segunda-feira, fevereiro 22, 2016

Retiros: opção saudável ao carnaval

Contato com Deus e com a natureza
Enquanto milhares de pessoas se entregam à folia todos os anos em nosso país, um número ainda maior de brasileiros aproveita o feriado para viajar ou simplesmente descansar. Mas há pessoas que optam por algo diferente e mais saudável e edificante: vão para retiros espirituais. Neste ano, fui com minha família para um retiro em Tanguá, no Rio de Janeiro. Tive o privilégio de apresentar palestras para um grupo de 200 pessoas, num local muito bonito em meio à natureza. Como chegamos ao Rio na sexta-feira à tarde, pudemos (infelizmente) ver um pouco da agitação que estava tomando conta da cidade, com pessoas vestidas em fantasias (e outras quase não vestidas) e engarrafamentos em várias ruas. Os bares estavam apinhados de gente “esquentando os motores” para a “celebração da carne” e os desfiles que teriam início dali poucas horas. Conforme me disseram os novos amigos que fiz no retiro, a cidade fica insuportável para quem gosta de sossego e abomina os excessos a que as pessoas se entregam nessa época do ano. O jeito, então, para quem pode, é literalmente fugir das cidades.
Foi o que fizemos. Depois de viajar cerca de 70 km de ônibus a partir da capital, com os irmãos da Igreja Adventista de Guadalupe, chegamos ao sítio Juvak, no pequeno município de Tanguá (tem uns 30 mil habitantes). O local é realmente muito bonito, como você pode ver nas fotos. Há muitas árvores, sombra e um lindo cenário circundante. Ótimo lugar para a realização das atividades típicas de um retiro adventista: cultos, palestras, jantares especiais temáticos, gincanas, recreação e muita interação para cultivar amizades. A gente quase se esquece de que lá fora, no mundão, o “clima” é outro.
Entre as várias pessoas que pude conhecer, duas me chamaram a atenção pela história de vida. 

Cuidado! Somos todos viciados em distração

Esta geração está perdendo muito
Certa noite, no começo do último verão, eu abri um livro e me flagrei relendo o mesmo parágrafo de novo e de novo, uma meia dúzia de vezes, até me dar conta de que não adiantava continuar. Eu estava simplesmente incapaz de me concentrar o suficiente. Fiquei horrorizado. Ao longo de toda a minha vida, ler sempre foi uma fonte profunda e consistente de prazer, aprendizado e consolação. Agora os livros que eu comprava com regularidade tinham começado a se empilhar na minha mesinha de cabeceira e me encaravam com um olhar silencioso de reprovação. Eu vinha passando tempo demais online, em vez de ler, verificando o número de visualizações do site da minha empresa, comprando mais meias coloridas na Gilt e na Rue La La, por mais que eu já tivesse mais meias do que precisava. [...]

No trabalho, eu olhava o e-mail com mais frequência do que eu admitia e passei tempo demais procurando ansiosamente por informações novas sobre a campanha presidencial, por mais que fosse demorar ainda mais um ano até virem as eleições. “A internet é feita para ser um sistema de interrupção, uma máquina configurada para dividir as nossas atenções”, explica Nicholas Carr em seu livro A Geração Superficial: O que a internet está fazendo com os nossos cérebros. “Aceitamos de bom grado a perda de concentração e foco, a divisão de nossa atenção e a fragmentação de nossos pensamentos, em troca de recebermos uma fortuna de informações interessantes ou, pelo menos, capazes de nos distrair.”

Um vício é a atração implacável a uma substância ou atividade, que se torna tão compulsiva que acaba interferindo com a vida cotidiana. Indo por essa definição, quase todo mundo que conheço tem algum grau de vício na internet. Pode-se dizer até que ela já substituiu o trabalho como o vício mais socialmente aceito hoje.

Segundo uma pesquisa recente, o empregado médio num escritório gasta cerca de seis horas por dia só com e-mail. Essa estatística não inclui o tempo online gasto com compras, buscas ou acompanhando redes sociais.

A fome do cérebro por novidades, estimulação constante e gratificação instantânea cria algo chamado de “ciclo da compulsão”. Como ratos de laboratório ou viciados em drogas, precisamos de doses cada vez mais fortes para obter o mesmo efeito. O problema é que nós humanos temos um reservatório bastante limitado de força de vontade e disciplina. Nossa chance de sucesso é muito maior se tentarmos mudar um comportamento só por vez, idealmente no mesmo horário todos os dias, de modo que ele se torne rotina, exigindo cada vez menos energia para manter.

O acesso infinito a novas informações também sobrecarrega com facilidade nossa memória de trabalho. Quando atingimos a sobrecarga cognitiva, nossa capacidade de transferir o aprendizado para a memória de longo prazo se deteriora significativamente. É como se o cérebro tivesse se tornado um copo cheio d’água e qualquer gota a mais o fizesse transbordar.

Faz muito tempo que estou ciente disso. Comecei a escrever sobre o assunto há mais de 20 anos já. Todos os dias explico isso para os meus clientes, só que eu mesmo nunca acreditei de verdade que uma coisa dessas pudesse valer para mim. A negação é a primeira defesa do viciado. Nenhum obstáculo para a recuperação é maior do que a capacidade infinita de racionalizarmos nossos comportamentos compulsivos. Após anos sentindo que eu estava me virando razoavelmente bem, no último inverno acabei caindo num período intenso de viagens enquanto tentava, ao mesmo tempo, gerenciar uma empresa de consultoria em crescimento. No começo do verão, de repente me dei conta de que eu não estava me virando tão bem assim, e tampouco me sentia bem com isso.

Além de passar muito tempo na internet e sentir minha atenção se dispersar, eu também não estava me alimentando direito. Eu bebia refrigerante diet em excesso e com muita frequência tomava um drinque a mais por noite. Também tinha parado de me exercitar diariamente, como tinha sido o meu costume a vida inteira.

