à entrevista] vejo que há pessoas que acham que Dawkins está querendo é blindar sua posição e atacar aqueles que pensam de modo contrário. O que está acontecendo com a Folha? Faltando matérias como aquelas dos anos de chumbo da ditadura? Depois das opiniões de Hélio, o qual não publica comentários de quem não seja assinante da genitora do Notícias Populares – é, eles tentam esquecer isso, mas tá no DNA, não é? – e das demais matérias de apologia ao ateísmo, não gastarei mais tempo nem digitais acessando o site do jornal.”

* Clique aqui para saber por que considero a entrevista com Dawkins perfeita para o Dia da Mentira.

Na Mira da Verdade (volume 2)

No segundo volume da série “Na Mira da Verdade”, o jornalista científico e mestrando em Teologia, Leandro Quadros, apresenta uma metodologia simples e eficaz para o estudo da Bíblia, e aborda outros textos bíblicos de difícil interpretação que não constam no primeiro volume, que irá para a 3ª edição. Perguntas como: “Quem foi a esposa de Caim?” (Gn 4:17), “Por que Deus quis matar Moisés?” (Êx 4:24), a alegação ateística (com base em Levítico 21) de que “Deus exclui dos cultos os portadores de necessidades especiais, a doutrina da predestinação, entre muitos outros assuntos, são abordados não da perspectiva do autor, mas do ponto de vista bíblico. O leitor poderá comprovar isso pessoalmente ao se deparar com cada uma das questões abordadas no Na Mira da Verdade, volume 2.

Além disso, o livro comenta a declaração de Cristo em Lucas 23:42, 43, de que Ele e o ladrão arrependido estariam no céu “logo após a morte”; detém-se na declaração de Paulo sobre o “batismo pelos mortos” (1Co 15:29) e na alegação católica de que Maria “foi virgem por toda sua vida”.

As questões discutidas são relevantes às pessoas das mais diversas denominações religiosas, e algumas delas são do interesse de ateus e agnósticos que têm o hábito de ler a Bíblia. Para adquirir o livro e conhecer o “Sumário” com a apresentação de todo o conteúdo, basta acessar www.leandroquadros.com.br/livros

FBI quer espionar atividades na web em tempo real

Imagine as suas mensagens de e-mail, do bate-papo do Facebook ou do Google Talk, das conversas do Skype e de basicamente toda a sua vida online sendo espionadas em tempo real. Não se trata de um programa-espião que os pais instalam nas máquinas dos filhos e nem mesmo de trabalho de hackers mal-intencionados, mas sim de um projeto do FBI. Dessa vez, o departamento federal de investigação do país norte-americano pretende ter privilégios para espionar, em tempo real, absolutamente todas as comunicações online dos cidadãos dos EUA. Segundo relata o site Slate, especializado em política e tecnologia, as agências governamentais dos Estados Unidos já podem forçar os provedores de internet a instalar dispositivos de vigilância em suas redes graças a uma lei de 1994. Entretanto, essa legislação não inclui as novas tecnologias, como e-mail e serviços da web em geral, inclusive armazenamento nas nuvens.

Assim sendo, de acordo com o conselheiro-geral do FBI Andrew Weissmann, o FBI trata do tema como questão de segurança nacional, classificando-o como “prioridade máxima” para ser solucionado ainda em 2013.

Ainda de acordo com o Slate, o governo dos Estados Unidos já possui determinadas medidas legais para interceptar uma mensagem de e-mail, por exemplo. Por meio do capítulo III da Lei do Grampo Telefônico, as autoridades podem solicitar aos provedores de chat online ou de e-mail que prestem a assistência técnica necessária para realizar tal interceptação.

