
Depois de uma relativamente longa explicação sobre seleção sexual (sem ainda elucidar o mistério do orgasmo feminino) a matéria menciona que “a hipótese mais aceita hoje para explicar a evolução do sexo sustenta que a reprodução sexual ajuda as espécies a escapar de seus parasitas. A taxa de evolução de uma bactéria, que vive cerca de 20 minutos, é muito mais rápida que, por exemplo, a de um ser humano. Assim, ao longo de nossas vidas, as bactérias têm bastante tempo para desvendar os segredos do nosso sistema imunológico, tornando-nos mais suscetíveis a seus ataques. Se nossa reprodução fosse assexuada, teríamos filhos, netos e bisnetos geneticamente idênticos a nós, e cada geração apresentaria menos defesas contra esses parasitas. A reprodução sexuada nos permite produzir, a cada geração, filhos e filhas geneticamente únicos, o que nos dá uma boa ‘dianteira’ na corrida evolutiva com os parasitas”.
Nada de novo. É a velha “explicação” da vantagem da reprodução sexuada sobre a assexuada, sem, contudo, explicar como esse tipo de reprodução pode ter “surgido”, já que depende de dupla mutação em organismos distintos, numa mesma geração e mesma região, a fim de que os dois seres se encontrem, percebam que são perfeitamente compatíveis, sintam atração, copulem e – voilà – gerem outro ser a partir da combinação de material genético também distinto. O texto passa longe do assunto, já que não há explicação satisfatória para esse “milagre evolutivo duplo” (para não mencionar toda a complexidade envolvida na gestação do novo ser). Mas e o orgasmo feminino?
Depois de mais algumas linhas, Fonseca volta ao tema: “Diversas hipóteses adaptacionistas foram propostas para explicar o orgasmo feminino. O zoólogo inglês Desmond Morris, no clássico livro O Macaco Nu, de 1967, defende que a evolução da postura ereta em humanos teria dificultado a fertilização, já que nas fêmeas humanas atuais o orifício externo do colo uterino, por onde o esperma tem que penetrar, situa-se em posição superior da vagina. Segundo essa hipótese, o relaxamento muscular decorrente do orgasmo induziria a mulher a permanecer deitada após o ato sexual, aumentando suas chances de fertilização. Contudo, a ocorrência de orgasmo em diversos animais quadrúpedes sugere que essa hipótese não é correta. Outra hipótese adaptacionista baseia-se no fato de que, como o bebê humano nasce mais indefeso do que os filhotes da maioria dos animais, sua sobrevivência só é assegurada pelos cuidados da mãe e do pai. Segundo essa proposta, os orgasmos – tanto o masculino quanto o feminino – seriam um incentivo prazeroso para selar a aliança do casal e favorecer a sobrevivência dos filhos. O problema com essa hipótese é que o orgasmo, da mesma forma que pode ajudar a criar um vínculo de longo prazo em um casal, pode também ser o estímulo para que um dos parceiros resolva ‘pular a cerca’ e ter relações sexuais extraconjugais”.
Como se pode ver, essas hipóteses mirabolantes são insuficientes. Não explicam, só complicam. E Fonseca volta a rodear Jericó: depois de falar sobre diferentes comportamentos sexuais em espécies distintas, ele escreve: “A mais intrigante hipótese adaptacionista sobre a evolução do orgasmo feminino [finalmente, a revelação do segredo?] foi proposta em 1970 pelo inglês Cyril A. Fox e colaboradores, do Hospital São Bartolomeu, em Londres, após estudo sobre a pressão intravaginal e intrauterina durante o ato sexual. O estudo mostrou que as contrações dos músculos do aparelho genital feminino durante o orgasmo criam uma diferença de pressão que suga e transfere parte do esperma da vagina para o canal cervical, aumentando a chance de fertilização. É a chamada ‘hipótese da sucção’, que ganhou forte respaldo científico em 1993, quando os biólogos Robin Baker e Mark Bellis, da Universidade de Manchester (Inglaterra), estudaram a transferência de esperma em 35 casais ingleses e ainda entrevistaram milhares de mulheres sobre suas experiências sexuais. Assim, o orgasmo feminino seria um sofisticado mecanismo que permite às mulheres escolher, conscientemente ou não, quando engravidar. Ou seja, um típico mecanismo darwiniano de escolha pela fêmea.”
Fonseca diz ainda que “orgasmos múltiplos ocorridos após a ejaculação seriam um mecanismo feminino para assegurar o sucesso reprodutivo do ato sexual”. Conclusão: o orgasmo favorece a reprodução. Ok, isso não se discute. Mas o segredo anunciado continua não revelado: Como surgiu esse “sofisticado mecanismo” do prazer? Não se pode ignorar o fato de que, para que o orgasmo seja “disparado”, são necessários vários elementos interconectados: nervos, músculos, hormônios específicos, sinais eletroquímicos, etc., etc. Traduzindo: complexidade irredutível.
Foi inevitável pensar naquelas matérias sensacionalistas das revistas femininas, do tipo que promete vida sexual “além das nuvens” e orgasmos mágicos, mas ignoram o fato de que pesquisas revelaram que o brasileiro vive insatisfeito com sua vida sexual (o que significa que não é a quantidade de sexo, mas o tipo de sexo que satisfaz – e a maioria dos pesquisados diz sentir falta de carinho e compromisso). Também fiquei insatisfeito com a promessa do artigo. Do ponto de vista darwinista, o segredo do orgasmo feminino continua sendo exatamente isto: segredo. Do ponto de vista criacionista, além de um presente extra do Criador (pois vai além da diretriz de reprodução), o orgasmo revela muito design inteligente.
Michelson Borges