Em resposta, criei um plano cuja ambição beirava o irracional. Durante os 30 dias que se seguiram, tentei corrigir esses comportamentos e muitos outros, tudo de uma vez. Era um surto de grandiosidade, o exato oposto do que recomendo para os meus clientes todos os dias. Mas eu tinha racionalizado que ninguém tem um maior comprometimento com o autoaperfeiçoamento do que eu. Esses comportamentos estão todos interligados. “Eu consigo”, eu pensava.

Pude obter algum sucesso naqueles 30 dias. Apesar das tentações, consegui parar totalmente de beber refrigerante diet e álcool (três meses depois, eu continuo sem beber refrigerante). Também abri mão de açúcar e carboidratos como macarrão e batata. Voltei a me exercitar com regularidade. Foi com um único comportamento que fracassei por completo: reduzir meu tempo na internet. Meu compromisso inicial era o de impor limites à minha vida online. Decidi que só iria olhar o e-mail três vezes por dia: quando acordasse, na hora do almoço e antes de ir para casa no fim do dia. No primeiro dia, aguentei firme até a metade da manhã, então entrei em crise. Eu era como um viciado em doces trabalhando numa confeitaria, tentando resistir à vontade de comer um cupcake.

O que derrotou a minha força de vontade naquela primeira manhã foi a sensação de que eu tinha a completa necessidade de mandar algum e-mail para alguém sobre um assunto urgente. Eu dizia a mim mesmo que, se eu só redigisse o e-mail e apertasse “enviar” rapidinho, isso não contaria como entrar na internet. O que não levei em consideração foi o fato de que novos e-mails chegavam na minha caixa de entrada enquanto eu escrevia. Nenhum deles precisava de resposta urgente, mas, mesmo assim, para mim era impossível resistir à tentação de dar uma espiadinha na primeira mensagem que tivesse algo interessante no assunto. Depois a segunda. E a terceira.

Em questão de momentos, eu estava de volta ao mesmo ciclo vicioso. No dia seguinte, desisti de tentar reduzir meu tempo online. Em vez disso, me concentrei na tarefa mais simples de resistir ao refrigerante diet, ao álcool e ao açúcar. Mesmo assim, eu estava determinado a tentar de novo o meu desafio com a internet. Várias semanas depois do fim do meu experimento de 30 dias, saí de casa para passar um mês de férias. Era uma oportunidade para concentrar a minha limitada força de vontade num único objetivo: me libertar da internet, numa tentativa de recuperar o controle sobre a minha atenção.

Eu já tinha dado o primeiro passo para a minha recuperação: admitir minha incapacidade de me desconectar. Agora era a hora da desintoxicação. O segundo passo tradicional – a crença de que só um poder superior poderia me ajudar a recuperar a sanidade – eu interpretei de um modo mais secular. O poder superior se tornou a minha filha, de 30 anos, que desconectou o meu celular e notebook do e-mail e da internet. Livre do fardo do conhecimento técnico, eu não fazia ideia de como proceder para reconectar qualquer um dos dois.

De fato, eu me sinto mais controlado agora. Minha atenção está mais dirigida e menos automática. Quando fico online, tento resistir à vontade de navegar até dizer chega. Sempre que possível, tento perguntar a mim mesmo: “É isso mesmo que eu queria estar fazendo?” Se a resposta for negativa, a minha segunda pergunta é: “O que eu poderia estar fazendo que eu acho que seria mais produtivo, mais satisfatório ou mais relaxante?”

Acabei deixando uma só brecha para contato, que foi a mensagem de texto. Em retrospecto, era como se eu estivesse agarrado a um bote salva-vidas digital. Pouquíssimas pessoas na minha vida se comunicam comigo por mensagem de texto. Como estava de férias, na maior parte essas pessoas eram familiares, e as mensagens só continham informações sobre onde nos encontraríamos em vários pontos ao longo do dia.

Nos primeiros dias, eu de fato sofri com a crise de abstinência, o pior sendo a vontade de abrir o Google para sanar alguma dúvida qualquer que surgisse. Mas, a cada dia que se passava offline, eu me sentia mais relaxado, menos ansioso, mais concentrado e com menos fome de estímulos breves e instantâneas. O que aconteceu com o meu cérebro é exatamente o que eu esperava que fosse acontecer: ele começou a sossegar.

Eu havia trazido comigo, nessas férias, mais de uma dúzia de livros, de tamanhos e níveis de dificuldade variados. Comecei com não-ficção breve, depois passei para a não-ficção longa, conforme fui me sentindo mais calmo e mais concentrado. [...] Na medida em que as semanas foram passando, consegui abrir mão da minha necessidade de fatos como fonte de gratificação. Em vez disso, passei então para os romances. [...]

Estou de volta ao trabalho agora, e, por isso, é claro, de volta à internet. Não é como se fosse possível abrir mão da internet, e ela ainda vai consumir muito da minha atenção. Meu objetivo no momento é encontrar o melhor equilíbrio possível entre o meu tempo online e offline.

Também faço questão agora de incluir atividades mais envolventes no meu dia a dia. Sobretudo, eu continuei minhas leituras, não só porque amo ler, mas também como parte da minha prática para melhorar a atenção. Outra coisa foi que eu mantive ainda meu ritual antigo de decidir na noite anterior qual será a coisa mais importante que devo fazer no dia seguinte. Seja o que for, ela acaba sendo a minha primeira atividade de trabalho, à qual dedico de 60 a 90 minutos ininterruptos de concentração. Depois, faço um intervalo de 10 a 15 minutos para a mente sossegar e recobrar as energias.

Se tiver mais trabalho ao longo do dia que exija concentração ininterrupta, eu saio completamente da internet durante períodos determinados, repetindo o meu ritual matutino. De noite, quando vou para o quarto, quase sempre deixo meus aparelhos digitais no andar de baixo.