Nota: Aos poucos, o monitoramento vai substituindo a liberdade no país que primava pelos direitos dos cidadãos. Nada mais profético.[MB]

Médico se manifesta contra o aborto provocado

No 1º Encontro Nacional de Conselhos de Medicina 2013, realizado no mês de março, o Conselho Federal de Medicina (CFM) se manifestou favorável ao aborto até a 12ª semana de gestação. O CFM sugeriu que se deve afastar a ilicitude da interrupção da gestação em uma das seguintes situações: (a) quando “houver risco à vida ou à saúde da gestante”; (b) se a “gravidez resultar de violação da dignidade sexual, ou do emprego não consentido de técnica de reprodução assistida”; (c) se for “comprovada a anencefalia ou quando o feto padecer de graves e incuráveis anomalias que inviabilizem a vida independente,  em ambos os casos atestado por dois médicos”; e (d) se “por vontade da gestante até a 12ª semana de gestação”. O conselho aprova a interrupção voluntária da gravidez até a 12ª semana de gestação e uma das justificativas apresentadas em nota na página do CFM para o limite dessa data é a de que o sistema nervoso já estaria formado a partir de então, tomando por base, naturalmente, a embriologia humana.


O aborto provocado sempre foi tema de muita discussão, porém, tem perdido muito de sua polêmica nos últimos anos em vários países nos quais sua legalização já comemora bons 40 anos. No Brasil, a aceitação do aborto tem sido mais difícil devido, segundo especialistas, à natureza cultural e religiosa do país, onde encontrava dura resistência. Seguindo a tendência mundial, a despeito de inúmeras manifestações religiosas e não religiosas contrárias à sua legalização, o aborto está às portas de ser aprovado como ato não criminoso, guardadas as devidas situações acima expostas, muito embora, há apenas alguns anos, ainda fosse considerado um grave crime pela maioria absoluta da sociedade, inclusive pela classe médica. O CFM, em nota específica em sua página oficial, informa que continuará a julgar os médicos que praticam o ato, ao menos enquanto não é finalizada a revisão do CPB por juristas, a qual tramita no Congresso Nacional.

A justificativa para a fixação de uma data para a polêmica prática do aborto chamou minha atenção. Confesso que não entendi muito bem a ligação entre essa data (12ª semana) e o ato de interrupção da gravidez em si. Pergunto-me: O que importa saber se o tecido nervoso do feto já está formado ou não, se seu destino, de todo o corpo, será a morte? Por causa de uma suposta e questionável consciência a partir desse período? Por causa de eventual dor que nem sabemos, ao certo, se o feto manifesta nessa fase? O que importa saber disso se não consideramos a vontade desse ser vivo?

Questiono-me: Se fosse possível perguntar ao feto, seu desejo seria viver ou morrer? Não consigo imaginar uma resposta negativa. Todos queremos viver. Ninguém quer morrer! Nosso corpo não quer morrer. Cada célula do nosso organismo está preparada para lutar contra a morte. Somos feitos de trilhões de células guerreiras programadas para não morrer. Às vezes, umas morrem para que todo o órgão, sistema ou organismo não pereça. A luta contra a morte ocorre independentemente da consciência. Comprovamos muito isso à beira do leito de uma enfermaria ou UTI. Quem trabalha em hospital sabe que quando há alguma coisa de errado com o organismo, ele responde de maneira, muitas vezes, intensa na tentativa de minimizar o problema ou eliminar o agente agressor/causador do sofrimento que ameace a vida, mesmo com o paciente inconsciente ou sedado.

Taquipnéia, febre, taquicardia, vasodilatação e vasoconstricção, decorrentes de alterações metabólicas, humorais, neurológicas e hormonais, são só alguns exemplos que ocorrem num contexto de preservação da vida e em resposta às alterações orgânicas que, nessas situações, estão presentes até o último momento antes da morte. 

A sobrevida aumentou nos últimos 40 anos graças ao avanço tecnológico e às medidas diagnósticas e terapêuticas cada vez mais eficazes. Todos os dias a medicina estuda meios de aumentá-la ainda mais, o que está diretamente relacionado com a redução da morbimortalidade. Milhares de dólares são gastos todo ano no Brasil com promoção e recuperação da saúde. O foco é sempre o aumento do tempo de vida, e vida com qualidade.