Por fim, agora eu me sinto comprometido a tirar pelo menos um período de férias digitais por ano. Tenho o privilégio raro de poder tirar várias semanas de folga por vez, mas aprendi que até uma única semana offline já é capaz de ter profundos efeitos restauradores.

Por vezes, eu me flagro revendo mentalmente uma imagem assombrosa do meu último dia de férias. Eu estava sentado num restaurante com a família quando um homem com uns 40 e poucos anos chegou e sentou com a filha, que devia ter uns 4 ou 5 anos e era uma graça. Assim que o homem chegou, ele concentrou sua atenção quase de imediato no celular. Enquanto isso, sua filha era um redemoinho de energia e inquietude, subindo no assento, andando em cima da mesa, acenando e fazendo careta para chamar a atenção do pai. Exceto por brevíssimos momentos, porém, ela não conseguiu chamar sua atenção e acabou desistindo depois de um tempo, com tristeza. O silêncio era ensurdecedor.


Nota: Talvez, nestes tempos de imersão digital que rouba nossa atenção e nosso tempo para o que realmente vale a pena, um dos textos bíblicos mais oportunos seja este: “Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus” (Salmo 46:10). Que tal praticar o hábito de se desconectar de quando em quando para se relacionar, ler bons livros, meditar e estudar a Bíblia? Se não criarmos esses hábitos, pior do que o que aconteceu com o autor do texto acima, não perderemos apenas a capacidade de concentração, perderemos nossa espiritualidade e nossa comunhão com Deus. Pense nisso. [MB]

Perfeição cristã vs. perfeccionismo

sexta-feira, fevereiro 19, 2016

Origens dos dinossauros (e o que aconteceu com eles)

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

Igrejas fazem campanha para “celebrar o evolucionismo”

Jogada de mestre e uma nova adoração
No último domingo, centenas de igrejas na América do Norte “comemoraram” o aniversário de Charles Darwin num evento conhecido como “Final de semana da evolução”. Desde 2006, um grupo crescente de líderes evangélicos tem se unido ao movimento que defende a “verdade” do evolucionismo e divulga que o relato de Gênesis 1 e 2 é meramente uma “fabula”. A lista conta com mais de 13.000 pastores que subscrevem ao movimento “Carta do clero”, onde eles apoiam que seja ensinado do púlpito de suas igrejas que “ciência e fé podem conviver”. São membros de centenas de denominações, incluindo batista, luterana, metodista, unitariana, episcopal e presbiteriana. Incomodado com o que considera uma “afronta à Bíblia”, o pastor Tony Breeden fundou em 2009 um movimento para resgatar o ensino do criacionismo nas igrejas. Batizado de “Carta da criação”, ele não tem recebido muito apoio. Mesmo assim, divulga a ideia de que as igrejas que defendem a Bíblia como Palavra de Deus inerrante [sic] promovam um “Domingo da Criação”, onde reafirmem a interpretação literal das Escrituras, que mostra Deus como o Autor de toda a criação.

Em entrevista ao site Christian News Network, Breeden explica que tem recebido o apoio de ministérios apologéticos, incluindo Living Waters, Answers in Genesis e Creation Ministries International. Explica também que muitos pastores evitam pregar sobre o criacionismo, alegando que isso causa “divisões” na congregação. Não só a evolução é incompatível com a Bíblia, Breeden argumenta, como também leva muitas pessoas a se afastar da fé cristã. Para ele, essa é a única divisão que pode ocorrer.

“O naturalismo é uma ferramenta útil para a investigação do mundo e tudo que nele existe, mas suas conclusões precisam ser contrastadas com a revelação infalível da palavra de Deus”, dispara.

Em seu site, ele apresenta estatísticas mostrando que um número crescente de pessoas abandona a igreja quando começa a questionar a veracidade das Escrituras desde o seu início [Gênesis]. Segundo Breeden, cerca de 70% dos jovens cristãos acabam se desviando após “adotar” o evolucionismo como verdade.


Nota: O último parágrafo do texto acima mostra a consequência de se adotar o evolucionismo como explicação para as origens, e deixa claro também a que (e a quem) se presta essa filosofia. Filosofia? Sim, filosofia. De acordo com meu amigo astrofísico Eduardo Lutz, o evolucionismo não é científico, no sentido estrito. “Está mais para um framework filosófico que inspira modelos. E a maioria desses modelos é qualitativa, diga-se de passagem. Ou seja, também não rigorosa. Um grande problema é que na divulgação tudo parece a mesma coisa: tudo é qualitativo e frequentemente com viés filosófico terrível. Não há como saber o que é e o que não é verdadeira ciência sem ir às fontes originais e conferir”, explica ele. E aqui os religiosos evolucionistas (ou evolucionistas teístas) cometem o grande erro de pensar que evolucionismo é sinônimo de ciência. Mas não é. Há muito de filosofia naturalista no modelo evolutivo, assim como há teologia bíblica no criacionismo bíblico. Mas acontece que os religiosos que abandonam o relato da criação em Gênesis por considerá-lo mitológico estão abandonando uma “mitologia” (assim eles pensam) para abraçar outra que os leva para longe do Criador.

É impossível deixar de perceber a jogada de mestre do inimigo de Deus: primeiro ele promoveu uma versão alternativa para as origens e que dispensa Deus (por mais que os religiosos liberais tentem colocá-Lo na equação); deu-a de presente para os ateus e, depois, trouxe-a para as igrejas, conseguindo, assim, solapar o fundamento das Escrituras e a base teológica de toda a Bíblia. Conseguiu, finalmente, misturar água e óleo.

E o que fazem outros religiosos tentando salvar o que restou de cristianismo criacionista? Escolhem o domingo para celebrar a criação! Está todo mundo louco?! Que confusão é essa?! O único dia bíblico que comemora a criação do mundo em seis dias é o sétimo, estabelecido pelo próprio Criador lá no começo (Gn 2:1-3), ratificado em tábuas de pedra escritas pelo dedo dEle (Êx 20:8-11) e observado por Jesus (Lc 4:16). Deus nos manda guardar o sábado justamente porque “em seis dias fez o Senhor os céus e a terra”.

Enquanto os cristãos não retornarem definitiva e consistentemente à Bíblia, tudo o que veremos neste mundo é incoerência e confusão religiosa/teológica. E uma multidão abandonando a igreja, Deus e o bom senso. [MB]  


quarta-feira, fevereiro 17, 2016

Flor em fóssil de “15 milhões de anos” é igual às de hoje

Toda a complexidade das atuais
Pesquisadores da Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, descreveram uma nova espécie de planta graças à descoberta de flores fossilizadas dentro de pedaços de âmbar que têm pelo menos 15 milhões de anos. As duas flores estavam entre os 500 fósseis coletados em uma expedição realizada em 1986 pelo professor George Poinar, um famoso entomologista. A maioria das amostras coletadas era de insetos, mas, depois de quase 30 anos de pesquisas, o professor começou a analisar as flores. Poinar percebeu que elas estavam praticamente intactas, algo muito difícil de acontecer com plantas presas em âmbar: geralmente sobram apenas fragmentos. Em 2015, Poinar enviou fotos em alta resolução para Lena Struwe, da Universidade Rutgers, em Nova Jersey. “Parecia que essas flores tinham acabado de cair de uma árvore. Pensei que poderiam ser flores Strychnos”, disse Pionar.

Ao receber as amostras presas em âmbar, Struwe comparou a estrutura física de todas as 200 flores conhecidas da espécie Strychnos, analisando coleções inteiras de muitos museus e acervos. E comprovou a descoberta do colega. A professora disse que as características usadas para identificar espécies de Strychnos estão na morfologia da flor, e “por sorte era o que encontramos nesse fóssil”.

“Analisei cada amostra de espécie do Novo Mundo, fotografei e medi e comparei com a foto que George me mandou e me perguntei: ‘Como são os pelos nas pétalas? Onde eles estão situados?’, e assim por diante.”

A descoberta foi divulgada na revista especializada Nature Plants.

A nova planta, batizada de Strychnos electri, pertence ao gênero de arbustos tropicais e árvores conhecidos por produzir a toxina estricnina. E, para os animais do fim do período cretáceo que conviveram com ela, a planta era um perigo a mais. “Espécies do gênero Strychnos são quase todas tóxicas de alguma forma”, explicou George Poinar. “Cada planta tem seus próprios alcaloides com efeitos variados. Algumas são mais tóxicas que outras e pode ser que tenham sido bem-sucedidas porque seus venenos ofereciam algum tipo de defesa contra os animais herbívoros”, acrescentou. [...]

Mas essas plantas também são da família das “asterídeas”, que inclui mais de 80 mil plantas floríferas - até mesmo muitas que são de consumo humano, como a batata, o café e o girassol.

A descoberta dessas flores quase intactas e tão antigas é mais um elemento muito importante ao registro de fósseis dessa família, que ainda não é totalmente compreendida pelos cientistas.


Nota: Em “15 milhões de anos” a planta não mudou nada, é perfeitamente relacionada com suas equivalentes contemporâneas e já dispunha de toda a complexidade que uma flor possui e da qual as plantas com flores dependem para sobreviver e se reproduzir. E ainda querem que eu creia na evolução... [MB]

Leia mais sobre evolução e flores aqui e aqui.

Astrofísico e químico discutem idade do Universo

O que a física e a química dizem?
O Universo tem bilhões de anos ou seria “jovem” como a vida na Terra?

[Recentemente, dois grandes amigos meus, por quem nutro grande respeito e consideração, discutiram o polêmico tema da idade do Universo. Da perspectiva de suas respectivas áreas de formação e atuação – astrofísica e química –, e de suas visões religiosas, ambos apresentaram argumentos e evidências para sustentar, de um lado, um Universo mais antigo do que a Terra (ou do que a vida na Terra) e, de outro, um Universo datado em milhares de anos, como a Terra. Dada a relevância do assunto e levando em conta o nível da conversa, posto aqui, com autorização, parte do diálogo para sua apreciação, preservando a identidade dos “debatedores”. O texto é longo, mas vale a pena lê-lo, a fim de tomar consciência de dois tipos de posicionamento quanto à idade do Universo defendidos por criacionistas “de peso”. – MB]

[Clique aqui e continue lendo.]

terça-feira, fevereiro 16, 2016

Campo de força protegerá astronautas contra radiação

Design muito inteligente
Enquanto a Nasa se prepara para testar um escudo magnético para proteger as naves contra o calor na reentrada na atmosfera, a ESA (Agência Espacial Europeia) trabalha em um conceito similar para proteger os astronautas contra a radiação espacial. Os esforços foram concentrados em um projeto chamado SR2S (Space Radiation Superconducting Shield – Escudo Supercondutor contra Radiação Espacial). As primeiras informações sobre o projeto foram divulgadas no ano passado por físicos do LHC, que se juntaram ao projeto para compartilhar sua larga experiência no uso dos ímãs supercondutores que deverão gerar o escudo antirradiação espacial. A equipe europeia anunciou a conclusão do projeto básico, afirmando que “agora têm o conhecimento e as ferramentas necessárias para desenvolver escudos magnéticos para proteger os astronautas da exposição à radiação causada pelos raios cósmicos galácticos”.

A escolha do supercondutor recaiu mesmo sobre o diboreto de magnésio (MgB2) para gerar o campo de força antirradiação, conforme anunciado inicialmente pela equipe do LHC. Os fios e cabos supercondutores serão dispostos de forma a gerar um campo que os engenheiros chamaram de “estrutura abóbora”, devido ao formato das linhas de força do escudo.