Todos somos a favor da vida e avessos à morte. Nossa sociedade aceita as clássicas fases do nascer, crescer e reproduzir, mas evita mencionar o morrer. Sempre ouvi falar em congelamento de corpos vivos. De fato, várias pessoas congelaram o corpo na tentativa de descongelá-lo num futuro longínquo em que a técnica de descongelamento seria possível. Tudo porque desejam viver mais para ver o amanhã.

Já ouvimos falar dos caçadores da fonte da juventude. Muita gente faz cirurgia plástica porque não aceita o envelhecimento e a proximidade da morte. O que dizer da clonagem? Muitos sonham com a possibilidade de extensão da vida. Há esperança da “cura” para a morte. A manipulação genética tem como principal justificativa a geração de genes “sem defeitos ou marcas geneticamente defeituosas”, objetivando-se a formação de seres sem doenças determinadas cromossomicamente. Por quê? Porque doença é sinônimo de morte.

Se, inicialmente, éramos a favor do aborto no caso de inviabilidade do feto e, como exemplo, citávamos a anencefalia e as deformidades macrossômicas que inviabilizavam a vida após o nascimento, qual a nossa justificativa agora? A vontade da gestante? Que ingerência tem ela sobre um ser vivo saudável, mesmo outorgando-se com poderes sobre seu próprio filho que lhe justifique o direito de extirpá-lo de suas entranhas e lançá-lo à morte? E qual a diferença moral entre o infanticídio pós-natal e o pré-natal? Dias? Semanas? Meses? Em minha opinião, nenhuma! Estes atos inescrupulosos são repugnantes e passíveis da mesma punição.

Recentemente, evidenciamos um infanticídio comum na Europa em que uma mãe francesa matou e congelou três crianças, seus filhos. A notícia chocou o mundo. Sem discutirmos o motivo que a levou a praticar tal crime, mas considerando a permissividade e o relativismo que assolam atualmente nossa sociedade, quem sabe essa mulher não se arrependa de ter assassinado seus filhos após o nascimento dos três e não antes do mesmo, quando as crianças ainda estavam no intraútero? Afinal, considerando a descriminalização do aborto, estaria, hoje, livre da prisão! Tirar uma vida, nos dias de hoje, tornou-se algo relativo à medida que consideramos os interesses da sociedade. Contudo, é muito bom saber que há princípios morais que revelam o caráter do Criador e que norteiam nossas atitudes diante de situações lastimáveis como essas. 

Os colegas médicos, se não lembram, deveriam se lembrar do juramento que fizemos ao nos formarmos. Recitamos, em uníssono, o pensamento genuíno do pai da medicina, Hipócrates, que, se vivesse nos dias de hoje e com base em sua declaração e na dos seus discípulos, certamente manifestaria sua opinião contrária a essa que está se reproduzindo pelo mundo. 


Poderíamos imaginar que ele mataria em lugar de “fazer vida”, como declarou 400 anos antes de Cristo? A descriminalização do aborto foi, é e sempre será contrária aos princípios da medicina (sem citar os princípios de Deus), enquanto considerarmos Hipócrates como o pai da arte de “curar”.


Num trecho do juramento de Hipócrates, podemos ver seu pensamento evidente em favor da vida: “Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo, não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva...” 

Estamos esquecendo nossos princípios! Estamos pisando nas leis morais! Estamos seguindo as mudanças internacionais e anulando nossa própria identidade. O mundo muda, mas o princípio moral deve permanecer, para sempre, numa sociedade saudável, caso contrário, destrói-se a sociedade, que, aliás, começa pela família, a qual tem sofrido terríveis investidas por parte de inimigos camuflados sob a pele de cordeiro. Sem princípio moral, não há família. Sem família, não há sociedade saudável. Sem sociedade, não há esperança. Sem esperança, não há salvação. Sem salvação, não há vida.

Medicina é vida, não morte, mas, quando praticamos a morte, matamos a medicina.

Meu apelo é: Pare o aborto! Não pare a gestação! Sou a favor da família e da vida. Digo não ao aborto provocado. Digo sim à medicina. Digo sim à vida.