“Esta é uma configuração de escudo ativo que é crucialmente leve e, portanto, adequada para as missões de longa duração no espaço profundo. A estrutura funciona reduzindo o material atravessado pelas partículas incidentes, evitando assim a geração de partículas secundárias e, por decorrência, gerando um escudo mais eficiente”, diz o comunicado do projeto.

Esse “escudo abóbora” deverá gerar um campo magnético 3.000 vezes mais forte do que o campo magnético da Terra, suficiente para projetar um campo de força de 10 metros ao redor da nave, desviando os raios cósmicos incidentes e, desta forma, protegendo os astronautas em seu interior.

A grande restrição do projeto era o peso da estrutura geradora do campo de força, já que a adição de 1 kg à massa de uma espaçonave aumenta o custo da missão como um todo em U$15.000. Contudo, no espaço os ímãs supercondutores estarão em seu ambiente natural, dispensando os caros e pesados equipamentos de refrigeração necessários para mantê-los a quase -200º C – no frio do espaço, as naves estarão naturalmente em temperaturas próximas a essa.

“Ainda poderão ser necessários muitos anos até que essa tecnologia esteja pronta para ser implantada de forma ativa nas missões espaciais tripuladas ao espaço profundo, mas mais testes da tecnologia SR2S continuarão a ser realizados no curto e médio prazos”, concluiu a nota.


Nota: Muitos anos de pesquisa, muito dinheiro e muita inteligência foram necessários para criar esse escudo magnético protetor. Ninguém, em sã consciência, diria que um mecanismo dessa natureza pudesse surgir do nada. Mas o que dizer do campo magnético da Terra, do qual a vida sempre dependeu para sobreviver? Esse foi fruto do acaso? [MB]

Resenha crítica do livro Zelota, de Reza Aslan

Reza Aslan é o autor do livro Zelota – a vida e a época de Jesus de Nazaré. Ele é especialista em temas religiosos, formado em Harvard e na Universidade da Califórnia. Estudou o Novo Testamento, grego bíblico, história, sociologia e teologia das religiões. Nascido no Irã, ele vive entre Nova York e Los Angeles.

Aslan e seu livro alcançaram projeção e interesse e, consequentemente, tremendo sucesso editorial, depois de uma polêmica entrevista na rede de televisão americana Fox News, com grande audiência de cristãos de diferentes denominações nos Estados Unidos. Na entrevista, a jornalista Laura Green questionou duramente Aslan e perguntou como ele teve a ousadia de escrever um livro sobre Jesus, sendo muçulmano. A pergunta foi considerada preconceituosa e Aslan respondeu que escreveu o livro como acadêmico com doutorado e especializações em história das religiões e 20 anos de estudo das origens do cristianismo. Esse debate contribuiu para as vendas aumentarem quase 50%.

Em síntese, Aslan defende em seu livro o seguinte: Jesus, ao contrário do que pregam as denominações cristãs, não foi um pacifista que, diante da violência “oferecia a outra face” e amava os inimigos. Segundo Aslan, Jesus foi um revolucionário, cujo objetivo principal era expulsar os romanos da Judeia, criar um reino de Deus na Terra e assumir seu trono. Ele recupera com novas cores uma antiga versão de cristianismo – em voga nos anos 1960 graças à Teologia da Libertação, que misturava cristianismo com marxismo. Era um Jesus mais para Che Guevara do que para Madre Teresa de Calcutá. “Ele era um zelote revolucionário, que atravessou a Galileia reunindo um exército de discípulos para fazer chover a ira de Deus sobre os ricos, os fortes e os poderosos”, escreve Aslan no começo de seu livro.

Zelote é uma palavra derivada do aramaico. Significa “alguém que zela pelo nome de Deus”. Outra possível tradução para o termo é fervoroso, ou mesmo fanático. Sua origem está ligada ao movimento político judaico que defendia a rebelião do povo da Judeia contra o Império Romano. Os zelotes pretendiam expulsar os romanos pela força.

O empenho do autor em sua argumentação supostamente embasada pela História é desconstruir a figura do Jesus pacifista, amoroso e pregador de um reino eterno, e apresentá-Lo como um revolucionário disposto a reverter a ordem e Se estabelecer como rei dos judeus liderando-os na libertação do jugo romano.

Porém, as convicções de Aslan esbarram em limitações que ele procura resolver com uma argumentação especulativa. Procura preencher a falta de dados com suposições, visto não encontrar registros históricos suficientes. O irônico é que a fonte principal do autor é o próprio evangelho que ele procura desmerecer como fonte fidedigna. Empenha-se ao máximo para desfazer a concepção cristã acerca do Jesus que, diante de Pilatos, afirmou: “O Meu reino não é deste mundo” (João 18:36).

O teólogo Martin Goodman, professor de história romana em Oxford, observa que “o problema não é Aslan ser muçulmano ou ser iraniano. O problema é que ele usa uma tese ultrapassada e desacreditada como se fosse uma verdade absoluta”.

A revista Época, ao comentar a respeito do livro, analisa assim: Aslan escreve de modo fluente e coloquial sobre complexas discussões acadêmicas e transforma densos emaranhados filosóficos em narrativas emocionantes. Mas seu livro apenas prova como é difícil tentar ligar a compreensão do cristianismo à história de Jesus – um personagem de traços e características que O diferenciam profundamente dos seres humanos comuns.

(Alceu Nunes é editor associado na Casa Publicadora Brasileira)

segunda-feira, fevereiro 15, 2016

Anos de doutrinação relativista e evolucionista dão nisso

A capa da revista Veja desta semana é um retrato perfeito dos tempos em que vivemos, de uma geração definida pela indefinição, como bem definiu o amigo Odailson Fonseca. O título interno da matéria é “Amigues para sempre”, numa referência ao tal “gênero neutro”, que faz com que certas palavras terminem em “e” para suprimir os “a” e “o”, relacionados a mulher e homem. O texto diz que, “se voltassem hoje ao mundo dos vivos, o escritor Álvares de Azevedo, o poeta Manuel Bandeira e o e­x-pr­esidente Floriano Peixoto estranhariam muitas coisas. E uma delas seria o cabeçalho da prova de biologia aplicada no ano passado no colégio em que eles estudaram, o Pedro II, no Rio de Janeiro, o terceiro mais antigo em atividade no Brasil. Ao lado do campo a ser preenchido com o nome de cada estudante, a prova trazia a palavra alunx, em vez de ‘aluno’ ou ‘aluna’. Todos na classe conheciam o significado daquele xis. Em mensagens trocadas nas redes sociais, jovens e adolescentes usam a letra, assim como o ‘e’, para suprimir a identificação masculina ou feminina em palavras como ‘amigx’ ou ‘queridx’ – na versão com ‘e’, mais pronunciável, ‘amigue’ ou ‘queride’. É o chamado gênero neutro, utilizado basicamente em duas situações: a pedido, quando o outro diz que quer ser tratado assim, ou por iniciativa de quem escreve – e prefere não cravar se o destinatário é homem, mulher, e assim por diante.”

Por que “assim por diante”? Porque não são mais apenas dois gêneros, atualmente. “No Brasil, o Facebook acrescentou, em março passado, no espaço destinado à identificação do usuário, dezessete novas opções de gênero, além do masculino e feminino. Nos Estados Unidos são mais de cinquenta. A lista inclui cross gender, sem gênero e ainda uma alternativa para personalizar a resposta”, informa a Veja.

Mencionando dados de um levantamento da agência de publicidade J. Walter Thompson, a matéria dá conta de que 76% dos jovens brasileiros não dão importância à orientação sexual dos outros e 82% concordam que as pessoas devem explorar mais a própria sexualidade. Outra pesquisa, coordenada pela psicóloga Luciana Mutti, em Porto Alegre, revelou que 20% dos adolescentes entrevistados já haviam tido relações com pessoas de ambos os sexos.

Veja explica que, para a chamada geração Z, a sexualidade é fluida e as preferências nessa área podem mudar ao longo da vida. “Um indivíduo do sexo masculino, por exemplo, pode passar boa parte da existência sentindo-se atraído por outros indivíduos do sexo masculino e mais tarde mudar de ideia – o que não necessariamente quer dizer que começará a gostar de mulheres.”

Embora essas mudanças sociais assustem pela velocidade com que vêm se processando, a gênese delas é algo que vem lá de trás na História. Na verdade, este cenário atual só foi possível porque a corrosão de certos paradigmas e valores e de uma cosmovisão vem ocorrendo há muito tempo. Os pilares da tradição judaico-cristã tiveram que ser chutados (ou reinterpretados por cristãos liberais) a fim de que se pudesse defender a ideia de que gênero é, antes de tudo, uma construção social, não uma criação de Deus. A Bíblia deixa bem claro no primeiro capítulo de seu primeiro livro (o Gênesis) que um casal é composto por um homem e uma mulher, e que o casamento é a união íntima desses dois seres diferentes numa relação heterossexual monogâmica e de fidelidade.

O abandono da cosmovisão criacionista, inclusive por parte de muitos cristãos, levou a este estado de coisas. A mitologização do relato da criação tornou tudo “fluido” (a la Bauman). Relativizou tudo e tornou válido o vale-tudo. É o mundo das certezas incertas; dos fundamentos de areia movediça. Aonde vamos parar com essa perda de referenciais absolutos? Alguma sociedade pode sobreviver assim?

O curioso é que, embora preguem a tolerância, os defensores dos múltiplos gêneros não toleram críticas. E a chamada da capa da Veja desta semana é prova disso. Ela diz, embaixo da palavra vendável em letras garrafais “Sexo”: “Na revolução de costumes da geração z, eles e elas se dizem ‘neutros’ e ‘a sexualidade é fluida’... E você não tem nada com isso!”

Então só me resta aceitar tudo? Não posso nem dar minha opinião? Não tenho nada com a vida dos outros, mas eles podem criticar minha religião e me chamar de fundamentalista porque sou criacionista e defendo o casamento heterossexual? Que tolerância é essa que só tem uma via de mão única? A sociedade do “livre pensar” não quer que eu pense diferentemente do zeitgeist reinante!

É claro que o assunto é muito mais complexo do que isso. É claro que nascem pessoas geneticamente pertencentes a um gênero, mas que possuem características físicas de outro. É claro que há homens e mulheres que, por uma série de fatores e motivos, acabam tendo ou desenvolvendo atração por pessoas do mesmo sexo. Mas daí a dizer que tudo isso é normal e proibir essas pessoas de buscar uma solução que não passe pela simples aceitação do “fato”, é muita intolerância.

O cristão não pode e não deve ser homofóbico, porque não pode e não deve hostilizar qualquer tipo de pessoa. O cristão não pode e não deve forçar ninguém a nada e precisa respeitar a decisão dos outros, já que o próprio Deus os respeita. Só não me venham dizer que eu não tenho nada a ver com esse assunto! Só não me venham empurrar para o gueto dos ditos preconceituosos (coisa que não sou) nem me amordaçar, porque, quando isso acontecer (e, infelizmente, vai), aí teremos perdido todos os traços de civilidade e teremos nos transformado numa nova Sodoma, com pessoas se entregando às suas paixões e desejos desenfreados, com o apoio da mídia e das autoridades – se é que elas ainda terão alguma autoridade.

Não sei se Julian Huxley disse isto mesmo, mas a frase é mais do que verdadeira: “A razão de nos lançarmos sobre a Origem das Espécies é que a ideia de Deus interfere com nossos hábitos sexuais.” 

O mundo se tornou complexo. Estamos cortando o galho em que estamos sentados. Sem fundamentos, as paredes caem. Daqui a pouco, só sobrarão os escombros de uma sociedade perdida; de um mundo sem rumo.

Lamento lhes dizer, “amigues”, mas isso não será para sempre...

Michelson Borges

Palestra: Origens do Universo

Lições das fortalezas da Ilha de Santa Catarina

Canhões da Ilha de Anhatomirim
Em janeiro de 2007, participei de um passeio de scuna com minha família, em Florianópolis, um programa de férias que recomendamos. O barco saiu da Beira-Mar Norte da Ilha de Santa Catarina e seguiu até a Ilha de Anhatomirim, passando pela Fortaleza de Santo Antônio de Ratones, com uma curta parada em Governador Celso Ramos, para o almoço. Minhas filhas gostaram muito do banho de mar, da aproximação dos botos no trajeto de volta e de estar com os avós. Para mim, o que mais chamou a atenção no passeio foi a visita às fortalezas restauradas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). De acordo com informações do site da UFSC, o Projeto Fortalezas da Ilha de Santa Catarina foi criado pela Universidade Federal com o objetivo de restaurar e revitalizar as fortificações construídas pelos portugueses no século 18 para proteger a Ilha de Santa Catarina. Hoje estão totalmente restauradas as fortalezas de Santa Cruz de Anhatomirim (1739 – Ilha de Anhatomirim), São José da Ponta Grossa (1740 – Ilha de Santa Catarina) e a de Santo Antônio de Ratones (1740 – Ilha de Ratones Grande). As três fortificações ficam abertas à visitação durante o ano todo. O visitante, além de ter contato com os prédios históricos tombados em 1938, pode visitar dezenas de exposições e ter contato com a flora, fauna e as belezas naturais da Baía Norte da Ilha de Santa Catarina.

domingo, fevereiro 14, 2016

Descrença avança em alguns países



Quando Jesus vier, encontrará fé na Terra? Essa pergunta é feita no evangelho de Lucas, capítulo 18, verso 8, e parece refletir cada dia mais a realidade em boa parte do nosso planeta. Um modelo matemático, publicado em um encontro da Sociedade Americana de Físicos, em Dallas, nos Estados Unidos, indicou que a religião pode simplesmente acabar em alguns países. Os pesquisadores examinaram dados do censo que em alguns casos incluíam informações coletadas por mais de cem anos. Os países estudados foram: Austrália, Áustria, Canadá, Finlândia, Holanda, Irlanda, Nova Zelândia, República Checa e Suíça. Para fazer a análise, eles usaram o sistema dinâmico não linear – um método matemático que pode explicar fenômenos complexos influenciados por vários fatores.

Segundo Richard Weiner, da Universidade do Arizona, em democracias seculares modernas há maior tendência de as pessoas se identificarem como não pertencentes a qualquer religião. Na Holanda, esse número foi de 40%, enquanto na República Checa foi de 60%. A conclusão do estudo foi que as religiões podem ser extintas nesses locais.

sexta-feira, fevereiro 12, 2016

Ondas gravitacionais e seu significado para o criacionismo

Ondas que deformam o espaço-tempo
Em setembro de 2015, o esforço coordenado de muitas equipes de pesquisadores finalmente deu frutos significativos: foram detectadas pela primeira vez ondas gravitacionais com uma chance de equívoco de ordem de 1 a cada 203.000 anos. Traduzindo, isso é muito mais provável do que a grande maioria do que as pessoas consideram como absolutamente certo no cotidiano, mas está apenas ligeiramente acima (5,1σ) do mínimo aceito pelos físicos para aceitar uma confirmação experimental (5,0σ) oficialmente. Para entender o significado disso é necessário conhecer o contexto. No século 19, James C. Maxwell reuniu diversas evidências experimentais e encontrou um padrão matemático. Ele expressou esse padrão na forma de um modelo matemático bastante abrangente, isto é, uma teoria científica: a Teoria Eletromagnética, que hoje em dia é comumente baseada em quatro equações diferenciais, embora possa ser expressa em apenas uma (F+J=0). A maior parte da tecnologia atual foi possível de desenvolver graças a esse conhecimento.

Para termos uma ideia da abrangência desse assunto, a existência de átomos e moléculas, sólidos e líquidos, toda a Química, a luz, o Sol aquecendo a Terra, a Biologia, o cérebro funcionando, tudo isso são manifestações de fenômenos eletromagnéticos.

Isso foi e continua sendo um grande sucesso, mas havia algo perturbador: uma das consequências dessa teoria é que a velocidade da luz é a mesma para todos os observadores. Imagine que um raio de luz passe por você a quase 300.000 km/s e você o persiga a 99% dessa velocidade em uma nave espacial super-rápida. Você esperaria que ele se afastasse de você a 3.000 km/s, mas o que ocorre é que mesmo do seu ponto de vista, ele continua se afastando de sua nave a 300.000 km/s. Mesmo assim, esse raio de luz estaria viajando ainda a 300.000 km/s em relação à Terra. Isso parecia absurdo. Maxwell propôs a ideia de que essa velocidade absoluta gerada pelas equações seria em relação a algum meio que permearia todo o espaço, ao que ele chamou de éter luminífero. O experimento de Michelson-Morley, bastante semelhante ao usado em 2015 para detectar as ondas gravitacionais, indicou que o tal éter luminífero não existe, e que a velocidade da luz é mesmo absoluta em relação a todos os observadores, não apenas a algum referencial privilegiado.

Um físico chamado Hendrik Lorentz mostrou matematicamente algumas implicações ainda mais perturbadoras desse fenômeno: dilatação do tempo e encurtamento do espaço. Seria possível, por exemplo, viajar para o futuro.

Ainda resistindo à Matemática, os físicos tendiam a considerar isso apenas como uma excentricidade da teoria, algo que só valia para o eletromagnetismo, mas não para o restante dos fenômenos físicos. Estavam errados. Albert Einstein aceitou a possibilidade de as consequências de Teoria Eletromagnética serem reais e universais e construiu um modelo matemático abrangente (teoria científica) baseado nas leis de Newton acrescidas de dois princípios: (1) a velocidade da luz é a mesma para todos os observadores, e (2) todos os sistemas inerciais são equivalentes, isto é, qualquer laboratório que seja montado em uma situação em que não exista aceleração obterá os mesmos resultados ao estudar leis físicas. A partir dessas cinco leis, a teoria resultante chama-se Relatividade Especial. Também foi e é um grande sucesso em termos de fornecer resultados acurados para uma infinidade de fenômenos, alguns desconhecidos previamente.

Mas faltava um ingrediente importante: a gravidade frequentemente tem um papel relevante em diversos fenômenos de interesse nessa área, porém, a Relatividade Especial ignora a gravidade. Como levar a gravidade em conta? Einstein trabalhou nisso durante anos. Finalmente, usou o famoso princípio da ação mínima, que se baseia na ideia de que tudo o que Deus faz, incluindo leis físicas, é otimizado, e ainda conceitos da teoria geométrica de Riemann e do cálculo tensorial de Ricci, conseguiu deduzir uma equação diferencial tensorial que mostra uma relação entre energia, quantidade de movimento, tensões e curvatura do espaço-tempo. Essa equação é o fundamento de uma teoria científica chamada Relatividade Geral.

Como as anteriores, foi extremamente bem-sucedida, mesmo deixando alguns elementos de fora (levada em conta a curvatura mas não a torção no espaço-tempo, por exemplo).

Concepção artística de um buraco de minhoca
Como nos casos anteriores, as consequências dessa equação surpreenderam e confundiram seu autor e colegas. Uma das primeiras consequências descobertas foi a existência de buracos negros, juntamente com muitos detalhes sobre seu funcionamento. Seguindo essa linha, encontram-se possibilidades de viajar tanto para o futuro quanto para o passado. Outro resultado interessante são os wormholes, ou buracos de verme/minhoca, nome inspirado em vermes de frutas que não precisam andar pela superfície de uma maçã para chegar de um lado a outro, mas podem cavar um túnel e passar por dentro da maçã. Buracos de verme permitiriam viajar de um ponto a outro do espaço-tempo sem a barreira da velocidade da luz. Dominando essa tecnologia poderíamos, em tese, viajar até uma galáxia a bilhões de anos luz em poucos minutos.

Literalmente milhões de experimentos têm sido feitos mostrando o quão acurada é a equação da Relatividade Geral para uma grande variedade de tipos de fenômenos (alguns autores falam em equações por se tratar de uma equação com entidades representáveis por matrizes, possuindo muitas componentes, podendo-se decompor a equação original em um sistema de várias equações mais simples).

Um outro resultado perturbador da equação da Relatividade Geral é o de que o Universo (o espaço mesmo, com ou sem matéria) não poder ter existido sempre, pelo menos não da forma como o conhecemos. O Universo teve uma origem. Einstein e outros não queriam aceitar esse resultado. Na década de 1920, Georges Lemaître, um religioso católico que também era físico, estudou as soluções da equação da Relatividade Geral, comparando-os com resultados da Termodinâmica e com observações astronômicas. O resultado que obteve é essencialmente o que hoje chamamos de Teoria do Big Bang, o primeiro modelo matemático cosmológico criacionista, embora não tenha sido apresentado dessa maneira. Com o tempo e com as evidências acumulando-se ao longo do tempo, o modelo acabou sendo aceito e encaixado em uma visão filosófica que abrisse espaço para doutrinas ateístas.

Esse e alguns outros modelos cosmológicos criacionistas, como o do Dr. Humpheys e do Dr. Gentry, baseiam-se na Relatividade Geral. A própria Teoria das Cordas, usada em anos recentes para estudar a possibilidade de outros universos, baseia-se na Relatividade Geral.

Assim, confirmações da validade da Relatividade Geral apoiam a principal base desses modelos, tanto criacionistas quanto evolucionistas. Para isso, procuram-se confirmar previsões de fenômenos ainda não detectados. Um desses é o das ondas gravitacionais.

Mas o que são ondas gravitacionais? Imagine um pequeno lago e imagine-se jogando uma pedra nesse lago. A partir do ponto de impacto entre a pedra e a água, ondas propagam-se pela superfície do lago. A pedra causa uma deformação na superfície da água, o que causa um movimento ondulatório que se propaga. A gravidade é uma espécie de deformação do espaço-tempo. Alguns fenômenos que ocorrem no espaço são particularmente violentos e, de acordo com a Relatividade Geral, fazem com que o espaço-tempo “ondule” e essa ondulação se propaga pelo espaço, possuindo certas características descritas em detalhes por soluções da equação da Relatividade Geral. Sabemos exatamente o que procurar e de onde esperar que essas ondas venham. A tecnologia para isso, porém, precisa ser muito sensível e dependemos de fenômenos naturais que causem essas ondas. Esses fatores se combinaram em 2015 e a detecção foi finalmente possível.

Mas esses resultados são muito mais úteis do que simplesmente confirmar algo que já se sabia teoricamente há muitas décadas. A tecnologia desenvolvida em pesquisas avançadas frequentemente tem encontrado novos usos no cotidiano, beneficiando a todos enquanto permanece desconhecida, funcionando nos bastidores para reduzir os transtornos da vida. Além disso, se aperfeiçoarmos o processo a ponto de formarmos uma espécie de “olho” para enxergar o Universo através de ondas gravitacionais, teremos acesso a coisas que agora são invisíveis ou quase.

(Dr. Eduardo Lutz é astrofísico e reside em Porto Alegre, RS)